Em razão de sua juventude, o sindicalismo rural comunista anterior a 1964 foi marcado por um acentuado grau de amadorismo e mesmo primarismo. O gol- pe de estado tinha forçado efetivamente o aborto do processo de consolidação de toda uma geração de ativistas de esquerda. Os militantes católicos que lhes sucederam tiveram, contudo, a ocasião e o tempo necessários à constituição de uma verdadeira corporação de dirigentes sindicais. Se até esse momento a regra era a improvisação, a precariedade dos meios e a coesão ideológica, a partir de agora a edifi cação de um impressionante aparelho sindical se colocaria em marcha e a prática do movimento sindical passaria a depender cada vez mais de um conhecimento específi co de especialistas, mesmo que os sindicalistas continuassem a se recusar a considerar sua ocupação como profi ssão (Paraná Rural, s/d).
No entanto, eles acreditariam – talvez porque fi zessem crer – que a es- colha que fi zeram era uma questão de fé, fé em um ideal de “direitos dos trabalhadores rurais” e crença na sua missão fi lantrópica. Aquele que “não tem interesse pelo próximo não entra [no sindicalismo]”, declararia um presidente de sindicato (Entrevistas 8, 18 e 22). A ligação aos ideais e aos valores oriundos de uma ética cristã parece fundar a inclinação pela militância sindical. Ser sindicalista, nesse caso, signifi cava aderir, por motivos éticos, aos princípios assimilados ao longo da educação cristã, reforçada pela militância no seio da Igreja.
A carreira sindical aparece, desse ponto de vista, como a conseqüência e o prolongamento de uma atividade pública anterior – principalmente religiosa. Lembremos que a quase totalidade dos dirigentes do sindicalismo-FETAEP era composta de antigos membros do quadro de leigos da Igreja Católica. E a
vida dos servidores de Deus impunha “muita oração, muito sacrifício e muita penitência”. Portanto, é compreensível que os princípios éticos adquiridos ao longo da experiência religiosa sejam em seguida retomados na forma de atividade sindical: “eu acho que o trabalho que a gente faz, no dia-a-dia, como dirigente sindical... se você o faz honestamente, é uma religião fantástica!” (Entrevistas 8, 9, 10, 11, 12, 18 e 22).
A retidão de caráter, a honestidade e a probidade eram qualidades apre- sentadas como sinais distintivos de sacerdócio sindical. Imbuídos desse es- pírito, vários dirigentes sindicais destacariam como ponto de honra nas suas entrevistas o “trabalho sério e honesto” no sindicalismo (Entrevistas 22, 8 e 4).
Outra característica intrínseca dessa prática sindical seriam a abnegação, a devoção e o trabalho incansável. Acentuavam-se freqüentemente o “amor ao trabalho e a vontade de vencer”, as noites em claro, a renúncia às férias e ao repouso dominical, as “24 horas a serviço do movimento sindical”, os esforços inumeráveis, o suor pródigo e as estradas percorridas. Ao término de um “ano do trabalho”, era comum fazer o balanço das adversidades da luta “incessante e infatigável”, dos “sacrifícios” consentidos e do “máximo de esforço” despendido para diminuir o sofrimento dos camponeses. Se nos concentrarmos nas agendas de trabalho de alguns dirigentes sindicais, nota- mos que normalmente o ritmo de atividade era frenético. Ao mesmo tempo, esses sindicalistas evidenciavam uma preocupação excessiva em querer jus- tifi car sua situação de dirigente e em colocar, sem cessar e antes de tudo, sua devoção em prol do sindicalismo (FETAEP, 1967, 1974 e 1978; Entrevistas 14 e 3; Paranavaí, 25/11/1975; FETAEP, 22/10/1967; Boletim Informativo, maio-jun. 1972; Rotta, 23/08/1966; Paraná Rural, dez. 1973).
De fato, a devoção do militante não decorre somente de uma imposição ética. Ela serve também de fundamento legítimo para a sua ascensão profi s- sional. Como escreveu Maresca (1983, p.53), referindo-se aos sindicalistas franceses, “a devoção é a justifi cação ofi cial da ambição”. Desde então, o desejo de galgar os degraus da carreira sindical, mesmo que a maioria dos ativistas se recuse em admitir, aparecerá tanto mais legítimo quanto maior será a “produtividade” sindical, ou, dito de outra maneira, quanto mais serviços render o dirigente em um mínimo de tempo.
Em nome de sua “missão sindical”, esses ativistas aceitariam fazer uma série de renúncias pessoais. Por um lado, abriram mão do sucesso profi s- sional e fi nanceiro como agricultores: “fi nanceiramente, a gente só perde”; “saí ainda mais pobre [do sindicalismo]”; “economicamente o sindicato não signifi cou nada”; “nada tenho porque sou honesto!” Pior ainda, o movimento sindical lhes teria imposto despesas extras: na FETAEP, os membros da dire- ção nomeada em 1964 teriam gasto, durante os primeiros anos de existência da entidade, suas próprias economias para mantê-la funcionando (FETAEP, 1982; Entrevistas 2, 5, 8, 9 e 22). De outro lado os vemos abandonar seus próximos para melhor se consagrar a “fazer o bem para o próximo”. A maioria
dos presidentes consultados declarou que a sua família teria sido a grande vítima da militância:
“A minha esposa às vezes tem reclamado... Já aconteceu em cinco domin- gos do mês d’eu não fi car em casa. Às vezes meu tempo de almoço é de 10 minutos, 15 minutos, às vezes nem almoçar não vou [em casa]” (Entrevistas 12 e 22).
Nunca peguei minha família e levei pra praia ... quando resolvi deixar a Federação ... eu voltei para minha [casa] e eu [era] o estranho na casa... não vi minhas fi lhas crescer, eu nunca levei uma fi lha na escola... minhas fi lhas nunca freqüentaram um clube ... quando eu voltei, eu não tinha diálogo com minha mulher!, com minhas fi lhas ... foi terrível. (Entrevista 5)
Esses militantes se diziam, assim, prontos a renunciar a toda individuali- dade ou interesse pessoal. E quando esse interesse era, apesar de tudo, levado a mostrar-se, aparecia como idêntico – e jamais contraditório – ao interesse coletivo, da “base”. Uma carreira sindical de sucesso deveria ser o resultado natural do fervor, da abnegação e de virtudes pessoais, e não o fruto de um desejo subjetivo ou um projeto pessoal. O indivíduo somente poderia pre- tender um posto mais elevado com o objetivo de melhor servir à “classe”. Toda demonstração pública de ambição pessoal era proibida e passível de condenação moral. Todas as ambições deveriam se fundir em um único objetivo: ser útil à boa causa.
Essa desindividualização deriva de um processo de metamorfose do sujeito em porta-voz do grupo. Despido de sua individualidade, cessa de ser ele mesmo para se tornar a personifi cação do grupo. Como em uma sessão de encantamento social, o “possuído” se contenta em repetir a voz da coletividade; por meio de tal processo de transmutação, ele adota também uma nova maneira de falar: o “eu” se transforma em “nós”, em “nós todos”. Por extensão, o sindicato passa a exprimir-se em nome da “categoria” como se fosse ele próprio a “categoria”. É assim que se lerá na imprensa sindical: “Os trabalhadores do Paraná querem ...”, “os trabalhadores estão satisfeitos com ...” (Entrevista 26; Paraná Rural, abr 1974).
Mesmo que inconscientemente, a ingenuidade, o interesse desinteressado e a modéstia estampada servem muitas vezes para camufl ar a ambição que pode ser percebida nessa abnegação. Dois discursos, reiterados várias vezes, entrecruzam-se para justifi car a progressão no sindicalismo. Um a atribui ao acaso. Sobretudo o ingresso na carreira foi, muitas vezes, apresentado como uma mera eventualidade:
Tinha uma festa de São Cristóvão ... O pessoal foi prá dita reunião de fundação do sindicato ... Mas eu nunca na minha vida tinha ouvido falar de sindicalismo ... Eu fi quei fazendo a fogueira na churrasqueira... O meu pai: “o padre Tadeu quer que você vá
pra reunião do sindicato!” ... Cheguei, dei uma parada na porta assim, e o padre falou: “pessoal, vamos receber o secretário do sindicato aí, com uma salva de palmas”. E eu peguei e saí da porta, né? Pensando que tinha mais gente atrás de mim. Aí o padre falou: “não, mas é você mesmo!... Não assusta, que a coisa não é complicada... Já tamos fazendo a ata, tudo.” Sentei ali... observando aquilo tudo... [Então] me botaram como secretário do sindicato. (Entrevista 6)
O outro discurso considera a chegada e a ascensão no movimento sindical como resultante de uma escolha, ou mesmo de uma imposição, da “base”:
Sabe, quando a pessoa começa a colaborar com a comunidade sempre existem aquelas pessoas: “oh, fulano lá na Água, naquele bairro tem a pessoa, assim, assim”. Os vizinhos sempre procuram a pessoa de acordo com a disponibilidade, de acordo com a vontade de servir. Daí eu fui indicado pra ser delegado sindical. (Entrevista 2)
Como servo da “classe”, o dirigente deve se submeter à sua vontade. Se ele aceitou a indicação não é porque esta corresponda aos seus desejos íntimos, mas porque a vontade dos mandantes tornou-se uma ordem. O escolhido tem todo o direito de considerar-se o melhor, pois essa apreciação não é fruto de um autojulgamento, mas da decisão da “categoria”, que é a depositária legítima da razão e da verdade.