3. MATERYAL ve YÖNTEM
3.2. Yöntem
3.2.3. XRD Analizi
Como cidade ex-novo, a cidade-empresa se apresenta planejada do urbano que atende às necessidades empresariais, seja na exploração de recursos minerais: cobre, ferro, carvão, alumínio, cachoeiras ou na produção industrial: aço, ferro, têxteis, serrarias, energia elétrica e que estão associadas à história da industrialização no Brasil
35 LEFÈBVRE, Henri. Lê droit à la ville. Paris, Castermam, 1972. Cit. por SANTOS, Carlos Nelson F.
e no mundo. Essas cidades empresariais ou cidades do “capitalismo utópico” devem ser associadas, também;
a busca por novos aportes técnicos e filosóficos para a solução de problemas econômicos, de relação de trabalho e sociais, passava pela organização dos espaços habitados, a revisão das condições de trabalho, moradia e assistência social então vivenciadas pela classe trabalhadora da época (RODRIGUES, 2002, p.4)
A cidade-empresa é distinta da cidade industrial, da agrovila, dos assentamentos comunitários e experimentais (com propriedade comunitária), e de projetos habitacionais voltados para trabalhadores industriais, porém separados das instalações industriais. São também distintas das chamadas “cidades novas” e das propostas de reestruturação urbana geradas pela influência do processo de industrialização sobre o planejamento das cidades. É senso comum a tendência de pensar as cidades-empresa como modelo único e universal, que pouco ou nada diferenciam entre si, o que dificulta a identificação e a compreensão de suas especificidades reais e cujo estudo constitui um campo de pesquisa fértil, cuja densidade teórica e empírica ainda é relativa.
Ao utilizar o exemplo das cidades criadas no norte e nordeste do Paraná, que somam cento e dez núcleos urbanos implantados em trinta anos, demonstra-se como foi intensa e recorrente esta prática de “criar cidades” no Brasil. Em consonância com o momento histórico mundial, de expansão industrial, houve, inicialmente, na Amazônia, a criação das primeiras cidades empresariais voltadas para a industrialização da borracha.
Vicentini (1994)36estuda o processo de constituição das Cidades na Amazônia e sua
história até a contemporaneidade. Analisado, em sucessivas abordagens, o tema central é o enfoque Cidade e natureza na Amazônia e o processo de constituição das cidades, historicamente, condicionado por um sistema econômico, político e cultural mundial. Em suas especificidades expostas por uma natureza diversificada e por peculiar apropriação antrópica, revela uma fragmentação em sua organização territorial e uma diversidade própria na expressão espacial, social e cultural das cidades.
A Amazônia, como se discute, é uma fronteira urbana contemporânea e a reprodução
do modo de vida urbano passa a ser a forma predominante da expansão de sua ocupação, estratégia de domínio que constrói sua hegemonia.
O trabalho parte da construção de uma metodologia para abordagem do objeto, desde a configuração histórica das cidades e seus diferentes processos e temporalidades. Trata da história da região, da gênese da cidade e da especificidade da cidade na Amazônia. Estabelece através de áreas específicas, o caráter do novo padrão cultural urbano na Amazônia. Enfoca as cidades tradicionais, as vinculadas aos processos de colonização, espontâneas e as cidades vinculadas aos grandes projetos econômicos - Company Towns ou cidades fechadas, entre outras; Tucuruí, Barcarena e Carajás.
O capítulo que trata da “Passagem para a Modernidade”, tendo a cidade como antecipação, com a criação das primeiras cidades empresariais, foi alvo, por nossa parte, de uma análise mais aprimorada para melhor compreensão das mudanças da sociedade industrial. Em relação às cidades vinculadas aos grandes projetos, como é o caso de Tucuruí, tratar-se á em outro momento.
À margem da idéia construída de Cidades-Capitais como Belém e Manaus, no período áureo da comercialização da borracha, foram efetuadas diversas tentativas de colonização agrícola na Amazônia, na segunda metade do Século XIX. Todas fracassaram, em parte, devido às dificuldades dos transportes, o que gerou, naquela época, “a idéia de que a região era imprópria e inabitável, localizadas em áreas de sertão, distante de núcleos urbanos e da ligação fluvial” (VICENTINI,1994).
Essas colônias refletiam as formas de apropriação e de trabalho idealizadas a partir das “cidades do trabalho” que, naquele momento, se disseminavam pelo mundo e não na assimilação das formas tradicionais de exploração da floresta. Os assentamentos eram destinados às colônias de imigrantes europeus, norte-americanos, chineses etc., e migrantes nordestinos em busca de trabalho e terras nos seringais nativos.
Entre os vários empreendimentos de colonização na Amazônia, procurou-se destacar dois projetos de cidades-empresa, precursores de muitos outros que o país viria a gerir pela iniciativa privada ou pública. O polêmico e frustrado projeto Madeira-Mamoré (1872-1913) e Fordlândia (1928).
A obra da Ferrovia Madeira-Mamoré37passou por várias empresas que desistiram da
empreitada devido, entre outros problemas, às sérias dificuldades em relação à salubridade do meio ambiente e aos milhares de mortos entre os trabalhadores de cerca de 50 nacionalidades diferentes que formavam essa mão-de-obra.
Estas ligações ferroviárias, que permitiriam ultrapassar os trechos encachoeirados entre os rios Madeira e o Mamoré, resultaram na construção de uma das primeiras cidades empresarias na Amazônia: a cidade de Porto Velho. Essa cidade surgiu por meio das instalações da empresa construtora com a edificação das primeiras casas para o pessoal técnico-administrativo, do cais do rio Madeira e da estação ferroviária, que marcava o ponto de partida da linha. Longe de ser uma cidade no sentido estrito da palavra, esse núcleo isolado estava sob controle e jurisdição de uma empresa privada. Além de Porto Velho, hoje capital do Estado de Rondônia, a cidade de Guajará-Mirim, na Bacia do Rio Madeira, também foi criada na época.
O outro projeto polêmico foi o proposto por Henry Ford, para o cultivo da Hevea Brasiliensis (borracha), em uma área de 1 milhão de hectares, à margem esquerda do Baixo Tapajós, no Pará, (1928-1945), que buscava a auto-suficiência de sua produção de automóveis em Dearborn, Michigan/USA. A concessão de Ford foi denominada, popularmente, de Fordlândia e recebeu isenção de impostos por 50 anos e seu direito de jurisdição própria. Encerrou, porém, suas atividades após 17 anos. Na figura de Fordlândia, (FIGURA 16) estão indicados; sua localização e os dois setores residenciais, tendo ao centro a fábrica.
O texto trata com propriedade as relações de trabalho entre empresa e trabalhadores, incluindo a imagem de modernidade criada pelos métodos racionais de trabalho empregados pela Companhia Ford do Brasil em contraste com o hábito nômade do homem amazonense.
37A implantação da Madeira and Mamoré Railway em sucessivas tentativas foram executadas pelas
Empresas de capitais ingleses e americanos: Liverpool & Amazon Royal Mail Steam Ship Company, Manaos Habour Limited e Madeira Railway Company e Brazilian Rubber Trust. (VICENTINI, 1994, p. 85)
FIGURA 16: Cidade-empresa de Fordlândia associada à produção da borracha. FONTE: BICCA, E. BICCA, p., 2007.
A autora enfatiza a vinculação ao processo de trabalho extrativista “que pressupunha uma mobilidade e um domínio territorial diferenciado daquele imposto pela propriedade privada da terra e pelas novas relações de trabalho” (VICENTINI, 1994, p. 87). Também trata do cotidiano da cidade, do rigoroso controle social, da assepsia, da discriminação social e, conseqüentemente, da segregação espacial. Os indígenas foram excluídos desse processo por serem julgados inadequados ao trabalho assalariado ou por discriminação existente, por parte dos trabalhadores brancos ou mestiços, muitos deles oriundos da Região Nordeste. Para nossa pesquisa, enfatizou-se somente a “instalação da nova cidade empresarial na selva”.
O pico da mão-de-obra ocorreu em 1931, com 3.100 operários registrados, considerando suas famílias, estimou-se uma população residente nas cidades de Fordlândia e Belterra e nas colônias dispersas (espécie de arrendamento com 1 a 4 casas) de, aproximadamente, 15.000 pessoas. O direito à moradia, condicionava-se à produtividade e à posição ocupada na divisão de trabalho na empresa.
Nesse sentido, foram construídas duas cidades, a primeira Fordlândia, em 1928 e a segunda, em 1934, localizada em uma nova área do empreendimento no Alto Tapajós, chamada Belterra. Nesse local, foi construída uma réplica da cidade nas próprias oficinas
da empresa, já que, para a primeira cidade, todos os materiais e equipamentos foram importados. As construções eram pré-fabricadas em madeira, e as casas expressavam o estilo bangalow americano. (FIGURA 17) Essa prática de importar casas pré-fabricadas, e estilos diversos, deve ser atribuída, não só à lógica da industrialização, mas à afirmação da cultura do país de origem do empreendedor.
FIGURA 17: Residência pré-fabricada em madeira, estilo bangalow americano. FONTE: BICCA, E. & BICCA, p., 2007.
Vicentini (1994), ao analisar os projetos urbanos dessas duas cidades empresariais, constatou que estas cidades apresentavam dois níveis de moradia, o que permitia uma maior segregação, retratando-se fisicamente em seus projetos urbanos:
Os níveis profissionais retratam-se fisicamente no projeto urbano, com os espaços disciplinados e segregados em dois níveis habitacionais, que, por serem claramente delimitados, tornaram-se “antagônicos e excludentes”. Diferentemente das cidades empresariais contemporâneas que comportam distinção de seis ou sete níveis habitacionais frente aos novos parâmetros tecnológicos e uma maior divisão social e técnica do trabalho. (VICENTINI, 1994, p. 114).
As cidades possuíam toda a infra-estrutura urbana, incluindo sistemas modernos de captação, tratamento e distribuição de água, casa de força para rede de energia, rede de telefonia estação de rádio, conjuntos de lazer, escolas, cinema, hospital, oficinas mecânicas e depósitos, além de dois portos fluviais, sendo um flutuante.
A cidade de Fordlândia foi implantada linearmente ao longo do rio, sendo que sua
conjunto e separava a “vila americana” (configurada a partir de uma praça radial e destinada aos dirigentes estrangeiros e nacionais), dos setores; comercial, “vila operária”, alojamento de solteiros, e do bairro da Prainha (praticamente uma cidade espontânea, sem controle rigoroso de normas e condutas).
A compreensão do significado histórico e da evolução histórica das cidades empresariais como modelos pré-industriais do Século XIX, que se contrapõem às utopias socialistas, favorecem um novo reformismo com ênfase no urbanismo que pode ser caracterizado pelas cidades empresariais, ou cidades do capitalismo utópico.
Essas cidades empresariais têm sua concepção urbanística diretamente derivada das relações sociais da indústria, traduzindo-se em cidades-modelos para operários e modelo de comportamento social ideal, expresso pelo desejo da “ordem” frente à desordem das cidades industriais daquele período.
A importância de Fordlândia como precursora de tantas outras cidades na Amazônia, até a década de 1980, é inegável do ponto de vista de “uma nova era que se anunciava a partir de uma sociedade industrializada” ou em vias de se industrializar e que indicava novas relações entre capital e trabalho. Vários estudos tratam do tema, entre outros, o de Piquet (1998).
Em relação ao direito à moradia, condicionado à produtividade na empresa, o assunto pode ser analisado sob vários aspectos da nova sociedade industrial, que não é novidade no Brasil. Desde o período colonial, no sistema de sesmarias, os sesmeiros “doavam nominalmente áreas a um santo padroeiro para servir de moradia e meio de subsistência a quem desejasse morar de forma gregária e voltado para outras atividades, a partir de um relacionamento de arrendamento ou trocas de favores com os doadores” (VALE, 1997, p.15).
Importante referencial teórico para esta pesquisa, por abranger as transformações ocorridas na estrutura econômica brasileira e os processos espaciais, é a obra de Piquet (1998), baseada em pesquisas sobre cidades-empresa, cujo objetivo é indicar que tais empreendimentos proporcionaram o avanço da fronteira econômica e espacial.
A autora, ao analisar cinco grandes cidades-empresa brasileiras (Volta Redonda, Telêmaco Borba, Ouro Branco, Aracruz e Carajás), estabelece vínculos entre as
transformações ocorridas na estrutura econômica brasileira e os processos espaciais, ou seja;
O objetivo é indicar que tais empreendimentos, por serem veículos da expansão de novas condições técnicas de produção em pontos selecionados do território nacional, proporcionam o avanço da fronteira econômica e espacial, influindo no processo de integração nacional e sendo, portanto, um ângulo relevante de nossa formação urbana. (PIQUET, 1998, p. 11).
O geógrafo Milton Santos também associa economia e o território para explicar a evolução da urbanização no Brasil. Ao refletir sobre os estudos de Piquet (1998), no Prefácio deste livro38, afirma que;
a urbanização comparece como fenômeno territorial mais expressivo da sociedade brasileira e a industrialização como um grande motor dos processos econômicos, sociais e políticos que explicam a evolução do país nos últimos cinqüenta anos (PIQUET, 1998, p. viii)
Em suas conclusões, Milton Santos alerta para questões fundamentais em relação à cidade-empresa:
quando as empresas planejam a si mesmas, planejam também os lugares em que se instalaramm e ajudaram a desenvolver. Esse planejamento é, ao mesmo tempo, urbanístico, econômico e social, uma presença pesada que se revela também na vida política. (PIQUET, 1998, p. viii).
Compreender e discutir “esse planejamento”, no sentido amplo do termo, é uma questão fundamental e vários autores já têm demonstrado a importância do tema, segundo nossa pesquisa. Porém no caso, do papel do “planejamento urbanístico”, nesse processo, existe uma carência de reflexões a respeito do assunto, conforme já citado anteriormente. “Tipos inicialmente idênticos de assentamentos podem passar por processos que o diferenciarão ao longo do tempo, e o estudo desses processos é, sem dúvida, mais relevante que uma mera classificação”. (PIQUET, 1998, p. 04).
Esse processo de produção de espaço é entendido na área da Arquitetura e do Urbanismo, a partir de sua concepção projetual e que nunca resultará em “tipos inicialmente idênticos”, como algumas áreas das Ciências Humanas entendem. Portanto, a leitura dos projetos urbanísticos e arquitetônicos e sua posterior concretização, podem auxiliar na classificação dos tipos de espaço resultantes. Como
38 PIQUET, Rosélia. Cidade-empresa: presença na paisagem urbana brasileira. Rio de Janeiro, Jorge
Zahar Ed., 1998.
isso procedeu é uma das questões a serem respondidas nessa Tese.
A associação entre economia e território tratada por Piquet (1998) pode ser relacionada com a teoria dos espaços econômicos, muito difundida na Europa, no período pós-guerra, e muito divulgada no Brasil pelo economista francês Jacques Boudeville (1970), ao elaborar a teoria dos espaços econômicos.
A teoria dos espaços econômicos de Jacques Boudeville (1970)39 contribuiu para o
aproveitamento planejado das grandes bacias hidrográficas, destacando três pontos considerados fundamentais para o desenvolvimento econômico nacional: a integração dos transportes, a política de energia e industrialização e a produção agrícola. Ao utilizar como exemplos os projetos das bacias do São Francisco, no Brasil e do Tennessee, no EUA, comprova a importância que o tema Desenvolvimento das Grandes Bacias Fluviais despertou para os estudos de aproveitamento energético e desenvolvimento regional na França.
O autor, ao discorrer sobre Desenvolvimento das Grandes Bacias fluviais francesas, aborda o caso do planejamento do eixo Moselle-Saône-Rhôme, na cadeia de desenvolvimento francês e do melhoramento do espaço europeu. Utiliza, para exemplificar sua tese, o Vale do Rio São Francisco, no Brasil e Valley Tennessee, no EUA, com a criação de cidades como Knoxville. Segundo o autor, ao lado do interesse prático, está igualmente o teórico, abrangendo, principalmente, os três problemas fundamentais: 1) a coordenação dos transportes, 2) a política da energia e da industrialização e 3) a reconversão agrícola.
O livro trata de questões econômicas relacionadas com o planejamento territorial, refletindo o período em que foram implantadas as usinas hidrelétricas abordadas pelo estudo, com uma grande influência da economia e dos estudos geográficos referentes às regiões polarizadoras. O autor centraliza seus estudos, como o título indica, no espaço econômico, que deve existir pela relação de três noções fundamentais correspondentes a três realidades distintas, que refletem o bom senso da lógica tradicional (a primeira noção se apresenta, à medida que se faz; a segunda noção, durante o processo e a terceira noção, de acordo com os resultados).
39 BOUDEVILLE, Jacques-R. Les Espaces Économiques, Paris, Presses Universitaires de France, Paris,
Para o autor, primeiro, a região pode se caracterizar por ser mais ou menos uniforme - a região é mais ou menos homogênea -; segundo, a região pode ser estudada do ponto de vista de interdependência e da hierarquia de suas diversas partes - é mais ou menos polarizante -, e terceiro, a região pode ser examinada do ponto de vista do centro de decisão e de alcance que ela possui e do programa que se fixou - é a região de programa ou de planejamento regional.
A crença em que o desenvolvimento pode ser alcançado por decreto e pela intervenção técnica é defendida, quando exemplifica que o governo francês, em 1964, por decreto, propôs a desconcentração administrativa – com regiões para programa de planificação indicativa nacional, sem descentralização econômica - com a criação da CODER - Comissão de Desenvolvimento Econômico Regional - “missão de técnicos, sob a coordenação do Ministério do Interior”. De um modo geral, a região-programa é analisada por meios geográficos disponíveis para realizar um determinado empreendimento. Há por exemplo, a localização de indústrias, ferrovias, rodovias, novos pontos energéticos, determinação de nível local de salário, etc.
Para o autor, é conveniente entender os três tipos de regiões: região homogênea de inspiração agrícola, região polarizante de inspiração industrial e comercial e região- programa de inspiração prospectiva. Assim, as destinações dos três espaços econômicos não são iguais nem exclusivos, para ele, os três são indispensáveis. Ao defender o aproveitamento planejado das grandes bacias hidrográficas, destaca três pontos fundamentais para o desenvolvimento econômico nacional: a integração dos transportes, a política de energia e industrialização e a produção agrícola.