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Na obra da artista Isa Galindo, o lúdico é apresentado em três momentos: o universo infantil, o mundo das festividades populares e o cotidiano. Ao representar o universo da infância, cria meninos e meninas que brincam na rua com brinquedos populares os mais diversos, desde a bruxinha de pano, até a pipa. Livres e soltas, as crianças se divertem. Quanto às festas populares, surgem em sua obra representações do São João, do maracatu, do frevo, do bumba-meu-boi, do cavalo marinho, e muitas outras festas e folguedos. Ao pintar o cotidiano, Isa transporta para suas telas uma vida leve, baseada na harmonia familiar, no encontro entre as gerações e em momentos coletivos ao ar livre.

A obra de Isa Galindo é uma celebração da vida pacata, folclórica e alegre, dos ritos populares do Nordeste brasileiro. Ao observar sua obra, temos a impressão de ter contato com um mundo paradisíaco, onde tudo é festa, harmonia. Sua arte, segundo Hermano José (2006), “expressa seus sentimentos de artista provinciana em cores e formas simples, libertando recordações de velhas estórias e festas santas do seu Nordeste [...]”. Suas pequenas figuras humanas são pintadas a partir da estrutura básica da boneca de pano, reflexo da sua relação na infância e adolescência com a feira livre de Caruaru, sua cidade natal, como ela mesma descreve: “[...] eu gostava de sair do colégio para ir comprar bonecas na feira, naquele tempo, às bonecas eram de pano, bruxinhas. Aquelas bruxinhas que eu pinto [...]” (GALINDO, 2006). Na imagem abaixo, vemos um grupo de meninos sem camisa, soltando pipas em frente à praia, uma cena corriqueira ainda hoje no litoral do Nordeste brasileiro42 (Ver figura 45).

Figura 45 – Isa Galindo. Meninos soltando pipa, acrílica s/tela, 1991, coleção particular.

42 A pipa é um brinquedo comum em todo o Nordeste brasileiro. A magia dessa brincadeira encanta as crianças.

As formas e as cores das pipas permitem a criação de formas diversas. A construção da pipa obedece a um ritual, que passa pelas seguintes etapas: a escolha dos palitos retirados da folha do coqueiro, a montagem da estrutura do esqueleto da pipa, que pode ter formatos variados, seu revestimento com papel de seda colorido e por fim, a colocação das franjas e da rabiola, para garantir um vôo leve e seguro. O verdadeiro encantamento da pipa se consolida no ato de soltá-la, deixá-la voar livremente no céu azul.

A liberdade da brincadeira com a pipa e outros objetos parece ter contagiado a artista Isa, que guardou essas lembranças por toda a vida e hoje revive de forma diferente esse prazer, ao ter contato, por intermédio dos netos, com as brincadeiras urbanas, como se refere em sua fala: “eu vivi! Eu vou pintando e revivendo a minha infância, as festas (...) São João, quadrilha, pipa, os meninos soltando pipa” (GALINDO, 2006).

As festas são apresentadas em suas pinturas como momentos alegres e multicoloridos. São imagens ricas em símbolos regionais, que apresentam ao observador uma interpretação das danças e comemorações coletivas da região Nordeste do Brasil. Muitas festas Isa pinta porque viveu, como as quadrilhas de que participou na juventude. Outras, como o Maracatu, ela pesquisou sobre o assunto em enciclopédias, livros e revistas, até ter condições de pintá- las: “[...] o que eu não presenciei foi o Maracatu, essas coisas eu pesquisei” (GALINDO, 2006).

A imagem da tela intitulada “São João” (ver figura 46), uma das festas mais populares do Nordeste brasileiro (considerada típica no Estado da Paraíba), é pintada como uma grande comemoração coletiva. Muitas figuras dançando forró, aos pares, roupas coloridas, tecidos estampados, retalhos, fogueiras, casamento matuto, casas enfeitadas com bandeirinhas, comidas típicas, fogos de artifício, crianças e adultos brincando, momentos de prazer e encantamento. Em suas pinturas, as festas juninas ganham brilho e cor, em composições multicoloridas. O movimento visual torna as figuras vivas - elas dançam, caminham. A tela é um registro dos festejos locais, imagem/documento da cultura paraibana.

Figura 47 – Isa Galindo, Maracatu, acrílica s/tela, coleção particular.

O Maracatu e as demais festas pernambucanas são permanentemente retratadas na obra de Isa Galindo. Embora a artista não tenha participado dessas festas, ela consegue pintá- las com uma vivacidade impressionante. Todos os elementos do festejo são representados. Desde o rei e a rainha, até as calungas, os trajes típicos, os instrumentos musicais e o próprio balanço dos personagens são captados como em um instantâneo fotográfico. O Maracatu

dança e canta em suas composições. Para o marchand Altemir Garcia (2000), “[...] suas cores agradam e o retratado possui algo de reportagem ou documentário mediatizado pela memória”.

A memória de Isa se reflete na criação de suas imagens, ricas em cenários bucólicos e figuras humanas felizes, desfilando paisagens interioranas, com muitas árvores, flores, frutos, casinhas coloridas, crianças brincando, cenas de piquenique, de famílias caminhando em estradas de terra ou imagens rurais com pessoas descansando. Retratam os momentos de lazer no ambiente rural. O lúdico, mostrado por meio do convívio dos parentes e amigos em situações cotidianas, reflete cenas da infância idealizada, da família ideal, os momentos de ócio e lazer apresentados como memória imaginária da artista.

Figura 48 – Isa Galindo, “O Piquenique”, acrílica s/tela, coleção particular.

Segundo o professor Hermano José (2006), “Para Isa Galindo não se faz necessário esses complexos e duvidosos exercícios de esquecimento quando os espelhos em que se mira refletem sempre sua própria imagem.”. Se a obra de Isa é auto-referente, como afirma o professor Hermano José, a presença do lúdico em seus trabalhos reflete suas experiências de vida, a convivência com a família, a vida simples, sua formação no colégio de freiras e a estrutura da sua tradicional família do interior de Pernambuco. Acreditamos que outros

elementos também estão presentes nas imagens criadas por Isa: sonhos, desejos, uma vida imaginária, idealizada, perfeita, retratada por meio de imagens simples, bucólicas, com a intenção de agradar ao olhar. Seu trabalho apresenta uma pureza perceptiva, que encontramos também na sua fala ao descrever sua forma de pintar, “[...] eu vou fazendo e vai surgindo na tela, eu vou fazer um São João aí eu penso, tem uma quadrilha, depois vou colocando mais coisas e vou jogando e daí vai surgindo” (GALINDO, 2006). A pintura, para Isa Galindo, é um jogo, uma brincadeira séria, uma forma de levar a vida com o maior prazer possível.

Benzer Belgeler