2. HALVETİYYE ŞUBELERİ
2.4. Şemsiyye
2.4.1. Sivâsiyye
2.4.1 Princípios guias na definição de nossos sujeitos
A escolha de nossos sujeitos foi guiada pelos princípios da amostragem intencional ou seletiva (MARTINEZ-SALGADO, 2012) e pela sua autêntica disponibilidade em participar do estudo, o que para nós constituiu-se como um importante princípio ético. Independente do número de sujeitos participantes de uma pesquisa, na abordagem qualitativa, as pessoas são convidadas, são “[...] cuidadosa e intencionalmente seleccionada por sus posibilidades de ofrecer información profunda y detallada sobre el asunto de interés para la investigación.” (MARTINEZ-SALGADO, 2012, p. 614-615). Nessa lógica, o fundamental não é o tamanho da amostra, mas que os casos escolhidos e convidados tenham a possibilidade de oferecer a maior riqueza possível de informações para a pesquisa.
A construção das amostras é guiada pelos paradigmas teóricos que orientam uma investigação, havendo, nas pesquisas qualitativas, maior controvérsia acerca do processo de definição amostral em relação ao enfoque quantitativo, de inspiração positivista (FONTANELLA; RICAS; TURATO, 2008).
Nas investigações qualitativas não há necessidade de preocupação com a representatividade estatística, o que torna as amostras qualitativas numericamente menores que as quantitativas (FONTANELLA; RICAS; TURATO, 2008). Também não há necessidade de corresponder aos padrões de distribuição característicos dos estudos matematizados. Vale mencionar que tais características não significam ausência de rigor na definição dos sujeitos pesquisados, mas sim que os critérios utilizados são diferentes daqueles exigidos nas investigações quantitativas.
Minayo (2012) também aborda a discussão acerca da representatividade das falas individuais em relação ao coletivo. Essa autora explica que as vivências dos sujeitos que se desenvolveram sob condições semelhantes, acerca do mesmo evento, ao mesmo tempo em que diferem entre si, em virtude de suas histórias de vida singulares, possuem um substrato comum, um aporte coletivo, por terem sido experienciadas sob o mesmo contexto, o que as torna representativas desse cenário. Corroborando essa perspectiva, para Denzin e Lincoln (2006), nossas interpretações são construídas a partir do que compartilhamos coletivamente em termos de compreensões, práticas e linguagem.
Desse modo, a representatividade também deve ser levada em consideração nas pesquisas qualitativas, porém, de uma forma diferente de como ocorre nas quantitativas. Não se trata de representatividade estatística, mas de representatividade da temática, do fenômeno. Em nossa investigação, buscamos acessar pessoas representativas, no sentido de que fossem indivíduos que pudessem oferecer informações significativas a nossa pesquisa, uma vez que viveram o fenômeno em estudo, que representam a relevância da temática ou que estiveram/estejam envolvidos com a dinâmica investigada (FLICK, 2009).
Consideramos que, ao abordar nossos sujeitos, por meio de suas histórias de vida e de suas falas individuais, tivemos acesso aos seus valores, às suas visões, aos seus hábitos e crenças singulares, mas também a uma parcela dos significados compartilhados pelas comunidades que fazem parte, levando-nos a obter, ou melhor, a construir uma certa representação do fenômeno em análise.
Diante dessas considerações, propusemos, inicialmente, na definição final do número de casos escolhidos em nosso estudo, a utilização da amostragem por saturação, uma ferramenta bastante utilizada em pesquisas no campo da Saúde Coletiva. Esse procedimento é caracterizado como “[...] a suspensão de inclusão de novos participantes quando os dados obtidos passam a apresentar, na avaliação do pesquisador, uma certa redundância ou repetição, não sendo considerado relevante persistir na coleta de dados.” (FONTANELLA; RICAS; TURATO, 2008, p. 17).
Para tanto, é necessário considerar alguns critérios, quais sejam, “[...] os limites empíricos dos dados, a integração de tais dados com a teoria (que, por sua vez, tem uma determinada densidade) e a sensibilidade teórica de quem analisa os dados.” (GLASER; STRAUSS, 1967 apud FONTANELLA; RICAS; TURATO, 2008, p. 18). A partir disso, pudemos perceber que o investigador apresenta significativo papel nesse procedimento, uma vez que inexistem modelos pré-fabricados de indicação de um número exato de casos que proporcionam o alcance da saturação nas pesquisas qualitativas. É somente o pesquisador, a partir de sua experiência, sensibilidade, criatividade e de sua capacidade de analisar e de integrar todo o material empírico existente, que poderá identificar a obtenção da saturação.
Vale mencionar ainda que, para Minayo (2010), a saturação das entrevistas é obtida quando o pesquisador entende que o conhecimento construído no campo é suficiente para compreender a realidade em análise. Essa concepção nos indica uma sutil diferença em relação à apontada anteriormente, em virtude de não postular que a
inclusão de novos participantes seja desnecessária por não mais acrescentar elementos ao seu esclarecimento, mas sim por compreender que as informações construídas já se mostram densas o suficiente para responder à pergunta inicial.
Concordamos com esse argumento, por considerar que, apesar da presença de elementos comuns entre os indivíduos, suas histórias de vida são únicas, singulares, o que torna impensável a inexistência de elementos novos trazidos por um indivíduo em sua narrativa. Afinal, como admitir que a realização de novas entrevistas não trará novas percepções, novos significados para nossa compreensão? Em nosso olhar, a saturação pode ser alcançada quando nosso entendimento acerca do fenômeno pesquisado já pode ser construído a partir do material empírico existente.
Cumpre reforçar que aqui o foco de nossa atenção não foi a preocupação com o tamanho da amostra a ser investigada ou com a generalização dos resultados construídos, mas sim com “[...] o aprofundamento, a abrangência e a diversidade no processo de compreensão [....]. Pode-se considerar que uma amostra qualitativa ideal é a que reflete a totalidade das múltiplas dimensões do objeto em estudo.” (MINAYO, 2010, p. 196-197). Ademais, concordamos com Lane (2005, p. 10), quando refere que a preocupação com a objetividade e com a generalização dos resultados, nesse enfoque de pesquisa, cede lugar para “[...] a subjetividade como processo histórico” e para o aprofundamento das histórias investigadas. Ou seja, através desse aprofundamento, podemos acessar, não digo todas, mas múltiplas dimensões do fenômeno analisado por nós.
Torna-se importante ainda trazer para essa discussão a reflexão de Minayo e Sanches (1993, p. 245) acerca dos padrões e modelos de ciência:
[...] a cientificidade tem que ser pensada aqui como uma idéia [sic] reguladora de alta abstração, e não como sinônimo de modelos e normas rígidas. Na verdade, o trabalho qualitativo caminha sempre em duas direções: numa, elabora suas teorias, seus métodos, seus princípios e estabelece seus resultados; noutra, inventa, ratifica seu caminho, abandona certas vias e toma direções privilegiadas. Ela compartilha a idéia [sic] de “devir” no conceito de cientificidade.
Dessa forma, estabelecemos parâmetros para a investigação, construímos um projeto de pesquisa25, contudo, a inserção no campo nos mostrou a necessidade de modificar e adaptar as orientações iniciais. Nesse sentido, consideramos que não devemos nos enrijecer em busca de padrões únicos de fazer ciência, principalmente no
25 Cumpre mencionar que esse projeto foi submetido e aprovado na Plataforma Brasil, conforme parecer nº 806.003, acrescentando no Anexo A.
que tange ao enquadre qualitativo. Assim como os autores, acreditamos na necessidade de (re)invenção, de (re)criação, da ousadia, sem descurar, obviamente, do rigor, também fundamental, nas investigações que seguem esse enfoque.
2.4.2 A definição de nossos sujeitos
Nessa pesquisa, abordamos indivíduos que vivenciaram um desenlace conjugal conflituoso, que envolvesse a disputa judicial pela guarda de filhos. Os sujeitos entrevistados por nós eram aqueles que haviam casado ou vivido em união estável, com a presença de filhos oriundos desse relacionamento e que tivessem vivenciado uma dissolução conjugal, com a presença de processos judiciais conflituosos em torno da disputa da guarda dos filhos. Procuramos acessar o par conjugal, com o intuito de adentrar na realidade de cada lado da história, porém nem sempre conseguimos.
O campo de nossa pesquisa foi composto pela Defensoria Pública de Família de Fortaleza, por duas Varas de Família e pelo Centro Judicial de Solução de Conflitos e Cidadania do Tribunal de Justiça do Estado do Ceará, apesar de não termos conseguido entrevistar sujeitos desse último local.
Ao todo, realizamos entrevistas com doze sujeitos, oito mulheres e quatro homens, com idade entre 26 e 44 anos, advindos seis da Defensoria Pública e seis das Varas de Família. Dessas doze pessoas, havia dois (ex) casais.
Considerando o procedimento da amostragem por saturação, encerramos nossa amostra quando percebemos que as informações construídas nessas entrevistas já eram suficientes para a compreensão do fenômeno em análise, embora o assunto ainda não tivesse sido plenamente esgotado. Além disso, não podemos deixar de citar que outros aspectos também nos impulsionaram a encerrar a amostra, quais sejam: as nossas possibilidades de análise do material construído com as histórias de vida e o limite de tempo que possuíamos até a conclusão do mestrado.
Todos os nossos sujeitos foram cuidadosamente selecionados, no sentido de que pudessem nos fornecer informações importantes para a compreensão de nosso objeto, como orienta a amostragem intencional. Apesar disso, para nossa pesquisa, selecionamos, dentro do universo dos doze indivíduos que compunham a nossa amostra, as entrevistas realizadas junto a dois sujeitos, levando em consideração os seguintes motivos: eles eram um homem e uma mulher, que já constituíram um casal, o que favoreceu nosso acesso às duas visões sobre o rompimento conjugal; nos conflitos
relatados por eles, pós-separação, pudemos observar a existência de diversos elementos, como a acusação de abuso sexual incestuoso, a acusação de alienação parental, a existência de recasamento e de filhos da relação anterior, e o pedido de guarda compartilhada, tornando esse caso bastante elucidativo. Além desses aspectos, cumpre mencionar a opção pela utilização do procedimento de História de Vida, que exige uma análise minuciosa e extensa de cada indivíduo, em sua singularidade, o que impediria a análise dos doze sujeitos, ao consideramos as nossas possibilidades de integração de todo o material, a dimensão de um mestrado e o tempo disponível para a sua conclusão.
Em nossa pesquisa, realizamos uma entrevista com cada participante, com duração entre 1h e 2h30’. Esses encontros foram finalizados quando observávamos que nossos objetivos já haviam sido alcançados, mas levando em consideração também a disponibilidade de tempo e o cansaço dos participantes. Percebemos que, em alguns casos, surgiram-nos dúvidas após a realização das transcrições das entrevistas, contudo não voltamos aos nossos sujeitos, pela dificuldade em conciliar suas disponibilidades e horários, bem como por perceber que a existência dessas dúvidas não prejudicou, de modo significativo, nossas análises, tendo em vista a riqueza do material já construído.
É válido ressaltar ainda que utilizamos o termo de consentimento livre e esclarecido – TCLE (ver apêndice 1) e que, com a devida autorização, efetuamos a gravação das entrevistas em áudio, recurso que, por certo, possibilitou-nos a apreensão de mais detalhes. Ademais, destacamos que, nesta pesquisa, buscamos respeitar os princípios éticos abordados na Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde – CNS (CONSELHO NACIONAL DE SAÚDE, 2012).
2.5 Sobre a Hermenêutica e as estratégias de análise do material empírico
Buscamos, aqui, traçar uma estratégia metodológica para a análise do material empírico construído por nós, a partir da perspectiva da Hermenêutica- Fenomenológica de Paul Ricoeur, considerando sua preocupação em desregionalizar o processo interpretativo e em torná-lo universal, ou seja, em tornar possível que a Hermenêutica fosse utilizada pelas diversas áreas do saber.
Para tanto, partimos de duas importantes reflexões empreendidas por Paul Ricoeur (1986) acerca das dicotomias entre distanciação e pertença, bem como entre explicação e compreensão, para as quais o autor buscou construir respostas que superassem essas antinomias. Tais respostas se constituíram como fundamentais para a