Açısal Mot
4.4. Sistemin kapalı döngü denetimi
Segundo Lévi-Strauss (apud Pietroluongo, 1996, p. 147) a alimentação e o sexo estão estreitamente relacionados nas línguas como nos mitos. Assim, o desejo caminha lado a lado à sensualidade e à sedução.
Em Prado (2011), com base na análise de revistas de vários segmentos, se aponta que o culto ao excesso oportuniza ao sujeito a satisfação de alcançar os níveis orgásticos a partir de várias ações. Para ele, manter o produto do gozo como imperativo é um condicionante pós - moderno e encontrado nas revistas. Posto isso, é possível inferir que os sujeitos contemporâneos podem alcançar o gozo ao degustar uma simples refeição, olhá-la ou produzir uma iguaria sugerida numa publicação73.
A partir dessa afirmação, observa-se o excesso dos cremes nas imagens do bolo e do petisco coberto pelo dip (FIG. 72 e 75). Nas duas situações nota-se que os cremes extravasam os formatos lineares em que estão apoiados. Esse excesso, as formas sobrepostas e as curvas
73 Um dos episódios do desenho animado South Park (Creme Fraiche) ilustra um dos personagens como um
viciado por programas televisivos de culinária apresentados por chefs de cozinha celebridades. O processo de produção dos pratos transmitidos nos programas o incitava. De frente à tevê ele se masturbava, gozava e depois seguia para sua cozinha para elaborar os pratos ensinados pelos chefs (LUDERER e OLIVEIRA, 2012)
das iguarias- que determinam as marcas barrocas, convocam o enunciatário ao gozo. Essa convocação está relacionada ao que se expressa na sociedade contemporânea, a qual Maffesoli (2007, p.145) sugere chamar de “barroca pós moderna”. O autor justifica o termo apoiado em vários aspectos, dentre os quais: “o caldo de cultura multiforme e estruturalmente heterogenia que constitui nossa sociedade” e a teatralidade que se propicia na contemporaneidade, com um mundo em que prevalecem as aparências para seduzir e as constantes festas.
As fotos dos pratos na revista, na condição bidimensional, oferecem apenas uma parte de prazer ao enunciatário. A relação diacrônica do leitor com esses significantes imagéticos não dão conta de atender o desejo desse sujeito, pois:
O desejo jamais é satisfeito porque tem origem e sustentação na falta essencial que habita o ser humano, daquilo que jamais será preenchido e, por isso mesmo o faz sofrer, mas também o impulsiona para buscar realização – ou satisfação parcial – no mundo objetivo ou na sua própria subjetividade (sonhos, artes, projetos utópicos, fé no absoluto, etc) (FREGONEZZI & LIMA, 2006)
Assim, entendendo por sujeito aquele que é “construído nesse circuito em que a libido sempre tem um excesso que sustenta o movimento desejante” (idem), a imagem de um prato, quando criado e apresentado por um chef, amplia esse processo de busca para o sujeito saciar o seu desejo. Ou seja, uma etapa seria transformar uma iguaria de um estado bidimensional em tridimensional, o que implica produzir um prato, que estava na condição de um significante e exposto em um suporte sintético, em um signo. A outra estaria relacionada com a introdução da personagem chef na narrativa, pois com o profissional, o campo de desejo do sujeito se estende, para que ele busque uma assimilação de sua produção desenvolvida com a iguaria do chef. O fato de essa personagem estar evidenciada na mídia, em que normalmente é evocada como um profissional de sucesso contribui para que essa assimilação seja de prazer para o sujeito, que busca atender seus desejos para gozar. Ainda que tal experiência possa ser conjecturada a uma postura individualista, Kehl (2009, p. 77) afirma que “o único universal que poderia unir sem exceções todos os homens seria o imperativo do gozo”.
Posto isso, pode-se inferir que as matérias da 78ª edição de Menu, com os chefs Newton Figueiredo (p. 34) (FIG. 67) e Cristina Makibuchi (p. 54) (FIG. 71), ao aplicar dispositivos que convocam o enunciatário ao gozo, apresentam códigos que sirvam como uma “ponte e porta”74 para convocar o enunciatário a pertencer a uma determinada tribo urbana,
usando aqui o termo aplicado por Martin-Barbero (2002, p. 293), ou inserir-se a um cacho de corpos, fazendo uso da terminologia de Maffesoli (2007, p. 140). Partindo-se da ótica ampliada de Agambem (2009, 41) quando o autor refere-se ao termo dispositivo como “qualquer coisa que tenha a capacidade de capturar, orientar, determinar, interceptar, modelar, controlar e assegurar os gestos, as condutas, as opiniões e discursos dos seres viventes”, pode- se afirmar que o discurso exposto nessas matérias evocam o enunciatário a escapar de uma condição egocêntrica para poder gozar com um/seu coletivo.
O enunciador convoca o enunciatário a gozar pelos dispositivos relacionados às come(r)-mor-ações, sugerindo que ele exiba as suas produções gastronômicas aos amigos ou o bolo à sua mãe, de modo que o Outro o faça perceber-se a si próprio. A inclusão da figura do
chef no discurso, convoca o enunciatário para produzir a receita e aproximar-se da condição dessa personagem evidenciada nos meios midiáticos, provocando e inflamando o narcisismo do enunciatário. Esses dispositivos incrementam o gozo do sujeito e adensam o ciclo do consumo, pois, segundo exposto por Christian Dunker (apud Prado, 2011):
Narcisismo é uma situação a três. Que imagem eu produzo para este que está diante de mim a partir de uma posição de um terceiro. Esta posição terceira é onde se produz o imperativo de gozo. A revista precisa dizer você está aqui, pode se reconhecer e depois dizer você está fora daqui. No estado contraditório- disjunção o super EU incide sobre o sujeito pedindo para ele incrementar a sua satisfação do gozo e incremente o seu consumo.
Assim, com o campo de possibilidades ampliado pelo enunciador, a partir da figura do
chef, o enunciatário amplia as possibilidades de gozo do enunciatário e, por sua vez, o contrato de comunicação entre ambos é fortalecido. Essas etapas de convocação do sujeito podem ser ordenadas em etapas:
A) Desejo pela imagem sintética oferecida em estado bidimensional. B) Desejo de agir para tornar a imagem tridimensional.
C) Desejo de ser reconhecido pelo Outro a partir do objeto.
D) Desejo que o objeto produzido seja reconhecido pelo Outro a partir da semelhança com um terceiro, ou seja, a figura do chef.
E) Desejo do sujeito se identificar com o chef, posto o profissional estar espelhado na condição de Pai. 75.
75 A condição de Pai dada ao chef trata-se de uma esfera em que o leitor se espelha no chef como um sujeito
exemplar. O prato sugerido, ao ser replicado pelo aprendiz, torna-se um significante da figura do chef, provocando uma relação antropofágico de gostos e de valores morais do chef para o aprendiz. Esse aspecto será tratado nos capítulos seguintes, quando será discutido a relação dos estudantes de gastronomia com os chefs.
Por meio dessas convocações, a Menu, assim como outros veículos de comunicação, podem estruturar um pacote para se aproximar de um público específico – que podem ser as tribos ou a estrutura organizada em cachos sociais, usando mais uma vez aqui os termos aplicados por Martin-Barbero (2002, p. 293) e Maffesoli (2007, p. 140), respectivamente. Segundo Prado (s/d) “as mídias de ‘massa’ constroem comunicações a fim de fazer conjuntos unitários, de agrupar percepções, de criar comportamentos de consumo, de localizar e apaixonar seus leitores, constituindo pacotes de identidades”.