Para além de uma formação envolvendo basicamente os mesmos espaços de sociabilidade – a École Normale Supérieure, a École Française de Rome e a École Francaise d’Ath es –, o que emprestou maior coerência à equipe inicial da REA foi a necessidade de uma reorientação, mais ou menos radical conforme o caso, das estratégias de inserção acadêmica de seus membros. Isso pode ser constatado a partir da seguinte regularidade: embora tenham trilhado o caminho régio para o estudo de alguns dos mais valorizados objetos no âmbito das Faculdades de Letras (aqueles associados à Grécia e à Roma clássicas), todos se viram forçados em determinado momento a direcionar seus esforços seja para a exploração de
168 temas a princípio menos nobres (o que implicava um investimento considerável em sua reabilitação), seja para a diversificação de suas áreas de atuação (em especial, via cargos políticos e/ou postos na alta burocracia universitária).
A despeito das diferentes variáveis que possam ter tido influência em cada caso, há aqui um dado estrutural capaz de dar coerência a todo o cenário: esses indivíduos tinham a sensação de pertencer a uma elite para a qual o acesso a Paris, o que incluía as posições centrais do sistema de ensino, estava comprometido. Um testemunho disso nos foi legado por Camille Jullian, de longe o mais precoce e mais bem-sucedido do grupo, o qual escreveu a seus pais, não sem alguma revolta, em setembro de 1883:
Eu tenho uma bela cadeira em Poitiers. Ela talvez não seja definitiva: uma cadeira análoga está vaga em Bordeaux e outra em Dijon. Mas por que não permanecer com Poitiers? Eis aí uma questão resolvida, pois eu não poderia esperar Paris. Paris está reservada aos doutores. Faltam, é bem verdade, três meses para eu defender minha tese (graças a negligência habitual do Sr. Geoffroy, que guardou minha tese, com visto e assinada, dois meses na gaveta!), mas são precisamente esses meses nos quais as nomeações são feitas (JULLIAN, 1936: 370-1, itálico no original).
Mas só a titulação, valorizada na passagem, já não era mais suficiente. Jullian, cuja tese defendida no ano seguinte fará dele um dos mais jovens doutores da Terceira República (apenas 24 anos!), terá de esperar ainda duas décadas para ocupar um espaço na capital. Algo semelhante aconteceu a Michel Clerc, Pierre Paris, Georges Radet e Henri de la Ville de Mirmont: todos iniciaram suas carreiras docentes em liceus e faculdades provinciais, aí permanecendo mesmo após terem defendido seus respectivos doutorados.
A impossibilidade de se ter acesso imediato aos postos de maior prestígio é bastante compreensível, sobretudo se considerarmos o sentido e o ritmo da expansão do sistema de ensino francês. Partindo dos dados fornecidos por Terry Nichols Clark, é possível constatar entre 1865 e 1878 um aumento considerável do número absoluto e relativo de cadeiras ligadas aos estudos greco-latinos nas Faculdades de Letras, tanto na capital quanto no interior (veja-se o quadro abaixo). A ampliação inicial dessas áreas era natural e inevitável, uma vez que qualquer expansão da totalidade do sistema tinha de se ater ao fato de que o latim e o grego formavam um de seus principais alicerces. Ainda assim, nos vinte anos seguintes (1879- 1898), justamente quando os membros da REA iniciavam suas carreiras, o mercado parisiense parece estar saturado e o crescimento se mantém somente nas províncias. Diante dessa restrição de oferta para uma demanda cada vez maior de professores capacitados, o valor atrelado às cadeiras centrais tendia a aumentar e, com ele, as exigências para se chegar até lá.
169 Quadro 2.4.2 - Número absoluto e relativo de cadeiras associadas aos estudos greco-latinos nas
Faculdades de Letras francesas (1865-1928)7.
1865 1878 1898 1928 Fac. de Letras Provinciais 15 (de 75) 20% 22 (de 82) 27% 34 (de 115) 30% 45 (de 165) 27% Fac. de Letras de Paris 4 (de 11) 36% 5 (de 13) 38% 5 (de 22) 26% 5 (de 47) 11%
O crescimento estrutural da Universidade e a diminuição relativa do espaço dedicado aos estudos greco-latinos na capital caminharam ainda em paralelo a outra tendência de época: a complexificação da divisão do trabalho científico. Com efeito, as especializações estavam na ordem do dia e o impacto disso nas Faculdades de Letras foi duplo. Por um lado, os saberes tradicionais passaram a dividir seu espaço com disciplinas novas (dentre as quais se encontrava a sociologia). Por outro lado, as cadeiras já institucionalizadas foram sendo aos poucos segmentadas, o que respondia ora a critérios cronológico-espaciais, ora a classificações pautadas na série documental tratada pelo pesquisador (epigrafia, arqueologia, entre outras). Em tal contexto, saber optar por uma especialização, ou mudar de área quando uma circunstância favorável se apresentasse, poderia garantir o sucesso de uma carreira.
As trajetórias dos indivíduos que compõem a equipe inicial da REA, todos iniciando suas atividades profissionais na década de 1880, ilustram perfeitamente tais circunstâncias, especialmente porque apontam para reações criativas e coletivas às dificuldades então enfrentadas. Pode-se, para verificar isso, cruzar os percursos profissionais não lineares dos ate ie ses àdo referido grupo: Michel Clerc, Pierre Paris e Georges Radet – Camille Jullian, o ú i oà o a o à e t eà eles,à teveà u aà t ajetó iaà pa e ida,à asà seuà asoà se à dis utidoà em separado mais adiante.
Como já indicado antes, após uma passagem pela École Normale Supérieure, os três foram contemplados, em função de suas aprovações no exame de agrégation, com bolsas do governo francês para aperfeiçoarem seus conhecimentos na É ole F a çaise d’Ath es. Uma vez lá, eles passaram a integrar as equipes de arqueologia desta instituição e tiveram a chance tanto de explorar fontes inéditas como de se integar ao ambiente cosmopolita da capital grega, frequentado por eminentes representantes das elites letradas locais e internacionais8. A
7 Cf. CLARK, 1973: 60-65. Tais números, embora possam ser indicativos do processo, comportam
imprecisões. O autor criou tipologias que nem sempre correspondem aos nomes e funções das cadeiras existentes. Além disso, não atentou para divisões importantes à presente pesquisa (ao tratar, por exemplo, das cadeiras de filosofia, Clark não distingue das demais aquelas dedicadas aos Antigos).
170 ida ao exterior tinha, portanto, o efeito de integrá-los ainda muito jovens às vanguardas do helenismo, o que, levando-se em conta o prestígio da área, sugeria um início de carreira bastante promissor.
Uma vez de volta a França, já como professores, os três procuraram se manter atrelados às suas áreas de formação. Um primeiro indício com o qual se pode verificar isso são as cadeiras que eles passaram a ocupar. Clerc foi nomeado em 1883 Maître de conférences d’Histoi e A ie e et A h ologie na Faculdade de Letras de Aix-Marselha. Paris, por seu turno, assumiu em 1885 a cadeira de Antiquités grecques et latines na Faculdade de Letras de Bordeaux, também como Maître de conférences. Já Radet, o último a ser empossado, lecionou História no Liceu de Argel em 1887, sendo promovido um ano depois ao cargo de Maître de Co f e e d’Histoi e A ie e, dessa vez em Bordeaux.
Outros indicadores dessa continuidade inicial são o tema de suas teses francesas e a adesão à Asso iatio pou l’E couragement des Études Grecques en France (AEEG). Quanto ao primeiro ponto, Clerc obteve em 1893 o título de doutor com um estudo sobre os estrangeiros na Atenas clássica (os metecos), o qual lhe rendeu no ano seguinte o prêmio Zographos, o mais importante distribuído anualmente pela AEEG (CLERC, 1893a). Já Paris, em 1891, apresentou como tese uma monografia sobre o sítio arquelógico de Elatéia, explorado sistematicamente por ele durante sua estada na Grécia (PARIS, 1892). Radet, por fim, discutindo a relação entre os gregos e os lídios nos séculos VII e VI a.C, obteve o mesmo título em 1893, sendo também agraciado com o prêmio Zographos daquele ano (RADET, 1893). No que diz respeito à AEEG, o órgão oficial do helenismo na França, Clerc, Paris e Radet filiaram-se a ela respetivamente em 1893, 1894 e 1890.
É precisamente ao final desse ciclo de defesas e de filiações às instituições centrais – ou seja, a partir de meados da década de 1890 – que começa a se desenhar uma clara reorientação na trajetória dos três. Tomemos como primeiro caso a ser analisado o de Michel Clerc. Sabe-se que, ao menos desde 1893, ele passou a ministrar cursos sobre a história da Provence na Antiguidade (o que, importante destacar, estava longe de envolver apenas a temática da presença grega na região francesa)9. Apenas dois anos mais tarde, tal mudança de foco foi mesmo oficializada: Clerc assumiu, na condição de professor titular, a recém-criada Chai e d pa ta e tale d’Histoire de Provence, bem como passou a dirigir o Musée Borély, uma instituição vinculada à Faculdade de Letras de Aix-Marselha e especializada em coleções arqueológicas de procedência local.
171 A ênfase no regional em detrimento dos te asà l ssi os àfez-se igualmente sentir no âmbito de sua produção acadêmica. Dos vinte artigos publicados por Clerc nos periódicos especializados nos estudos greco-latinos entre 1895 e 1920, a maioria tratou de inscrições, monumentos e outras modalidades de objetos encontrados nos (ou relativos aos) sítios arqueológicos da França meridional10. Mesmo quando vez por outra escreveu ensaios de maior fôlego sobre a Grécia Antiga, ele discutiu questões centrais para a história da Provence, com especial destaque para a origem e a especificidade da migração focéia rumo ao Mediterrâneo Ocidental11. Não por acaso, Aquae Sextiae, sua opus magnum, é um extenso estudo monográfico sobre a fundação e a história da cidade de Aix-en-Provence12.
O esforço de diferenciação de Clerc foi percebido e recompensado pelas instituições centrais, embora se deva considerar igualmente o sucesso do grupo ao qual ele pertenceu como um dos fatores decisivos para isso. Sua eleição para o posto de correspondant da Académie des Inscriptions et Belles-Lettres ocorreu em 1909. Pouco tempo depois, durante a Primeira Guerra, ele ainda obteve o posto de doyen (diretor) da Faculdade de Letras de Aix- Marselha. A duplicidade de sua carreira não deixou de ser assinalada por ocasião de sua morte. Quem o fez foi Salomon Reinach, no prestigiado espaço da Revue Archéologique: por vezes um pouco indolente, [Clerc] deixa a reputação de um bom erudito que rendeu serviços notáveis à ciência helênica e à arqueologia da Provence à ‘á,à /2: 317-318).
Mas a conversão à história e à arqueologia regionais estava longe de representar uma solução estritamente individual ao aumento de competitividade no interior das Faculdades de Letras. É o que sugere, ao menos, a análise da trajetória de Pierre Paris. Também nesse caso vê-se a busca da consagração de uma carreira a partir do investimento intelectual em um domínio até então pouco explorado e certamente menos prestigioso que o greco-latino: a arte ibérica. De acordo com uma nota biográfica recente, o ponto de inflexão da carreira de Paris pode ser situado nas duas viagens que ele fez à Espanha, entre 1895 e 189713. Nessas ocasiões, chefiando missões arqueológicas de seu país, ele participou da descoberta e intermediou a transferência para museus franceses de peças que, por suas características singulares,
10 Sobre tal faceta de sua produção, veja-se REA, 1903: 196; REA, 1904: 145-148; REA, 1908: 342-346;
REA, 1909: 49-52 e 53-68; REA, 1912: 189 e 190-2; REA, 1913: 189-190; REA, 1914: 71-74, 75-78, 79-80, 81-82, 407 e 408-409; REA, 1916: 55-56; e REA, 1918: 47-52.
11 Cf., sobre isso, REA, 1905: 329-356; e REG, 1905: 143-158. Desses seus textos propriamente históricos,
apenas um não foi dedicado à questão. Nele, o autor expande a problemática de sua tese, comparando o estatuto dos estrangeiros em Atenas ao de outras localidades gregas (RUM, 1898: 1-32, 153-180, 249- 275).
12 CLERC, 1973. Trata-se de um fac-símile da edição original publicada em 1916. 13
Cf. ROUILLARD, 2009. Agradeço a Pierre Rouillard não só a comunicação deste e de outros textos de sua autoria, como também as dúvidas que ele gentilmente dispersou sobre Pierre Paris e a história de seu campo de estudos na França.
172 suscitaram calorosos debates. Foi justamente o interesse cada vez maior por tais objetos, em grande medida alimentado pelo próprio Paris, que tornou viável a mudança de especialidade14. Por certo, isso não significou o abandono completo do antigo métier. Como Clerc, ele poderia mantê-lo em segundo plano, utilizando o que aprendeu como helenista para estabelecer um padrão de comparação e, sobretudo, de explicação para o que encontrou na arte Ibérica.
O sucesso da reconversão de Paris pode ser avaliado pela rapidez com que sua carreira avançou. Já em 1898, ele foi nomeado diretor da École des Beaux-Arts de Bordeaux, função que exerceu até 1913. Um ano mais tarde, na recém-fundada REA, criou-se uma seção para tratar exclusivamente da arqueologia e da arte ibéricas (o já referido Bulletin Hispanique), a qual ganhou status de periódico independente logo depois. O reconhecimento institucional da plena autonomia de seu campo de estudos chegou, no entanto, em 1909, quando ele passou a dirigir a recém-fundada École des Hautes Études Hispaniques. Por seus serviços à ciência francesa, Paris foi recebido como membro efetivo na Académie des Inscriptions et Belles- Lettres em 1920 e, nos últimos anos de sua vida, assumiu cargos de diretor de instituições francesas na Espanha (o Institut Français de Madrid em 1926 e a Casa Velázquez em 1928).
No que diz respeito à sua produção, os sete artigos que ele publicou nas revistas dos antiquisants (apenas RUM e REA) apontam para a nova área de atuação. Neles, Paris se limitou a apresentar inscrições e objetos antigos encontrados em sítios arqueológicos ou expostos em museus espanhóis15. O mesmo vale para seus livros: a maioria foi dedicada à arte ibérica16, embora ele tenha eventualmente abordado os temas clássicos de sua formação e a história da pintura espanhola, da pré-história a Goya17.
Chega-se, por fim, à trajetória de Georges Radet. Se comparada às de Clerc e Paris, marcadas por profundas mudanças na esfera propriamente intelectual do trabalho acadêmico (a dedicação a um novo objeto), a sua ganha contornos particulares, ainda que relacionados aos de seus colegas. Isso se deve ao fato de, sem lançar mão dos temas de sua formação, Radet privilegiar desde cedo uma carreira burocrática. Enquanto professor, ele se manteve sempre atrelado à Chai e d’Histoi e A ie e. Ainda assim, suas outras atribuições não cessaram de crescer. Em 1895, ele assumiu a direção da recém-criada Revue des Universités du Midi, a qual ele ajudará a transformar na sequência em Revue des Études Anciennes. Quatro
14 Sobre o crescente interesse na arte ibérica e seu reflexo institucional à época, veja-se ROUILLARD,
1997: 1-15 (Introduction et Histoire de la Collection Ibérique du Louvre).
15 Cf. RUM, 1896: 393-398; REA, 1902: 55-61; REA, 1902: 245-257; REA, 1903: 15-18, 388; REA, 1910:
152-153; e REA, 1916 : 27-30. Paris ainda publicou, entre 1899 e 1901, várias notas próximas a estas na seção da REA intitulada Bulletin Hispanique. Tais textos não foram referenciados aqui.
16
Em especial, PARIS, 1903-4 (em dois volumes).
17 Ele volta aos temas de sua formação em PARIS e ROQUES, 1909. Quanto aos estudos sobre a pintura
173 anos mais tarde, em um episódio cujas implicações tratarei mais adiante, o Affaire Stäpfer, Radet obteve o posto de doyen (diretor) da Faculdade de Letras de Bordeaux. Note-se ainda que ele se manteve à frente da Faculdade por vinte anos e ocupou a função de diretor-geral da REA até sua morte, em 1941 (Jullian o auxiliou nessa função, atuando como diretor da seção dedicada às Antiguidades Nacionais ). Nesse ínterim, Radet foi eleito correspondant da Académie des Inscriptions et Belles-Lettres (1904) e integrou uma série de comitês governamentais sobre a educação superior.
A análise dos textos produzidos por ele entre 1895 e 1920 também sugere uma atuação mais voltada para a viabilização de sua carreira burocrática do que para a consagração como helenista. É notável, nesse sentido, a distribuição dos vinte e dois artigos que publicou nas revistas dedicadas aos estudos greco-latinos: com exceção de um único texto tardio veiculado no espaço dominante da REG, seus investimentos foram todos feitos na RUM e na REA. Quanto ao conteúdo desses trabalhos, seu tema continuou a ser a relação entre a Grécia e o Oriente já explorada em sua tese. Ainda assim, Radet colaborou de tempos em tempos com as investigações dos colegas, sejam elas ligadas à migração dos foceus para o Mediterrâneo Ocidental ou às antiguidades da Espanha18.
Outro dado importante sobre a produção de Radet é que, além de helenista, ele se fez conhecido como historiador da É ole F a çaise d’Ath es. Em sua principal publicação sobre o tema, ele comparou os antigos membros da escola a figuras míticas (há um capítulo intitulado áàGe aç oàdosàá go autas àeài sistiu em sua progressiva profissionalização – da qual ele era, bem entendido, um dos produtos (RADET, 1901). Desse modo, ao fazer o elogio de uma instituição altamente prestigiosa à qual ele havia pertencido, Radet ativava redes de solidariedade que envolviam tanto algumas das mais influentes personalidades da Universidade (dentre as quais se encontravam os antigos membros da instituição analisada e as pessoas próximas a eles) quanto jovens promessas no campo dos estudos helênicos.
Um último elemento a ser aqui destacado é a importância de Radet para a consolidação da equipe da REA. Foi ele quem, na economia interna do grupo, centralizou as questões institucionais associadas aos esforços de seus integrantes. Sua atuação foi crucial para a criação da École des Hautes Études Hispaniques e da Casa Velázquez, ou mesmo para a independência do Bulletin Hispanique e para o crescimento contínuo dos recursos da própria REA. É assim que, distintas na forma, suas ações se integraram às dos colegas.
Os pontos em comum revelados pela análise cruzada dessas três trajetórias indicam algo que não pode ser traduzido nem por uma simples coincidência, nem por um estratagema
174 definido a priori por parte dos fundadores da REA. Antes, é possível perceber neles a incorporação gradativa de um modo de apreender e de se relacionar com o mundo acadêmico (ou ainda, em termos bourdieusianos, a constituição de um habitus compartilhado). Durante suas formações, Michel Clerc, Pierre Paris e Georges Radet haviam aprendido a cultuar os clássicos greco-latinos como emblemas de uma elite letrada à qual eles se sentiam predestinados a pertencer. E tudo parecia reforçar isso: a educação recebida na ENS, a ida para o exterior, o início de suas carreiras. O próximo passo teria de ser a consagração na capital, pois esse era o apanágio do p ofesso àdeà g a deàe ve gadu a , o qual não poderia
es apa àao seuàdesti o 19
. Mas eis que o destino tardava a chegar, ou dava sinais de escapar por entre os dedos dos supostos eleitos.
A situação material e o ambiente intelectual das faculdades provinciais, ainda muito precários em fins do século XIX, certamente agravaram tal sensação. Como, afinal, manter-se atrelado às discussões de ponta em suas prestigiosas áreas de formações quando as melhores bibliotecas e os mais dinâmicos espaços de debate estavam na capital? Como acrescentar-lhes algo se as verbas necessárias para o trabalho nos principais sítios arqueológicos e para os demais estágios no exterior dependiam em grande parte de instituições parisienses nas quais eles tinham pouca voz? Diante desse cenário extremamente hierarquizado, no qual estar distante de Paris parecia implicar um ostracismo, três alternativas se apresentavam aos jovens professores de província: ou se aceitava permanecer em uma posição menor, ou se pagava do próprio bolso o custo de se manter atrelado aos temas centrais (o que envolvia deslocamentos constantes para estudos e eventos), ou se mudava a área de atuação tendo em vista alguma eventual ascenção não convencional.
Foi a derradeira opção que uniu esses indivíduos em torno REA, emprestando-lhes uma identidade. Assim, se as posições centrais estavam cada vez mais fechadas em função da expansão da Universidade, foi preciso inventar um modo de conquistá-las a partir do espaço marginal que eles ocupavam. Por certo, a história e a arqueologia regionais poderiam fornecer o material necessário para viabilizar tal empreendimento, pois aí, de fato, o que eles haviam aprendido como antiquisants poderia ser utilizado na produção de trabalhos inovadores. A dificuldade, porém, continuava a ser o relativo desprestígio de tais áreas diante dos temas universais sobre os quais o sistema de ensino francês havia sido montado. A solução para tal dilema, no plano intelectual, mas também no institucional, foi a invenção de uma nova síntese. Com as á tiguidadesàNa io ais , Paris finalmente pôde ser conquistada a partir da província.
19 Essas são algumas das expressões com as quais Aimé Puech justifica o fato de Camille Jullian ter
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