Na obra de Alexandre Filho, o lúdico aparece como uma expressão fantasiosa da infância idealizada. A representação de um menino (ver figuras 37-38), presente nas obras dos anos 1960-1970, personifica a infância no interior nordestino. A liberdade dos meninos pobres do interior do Nordeste, tolhida devido à necessidade da sobrevivência imediata, leva-os a dedicar-se cedo ao trabalho: “Ah, lembro... brincadeiras (...) eu trabalhava [...]” (ALEXANDRE FILHO, 2006). Suas obras retratam um universo pictórico onde o menino brinca e flutua junto à fauna/flora delirante, traços de sua infância, como ele mesmo descreve:
“Ah! Como toda criança no interior, teve uma fase também na minha vida que foi num sítio próximo de Dona Inês, era um lugar muito bom, muita, muita, muita fruta, muito, muito amplo. [...] Foi uma infância normal, saudável. Tinha um sítio na beira do Rio Curimataú [...] todo tipo de fruta que você possa imaginar uma maravilha, nadando no rio, tomando banho [...].” (ALEXANDRE FILHO, 2006)
O desenvolvimento de seu trabalho como artista passou por vários momentos, mantendo algumas características originais, tais como o tratamento do segundo plano, com as cores chapadas, o contorno suave das figuras e o lirismo das imagens. Sua obra amadureceu com o artista, ganhou novas cores, suavidade e contornos nítidos e acumulou lirismo ao longo de sua trajetória de vida.
Em várias obras, o menino ganha asas de anjo, figura presente na religiosidade popular nordestina, que o artista deve ter visto inúmeras vezes nas procissões que acompanhou no interior brasileiro; símbolo da pureza, da infantilidade, da ingenuidade, do bom. Identificar-se com o anjo bom é o desejo de qualquer menino de formação católica criado no Nordeste brasileiro, personificado por Alexandre em suas telas, através da figura do menino-anjo que brinca, voa, flutua. Esse é um símbolo recorrente em várias fases de sua produção artística. A figura emblemática do menino-anjo marca os aspectos lúdicos e sagrados em sua obra: seus meninos-anjos são vivos e brincalhões. No Nordeste, o termo “anjo” é também atribuído aos corpos de lactentes falecidos em tenra idade, diante dos quais gira um imaginário específico, fúnebre e popular, que não está visualmente presente na obra de Alexandre, mas permeia a figura emblemática do menino-anjo, já que o anjo é sempre um ser mitológico sagrado38 (ver figura 38).
38 O Anjo foi representado pelas civilizações antigas de muitas formas, na antiga Grécia, por meio do mito de
Ícaro, o filho de Dédalo, que se torna anjo, na tentativa de salvar-se do labirinto, construindo asas de cera. As asas funcionaram até o momento em que foram derretidas pelo calor do sol, levando-o à queda inevitável de volta ao solo. No período medieval e no Renascimento, a representação de anjos era comum, nas inúmeras cenas da anunciação da virgem, retratada por todos os grandes pintores do período, onde o anjo Gabriel anuncia a Maria sua gravidez por obra e graça do Espírito Santo. Essa imagem, vinculada à iconografia da igreja católica é a personificação de um ser assexuado, com inclinações benfazejas e pares de asas, pode apresentar também inclinações para o mal, o próprio demônio “lúcifer” é descrito como um anjo decaído. Na mitologia celta, o humano confunde-se com o espírito dos dragões, o cavalheiro e o seu dragão são um só coração. Os seres mitológicos antropomórficos de diversas culturas costumam ser representados como seres alados.
Figura 36 – Alexandre Filho, sem título, década de 1960, acrílica s/tela, coleção particular.
Na obra de Alexandre, o anjo aparece como uma figura mitológica, inserida na representação de sua concepção religiosa, apreendida durante a infância: “talvez seja por conta da religiosidade da minha infância, freqüentei muita igreja [...] talvez venha daí, não sei, pode ser, mas eu acho bonita a forma do anjo-criança, eu acho interessante criança” (ALEXANDRE FILHO, 2006). Como também representa o símbolo da pureza, o universo infantil, a liberdade, a brincadeira, o deslumbramento frente às agruras do mundo. Como observamos no quadro “o anjo” (Ver figura 37), a figura brinca integrada à natureza, interagindo com os animais: cabras, camaleões, pássaros, peixes, bois. Uma infância revivida por meio da arte, como um sonho reconstruído pelos pincéis. O anjo é uma imagem recorrente nas representações do imaginário católico colonial brasileiro (Ver figura 38). Quando Alexandre conviveu, com igrejas barrocas e com figuras de anjos esculpidos na talha de jacarandá ou na pedra calcária; as figuras criadas pelo artista e o movimento visual da composição apresentam uma clara influência desse imaginário barroco, com seus “anjinhos” gordinhos, asas pequenas, rostos rechonchudos, faces douradas e cabelos cacheados (Ver figura 39).
Figura 39 – Alexandre Filho. Anjo com caju, década de 1970, acrílica s/tela, coleção particular.
O artista vivencia o lúdico por meio da arte, representando um jogo alegre de cores em meio a um mundo fantástico, onde as figuras de frutas assumem um papel fundamental. O caju, pseudofruto do cajueiro, abundante no sertão nordestino, é uma imagem recorrente em sua obra, elemento sempre presente nas brincadeiras de criança no interior da Paraíba (Ver figura 40).
Alexandre brinca com as cores. Suas obras multicoloridas, com figuras definidas por finas linhas negras, apresentam, desde o início de seu trabalho, uma harmonia marcante na composição pictórica, como descreve na fala: “desde o início, minha cor foi sempre plana, até hoje! Hoje eu uso um pouco de mistura nas cores, mas de início não misturava nada, fazia a cor bruta, pura, do jeito que vinha no tubo eu passava para a tela” (ALEXANDRE FILHO, 2006). A pintura surge, nesse caso, como um elemento de prazer, uma ação espontânea sobre o branco da tela. As cores, aparentemente aleatórias, harmonizam- se em uma paleta clara e bastante elaborada.