Mauss se uniu ao seleto grupo de colaboradores do AS até então formado por Is. Lévy, Meillet, Roussel, Gernet e Jeanmaire (REG, 1921: 388- 397). Nesse texto, ele apresentou aos helenistas o primeiro indício que encontrou do fenômeno doà potlat h à oàdo í ioài do-europeu.
Dos trácios, habitantes do limite norte do antiga Hélade, vinha o indício em questão. Qua toàaoà potlat h ,àt atava-seàdeàu à sistema deà p estaç esà totais à ueà egulavaà aà i ulaçãoà de bens em certas sociedades, fenômeno particularmente recorrente entre os nativos da Polinésia e da América do Norte (aos quais se deve o termo). Tal sistema implicava grandes coletividades em verdadeiras alianças, em geral seladas por meio de banquetes e matrimônios. ál àdisto,àoà potlat h àse caracterizava por uma gratuidade aparente, a qual supunha a usura, e por seu caráter agonístico, capaz de hierarquizar famílias e clãs presentes.
Para provar sua tese, Mauss mobilizou três textos antigos. Em um primeiro momento, valendo-se de Xenofonte (Anabase, VII) e de Tucídides (II, 97), isolou o fenômeno dos banquetes trácios, mostrando como a lógica do potlat h à seà fezà elesà p ese te.à E à seguida,à discutiu a passagem relativa à descrição de um casamento trácio na comédia Protesilaus, datada do século III a.C. e de autoria de Anaxandrides.
Chama aí atenção a destreza com que Mauss faz as vezes de helenista. Ele demonstra grande domínio dos textos antigos, ao ponto de discutir termos específicos empregados por suas fontes, ou ainda de traduzir do próprio punho trechos longos de Xenofonte e de Anaxandrides.
Igualmente intrigante, contudo, é como Mauss reiterou, aqui e ali, sensos comuns de seus leitores helenistas. Assim, por exemplo, ao tratar de Tucídides, disse que sua descrição dos fatos e aà a ui,à o oà se p e,à la aà eà p e isa .à ál à disso, em meio aos dados etnográficos extraídos de Xenofonte, elogiou a construção do relato, uitoà pito estoà eà uitoà e à es ito .à Po à fi ,à quanto à relação dos próprios helenos com esses ritos arcaicos,à afi ou:à se te-se bem que os gregos não compreendem os usos que, espertos, elesàfo a àosàp i ei osàaàa a do a .àEleàai daà se valeu de uma conhecida passagem da Ilíada, a frustrada troca de armas entre Glauco e Diomedes, para reforçar essa imagem de uma Grécia Antiga liberta de arcaísmos.
Em uma carta escrita no dia dezesseis de março de 1923 e pertencente aos arquivos do
Institut Mémoires de l’Édition Contemporaine,
Louis Gernet comentou com as seguintes palav asà aà i i iativaà doà est eà eà a igo:à vo à deveria escrever mais para a Revue des Études
Grecques. Isto não faria mal aos helenistas – supondo que se possa perturbar um sono que
ãoà à e à es oàdog ti o (MAS 5.12). Dogmático ou não, nos anos seguintes, poucos helenistas despertaram para seguir a via aberta por Mauss. Gernet explorou a temática em alguns de seus textos posteriores, sobretudo em La notion mythique de valeur en Grèce (1982: 93-137) e Frairies antiques (REG, 1928: 313-359). O mesmo fez Moses Finley em The World of
Odysseus, um de seus primeiros trabalhos (2002).
Nos dois casos, porém, os costumes antes tidos o oà p i itivos ,à pe te e tesà sà a ge sà daà Grécia Antiga, invadiram seu centro.
157 Nem exclusivismo, nem esnobismo, tal é a fórmula que nos parece deve regular as energias provinciais. Alguns dentre nós se creem perdidos se, ao publicar um livro, os curiosos não lerem sobre a capa o nome de um editor parisiense. Eles se enganam e tal superstição da capital fecha seus olhos às vantagens que eles encontrarão ao tomar lugar junto à nossa Biblioteca. Mas o espírito contrário – o espírito chauvinista – não é menos irritante. Não confundamos, por favor, este espírito chauvinista com o patriotismo da terra natal, tão legítimo, tão generoso, tão fecundo quanto outros sentimentosàdeàfa ília.
Georges Radet
(Avant-propos, cf. REA, 1899: 6)
Eu não serei desmentido pelo Sr. Georges Radet, diretor, para a antiguidade clássica, da Revue des Études Anciennes que é publicada em Bordeaux, se eu dissesse que a colaboração de Henri Lechat, sob a forma das Notes archéologiques, é um dos principais títulos desta publicação, a única impressa na província que, talvez, rivalize com seus primogênitos e concorrentes parisienses.
Paul Jamot
(JAMOT, 1926: 17, grifos meus)
2.4 - A
REVUE
DES
ÉTUDES
ANCIENNES
Antes do aparecimento da Revue des Études Anciennes (REA) em 1899, o campo das publicações especializadas nos estudos greco-latinos se restringia aos três periódicos até aqui analisados: o BCH, o MAH e a REG. De um lado, os espaços voltados prioritariamente aos jove s ,àos quais estavam sendo treinados para se tornarem os futuros grandes antiquisants franceses (o BCH e o MAH); de outro, o lugar dosà velhos ,àdaqueles que, procurando manter ou acumular certo prestígio, haviam já iniciado carreira (a REG). O envelhecimento natural no campo se caracterizava, portanto, pela migração dos dois primeiros periódicos ao terceiro.
Outra característica desse cenário pré-1899 era o monopólio parisiense. Na capital se encontravam os editores das revistas e era a partir de lá que elas eram distribuídas. Paris concentrava também os mais significativos debates ligados ao tema, por intermédio de instituições como a Association pou l’E ou age e t des Études Grecques en France e a Académie des Inscriptions et Belles-Lettres, bem como as facudades e escolas das quais provinha, ou nas quais havia estudado, a maioria de seus colaboradores. Estar em contato com a capital era uma obrigação para quem quisesse produzir na área; ter uma posição lá, uma significativa vantagem.
Mas eis que, com o surgimento da REA, tanto as antigas oposições estruturantes desse cenário foram complexificadas quanto novas foram criadas. Veja-se, por exemplo, o binômio jovens x velhos. Durante o período analisado na presente tese, a REA foi dirigida por um grupo
158 bastante coeso de professores, o qual concentrava aí, e não na prestigiosa REG, seus investimentos em termos de publicação. Tal fato permite explicitar, senão um rompimento, ao menos uma forte tensão no interior da comunidade dos antiquisants franceses (a qual certamente reverberou nos mecanismos de recrutamento até então vigentes, fornecendo opções à via tradicional de envelhecimento no campo). Além disso, a REA inaugurou na esfera dos periódicos universitários especializados em Grécia e Roma Antigas a oposição Paris x Província. Os membros de sua equipe inicial, embora tenham todos estudado na capital, exerceram parte considerável de suas atividades docentes na Província. De lá provinham também seu editor e a maioria de seus colaboradores. E há mais: há o próprio esforço em se redefinir o valor desse território, antes uma mera passagem ou antessala de Paris. A Província passou a ter então toda uma dignidade própria, a qual deveria ser defendida sobretudo contra o que Georges Radet denominou aàsupe stiç oàdaà apital .
O propósito do presente subcapítulo é explorar variáveis que permitam explicar como foi possível essa transformação estrutural operada pela REA, atentando igualmente para a recepção que nessa revista se reservou à sociologia defendida em outra publicação da mesma época, o Année Sociologique.