O processo de urbanização Brasil deve ser abordado por intermédio dos diversos olhares e de acordo com as diversas áreas do saber, mas é importante destacar a intensidade desse processo no período investigado pela pesquisa, assunto que o livro, Urbanização Brasileira de Milton Santos, ressalta. Neste sentido, o Brasil, que registrava uma taxa de 36% de residentes urbanos, em 1950, de 67%, em 1980, atingiu um grau de 81,2 % de urbanização, em 2000, segundo o Censo IBGE do mesmo ano.
O processo de urbanização marcou definitivamente diversos lugares do mundo no século XX. No Brasil, alcançou a urbanização da sociedade e do território, “depois de um longo período de urbanização social e territorialmente seletiva” (SANTOS, M., 1993, p. 9) quando a urbanização mais evidente concentrava-se em cidades litorâneas. A partir da década de 1930, generalizou-se pelo território interiorano simultaneamente ao processo de industrialização.
Santos, M. (1993), também nessa obra55, já apontava a inversão da sociedade rural
para uma sociedade urbana. A taxa de urbanização foi de 68,86% em 1980, o autor projetou um índice de urbanização de 77,13% para a década de 1990. Na década de 1940, a taxa era de 26,35%. “Nesses quarenta anos triplica a população total do Brasil, ao passo que a população urbana se multiplica por sete vezes e meia.” (SANTOS, M., 1993, p. 29). De acordo com a tabela 01 abaixo;
TABELA 01: Evolução da População Urbana no Brasil - 1940-2000
População total População urbana Índice de urbanização (%)
1940 41.326.000 10.891.000 26,35 1950 51.944.000 18.783.000 36,16 1960 70.191.000 31.956.000 45,52 1970 93.139.000 52.905.000 56,80 1980 119.099.000 82.013.000 68,86 1991 150.400.000 115.700.000 77,13
Fonte: SANTOS (1993). Adaptação: GUERRA, M. E. A., 2007
Para o autor, o “aumento espetacular” de cinqüenta milhões de habitantes nas cidades brasileiras, entre 1960 e 1980, equiparava-se a quase o total da população do
país em 1950. Entre as décadas de 1940 e 1960, o “aumento anual de população urbana era, em números absolutos, menor que o da população total do País”. Nas décadas de 1960/70, os dois números se aproximaram. Em 1970/80, o crescimento numérico da população urbana já era maior que o da população total. Esse processo de aumento da população urbana foi confirmado pelo IBGE em 2000.
Milton Santos, como estudioso da urbanização brasileira e por considerar o presente período histórico como algo que pode ser definido como um sistema temporal coerente, ao levar em consideração as características atuais dos sistemas técnicos e as suas relações com a realização histórica, lembra que a técnica está longe de ser uma explicação da história, mas constitui uma condição fundamental.
Acredita na condição de geógrafo que a elaboração da realidade espacial tenha dependência estreita com as técnicas e conclui que no presente período histórico, o espaço geográfico pode ser denominado Meio Técnico-Científico como sendo a resposta geográfica ao processo de globalização. Sabemos que a globalização despertou o interesse pelas questões locais e de localidades, levantando debates políticos e científicos relacionados “ao lugar” da dimensão local nas sociedades contemporâneas.
Portanto, não trataremos do fenômeno da globalização, mas esse espaço geográfico chamado meio técnico-científico informacional, que é a interdependência da ciência e da técnica em todos os aspectos da vida social, situação que se verifica em todas as partes do mundo e em todos os países de modo desigual e em diferentes proporções. Esta breve explanação visa inserir o objeto de pesquisa: as vilas operadoras neste contexto definido como meio técnico-científico informacional, por ser o resultado da técnica no processo de remodelação do território, conforme a constatação do referido autor.
Esse meio técnico-científico “é o momento histórico no qual a construção ou reconstrução do espaço se dará com um crescente conteúdo da ciência, de técnicas e de informação” (SANTOS, M., 1993, p. 43). As diferentes condições naturais que o homem valorizava em um período da história, utilizando somente o que era fundamental para sua sobrevivência, alteraram-se no final do século XVIII e XIX, a partir da mecanização do território. Nesse momento, o meio natural foi substituído pelo meio técnico que, em meados do século XX, seria insuficiente para se superpor em todos os
espaços geográficos, daí o meio técnico-científico, que, aliado à informatização será mais bem definido como meio-técnico-científico-informacional. Assim definido pelo autor:
Esse meio técnico-científico-informacional é marcado pela presença da ciência e da técnica nos processos de remodelação do território essenciais às produções hegemônicas, que necessitam desse novo meio geográfico para sua realização. (SANTOS, 1993, p.36)
O autor considera que o meio geográfico (constituído ou reconstituído) não é nem meio natural, nem meio técnico, mas a cientificização e tecnicização da paisagem com a informatização/informacionalização do espaço, em que “A informação tanto está presente nas coisas como é necessária à ação realizada sobre essas coisas”. Esses espaços requalificados atendem aos interesses dos atores hegemônicos da economia e da sociedade e serão incorporados às correntes da globalização. (SANTOS, 1996, p.51)
Durante três séculos e meio, o território brasileiro foi utilizado como base para a exploração de seus recursos naturais pelo trabalho direto do homem. Nos últimos cento e cinqüenta anos passou pelo processo de implantação de um meio técnico e mecanizado em seu território, e teve alterado a definição do espaço, modificando as condições de uso. Assim, “as diferenças notadas hoje no território são, por isso, diferenças, sobretudo, sociais e não mais naturais” (SANTOS, 1993, p.45).
De acordo com Santos (1993), após a segunda guerra, na década de 1950, a integração do território tornou-se viável, por meio da interligação das estradas de ferro, da construção de estradas de rodagem, da ousadia dos programas de investimentos em infra-estrutura, da introdução de novos sistemas de engenharia, que, aliados aos existentes, proporcionaram condições técnicas gerais para viabilizar um novo processo econômico como base das novas relações sociais. No final dos anos de 1960, o governo militar oriundo do golpe de Estado em 1964, criou as condições para uma rápida integração do País a um movimento de internacionalização, com a expansão da economia (interna e externa), mudanças na composição do território, com aportes maciços em infra-estruturas, na modernização agrícola.
Nesse período, Santos, M. (1993) ressalta três pontos: Desenvolvimento da configuração territorial, considerando que a configuração territorial é formada pelo conjunto de sistemas de engenharia que o homem vai superpondo à natureza, de maneira a permitir que se criem as condições de trabalho próprias de cada época. O desenvolvimento da configuração territorial, naquele momento, vinculava um
desenvolvimento exponencial do sistema de transportes, do sistema de telecomunições e da produção de energia. O incremento da produção material (industrial, agrícola, circulação e distribuição de mercadorias e consumo) e a implementação de novas formas econômicas, não só nas formas de produção material, mas na expansão das formas de produção não-material: saúde, educação, lazer, consumo etc., levaram, no caso da energia elétrica, o consumo de 24.000 Mwz em 1965 para 160.000 Mwz em 1984.
Para Santos, M. (1993), a parte do território alcançada pelas formas produtivas modernas não é apenas a região polarizadora definida por Jacques Boudeville (1964), mas praticamente, o país inteiro, incluindo as polarizadoras preferenciais. Isto não denota que todo o território seria regido pelos automatismos técnicos e sociais próprios da modernidade tecnicista, já que algumas regiões estão excluídas desse processo, o que indica uma nova hierarquia entre regiões com grande conteúdo do saber (nos objetos, nas instituições e empresas e em pessoas) e regiões desprovidas dessa qualidade fundamental em nossa época; entre regiões do mandar e regiões do fazer.
Nosso objeto de estudo, por ser local da produção (produção de energia), às vezes, longe de grandes centros, apresenta todas as condições de um espaço geográfico inserido no meio técnico-científico-informacional. É nesse cenário de grandes mudanças na configuração territorial, com as novas técnicas de engenharia, com a construção de usinas e barragens, com as novas formas de produtividade, representadas pelo trabalho técnico especializado assalariado e pelo desenvolvimento de novas formas econômicas, como a produção material, que puderam ser concretizadas as vilas residências com atendimento a todos os níveis funcionais em relação à moradia e à produção não- material - como o atendimento à saúde, educação, lazer, etc.
Assim, foi exemplificada a presença desse meio técnico-científico informacional, lembrando que, no ano de 1984, Furnas informatizou seu sistema operacional interligando todo seu sistema de transmissão de energia elétrica. Atualmente, a Empresa domina tecnologias complexas, com sistema de supervisão e controle digital e de microondas para a transmissão de dados. Mas permanece o paradoxo de uma sociedade desigual, já que, assim como a produção está aliada à especialização técnica e científica, essa mesma produção sempre utilizou e utiliza o trabalhador não especializado como mão-de-obra na construção civil, que era e continua a ser um excluído desse sistema.
A necessidade de proximidade de mão-de-obra especializada ou não para as construções de usinas de grande porte propiciou estudos para a implantação de vilas operárias provisórias ou permanentes em regiões próximas aos rios, em locais quase sempre despovoados e sem recursos, ou seja, com baixa densidade demográfica, conseqüência do tipo de colonização em um território vasto como é o do Brasil.