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Muitos dos estudos linguísticos pautados na análise de textos hoje têm em vista a importância de considerar a noção de gêneros. Ultimamente, fala-se em gêneros a partir de uma noção que vai muito além da noção aristotélica de gêneros literários, estendendo-se o conceito para toda e qualquer produção discursiva dos sujeitos sociais.

109 Esse alargamento da noção de gêneros devemos a Bakhtin, filósofo da linguagem que postulou que as produções discursivas estão intrinsecamente vinculadas às atividades sociais. Conforme Bakhtin (2003 [1979]), produzimos discursos específicos de acordo com a atividade social que exercemos em dada circunstância e numa dada esfera social de atividade humana. A circunstância, nesse caso, determina nossa produção discursiva ao mesmo tempo em que se realiza, até certo ponto, por meio dela, numa relação de mútua dependência.

Bakhtin (2003 [1979]) considerou o fato de que falamos e escrevemos por meio de enunciados30 concretos e únicos, produzidos na interação. Para o teórico, o enunciado é a unidade real da comunicação discursiva, e constitui um elo na cadeia complexamente organizada de enunciados produzidos pelos sujeitos vinculados às diferentes esferas sociais. É por ser unidade da comunicação discursiva que o enunciado é tomado como algo concreto, materializado, ao mesmo tempo em que, também sendo “irrepetível”, único, é produzido por um locutor numa instância de discurso situada num tempo e num espaço característicos e próprios de cada enunciado.

Com Bakhtin, aprendemos a ver os gêneros como estruturas sócio-historicamente construídas e representativas das necessidades comunicativas dos grupos sociais. Segundo seu posicionamento, cada esfera de atividade humana elabora seus tipos relativamente estáveis de

enunciados, de modo que cada tipo relativamente estável de enunciado é próprio e

representativo de uma necessidade comunicativa específica de determinada esfera social. Ainda aprendemos com Bakhtin a ver cada tipo de enunciado dotado de três partes que o constituem e o determinam enquanto gênero de discurso: conteúdo (temático), estilo (da linguagem) e construção composicional. São fatores que não possuem sentido se entendidos separadamente, pois na constituição do gênero, segundo o teórico, estão indissoluvelmente ligados.

O enunciado, como unidade real da comunicação discursiva, constitui a materialização das estruturas genéricas, algo que faz com que o estudo de gêneros seja pautado em enunciados que, embora concretos e únicos, como afirma Bakhtin, só se

110 materializam a partir de uma estrutura genérica, o que os faz interdependentes. Os gêneros são materializados nos enunciados.

Bawarshi e Reiff (2013 [2010]) destacam o valor das pesquisas de gêneros realizadas no Brasil a partir da forma como é feita uma síntese das tradições linguísticas, retórica e social/sociológica, e dos estudos de gêneros nas tradições francesa e suíça. Para as autoras, isso resulta num modo de ver diferentes “tradições como mutuamente compatíveis e capazes de proporcionar ferramentas analíticas e teóricas pelas quais se possa compreender o funcionamento linguístico, retórico e sociológico dos gêneros” (p. 99). Ou seja, pelos resultados que temos dos estudos realizados sobre os gêneros, vemos que é possível estudar gêneros considerando posicionamentos e direcionamentos teóricos de diferentes perspectivas, como um modo de entender o funcionamento do gênero sob diferentes ângulos de observação e análise.

O destaque dado por Bawarshi e Reiff (2013 [2010]) às tradições francesa e suíça em relação ao “Interacionismo sociodiscursivo”, teoria originalmente baseada em nomes como Bakhtin, Vigotsky, Wittgenstein etc., e que tem tido forte influência nos estudos brasileiros de gêneros, é por essa perspectiva teórica ter se estabelecido “como uma teoria da ação humana baseada em contextos sociais e discursivos e fundamentada em gêneros” (p. 99).

O Interacionismo sociodiscursivo foi desenvolvido principalmente por Bronckart (1999 [1997]), Schneuwly e Dolz (2004), dentre outros, e trata as ações humanas em suas dimensões sociais e discursivas. Logo, a linguagem figura como a característica principal da atividade social humana, tendo em vista que as ações humanas se consolidam em textos de diferentes gêneros produzidos com a finalidade de comunicação. Nessa perspectiva, gêneros são entendidos como produtos das atividades sociais e ao mesmo tempo como ferramentas, já que possibilitam que as pessoas ajam linguisticamente em diferentes situações sociais.

Essa vertente tem sido utilizada principalmente no desenvolvimento de modelos analíticos e pedagógicos para os estudos de gêneros, e, no Brasil, é a perspectiva teórica mais comumente utilizada nos estudos de gêneros. Segundo Bawarshi e Reiff (2013 [2010]), as pesquisas são feitas a partir de uma abordagem que, geralmente, interconecta o Interacionismo sociodiscursivo a outras vertentes teóricas, o que pode resultar, segundo o que

111 observam os autores, numa “rica visão do funcionamento dos gêneros e de como podem ser ensinados em diversos níveis” (p. 101). São incluídas nesta vertente análises que consideram as noções de sistemas de gêneros e sistemas de atividades, que são comuns nos estudos retóricos de gêneros.

Quanto aos estudos retóricos de gêneros, o esforço maior, de acordo com Bawarshi e Reiff (2013 [2010]), é mostrar que os gêneros são mais que ferramentas comunicativas, já que são também “modos socialmente derivados e tipificados de conhecer e agir” (p. 102). Nessa perspectiva, os gêneros estão direta e dinamicamente ligados às situações de uso, colaborando para o bom desempenho das interações sociais. Para as autoras, os estudos de gêneros na Sociorretórica,

requer[em] tanto o conhecimento de seus traços estruturais e léxico-gramaticais como o conhecimento das ações sociais produzidas pelo gênero e das tipificações sociais que embasam essas ações: os motivos, relações, valores e premissas sociais incorporados no gênero, que delineiam como, por que e quando agir. (BAWARSHI e REIFF, 2013 [2010], p. 102)

Como vemos, um estudo de gênero do ponto de vista da Sociorretórica envolve muito mais do que a configuração formal e conteudística, que fornece base para que os gêneros sejam reconhecidos e utilizados em diferentes situações sociais pelos sujeitos. É preciso considerar, conforme os autores, além dos traços estruturais que envolvem categorias de âmbito léxico-gramaticais, por exemplo, as ações sociais tipificadas que realizamos utilizando o gênero, de modo que agimos considerando motivos, relações, valores e premissas que são sociais e estão incorporadas ao gênero, que direciona e tipifica nossas ações retóricas. Assim, os esforços se concentram em explicar como o modo como usamos os gêneros, ao mesmo tempo em que mantêm as práticas e as realidades sociais, ajudam-nos a reproduzi-las dinamicamente.

Benzer Belgeler