ĠKĠNCĠ BÖLÜM ESNEKLĠK
2.4. ESNEKLĠĞĠN BĠYOMOTOR ÖZELLĠKLERLE ĠLĠġKĠSĠ
Várias pesquisas acadêmicas já foram realizadas acerca da retextualização de textos falados para textos escritos e as atividades envolvidas nessa transformação, e todas partem das considerações de base de Marcuschi (2010 [2000]). Por outro lado, pesquisas acadêmicas também vêm sendo realizadas em torno da transformação que ocorre na passagem de textos escritos para textos falados e, ainda, na retextualização entre textos escritos. Destacamos nesta seção alguns trabalhos já desenvolvidos, a fim de situarmos nossa pesquisa tanto em relação a esses trabalhos como em relação ao aspecto da retextualização que temos em vista especificamente nesta tese.
Com pesquisa no âmbito da retextualização de textos falados para textos escritos, Nascimento (2007) investigou, em sua dissertação, o evento Tomada de Depoimento, onde acusados, testemunhas e vítimas relatam ou esclarecem fatos aos “operadores do direito” (p. 11), que são os sujeitos socialmente autorizados a tomarem depoimento: o juiz ou o delegado. O evento Tomada de Depoimento pressupõe, portanto, a presença de três atores: o acusado, que é testemunha e/ou vítima, o delegado/juiz e o escrivão. Assim, o juiz/delegado interroga o acusado (testemunha e/ou vítima) e, de acordo com o que este fala, retextualiza para que o escrivão registre o depoimento escrito.
Abasse (2008), com o propósito de fazer uma pesquisa que contribuísse para a ampliação das possibilidades de trabalho do professor em sala de aula, analisou a produção do resumo escolar como uma prática escolar resultante da atividade de retextualização, em que se produz um novo texto a partir de um primeiro, que participa, por sua vez, de outro gênero. Logo, foram investigados processos envolvidos na retextualização escrita de textos para o gênero resumo-escolar, com base nas postulações de Marcuschi (2001 [2000]), Matêncio (2002) e Dell’Isolla (2007), acerca dos processos de retextualização, e de Koch (1992), sobre
98 malha tópica. As conclusões da pesquisa apontaram para a existência de uma reordenação tópica do texto, com uma notável redução de informações, com omissões e seleções, e que o aprendizado do gênero resumo pelo aluno por meio da retextualização de outros textos se mostra como um instrumento eficaz de ensino-aprendizagem da escrita.
Malta (2008), em sua dissertação, analisou a retextualização no conto tradicional, investigando a existência ou não de “refinamento das narrativas orais e escritas produzidas pelos alunos de diferentes grupos sociais em relação às narrativas produzidas pelos mesmos, antes e depois do contato, uso e análise de um conto tradicional” (p. 19). Já a tese de Militão (2007), também realizada sobre as produções escritas, foca os alunos de graduação. A pesquisa compreende uma análise dos aspectos cognitivos e culturais na retextualização de textos acadêmicos, realizando uma descrição dos movimentos cognitivos dos alunos, através de verificação da relação entre a definição prévia dos objetivos da aula e os movimentos cognitivos necessários à sua escuta, compreensão e retextualização em textos escritos. Também situadas na esfera acadêmica, Mata (2009) e Marega (2009) desenvolveram, respectivamente, um estudo sobre os processos referenciais na retextualização de textos acadêmicos, na retextualização entre textos escritos, e um estudo comparativo da organização tópica de palestras e suas retextualizações, considerando a relação entre língua falada e língua escrita
Com pesquisa realizada também no âmbito acadêmico, mais recentemente, a tese de Silva (2013) apresenta um estudo do processo de retextualização na exposição oral acadêmica de alunos da graduação, investigando as relações entre compreensão de textos base e de textos de apoio e a mobilização de processos de retextualização. A análise de dados mostrou que os expositores demonstram envolvimento com o conteúdo de textos-base ao se posicionarem sobre eles ou ao fazerem exemplificações a partir da análise do tema, mas apresentam também dificuldades na produção da exposição oral acadêmica, sobretudo, no sentido de atender à formalidade do gênero.
Trabalhando com o gênero notícia, Grijó (2011) partiu do objetivo de estudar e propor metodologias de ensino que aperfeiçoassem o processo de desenvolvimento das habilidades de leitura e escrita de alunos e, como outras pesquisas acadêmicas sobre o
99 processo de retextualização, voltou-se para o ambiente da sala de aula. A autora desenvolveu pesquisa com o processo de retextualização entre gêneros escritos, analisando produções textuais de alunos da “turma de projetos” (conforme era conhecida na escola em que a pesquisa aconteceu), de uma escola do estado de Minas Gerais. A turma era formada por alunos retidos no final do 9º Ano do Ensino Fundamental, por ser observado que eles não possuíam habilidades e competências desenvolvidas suficientemente para o Ensino Médio.
Para analisar as fábulas e as notícias produzidas pelos alunos, a autora se baseou teoricamente nas postulações de Mann & Thompson (1983), Decat (2010) e Antonio (2004), sobre a Teoria da Estrutura Retórica, na concepção de gêneros de Bakhtin (2003 [1979]) e de Bazerman (2006) e nos pressupostos teóricos e de análises de retextualização de Marcuschi (2010 [2000]) e Dell’Isola (2007). Metodologicamente, Grijó (2011), em sala de aula com os sujeitos da pesquisa, utilizou uma primeira proposta de produção textual do livro didático adotado na escola; posteriormente, propôs aos alunos novas produções textuais baseadas na retextualização.
Metodologicamente, a pesquisa de Grijó (2010) foi organizada em etapas didáticas: depois da leitura de uma fábula (O Lobo e o Cordeiro), a autora propôs aos alunos uma retextualização da mesma narrativa (um reconto) no mesmo gênero, a fábula. Em seguida, pediu que os alunos retextualizassem mais uma vez, desta vez produzindo um texto no gênero notícia. A autora chama a atenção para o fato de que a produção textual se deu depois do contato com o gênero notícia por meio de jornais e revistas diversos. Conforme Grijó, foram levados em conta os processos de leitura e produção dos textos trabalhados, buscando envolver os alunos no processo de escrita, com a utilização de textos reais e, dentre outros aspectos, chamando a atenção para a relativa instabilidade dos gêneros.
O gênero notícia aparece na terceira etapa da pesquisa, em que, numa segunda retextualização (a primeira, como já dissemos, foi do gênero fábula para o gênero fábula), os alunos são motivados a produzirem uma notícia a partir da fábula já estudada em sala de aula. Segundo a autora, os textos produzidos evidenciaram compreensão por parte dos alunos da proposta textual da pesquisadora, muito embora o fato noticiado, mesmo acrescido de
100 informações reais oriundas do convívio social dos educandos, tenha partido de um fato construído e já retirado da própria fábula.
Para a sala de aula, a saída utilizada por Grijó (2010) parece ser bastante eficaz, já que foge de uma rotina de produção escrita que apenas seguia uma proposta de atividade do livro didático, se enriquece com outras fontes de leituras (como revistas e jornais) e, na leitura e discussão desses, cria uma situação de produção que, certamente, motiva a produção textual dos alunos. O trabalho com a produção escrita de forma situada, considerando o gênero que está sendo produzido e o que está envolvido na produção desse gênero, como o que se diz, para quem e para quê se diz, decerto otimiza o trabalho do professor e aponta para resultados positivos no que diz respeito ao aprendizado dos educandos.
Diferentemente de Grijó (2010), em nossa pesquisa, não objetivamos propor metodologias para o ensino e/ou o trabalho com a produção textual escrita no Ensino Básico, nem mesmo no Ensino Superior. Mesmo sabendo da importância do trabalho com o processo de retextualização no ensino, sobretudo no trabalho de desenvolvimento das habilidades de leitura e escrita dos alunos, nosso estudo vê a retextualização sob outro ângulo. Embora, como Grijó (2010), trabalhemos também com o gênero notícia, vemos o processo de retextualização a partir de uma situação real de produção textual, através da análise do processamento da informação na construção da notícia publicada em portais jornalísticos, na internet.
Pelos trabalhos sobre retextualização mencionados nessa seção 2.2, percebemos que há uma predominância de estudos com o processo de retextualização voltados para o ensino, na educação básica e no âmbito acadêmico, com pesquisas sobre organização, compreensão e produção de textos que participam de diferentes gêneros. A retextualização, normalmente, é investigada em situações reais de uso linguístico, seja no âmbito educacional ou fora dele, e utilizada como ferramenta didática na sala de aula, para desenvolver diferentes habilidades almejadas pelo ensino formal.
Fora das pesquisas realizadas no âmbito educacional e/ou acadêmico, Gomes (1995) desenvolveu, em sua dissertação, um trabalho sobre jornalismo científico, estudando os mecanismos linguísticos envolvidos na transposição de entrevistas com cientistas em textos jornalísticos publicados em jornais impressos. A autora se baseou fundamentalmente em
101 Marcuschi (1993), no texto “Da fala para a escrita”29, precursor do livro “Da fala para a escrita: atividades de retextualização”, cuja primeira edição data de 2000, e em Van Dijk (1985; 1989; 1990; 1992) sobre a transformação de textos-fontes em textos jornalísticos.
O objeto de análise da pesquisa de Gomes (1995) foram entrevistas concedidas por cientistas a jornalistas e as matérias jornalísticas oriundas das informações cedidas nas entrevistas pelos cientistas. Assim, a autora analisou quatro conjuntos de textos formados por matérias publicadas na editoria de Ciência / Meio ambiente do Jornal do Commercio, do Recife, juntamente com as entrevistas orais que as originaram.
Embora reconhecesse a existência e o envolvimento de mais textos, Gomes (1995) optou por analisar em sua pesquisa apenas a entrevista como constituinte da modalidade de texto-fonte. Segundo a autora, isso se deu para que não fossem criados problemas metodológicos, como a falta de uniformidade dos critérios de análise, com a análise de textos falados para textos escritos, em um momento, e de textos escritos para textos escritos, em outro, e a dificuldade de controle dos textos-fonte, já que alguns desses, como ligações telefônicas, para a checagem de informações, são textos cujo acesso se torna difícil.
Na análise dos dados, Gomes (1995) explicou processos resultantes da retextualização da entrevista oral para o texto jornalístico, no tocante à redução do volume de linguagem e às operações linguísticas envolvidas nesse processo, bem como as implicações em relação ao texto-fonte. Foi tratado ainda, na análise, das transformações ocorridas em citações indicadas como textuais e da estrutura dos textos jornalísticos, formada, basicamente, pelos títulos, antetítulos, subtítulos e lides.
Gomes (1995) concluiu que a transformação de entrevistas em matérias jornalísticas tem por princípio a redução informacional (p. 71). Isso foi visto pela autora como um
princípio redutor que se deve a duas razões básicas: a primeira é que o texto produzido na
entrevista jornalística (direcionada a veículos impressos) é excessivamente redundante; e a segunda se deve às normas do jornalismo, que levam à eliminação de muitas informações. Para a autora, na retextualização da entrevista jornalística para o texto jornalístico, entram em
102 ação operações que suprimem características da fala e adequam estilisticamente o texto às normas do jornalismo, ocorrendo juntamente com o princípio redutor. Gomes considerou que, apesar de o princípio redutor se assemelhar às estratégias do resumo, ele vai além da sintetização, por implicar a supressão de informações. Nesse sentido, a autora elencou três elementos que dão a base do que ela denomina de princípio redutor: a clareza, a simplicidade e a concisão.
Esses princípios, conforme a autora, correspondem a necessidades contrárias do jornalismo de, a partir de uma entrevista extensa, produzir uma matéria curta. Nesse sentido, a clareza e a simplicidade visam ao público, para que o leitor não faça exercícios complicados de textos longos, e a concisão, além de considerar o leitor, é devida a pouca disponibilidade de espaço editorial. Por concisão, Gomes (1995) entende a exposição de ideias de forma sucinta, mas ainda a eliminação de informações menores, consideradas secundárias.
A análise do trabalho foi baseada nas categorias de eliminação, substituição, acréscimo e reordenação, considerando os modelos teóricos sugeridos por Van Dijk (1985; 1989; 1990; 1992) e Marcuschi (1993). Os termos utilizados pela autora foram, basicamente, aqueles apresentados por Van Dijk, porém, as categorias envolviam e englobavam as apresentadas por Marcuschi. Além dessas categorias, preocupada com a repercussão da retextualização do texto-fonte, a autora analisou também a conservação do conteúdo e a alteração do conteúdo. Esses podem ocorrer em níveis de gradação, com a alteração podendo envolver desde a supressão até o falseamento de informações.
As categorias teóricas para a análise da retextualização, no processamento dos textos-fonte no texto jornalístico, foram eleitas a partir de uma fusão entre as categorias propostas por Marcuschi (1993) e as categorias propostas por Van Dijk (1985; 1989; 1990; 1992). Segundo Gomes (1995), embora as categorias propostas por Van Dijk sejam pertinentes, o autor limita as observações ao aspecto informacional, e Gomes entendeu que as operações de transformação do texto-fonte em matéria jornalística repercutem também nos itens lexicais, nos conectivos, e nos tempos verbais e modos empregados, ou seja, mostram a necessidade que o estudo vá além do nível informacional.
103 A utilização dos modelos teóricos propostos por Marcuschi e Van Dijk também está relacionada à proposta da pesquisa de Gomes, que lida com a transformação da fala em escrita e a redução das informações do texto-fonte. Nesse sentido, não vemos a proposta de Van Dijk como limitada por se ater fundamentalmente ao aspecto informacional, haja vista que o autor visa ao processamento dos textos-fonte para construção do discurso jornalístico, que é formado, sobretudo, por informações. Logo, não é a proposta de Van Dijk que é limitada é a pesquisa de Gomes que se atém mais especificamente à transformação da fala em escrita, um fenômeno que envolve, além do processamento de informações, outras características específicas de cada modalidade da língua.
Concordamos com a afirmação de Gomes (1995, p. 91), quando ela diz que nos dois modelos apresentados, de Marcuschi e Van Dijk, temos operações similares. No modelo proposto por Van Dijk são apresentadas basicamente quatro operações para a retextualização de textos-fonte em textos jornalísticos: a eliminação, a substituição, que envolve ainda a
generalização e a integração, o acréscimo e a reordenação. Nas operações para a
retextualização da fala para a escrita, fora aquelas apresentadas por Van Dijk, Marcuschi acrescenta a seleção. A análise empreendida por Gomes utilizou as operações de Van Dijk e Marcuschi que coincidem, quais sejam a eliminação, a substituição, o acréscimo e a
reordenação.
Na estratégia de eliminação, Gomes (1995) analisou a eliminação das marcas de oralidade (na passagem do texto oral para o escrito), a eliminação de informações, a eliminação sintática (com a reordenação de informações) e a eliminação lexical. Na estratégia de substituição, analisou a substituição informacional (que visa a atender as normas de escrita jornalística, que tem como objetivo deixar o texto conciso), a substituição lexical (com a regularização linguística para atender aos cânones do jornalismo) e a substituição sintática (que pode ir desde a substituição de um tempo verbal até a reestruturação sintática de orações). Na estratégia de acréscimo, foram analisados os acréscimos de marcas da escrita, o acréscimo informacional, o acréscimo lexical e o acréscimo sintático. Na estratégia de reordenação, que é determinada por critérios de relevância, foram analisadas a reordenação informacional (localizando as informações julgadas como mais importantes para o início do
104 texto e os detalhes e/ou informações secundárias para o final) e a reordenação sintática (com a mudança na estrutura sintática das orações).
Assim, vemos organizadas as estratégias de retextualização, e os desdobramentos dessas, diagnosticadas por Gomes em seu estudo, a partir da análise do corpus, no Quadro 4:
Quadro 4: Estratégias de Retextualização e desdobramentos destas a partir da análise de corpus de Gomes (1995)
ESTRATÉGIAS DE