Quando Sandra Gilbert e Susan Gubar (2000) pesquisaram material para um Curso sobre literatura feminina a ser ministrado em 1974, na Universidade de Indiana, foram surpreendidas pelas marcas de identidade semelhantes em várias obras de autoras de épocas e origens diferentes e distantes, como Jane Austen, Mary Shelley, Emily e Charlotte Brontë, Emily Dickinson.
Metáforas de desconforto quer físico, quer psicológico, delimitaram e caracterizaram esses modelos.
Passada a surpresa, concluíram que todas as escritoras estudadas mostraram algum tipo de confinamento, tanto literário como figurativo, porque enclausuradas em uma sociedade arquitetonicamente masculina, onde apenas nos sótãos sobrava lugar para elas.
Tal qual menciona Theresa Margarida, no Prólogo de seu romance - “...lembre-te que é de mulher, que nas tristes sombras da ignorância suspira.”- a
tomada de consciência dos poderes exercidos pela sociedade de todos os tempos estabelece o que Foucault chama de procedimentos de exclusão, onde a interdição estabelece limites do dizer, onde, como e para quem,
[...] como se o discurso, longe de ser esse elemento transparente ou neutro no qual a sexualidade se desarma e a política se pacifica, fosse um dos lugares onde elas exercem, de modo privilegiado, alguns de seus mais temíveis poderes[...] (FOUCAULT, 1995 P.9).
Ainda citando o filósofo, “o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar” (id.ibid. P.10).
Pensando a loucura como ausência de obra, Foucault vê um parentesco, uma semelhança, entre ela e a experiência literária: ambas são ruína, derrocada, desmoronamento da linguagem, conforme analisa Roberto Machado (2000 P.43).
Pode-se, no entanto, estabelecer uma grande diferença entre a loucura e a literatura: enquanto a loucura é a destruição total, a transgressão da escritura é a construção da obra pela força da linguagem literária.
Theresa Margarida como escritora vê seu universo de saber e crescimento delimitado pelo gênero (masculino x feminino): interditada como prosadora, rejeitada como mulher, ratificando uma posição medieval, onde a loucura era a interdição e a separação do mundo poderoso dos “normais”. Considerado louco era aquele cujo discurso não poderia circular como o dos outros.
Ora, ainda nos séculos XVII e XVIII, por razões disfarçadamente religiosas, a figura feminina que se manifestasse com marcas que identificassem um saber que fugia do alcance e da compreensão de todos, era vista como feiticeira ou louca, não podendo testemunhar política ou juridicamente, escolher ou selecionar suas intenções e ações, nada mais lhe restando que, literalmente, o isolamento do cárcere.
Na “exemplar” França, o século XVII representou o final da caça às feiticeiras, que durara mais de um século. Portugal, herdeiro de uma postura de perseguições e condenações, por conta não apenas do imaginário como também de um período inquisitório religioso, ainda até o século XVIII, mescla as tradições cristãs com recordações de fogueiras e processos que pertencem à memória coletiva e que deixam a figura feminina em um destaque negativo.
Confinada à vida doméstica ou à vida conventual, era necessário que a mulher se limitasse à intimidade do lar e, especialmente, de um recanto oculto, para
expressar suas ideias em cartas, poemas e semelhantes, como uma forma de desabafo e catarse.
Ainda no início do século XIX essa posição terá validade, “as palavras do louco eram o lugar onde se exercia a separação”, diz Foucault (1996 P.10). E, por esse motivo, não podiam ser ouvidas ou recolhidas. Só era dada ao louco uma palavra simbólica, teatral. Ora, à mulher, da mesma forma, era dada a oportunidade de manifestação limitada, se aceita fosse!
Era necessário, pois, fazer frente a essa barreira intelectual e social, já que culturalmente a atuação parecia mais difícil.
Theresa Margarida não era pessoa de ficar em silêncio diante de procedimentos com os quais não concordasse. Porém essa noção de censura individual, particular, encontra obstáculos na presença de uma censura social, imposta por autoritarismos quer políticos, quer familiares.
Na autora luso-brasileira, “silenciar” (como não-dizer), quer aos procedimentos históricos, quer às ideologias de momento, conduz a um sentido migratório para a ficção, especificamente, para a epopeia, visto substituir o não-dizer ideológico pelo dizer fictício.
Com essa marca de identidade, tanto Theresa Margarida como As Aventuras de Diófanes provocam duas estratégias de leitura:
1. pela escritura, o leitor é levado à busca de entendimento do discurso subjacente ao texto;
2. pela leitura propriamente dita, o leitor é levado à formação de um arquivo de conhecimentos que podem direcionar ao entendimento (hipotético ou não) dessa escritura.
Nessa linha de raciocínio, é possível uma apropriação da ideia de Chauí sobre o “mito fundador”(CHAUÍ, 2000), considerando-se que a escritura apresenta marcas que identificam Aventuras de Diófanes como o fundador da narrativa feminina em língua portuguesa, colocando Theresa Margarida oscilante entre três tempos diferentes, que dão conta da desordem do mundo em que ela vive:
• tempo cíclico, humano, histórico, em que há a repetição dos fatos históricos e sociais, os erros régios, as falhas governamentais contra os povos;
• tempo dramático, quase bíblico, que marca o afastamento humano do Deus que protege e salva e da reconciliação com esse mesmo Deus; • tempo profético, judaico-cristão como uma expressão da vontade divina
de distanciamento e re-aproximação do homem pela redenção.
Desse modo, a escritora investe em um campo até então inexplorado por mulher portuguesa, que seria o olhar para seu momento, seu tempo, seu espaço, sem que lhe fosse dado o direito de historiar. Parte, então, para uma criação diferente, prosaica, mesmo que tropeçando nos obstáculos que o novo gênero lhe apresentava.
Perguntamos: é possível se reconstruir o tema da condição feminina na literatura pelo agrupamento dos enunciados que Theresa Margarida manifesta?
Segundo Fidelino de Figueiredo (1960 P.66), - ideia que se repete em Gomes Pinharanda - há no povo português duas inclinações constantes, em relação à arte literária:
*o lirismo, quando condensa o universo na alma de cada um, na singularidade das reações pessoais, dos problemas íntimos e dos amores;
*o memorialismo, quando condensa o universo na memória. Vê como um fluir de sucessos que a cada momento pode recuperar uma perda ou frustração. É indiferente às sínteses, às ideias gerais, aos problemas cotidianos.
Pelas possibilidades estratégicas de ativação de alguns temas aparentemente incompatíveis, pode-se afirmar que há uma formação discursiva em todo o pensamento expresso pela autora portuguesa; por exemplo, ela camufla o tema implícito “casamento” com conjuntos temáticos diferentes e fatos e linguagem labiríntica, e nessa regularidade de misturas há uma ordem: seu discurso.
Incipiente, há, em Theresa Margarida, uma forma difusa de criação psicológica, e em lugar da análise dos tipos sociais que descreve, há uma reconstituição de estados morais coletivos, expressos no texto aparentemente prosaico, com muito leves características poéticas.
Observe-se que as Histórias trágico-marítimas, publicadas em 1735/36, são opúsculos avulsos escritos em linguagem viva, impregnada de realismo, com o tom singelo da narração oral, sem adornos ou artifícios, que resgatam como era o mar dos marinheiros portugueses. É um olhar diferente do de Homero, que revela o reverso da medalha do imperialismo português: os triunfos rodeados de misérias e dores.
Metaforicamente, no mesmo barco (sem trocadilhos), com Theresa Margarida, Aventuras de Diófanes é um dos fundadores da fabulização romanesca em prosa de ficção da literatura portuguesa.
A autora não sabia que o século XIX seria o “século do romance”. Quando, na Inglaterra, no século XVIII, surge o romance como forma literária que coincidia com a ascensão da burguesia, o referido gênero daria lugar a uma posição individualizada, direcionada para uma trama de problemas diários, pessoais, fugindo dos temas anteriores explorados pela ficção: mitos, lendas históricas, feitos gloriosos.
Que Theresa Margarida tenha tomado conhecimento das aventuras inglesas do século XVIII, não há dúvidas. Mas ela está adentrando em um campo ainda não explorado em Portugal, e arrisca.
Poucas foram as escritoras inglesas surgidas no século XVII; ficaram restritas ao domínio privado. A atividade literária feminina (considerando-se o “romance”), que se manifestará no século XVIII, poderia ser explicada por diversos motivos: disponibilidade para tempo e lazer, temática de acordo com seus interesses e limites de educação, desconhecimento da tradição clássica, segundo Sandra Vasconcelos (2002 P.103).
Aquele discurso que seria formulado sobre a natureza feminina e seus anseios, conforme seria colocado para a sociedade burguesa, a autora lusa antecipa. Como autora, criará uma situação em que a personagem feminina buscará vencer e se impor, mesmo que para isso seja necessário se travestir. Ela, autora, não! A
personagem, sim! Como nas obras clássicas, será colocada entre as forças do bem e do mal, autêntica ou camuflada, em busca de sua própria heroicidade.
Sucumbir à linguagem poética é dizer amém às imposições antigas, e a escritora quer renovar, quer ser ouvida, quer mostrar um poder que não lhe seria dado se não rompesse com as barreiras literárias e culturais.
A maternidade fora negada aos homens, o que lhes dá o direito (vingativo?) de ver a mulher como musa inspiradora ou como criatura, mas nunca como criadora – posição que a ela empresta o dom da imortalidade.
Theresa Margarida é criadora. Após sua escrita, será necessário se rever a socialização e os valores sócio-culturais portugueses.
Categorizar esta obra da escritora lusa é polêmico. Seria uma literatura tendenciosa, como conceituado por Kaiser (1961), para modificar uma situação problemática de tempo presente? Ou um gênero à parte, entre a novela de formação e o romance doutrinário, tão em voga na época? Ou ainda uma estratégia de camuflagem da autora, com o intuito de se fazer representar em seu universo particular?
Todo sistema de dominação e poder se reveste de um simbolismo. Esse sistema simbólico se faz presente nas religiões, nas artes, na língua, nas crenças, na cultura individual.
Por outro lado, na criação literária também pode ser observada a diversidade de linguagens organizadas que se colocarão na determinante dessa criação de um gênero literário que revela um gênero sexual.
A estratificação interna de uma língua nacional única em dialetos sociais, maneirismos de grupos, jargões profissionais, linguagens de g6eneros, fala das gerações, das idades das tendências, das autoridades, dos círculos [...] toda essa estratificação interna de cada língua em cada momento dado de sua existência histórica constitui premissa indispensável do gênero romanesco. (BAHKTIN, 1998 P.74)
Para se compreender como uma cultura feminina se constrói, no interior de um sistema simbólico feito de relações desiguais de gênero, é preciso levantar um certo número de sinais ou traços, tais como o anonimato, o uso do pseudônimo, as edições distanciadas no tempo, o público-alvo restrito e cúmplice, dentre outros.
Estes traços determinam uma escrita feminina senão contida, pelo menos camuflada por tropos, estratégias e recursos também simbólicos. Se, na posição entre dominadores e dominados, Chartier afirma que “nem todas as fissuras que corroem as formas de dominação masculina tomam a forma de dilacerações espetaculares, nem se exprimem sempre pela irrupção singular de um discurso de recusa ou de rejeição” (1993) - afirmativa essa que faz refletir sobre a trajetória percorrida por Hemirena, da submissão à rejeição, em que a personagem não se limita à palavra, mas marca seu território conquistado pelas ações.
O fato de se ter como modelo obras greco-latinas dá ao leitor dois momentos de reflexão: se a Ilíada é uma epopeia de acontecimento, a Odisseia é uma epopeia de personagens. Pelos relatos de Nestor e de Menelao, Telêmaco aprende o que é regresso. E Theresa Margarida aprende que todo o mundo grego é um mundo em que os homens regressam aos seus lares, após suas conquistas.
Ulisses é um guerreiro portador de um mundo de proporções máximas, que parte para uma conquista contra um mar poderoso. Volta a Ítaca para re-instalar a ordem; lá, tudo é subordinado a ele.
Theresa Margarida segue os passos do mestre e, como Homero, enumera acontecimentos, mas a força dramática de sua história está na atuação de sua heroína, Hemirena, destinada a retornar ao reino e ao lar, como conquistadora.
Como se dará esse evento? Que regras a autora seguirá? Como criará o proto- romance?