2. GENEL BİLGİLER
2.9 Simanların Çözünürlüğü
Para tratar a questão da experiência, os autores mostram-‐se fortemente influenciados pela filosofia de Merleau-‐Ponty, e apontam que, na filosofia ocidental, ele é um dos poucos filósofos que exploram o entre-‐deux fundamental entre ciência e experiência, experiência e mundo” (Varela et al., 2001:39).
A fenomenologia enquanto movimento e método do pensar inicia-‐se com o filósofo Edmund Husserl e tem como mote o “retorno às coisas mesmas”, o regresso aos fenômenos, ao modo de aparecer vivido antes de ser tematizado.
Nas palavras de Merleau-‐Ponty (1994:02-‐03) “trata-‐se de descrever e não de explicar nem analisar”, ou seja, expor ou apontar os fenômenos sem recorrer à explicação própria das ciências ou à análise que decompõe. Ora “todo o universo da ciência é construído sobre o mundo vivido”, sobre a “experiência do mundo” e é o regresso a “este mundo antes do conhecimento, mas de que o conhecimento fala sempre” a que a fenomenologia visa. Tal retorno, para o autor, é a um mundo originário, que “já está lá” antes de ser estabelecido pela consciência. A principal ideia nesse caso é captar a “relação natural” com o mundo, reestabelecer um contato ingênuo, ou seja, essencialmente perceptivo e conferir-‐lhe um estatuto filosófico.
Nesse sentido, Husserl apontava para a necessidade de uma “fenomenologia genética” (construtiva) que descrevesse a realidade no seu emergir imediato, no seu germinar como movimento, sem influência cientista, historiadora ou psicologista.
Na perspectiva de Husserl adotada por Merleau-‐Ponty, tudo o que se conhece do mundo se dá por meio da vivência, da experiência singular, individual; mesmo na ciência, o universo que ela constrói é edificado sobre vivências e experiências. A ciência nunca alcançará o mesmo sentido que o mundo percebido, pois o mundo percebido é um mundo vivido, é uma experiência vivencial que é descrita, e a ciência é apenas explicação ou análise desse mundo percebido.
De acordo como autor, para se alcançar o verdadeiro sentido do mundo não se pode sucumbir às análises reflexivas e aniquilar a própria reflexão, isso resultaria numa “subjetividade invulnerável” ausente de ser e de tempo, não se deve ignorar a reflexão como acontecimento, uma vez que ela se manifesta como uma verdadeira criação, em que o mundo é dado ao sujeito porque “o sujeito é dado a si mesmo” (Merleau-‐Ponty, 1994:05).
Dessa forma, para Merleau-‐Ponty, o real deve ser mais uma vez descrito e não construído ou constituído, como pensava Husserl, uma vez que ele é a própria gênese e precisa dos nossos juízos tematizados para existir. O mundo é um meio natural e é a origem de todos os pensamentos e percepções do indivíduo. Para Husserl, não sou eu que o crio ou constituo, apenas o percepciono e o descrevo, ou seja, o homem é o que é porque está no mundo e é nele que ele se reconhece.
Ao delimitar uma atitude natural que consistia em “crer na realidade do mundo e de mim mesmo”, Husserl procurava uma atitude não ingênua, que não confunde o mundo com uma realidade objetiva em si, fazendo dele um objeto de ciência. O retorno ao mundo originário, ao mundo antes de ter sido parcelado e tematizado pelas ciências, implica que seja colocado entre parênteses, suspenso. A esse movimento ou atitude Husserl dá o nome de “redução fenomenológica”, ou epoché.
A epoché, portanto, é o empenho em regressar à experiência original e ao mundo original privados da contaminação pelo mundo científico. Trata-‐se, portanto, de colocar entre parênteses as teses cogitativas que foram operadas, e em vez de viver-‐se nelas, de as operá-‐las, deve-‐se operar atos de reflexão dirigidos a elas, a fim de captá-‐las como o ser absoluto que são (Husserl, 1950).
Varela (et al., 2001) afirmam, porém, que tal autor não conseguiu prosperar nos seus próximos passos, porque tornou sua estrutura inteiramente abstrata e inacessível. De qualquer forma, tratou em seus estudos da base do método da reflexão fenomenológica: concentra-‐se na experiência da consciência naquilo que chamava de “mundo vivido”. A tarefa do fenomenologista, então, torna-‐se a análise da relação essencial entre consciência, experiência e este mundo da vida.
Para Husserl, de acordo com Varela (et al., 2001:42), o desenvolvimento de uma ciência do mundo da vida, a fenomenologia pura, era uma forma de estabelecer ligação entre a “ciência e a experiência sem sucumbir ao objetivismo do estilo galileico e por outro lado ao irracionalismo do existencialismo”.
Para Varela, Husserl reconheceu essa circularidade, mas de forma parcial, e tentou lidar com ela de uma forma interessante: que o mundo da vida era na verdade “um conjunto de pré-‐conhecimentos sedimentados ou assunções que o fenomenologista podia tornar explícitas e tratar como um sistema de crenças, ou seja, tentou romper o círculo tratando o meio ou plano de fundo como sendo composto essencialmente de representações” (Varela et al., 2001:43), ou seja, passou a lidar e compreender a análise do mundo da vida em campus filosófico e não antropológico ou histórico, o que determinou, nesse caso, a queda da fenomenologia como resposta às hipóteses formuladas por Varela e seus colegas.
Já para Merleau-‐Ponty, o mundo é um meio natural e a origem de todos os pensamentos e percepções, não é o indivíduo que o cria ou constitui, ele apenas o percebe e o descreve. No fundo o homem é o que é porque está no mundo e é nesse que ele se conhece.
De fato, de acordo com Merleau-‐Ponty a fenomenologia é o “estudo das essências”, mas essas são recolocadas na existência e o mundo só pode ser compreendido a partir da sua “facticidade” e contingência. As essências não devem ser entendidas como um fim, mas como meio e a necessidade que temos de passar pelas essências não implica que “a filosofia as tome por objeto, antes ao contrário a nossa existência é estritamente tomada no mundo para se conhecer como tal no momento em que ela se estende e tem a necessidade do campo da idealidade para conhecer e conquistar a sua facticidade”. Para o autor, procurar as essências significa ir às coisas mesmas, o mundo é aquilo que se percebe, que se vê e não aquilo que se pensa. (Merleau-‐Ponty, 1994:15).
Sendo assim, percebe-‐se a fenomenologia para tal autor como elemento determinante na orientação do seu projeto filosófico que visa a elucidar a experiência do ser humano no
mundo. Dessa forma, o propósito não era chegar a um sujeito puro, constituinte, mas, sim, regressar ao mundo originário e vivo, a partir da experiência perceptiva.
Já a Teoria Psicanalítica, desenvolvida por Freud no fim do século XIX, alternativa à não razão, conseguiu provavelmente ter mais influência nas concepções populares ocidentais da mente do que qualquer outro simples fator cultural. Segundo Varela (et al., 2001), as pessoas acabaram por acreditar que têm um inconsciente que é primitivo tanto sob ponto de vista do desenvolvimento como do simbolismo, e que podem explicar grande parte de sua vida vígil5 por meio dele. Mas, argumentam os autores, que o método psicanalítico sofre da mesma tendência científica e fenomenológica que é o pensamento ocidental a posteriori. E propõem que a solução está em uma tradição filosófica não ocidental: o Método Atenção6/Consciencialização.
Os autores de Mente Corpórea buscaram apresentar esse método com base na experiência budista da meditação. Essa descrição foi estudada e observada por meio de entrevistas de professores tradicionais e estudantes do budismo contemporâneo. Na meditação seu objeto de atenção é a respiração (entre estar presente e não estar presente no mundo): é encontrar-‐se ligado à sua própria experiência humana.
A prática da meditação budista de atenção/consciencialização pretende ser exatamente oposta ao conceito de meditação em seu sentido lato na tradição ocidental7. De seu ponto de vista da meditação de Atenção/Consciencialização os seres humanos não estão presos para sempre na atitude abstrata; A dissociação da mente, do corpo, e da experiência é, nessa tradição, resultado dos hábitos e esses podem ser quebrados ou desconstruídos. Para os autores a Atenção/Consciencialização pode se desenvolver como treino de bons hábitos (uma das abordagens) ou ainda pode considerar o estado natural da mente que foi temporariamente obscurecido por padrões habituais de apreensão e ilusão.
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Motivos, fantasias, preferências e aversões, comportamentos e sintomas patológicos.
6este termo é usado para designar como estar presente diante da sua própria existência humana. 7que prega a consciência num único objeto, um estado de relaxamento benéfico em termos médicos e
psicológicos, um estado dissociado em que podem ocorrer fenômenos de transe e um estado mítico no qual são experienciadas realidades mais elevadas ou objetos religiosos.
Varela (et al., 2001:53), à medida que esses hábitos “são trespassados e se aprende uma atitude de deixar correr, a característica da mente de se conhecer e de refletir sua própria experiência pode sair bastante reforçada, e isso é o princípio da maturidade (prajña)”. Importante salientar que não existe, na tradição budista, um conhecedor/observador abstrato de uma experiência que esteja separado da própria experiência.
A prática budista de Atenção/Consciencialização não é, dessa forma, usada como um ato místico, mas, sim, com a finalidade de tornar as pessoas atentas a suas mentes, experienciando aquilo que cada um faz, enquanto faz: estar presentes com a mente de cada um”. Ou seja, no budismo, a finalidade de acalmar a mente não é para se tornar absorvida, mas para tornar a mente capaz de estar presente consigo própria o tempo suficiente para ser capaz de adquirir uma visão da sua própria natureza e pensamento. (Varela et al., 2001:50)
A meditação de Atenção/Consciencialização trabalha diretamente com a corporalidade básica das pessoas. Trata-‐se de uma questão de simples experiência o fato de corpo e mente poderem ser dissociados, da mente poder divagar, de poder não ter consciência de onde se está e do que corpo ou mente estão fazendo. Mas, esse hábito de desatenção pode ser alterado: a mente e o corpo podem ser juntos, perfeitamente coordenados. Os autores argumentam então, que a reflexão teórica, nesse sentido, não necessita ser desatenta e descorporalizada. A asserção de base dessa abordagem progressiva da experiência humana é que a relação ou modalidade mente-‐corpo não é simplesmente fixada e dada, mas pode ser fundamentalmente alterada. Em conclusão, é necessário adaptar uma perspectiva disciplinada da experiência humana que permita alargar o domínio da Ciência Cognitiva de modo a incluir a experiência direta. Assim sugeriram que tal perspectiva já existe sob a forma da meditação de Atenção/Consciencialização.
Como tal prática, a filosofia fenomenológica e a ciência são atividades humanas, cada uma delas é uma expressão da corporalidade. Os autores acreditam que a Meditação de Atenção/Consciencialização pode, então, fornecer uma ponte natural entre a Ciência Cognitiva e a experiência humana.
“Para nós torna-‐se particularmente impressionante a convergência que descobrimos entre alguns dos principais temas da doutrina budista, da Fenomenologia e da Ciência Cognitiva – temas relacionados com o eu e a relação entre sujeito e objeto” (Varela et al., 2001:61).
Dessa forma, as práticas de Atenção/Consciencialização são descritas por eles como a libertação de hábitos de desatenção, mais uma desaprendizagem do que uma aprendizagem. É exatamente quando o meditador se aproxima do desenvolvimento da atenção com as maiores ambições – de adquirir uma nova competência – que a sua mente se fixa e corre e a Atenção/consciencialização escapa. Ou seja, quando o meditador da atenção começa a deixar-‐se ir, em vez de lutar para atingir algum estado particular de atividade, então o corpo e a mente estão naturalmente coordenados e corporalizados. A reflexão de atenção é então considerada como uma atividade completamente natural.