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Lembra-nos o autor que não há por que restringir esse tipo de efeito

à ordem econômica. Na realidade, "podemos afirmar, sem exagero, que são onipresentes na vida social e que representam uma das cau­ sas fundamentais dos desequilíbrios sociais e da mudança social" . 1 7

Se é verdade que a noção do que chamamos hoje efeitos perver­ sos remonta a Mandeville, Adam Smith e Rousseau, ou seja, que re­ monta aos precursores mais importantes da Sociologia, é verdade tam-

1 5 Raymond Boudon, Efeitos perversos e ordem sodal, Rio de Janeiro,

Zahar, 1979. 16 Idem, p. 7. 17 Ibidem, p. 7.

bém, nos lembra Boudon, que após Marx, essa trarução foi interrom­ pida em Sociologia. Não é difícil sugerir uma razão possível de

tal

in­ terrupção. Incluir nos poderosos modelos teóricos sistêmicos con­ tingências de vida cotidiana, como as que alimentam e dão sentido

à

lógica dos efeitos perversos, parecia, não só estranho, como inteira­ mente equivocado em termos analíticos. A perda de uma espécie de segurança anterior abre espaço para inúmeras possibilidades

de

aná­ lise e interpretação que se constituem em um desafio permanente

à

imaginação sociológica. DC5afiO de um exercício de olhar de forma

diferente para o que parece o "mesmo e antigo fenômeno", na tenta­ tiva de buscar o que provavelmente nem é o mesmo, e nem tão

anti­

go

fenômeno. Para resumir em poucas palavras a noção de efeito per­ verso, pode-se dizer, de novo com Boudon, que

efeito perverso quando dois

indivíduos (ou mais) que buscam

um

dado objetivo ger:un um estado de coisas não buscado e que pode ser

indesejável do ponto de vista seja de cada um dos dois, seja de um deles." O acompanhamento das discussões que envolveram a Reforma

de

1968,

o contato com as propostas formuladas pelo Conselho Federal de Educação, particularmente aquelas que tiveram autoria ou partici­ pação mais direta de Newton Sucupira e o olhar sobre a crise que se abateu sobre a educação brasileira, incisivamente sobre a formação de professores, pedra central na idealização das faculdades de Edu­ cação, tudo isso me levou à suposição de que um efeito perverso, como sugeriu Boudon, poderia ser uma sugestão interessante para avaliarmos os desdobramentos que advieram da Reforma de

1968.

Newton Sucupira esteve empenhado, como vimos ao longo deste texto, em aprimorar o ensino superior conferindo lugar de destaque

às

faculdades

de

Educação. Contava muito em sua avaliação a experi­ ência norte-americana do "College" e, como relata mais adiante, aos

1 8

Raymond Boudou, Efeitos perversos

e ordem social, op. cit., p . 20.

Neu)/oll Sucupira e os rutnos da eduatÇtÍo superUJr

"respectivos cursos 'undergraduate', que conduzem ao primeiro grau acadêmico - o grau de 'bachelor', .. "19 Trata-se de uma fase inter­

mediária entre o ensino secundário e os altos estudos desinteressa­ dos ou profissionais. Segundo ele, esta é uma lacuna que as faculda­ des de Filosofia teriam a preencher, mas não o fizeram. "Recompos­

tas em novos termos" - Sucupira se refere

ãs

alterações provocadas pela Reforma

de 1968

- "poderão tais faculdades abrigar a versão

brasileira daquele grau intermediário de ensino, cometido aos famo­ sos 'colleges' ingleses e norte-americanos".w No entanto, o profes­ sor Sucupira já sabia que o programa de refornta universitária não havia sido bem-sucedido nesta tarefa. A reforma que se implanta, es­ creve ele em

1969,

desinteressou-se da fórmula sugerida. .. Optou pela criação, em subs­ tituição à dita Faculdade, de múltiplas escolas e institutos. Um para

cada área ou setor fundamental de conhecimentos.21

E assim, fragmentou uma tarefa que nos "Colleges" é una e global em seu sentido singular e integrador.

A ell.'pectativa e a ambição com relação

ãs

faculdades de Educação eram grandes. Além de

dar

sentido propriamente universitário à uni­ versidade, elas teriam que estar comprometidas com a atualização e

incorporação de novas metodologias e novas tecnologias, dos meios de comunicação na área educativa. Os membros do Conselho Federal de Educação estavam convencidos dessas ambiciosas funções.

É de

Celso Kelly a afirmação:

As faculdades de Educação não podem mais, neste século, omitir a

19 Newton Sucupira, "Da Faculdade de Filosofia à Faculdade de Educa­

. ção" , op. cit., pp. 288-289.

20 Idem, p. 288.

2 1 Newton Sucupira, "Da Faculdade de Filosofia à Faculdade de Educa­ ção", op. cil., pp. 288.

sua responsabilidade na fonnação de mestres e orientadores para o exercício das novas linguagens, integradas no esforço educativo."

Nos anos

1960,

essa discussão ganha corpo. Anísio Teixeira, que desde a década de

1920

alertava paca a necessidade de criação

das

Escolas de Educação, e que nos anos

30

sofrera os efeitos da ação re­ pressiva do governo ditatorial por sua liderança na

UDF,

no final dos anos

60

volta a sustentar suas posições. Planejar a formação do magistério, no

que

diz

respeito a treinamento e prática, era uma "necessidade bélica".

As escolas de educação avançadas, ou seja,pós-gradUOfÕO, são esses estados-maiores, que juntarão capactdade de estudo e de ação para ajudar a realização com êxito da bata1ba do ensino. Z3

No projeto de Anísio Teixeira, a reflexão sobre educação se faria no nível da pós-graduação, ou seja, seria um aperfeiçoamento metodológico a partir de saberes constituídos. A essência de sua pro­ posta consistia na combinação de alto nível entre

prática

e

pesquisa

educacional, uma experiênda distinta da que vigorou ainda no final dos anos

1960

com as Faculdades de Filosofia, Ciêndas e Letras, como pudemos acompanhar também com a avaliação de Newton Sucupira. A ambição era unir no ensino superior as experiências das escolas normais (experiências práticas) e das escolas de medicina (com seus laboratórios de pesquisa).

Os cursos de Pedagogia sucumbiram em função do fetiche de nor­ mas e procedimentos reguladores do ofício do magistério, que teve seu início com Francisco Campos, jurista que se esmerou na redação dos procedimentos de controle, normalização de fichas de aula, formalização dos planos de atividades, de cursos, e pela formatação dos

22 Cf. Celso Kelly, "Faculdades de Educação", Documenta, n. 91, set 1968,

p. 1 12.

23 Anísio Teixeira, "Escolas de Educação". Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, Rio de Janeiro, Vol. 5 1 , n. 1 14, abr-jun 1969, p. 240 (meu grifo).

Newton Sucupira e os rumos da educação superior

processos de avaliação. Em uma conjuntura posterior,

tudo isso

acaba retomando

à

cena com o rol dos "conteúdos programáticos" que um

pedagogo aprende nos corsos de Pedagogia, e que exerce como espe­ cialista desmotivado nas unidades escolares. Pode-se responder a esta provocação com a menção aos cursos de Teoria da Educação, Filo­ sofia da Educação, Avaliação da Aprendizagem, Técnicas de Pesquisa em Educação, Educação Comparada, História da Educação, Psicolo­ gia Infantil, Psicologia da Aprendizagem, Psicologia Experimental, en­ tre outros. Mas, com que grau de maturidade íotelectual um estudante

recém-saído do segundo grau enfrenta toda essa bateria de reflexões teóricas a respeito da educação e das mais pertinentes e sofisticadas metodologias de ensino? Não permanecemos no mesmo ponto críti­ co, qual seja, um aprimoramento de processos de como ensíoar sem um equivalente acúmulo de conhecimento sobre

o

que ensinar?

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Benzer Belgeler