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No conjunto da obra de Tadeu Lira, o lúdico aparece como manifestação de atividades de lazer em espaços coletivos, como praias e pontos turísticos, como jogos populares, a exemplo do futebol; festas locais, como o carnaval, as vaquejadas, etc. Seu trabalho é menos intimista e mais ilustrativo do mundo ao seu redor, cujo foco é o registro de imagens da cidade de João Pessoa ou de fatos do cotidiano do país, que chamam a atenção do artista. Encarada dessa forma, a arte é uma ilustração do mundo, um registro iconográfico do mundo da imagem.

Em 1985, Tadeu, juntamente com seu pai, Hugo Lira, criou uma série de imagens sobre a cidade de João Pessoa, resultando em uma exposição coletiva apresentada na galeria Artenossa39. A imagem que vemos abaixo (Ver figura 42) fez parte da exposição citada e retrata, como outras telas do artista, o universo lúdico na grande João Pessoa. O espaço retratado é a ilhota de Areia Vermelha, no município de Cabedelo, conhecido ponto de encontro de barcos turísticos durante o fenômeno das marés baixas. Tadeu, com seu temperamento recluso, de pouca conversa, retratou uma cena cotidiana nesse espaço público, com muitas figuras humanas, barcos, vendedores, etc. Na multiplicidade de figuras humanas e objetos representados nessa imagem, pode-se perceber o cuidado do artista em manter alguns dos elementos técnicos constantes na sua produção para garantir a identificação estilística da sua obra; os pontos são apresentados na água do mar e no amontoado de pessoas; o

movimento visual é reforçado pela direção descontínua das figuras e dos barcos, a aparente confusão no espaço pictórico reflete a intensa movimentação da cena retratada.

Figura 41 - Areia Vermelha, década de 1980, acrílica s/tela, coleção particular.

O artista parece vivenciar o movimento, o barulho e a confusão. No momento em que pinta suas telas, a assimetria da composição, algo incomum na sua obra, reforça toda a balburdia que se desenrola na imagem representada. A imagem aparece como uma informação visual, pronta para ser decifrada. Para Tadeu, a arte é tratada como uma linguagem, como descreve: “(...) eu tô mostrando às pessoas a minha mensagem (...)” (LIRA, 2006). Existe em seu trabalho a preocupação de passar um ensinamento, comunicar uma idéia. Segundo Manguel,

As imagens, assim como as histórias nos informam. [...] As imagens que formam nosso mundo são símbolos, sinais, mensagens e alegorias. [...] Qualquer que seja o caso, as imagens, assim como as palavras, são a matéria de que somos feitos. (MANGUEL, 2001, p. 21)

Tadeu é um alquimista da matéria visual do mundo, um homem preocupado com os fatos, os acontecimentos ao seu redor. Informado pela TV e pelos jornais, está sempre atento às últimas notícias. Trabalhando no parque gráfico do jornal A União, há mais de vinte anos, está sempre a par do que acontece na cidade e no mundo. Tadeu é um homem que encara os fatos como acontecimentos, registrando-os por meio da pintura e descrevendo visualmente momentos vividos ou imaginados. As imagens criadas por esse artista podem ser consideradas um registro visual, um factóide jornalístico, minuciosamente descrito por meio do desenho.

Figura 42 - Tadeu Lira. O futebol, década de 1980, acrílica s/tela. Coleção particular.

No entanto, a interpretação dos fatos do cotidiano criada por Tadeu Lira, em suas imagens, passa por uma concepção peculiar, que o impede de ser apenas um jornalista visual, mas o torna um recriador de mundos, em muitos casos, imaginários, como podemos identificar na obra “O Futebol” (ver figura 42). Essa imagem retrata uma cena cotidiana de um estádio de futebol em dia de campeonato, com torcedores e jogadores em seus devidos lugares, pintados fora de perspectiva e da proporção convencional. A torcida é apresentada em uma perspectiva aérea, só é possível observar o topo das cabeças dos torcedores. Enquanto isso, os jogadores, protagonistas da cena pintada, são apresentados como figuras em postura lateral, transmitindo a impressão de que as imagens estão deitadas na área do campo, fenômeno muito comum na fase esquemática do desenho infantil, onde a criança não apresenta a noção da profundidade, da sobreposição, de transparência ou da proporção naturalista. Tadeu possivelmente conhece os elementos da linguagem visual, através do estreito contato com a obra acadêmica do seu pai e devido às inúmeras leituras que costuma fazer.

Pode-se observar essa imagem como uma analogia às cores do uniforme oficial da seleção brasileira de futebol, com seus campos de cor definidos. Na obra, o artista colocou o amarelo da camiseta representando a torcida; o verde, no centro da tela, representando o campo de futebol; o azul está presente nos shorts dos jogadores, e o branco, nas camisetas. O

simbolismo dessas cores no Brasil é sempre associado à bandeira nacional. Na obra, pode-se ver o excesso de informações visuais, linhas, pontos, cores, elementos que se completam numa composição aparentemente espontânea, mas meticulosamente planejada. O futebol é representado como uma festa de cores e formas, como um espetáculo, uma apoteose visual.

Nas telas em que representa jogos coletivos em grandes espaços físicos, Tadeu geralmente pinta figuras muito pequenas e preenche todo o espaço da composição com elementos naturais e formas humanas. Para esse artista, existe a necessidade de preencher todo o vazio da tela: nem um cantinho é esquecido, e a fragmentação da técnica pictórica lembra o “pontilhismo” ou “divisionismo” desenvolvido por Georges Saurat e Paul Signac no final do século XIX.

As cores representam elementos importantes para os traços lúdicos na obra de Tadeu Lira. A alegria das formas e o movimento visual intenso presentes em suas composições criam um ambiente de forte impacto no observador, convidando-o para uma aproximação, para um olhar mais investigativo, os detalhes pedem para ser vistos de perto. O grafismo desse artista é sempre delimitado pelo contorno preto, elemento muitas vezes criticado na sua obra por tornar as figuras mais rígidas, como escreveu Rocha (1992): “Tadeu Lira, um colorista excelente, também com domínio de composição, perde um pouco de força ao contornar excessivamente as figuras com linhas pretas (...)”. O contorno permanece presente em seus trabalhos, como um forte traço de distinção entre sua obra e a de outros artistas naïfs locais. O que foi apontado como defeito tornou-se um elemento diferencial em seu estilo pessoal de representar as imagens. Com o aprimoramento técnico, o contorno perdeu densidade, tornando-se mais fino e adaptado à forma das figuras, como se observa na obra “Orquestra Sanfônica” (Ver figura 44). As festas populares também fazem parte de seu variado repertório visual. Em vários períodos, Tadeu Lira pintou as festas locais, como o São João e São Pedro, o Carnaval, a festa da padroeira, os parques de diversão, etc.

As festas populares nordestinas, com seu brilho intenso, figurinos estonteantes, fitas, adereços, balões, bandeirinhas, fogos, carros de boi enfeitados, parecem despertar em Tadeu o seu lado de etnógrafo. O artista passa, então, a registrar, por meio de desenhos e pinturas, toda a riqueza das manifestações populares, desde as danças, até os shows apresentados na cidade. Poeta das cores, Tadeu deixa tudo o que viveu anotado em um imaginário pulsante, marcado por múltiplas formas e imagens.

Figura 43 - Tadeu Lira, Orquestra Sanfônica, acrílica s/tela, coleção particular.

Tadeu pinta a vida como uma grande festa. Em inúmeros trabalhos, deixa suas impressões sobre as manifestações culturais, momentos especiais para a população, representando o lúdico coletivo. Pode-se observar que suas figuras aparentam sempre imobilidade (Ver figura 44) e uma estrutura corporal rija, o que é mais acentuado nos grandes formatos. Muitas vezes, as imagens dos rostos das figuras parecem se repetir em uma multiplicidade de faces, onde os detalhes denotam os traços da personalidade do retratado.

Seu tema mais corriqueiro é mesmo o do índio, elemento que está representado desde o início de sua obra, aparecendo de formas diversas. Em alguns casos, é a imagem do índio em sua cultura nativa; em outros, lembra o índio estilizado, presente nas agremiações carnavalescas e nas grandes escolas-de-samba do carnaval. Para o jornalista Ricardo Anísio,

“os cocares dos índios [pintados por Tadeu Lira] surgem nas telas como caldas de pavão” (ANÍSIO, 1988).40

Em algumas obras de Tadeu Lira, observa-se esse apego ao decorativo: a figura do indígena aparece como um símbolo adornado por uma extensa moldura de pontos, linhas e cores formando um imenso cocar (Ver figura 44). As imagens de grandes cocares com plumas variadas foram popularizadas no Brasil por meio da estilização das agremiações carnavalescas e divulgadas na mídia televisiva41.

Na obra de Tadeu, os elementos simbólicos da cultura indígena são re-apropriados em novos símbolos apresentados como elementos decorativos que emolduram uma compreensão singular dessa questão.

Os índios pintados por Tadeu são personificações do olhar do homem urbano sobre uma cultura silvícola, permeado do imaginário do colonizador, que achava deslumbrante o farfalhar de penas coloridas em corpos nus, adornados por penachos e pinturas corporais. Sua visão não é maniqueísta, mas de um olhar puramente gráfico; cores, linhas e formas interessam pela possibilidade de composição, pelo prazer visual, pelo êxtase decorativo. Seus índios são representações estilizadas próximas dos personagens da dança folclórica do caboclinho de Pernambuco ou dos destaques carnavalescos, como podemos observar na imagem abaixo:

40 Penas de pavão e de outras aves são elementos utilizados pelos carnavalescos das escolas-de-samba do Rio de

Janeiro, e de São Paulo e de outras regiões do país, para decorar grandes cocares utilizados nos destaques dos carros alegóricos que desfilam no sambódromo. A arte plumária é vista nessas agremiações como elemento decorativo utilizado para alegrar visualmente a festa de momo.

41 O contraste da arte plumária brasileira, que é riquíssima em simbolizações, com as estilizações carnavalescas,

carnavaliza o aspecto simbólico dos adereços, tornando-os meros elementos decorativos. Na arte plumária, as cores das penas, sua origem, sua estrutura, a organização da seqüência das penas no cocar e o seu formato representam animais e/ou espíritos específicos, simbolizando a definição do status daquele que irá vestir essa indumentária diante da tribo. Nessa cultura, todos os elementos são meticulosamente pensados e respeitam uma tradição secular. No carnaval, esse sentido simbólico foi minimizado ao extremo.

Figura 44 - Tadeu Lira. Índio, acrílica s/tela, 1988, coleção particular.

Benzer Belgeler