Na pesquisa de campo introduziu-se a temática da “ação pastoral” para provocar respostas particulares e espontâneas, visando perscrutar a compreensão dos que atuam na Comunidade Metodista do Povo de Rua - CMPR, quanto a sua ideologização e formação a partir dos pressupostos da Igreja mantedora, a Metodista, de forma a se construir uma ideia se aqueles/a sujeitos do braço operacional da Comunidade sabem distinguir a entre a relação teórica e a prática sobre o conceito de pastoral, uma vez que a Comunidade Metodista do Povo de Rua não é uma Igreja, na sua constituição, mas um braço da ação pastoral da Igreja.
As respostas dos sujeitos ao quesito nos remetem a compreensão que os agentes da Comunidade Metodista do Povo de Rua - CMPR - não passam por processo de ideologização por parte da Igreja para que sejam habilitados e capacitados a pensar na dimensão do seu serviço segundo o que dispõe os documentos da Igreja. Ou seja, os documentos da Igreja revelam uma proposta de pastoral, mas na prática, a compreensão de pastoral dos seus agentes não passou por nenhuma reformulação nos últimos duzentos anos.
É possível perscrutar uma tensão entre os documentos da Igreja Metodista e sua ação pastoral. Outra tensão entre o projeto de evangelização142 da Igreja Metodista e sua estratégia de ação social: entre salvar o espírito e socorrer o corpo, se instala uma tensão pragmática de o que vem primeiro. Nisto se revela o impasse da Igreja em sua ação pastoral, que se reflete de fato nos que têm o compromisso de operacionalizá-la no dia a dia.
Casiano Floristán 143 nos remete ao começo do século XX quando o protestante F. Schleiermacher144 distingui a disciplina de teologia prática em duas vertentes, a saber: do governo da igreja e do serviço da igreja.
A partir desta distinção, focaliza a questão da ação da igreja em seu contexto histórico, bem como a sua expressão nele de tal forma a demonstrar o amor de Deus, mas dentro do seu hoje, do seu cotidiano, e afirma: “a ação da igreja não se reduz ao ministério eclesiástico ou sacerdotal (...) e cita V Schurr que sinaliza a ação da igreja como uma presença em três dimensões: doutrinal, sacerdotal e pastoral, sendo que as funções pastorais se destacam pela: homilética, a catequese, a liturgia, o serviço cristão ao mundo” (FLORISTÁN, 2002, p.208).
Considerando-se a ação pastoral da Igreja dentro do seu cotidiano, a partir de uma leitura do que corresponde ser igreja naquele específico contexto, tem-se composta uma complexidade por si só. Complexidade esta que precisa ser abordada mediante uma identificação de sãs raízes e noções, se é que se pretende desenvolver ações pastorais consistentes e apropriadas.
Por isto, se retoma a questão de que as respostas dadas pelos sujeitos agentes da pastoral na CMPR, ainda que sejam adultos, com graduação em áreas específicas, não reproduzem aquela compreensão do que de fato estão a fazer na Comunidade como pretensão de ação pastoral da Igreja metodista por meio da AMAS, entretanto, refletem a compreensão básica de que ação pastoral é a ação do pastor e da pastora.
Destarte, se remete a busca da compreensão da temática da ação pastoral a partir das concepções católicas e protestantes em sua trajetória histórica, conforme aponta Floristán. Na versão católica foram quatro etapas: Concepção pragmática, concepção não teológica; concepção bíblica; e histórico-salvífica (FLORISTÁN, 2002, p102).
Segundo Schneider-Harpprecht145, a ação pastoral está assentada sobre o conceito de missio dei146, no qual a ação de Deus, através da Igreja e do mundo, cuja missão é primária e as missões são secundárias; derivando a segunda, no plural, da primeira no singular. A Igreja recebe o destaque e o privilégio em virtude de sua vocação, se parceira da ação de Deus, mas jamais exclusivamente. Não se pode separar Deus do mundo e quando se fala na sua ação, esta se dá no mundo de forma criadora, salvadora, e restauradora. Portanto, a Igreja em missão não pode existir sem olhar para o mundo com os olhos de Deus (SCHNEIDER-HARPPRECHT, 1998, p. 216).
Luiz Longuini147, afirma que a ação pastoral não é mais a atividade do pastor, e sim da igreja, ou dito de outra forma, da comunidade, cujo novo horizonte passa a ser não mais a igreja local, mas o Reino de Deus no mundo. Já a adesão de sujeitos as igrejas local e institucional pela conversão, que resume a vida cristã aos aspectos sacramentais, sem levar em conta a
prática social, é um grave risco para ação pastoral. E nesta perspectiva recorre-se a Orlando Costas148 que afirma: “Pastoral é toda aquela ação que busca relacionar o evangelho ou a fé cristã com situações concretas do viver diário, servindo de ponte para experiência (internalização, incorporação, atualização) da fé na vida cotidiana. Sendo que a vida cotidiana assume diversas formas, a pastoral será tão complicada como a própria vida (LONGUINI, 2002, p. 62).
Na vertente católica sucederam etapas de compreensão da teologia pastoral e especificamente no que diz respeito a ação pastoral.
No primeiro momento havia uma demarcação bem clara dos cléricos a serviço dos príncipes, ou seja, a igreja a serviço da coroa. Uma relação de submissão, na etapa pragmática. Na segunda etapa a teologia pastoral aporta no conceito de que Cristo salvou o mundo e essa seria a função da igreja, o anúncio, a proclamação. Na terceira concepção, sob a influência do trabalho do protestante alemão Schleiermacher, que impressionando o católico A Graf (1841) pelo desempenho dos protestantes e avanço na elaboração de uma teologia que fosse pratica, “cunha o novo nome da teologia pastora, para teologia Prática, propondo que a ação pastoral e apostólica da Igreja não seria mais exclusivamente do sacerdote como pastor, mas sim ações eclesiais, na edificação do reino de Deus, nesta momento Graf dá o passo decisivo na concepção científica, e teológica e eclesiástica da consciência científica da igreja que se auto- edifica para o futuro (FLORISTÁN, 2002, p. 101-102). Na quarta concepção, a clerical, quando há um desvio de rota, a conceituação de teologia pastoral para teologia prática não se consolida plenamente e Berger (1861), elabora um manual sobre a administração correta do seu ofício sacerdotal, apontando nele as receitas para a ação do pastor. E, nesta altura, o conceito de teologia pastoral na sua dimensão científica denominada de Teologia Prática por Graf, sofre um reducionismo maior e a igreja passa ser o centro e a essência da ação e vocação do pastor em suas atividades.
O reducionismo exposto em 1861 de que a ação pastoral é o mesmo que a ação do pastor e da pastora, conforme apontados pelos sujeitos pesquisados na CMPR, indica que a concepção de pastoral em seus viés científico, interdisciplinar e ecumênico, ainda não chegou aos agentes que são responsáveis pela execução da pastoral em nome da Igreja Metodista, que sustenta a CMPR.
pastorais aos sujeitos interventores no cotidiano da CMPR, e, por outro lado, a prática dentro da comunidade de programação tipicamente eclesiástica, como se o espaço utilizado pela CMPR, por sua dimensão e natureza religiosa, deva se constituir com uma “igreja alternativa” a oferecer a mensagem do Evangelho à população em situação de rua.
Apresentou-se neste capítulo a pesquisa de campo realizada junto aos sujeitos que prestam e prestaram serviço na Comunidade Metodista do Povo e Rua – CMPR - cujo objetivo foi conhecer a ação pastoral desenvolvida na CMPR a partir dos sujeitos que são seus agentes, e não os beneficiários.
Para dar conta deste empreendimento, a leitura do resultado da pesquisa (ver anexo de seu conteúdo), se observaram quatro eixos, a saber: ação criadora, ação reflexiva, ação libertadora e ação radical.
Nesta perspectiva, tendo-se em mãos as respostas oferecidas pelos sujeitos, organizou-se o conteúdo dentro dos eixos propostos em Casiano Floristán. Os dados coletados, portanto, foram redistribuídos dentro das configurações propostas.
Abriu-se também a questão social e política vigente no contexto da criação da Comunidade Metodista do Povo de Rua – CMPR, tendo em vista o contexto vivido na cidade de São Paulo ao tempo da legislatura da prefeita Luiza Erundina que constituiu um corpo de auxiliares, dentre eles a pesquisadora Aldaíza Sposati, com a finalidade de atender, a partir de políticas públicas viáveis, a massa de excluídos em situação de alta vulnerabilidade, dentre eles a população em situação de rua. E neste momento se faz menção ao papel e presença da A.M.A.S. - Associação Metodista de Assistência Social -, como a organização que representa a Igreja Metodista no diálogo aberto para novas políticas públicas focadas na população em situação de rua.
A intenção de abrir gráficos para visualizar os sujeitos pesquisados se revela no propósito de comprovar que todos eles são e foram plenamente engajados e têm qualidade para reagir ao que se pretende na perspectiva de entender a ação pastoral desenvolvida pela CMPR.
A seguir, recorreu-se aos teóricos da práxis religiosa, que é o recorte que diz respeito à pesquisa, partindo-se de Casiano Floristán, mas sem olvidar as contribuições relevantes de outros teóricos tanto na perspectiva da Práxis Filosófica, como Vazqués e Vaz; quanto na práxis pedagógica, como Groome.
e outros pastoralistas, com o propósito de deixar claro que a dimensão de ação pastoral que se aborda diz respeito a ação da comunidade, não dos indivíduos delegados da instituição religiosa. Diante desta compreensão é que se abrirá o quinto e último capítulo que tratará da temática Cidadania, com intuito de perceber se a ação pastoral da CMPR conduz os indivíduos à cidadania ou sua atuação está mais voltada ao serviço de capelania e ao assistencialismo.
No capítulo V se abordará a questão da cidade e da cidadania na perspectiva da Comunidade Metodista do Povo de Rua.
No primeiro momento se abordará a questão da cidade como o espaço em que se desenvolve e manifesta a cidadania, e para esta abordagem se aponta duas visões antagônicas, uma em que a cidade é vista como um lugar tenebroso, e a outra como um cenário propício para construção de sinais de esperança.
Segue-se no propósito de construir de diferentes aspectos o conceito de cidadania, mas levando-se em consideração três eixos:
1. Cidadania na perspectiva dos direitos civis; 2. Cidadania na perspectiva dos direitos sociais; 3. Cidadania na perspectiva dos direitos políticos.
Nesta percepção em diferentes espaços em que a cidadania transitou passa-se pela idade média, modernidade líquida, e transita-se pela cidadania no Brasil, apontando que três foram as dificuldades para sua instalação e concretização, a saber: o período da escravidão; o coronelismo ainda vigente em estados do Brasil; e o regime militar de exceção, com o golpe militar de 1664 e a posterior edição do Ato Institucional nº 5 que restringiu os direitos democráticos dos cidadãos.
Apresenta-se um quadro sintético das compreensões diversas da cidadania e encaminha- se uma reflexão acerca de uma pastoral que possa conduzir à cidadania.
CAPÍTULO V
CIDADE E CIDADANIA. Reflexões e Caminhos para a Pastoral Cidadã.
Introdução
A elaboração da pesquisa que se apresenta no capítulo que segue, lida com a dificuldade de reunir termos que demandam de citações e exposição de noções, sendo por isto trabalhoso ao construtor e ao leitor, considerando-se que se optou por reunir num mesmo grupo, numa linha histórica, as categorias cidade e cidadania, e nesta perspectiva aproximar-se da proposta da Comunidade Metodista do Povo de Rua que tem como seu objetivo, conforme apontado no capítulo segundo, a promoção humana e a construção da cidadania.
Arzemiro Hoffmann149 apresenta uma relação culminante entre o Jardim do Éden e a Nova Jerusalém como princípio da boa criação de Deus. Deus é o princípio causador de ambas, sujeito desta ação que culmina em adoração e santificação, sendo Ele tudo em todos.
A cidade histórica, no entanto, é uma criação do humano (HOFFMANN 2007, p. 32)150. Onde é de sua responsabilidade toda a estrutura constituída. Portanto, o destino da cidade está nas mãos de seus construtores e cada um escolherá pretensa e livremente a maneira como deseja viver, conviver e sobreviver.151 Por isso a cidade tal como civilização e como criação de Deus, é na verdade, um artifício do próprio homem (HOFFMANN 2007, p. 32-35).152
As cidades são conhecidas emblematicamente como lugares em que se negam o direito a vida, e por outro lado, local onde o homem, sob um dominador, sofrerá mediante várias expressões de violência e opressão. Tal princípio norteador do espírito de política, poder e de conquista constitui a essência da cidade, conforme Jacques Ellul153 argumenta:
A cidade é agora o centro a partir do qual se faz a guerra. A civilização urbana é uma civilização bélica. O conquistador e o construtor já não são distintos. Ambos habitam em um só homem, e ambos são a expressão dessa ambição de poder que é rebeldia contra o Senhor. As Escrituras nos dão aqui um segredo a mais sobre a cidade. E nosso mundo moderno não os desmente. Que mundo poderia demonstrar melhor do que o nosso paralelo entre civilização urbana e civilização bélica? Um mundo no qual a cidade e a guerra tem chegado a ser dois pólos ao redor dos quais gira toda vida econômica, social e política de nosso tempo... Mas Nironde não esta sozinho. Ele está do Senhor (HOFFMANN 2007, p. 36).154
De acordo com a narrativa bíblica, Nironde é típico do monarca tirano, protótipo dos monarcas assírios, e fundador de Babel. 155 A Babel é emblematicamente a construção da obstinação pelo poder, matriz das ditaduras autodivinizadas, mas que amargará o fracasso de seu ufanismo humano (HOFFMANN 2007, p. 36).156
Na tentativa de corrigir está possibilidade ou realidade intrínseca do destino catastrófico da cidade, do fim inexoravelmente trágico, Castro se ergue na disposição de “explorar caminhos novos para uma prática política democrática que, mediante a vivência de uma cidadania ativa, o povo possa identificar e superar a matriz mítico-teológica e dizer não à políticas clientelistas e corruptas, a fim de encontrar novos instrumentos políticos para discutir o mundo público” (CASTRO, 200, p. 63).
O mesmo autor Clovis Castro, citando Castells e Borja, indica que as cidades, e particularmente as metrópoles, devem responder a cinco tipos de objetivos:
Nova base econômica, Infraestrutura urbana, Qualidade de vida,
Integração social e governabilidade,
Comunicação e mobilização dos cidadãos (CASTRO, 2000, p. 80).
E a partir desta perspectiva é possível desenvolver uma ação pastoral urbana que considere todos os encargos sociais, econômicos, financeiros, morais, espirituais e outros que pesam sobre os ombros dos seres humanos que embarcaram na tendência mundial de urbanização, na qual hoje parte significativa da população mundial vive em centros urbanos. Torna-se, portanto, um desafio à pastoral, apontado por Castro:
“Como a ação do povo de Deus na realidade cotidiana, onde na relação tempo e espaço, o ser humano se encontra. A preocupação básica da pastoral é a eficácia e a relevância da fé cristã.
Pastoral é também responsável pela inserção do povo de Deus no espaço público. Pastoral é ação intencional, sistemática, organizada coletivamente. É fruto do esforço missionário da igreja em busca de mudanças [...] É a ação que instaura o novo” (CASTRO, 2000, p.105).
Tornou-se comum a superexploração da categoria cidadania, que acaba gestando novos sentidos. Cidadania é empregada para referir-se a direitos humanos157, ou direitos do consumidor e usa-se o termo cidadão para dirigir-se a um indivíduo qualquer, desconhecido. De certa forma, faz sentido a mistura de significados, já que a história da cidadania confunde-se com a história dos direitos humanos, a história das lutas das gentes para a afirmação de valores éticos, como a liberdade, a dignidade e a igualdade de todos os humanos indistintamente; existe um relacionamento estreito entre cidadania e luta por justiça, por democracia e outros direitos fundamentais asseguradores de condições plenas de dignidade e sobrevivência.
Do latim, cidadania, trata-se do indivíduo habitante da cidade (civitas), na Roma antiga. Indicou a situação política de uma pessoa e os direitos que essa pessoa tinha ou não, e o que poderia exercer em relação ao Estado Romano, exceto mulheres, escravos e crianças. Dalmo Dallari afirma
A cidadania expressa um conjunto de direitos que dá à pessoa a possibilidade de participar ativamente da vida e do governo de seu povo. Quem não tem cidadania está marginalizado ou excluído da vida social e da tomada de decisões, ficando numa posição de inferioridade dentro do grupo social (DALLARI, 1999, p. 14).158
Dando-se conta da dimensão e complexidade dos sentidos da cidadania na linguagem contemporânea passa-se a fazer pontuações em diferentes momentos acerca desta categoria, que sendo um tema tão acentuado e complexo nos dias atuais, faz-se para seu entendimento o esforço de cercá-lo em diferentes épocas e contextos.
Covre-Manzine159 traça uma linha histórica e evolutiva do termo, como segue:
Cidadania é uma categoria multifacetada que na década 60 e 70 não somavam atenção, entretanto com os movimentos sociais e políticos de abertura no Leste Europeu, o tema emergiu e se consolidou para o Brasil na Carta Constitucional de 1988, muito embora sua inspiração date de períodos remotos como 1776 – Carta de Direitos dos Estados Unidos, 1798 – Da revolução Francesa e 1948, a Carta de Direitos da Organização das Nações Unidas. A prática da cidadania tem em vista a construção de uma sociedade melhor, concedendo ao cidadão o direito de vida em sua plenitude de oportunidades. A cidadania, portanto, abrange os direitos humanos no viés dos direitos civis, políticos e sociais. A forma de compreender a cidadania ver como ela se desenvolve juntamente com o capitalismo, pois também estará vinculada à visão que o instaurou: a classe burguesa.
Covre-Manzine nos indica as vertentes que posteriormente retornaremos, quais são: a) Cidadania na perspectiva dos direitos civis
b) Cidadania na perspectiva dos direitos sociais c) Cidadania na perspectiva dos direitos políticos
A seguir se traçará o histórico por onde o conceito de cidadania transitou da Idade Média à Moderna, chegando-se à Modernidade, e como o conceito aportou no Brasil tendo diante de si um histórico de escravidão, exclusão social de negros, índios, mulheres, o coronelismo e os regimes militares até a formulação da Constituição de 1998, que dá força a categoria da cidadania, finalmente apontamento de eixos na construção de uma ação pastoral que postule pela promoção humana e construa a cidadania.