4. CELİL OKER’İN ROMANCILIĞI
4.2. ROMANLARI
4.2.5. Son Ceset
Luto é o termo usado para designar o afeto daqueles que sobrevivem à perda de um ente querido, e há, para esse trabalho, um importante texto de Freud intitulado “Luto e melancolia”279, que pode trazer alguma luz sobre o que se propõe discutir aqui. Nesse artigo, na tentativa de diferenciar essas duas afecções, o psicanalista opõe uma outra, sendo o luto um afeto que está na ordem do normal e a melancolia, aquilo que foge do normal280. Sobre o luto, o psicanalista afirma: “O luto, de maneira geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade
278 OZ. De amor e trevas. 2005. p. 515.
279 FREUD. A história do movimento psicanalítico, artigos sobre metapsicologia e outros trabalhos. 1974.
v. 14, p.270.
280
ou o ideal de alguém, e assim por diante”281. Entretanto, a melancolia, diferentemente do luto, apresenta outras características:
um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade, e uma diminuição de sentimentos de auto-estima a ponto de encontrar expressão em auto-recriminação e auto-envilecimento, culminando numa expectativa delirante de punição282.
No entanto, os dois afetos apresentam características em comum, pois o luto, como a melancolia, inclui o mesmo estado de espírito doloroso, a mesma perda de interesse pelo mundo externo e a mesma perda da capacidade de adotar um novo objeto de amor (o que significa substituí-lo). O indivíduo afetado pela primeira afecção afasta-se de toda e qualquer atividade que não esteja ligada ao objeto perdido, ficando o eu devotado ao luto, mas sem que a autoestima fique prejudicada, sem que o sujeito se autorrecrimine.
E em que consiste o trabalho do luto? O objeto amado não existe mais e, portanto, o eu tem que retirar toda a sua libido ali investida. No entanto, sabe-se que as pessoas não abandonam seus investimentos de forma tão fácil e as exigências de desinvestimento ou de abandono do objeto são acatadas pouco a pouco, graças a um dispêndio grande de energia e tempo, o que tem como efeito o prolongamento da “existência do objeto perdido”.283 Contudo, ao final desse trabalho o ego fica novamente livre e desinibido.
Na melancolia, diz-se que o “objeto talvez não tenha morrido, mas tenha sido perdido enquanto objeto de amor”284. Supõe-se que o sujeito não percebe conscientemente o que perdeu e isso “sugeriria que a melancolia está de alguma forma relacionada a uma perda objetal retirada da consciência, em contraposição ao luto, no qual nada existe de inconsciente a respeito da perda”285.
O melancólico apresenta uma outra característica que não está presente no luto: uma diminuição considerável de sua autoestima e um empobrecimento importante de seu ego. “No
281
FREUD. A história do movimento psicanalítico, artigos sobre metapsicologia e outros trabalhos. 1974. v. 14, p. 275.
282 FREUD. A história do movimento psicanalítico, artigos sobre metapsicologia e outros trabalhos. 1974. v. 14,
p. 276.
283FREUD. A história do movimento psicanalítico, artigos sobre metapsicologia e outros trabalhos. 1974. v. 14,
p. 277.
284 FREUD. A história do movimento psicanalítico, artigos sobre metapsicologia e outros trabalhos. 1974. v. 14,
p. 277.
285
FREUD. A história do movimento psicanalítico, artigos sobre metapsicologia e outros trabalhos. 1974. v. 14, p. 277.
luto, é o mundo que se torna vazio; na melancolia, é o próprio eu”286. O paciente se apresenta como alguém desprovido de valor e moralmente desprezível, se repreende e espera ser expulso e punido. Uma “parte do ego se coloca contra a outra, julga-a criticamente, e, por assim dizer, toma-o como seu objeto”287. No entanto, essas críticas, que a princípio pensar-se- ia relacionar-se ao paciente, são na verdade dirigidas ao objeto perdido. Há uma identificação do eu com o objeto abandonado. É importante salientar que as autoacusações que podem ser observadas nos melancólicos têm caráter marcadamente delirantes.
Numa autobiografia ou em uma memória, a narrativa trata de fatos que podem ser comprovados na realidade, ou pelo menos se espera que isso seja possível. Sabe-se, no entanto, que apesar do eu daquele que escreve coincidir com o indivíduo civil, a personagem tem muito de factual. Apesar disso, acredita-se que nem tudo seja da ordem da fantasia, como atestam os sentimentos de luto descritos em De amor e trevas por ocasião da morte da mãe do autor:
Algumas semanas mais tarde, passou a zanga. E junto com a zanga, perdi uma espécie de camada protetora, uma espécie de envelope de chumbo que tinha me protegido nos primeiros dias contra o choque e a dor. Dali em diante, eu estava exposto — a descoberto288.
A morte deixou o sujeito desnudo diante de um real avassalador e o que antes o protegia, ou seja, o envelope de chumbo, também não foi suficiente para protegê-lo de tanta dor.
E retomando o sentimento daqueles que sobrevivem ao suicida, volto ao texto:
À medida que o ódio a minha mãe arrefecia, comecei a desprezar a mim mesmo. Ainda não havia no meu coração nenhum cantinho livre para acolher o sofrimento de minha mãe [...] E não fiquei zangado com ela, mas, ao contrário, culpei a mim mesmo289.
Seria ele alguém tão indigno de amor?
Todas as mães amam seus filhos: é a lei da natureza. Até a gata. Ou a cabra. Até as mães de assassinos e criminosos. Até as mães dos nazistas. Até as mães de seres monstruosos. O fato de que só a mim não tinha sido possível amar, o fato de minha mãe ter fugido de mim, isso só demonstrava que
286 FREUD. A história do movimento psicanalítico, artigos sobre metapsicologia e outros trabalhos. 1974. v. 14,
p. 277.
287 FREUD. A história do movimento psicanalítico, artigos sobre metapsicologia e outros trabalhos. 1974. v. 14,
p. 280.
288
OZ. De amor e trevas. 2005. p. 247.
289
simplesmente não havia nada em mim para se amar, que eu não merecia ser amado290.
Não pretendo afirmar que o descrito acima se assemelhe à melancolia, pois em De amor e trevas o suicídio da mãe não deixou Oz autorrecriminando-se de forma delirante ou preso a injúrias, petrificado diante do acontecimento, paralisado de culpa. O que se pode observar é que a escrita funcionou como uma saída, um modo de tratar o traumático.