3. SİLİNDİR KAPAĞI
3.7. Silindir Kapak Arızaları ve Belirtileri
O termo humor, como salienta o pesquisador e professor em estudos literários Massaud Moisés, vem do latim humor, oris que significa líquido, umidade, água e remota a Hipócrates (século V. a. C), sendo que seu uso primeiramente é aplicado na medicina para designar as secreções do organismo humano (MOISÉS: 2004, p. 225). Segundo Moisés, deles deriva a idéia - a partir da relação entre esses humores (sangue, fleuma, a bile negra e a bile amarela) na sua relação com os quatro elementos da natureza (o fogo, a terra, o ar e a água) - de que seriam distinguidos quatro tipos de seres humanos: o sangüíneo, o fleumático, o colérico e o melancólico. Uma pessoa com esses humores equilibrados no organismo seria uma pessoa dita “bem humorada”:
“No século XVI, com o reflorescimento da cultura greco-latina, a teoria dos humores aparece nos estudos de Poética, notadamente os inspirados em Aristóteles. E é graças a Bem Jonson, com duas peças de teatro, a primeira das quais abre com um prefácio de teor doutrinário (Every Man in His Humor, 1958; Every Man Out of
His Humor, 1599), que o termo, assumindo sentido cômico, migrou para a arte
Em razão de sua difícil definição, por seu emprego variado em diferentes áreas do conhecimento humano, o termo vem sendo relacionado com conceitos correlatos, como a ironia, a sátira, o burlesco, o grotesco, o ridículo e o wit, por exemplo, salienta Moisés. Uma reflexão do autor, a partir de diferenciações do que vem a ser humor dependendo da cultura e do país, aponta para o que pode servir como uma análise do caso da caricatura e de outras manifestações gráficas no jornal Pasquim.
Quando o humor (ou o cômico) consegue fazer rir pessoas de diferentes países e regiões, pode-se dizer que trata de um humor do tipo “universal”, onde o sentido é compartilhado independente da cultura e da tradição. Este tipo de humor na contemporaneidade é atribuição mais comum, sobretudo, da Cultura de Massa, espaço simbólico onde os signos e sentidos são mais facilmente compartilhados e compreendidos por diferentes pessoas em diferentes contextos. Mesmo assim, em alguns casos, Massaud Moisés afirma - partindo de um estudo de Victor Raskin sobre o humor, denominado Semantic
Mechanisms of Humor [Mecanismos semânticos do humor], na distinção entre “riso” e
“humor” – que, de uma forma geral:
“O riso é, obviamente ‘um traço humano universal’ (...). [Mas] O motivo que o desencadeia numa cultura não funciona em outra: a causa do riso entre os ingleses recebe a indiferença dos filipinos, e vice-versa. E dentro dessa mesma cultura, a resposta emocional varia conforme as pessoas, desde a mais intensa até a mais fria, para não dizer que também muda de acordo com o temperamento de uma pessoa ou com o seu estado de espírito ao longo dom dia” (MOISÉS: 2004, p. 226).
As formas de humor, causando o riso em universos sociais, culturais e políticos particulares e diversificados, variam, portanto, em cada um destes contextos. É, portanto, uma ferramenta de função ao mesmo tempo cultural e, em alguns casos - quando relacionada ao uso e ao manejo discursivo de formas simbólicas na luta contra ou no sentido de estabelecer relações de dominação, no sentido de John B. Thompson (THOMPSON: 1995), como mecanismo de disputa de poder hegemônico – também ideológica. Joaquim da Fonseca lembra as várias derivações clássicas, baseadas em diferentes autores, em que o riso humano se conceitua:
“Como derivado da alegria e da comédia, como um fenômeno social, como um afrouxamento da tensão e até mesmo como um fenômeno patológico.” (FONSECA: 1999, p. 21).
Formalista e estruturalista russo, Vladímir Propp caracteriza em seis os tipos de riso: (1) O riso de zombaria; (2) o riso bom; (3) o riso maldoso e/ou cínico; (4) o riso alegre; (5) o riso ritual e (6) o riso imoderado. Propp distinguiu esses gêneros de riso a partir de amplos estudos e análises das literaturas de seu país e européia, além de outras manifestações artísticas e do no próprio comportamento humano na vida cotidiana. A tipologia de Propp é capaz de abarcar amplas manifestações e construções que o riso pode ter para se expressar nas artes e na comunicação. É um aspecto diversificado, mas não é totalizante, já que se centra, sobretudo, no riso ligado à comicidade, como o próprio autor adverte:
“Evidentemente os possíveis aspectos do riso, analisados do ponto de vista de sua caracterização psicológica, estão longe de serem esgotados. Os aspectos (...) dão apenas uma idéia muito aproximada, isso porque, para o fim que temos em mente [sua relação com a comicidade], não teria muito sentido um elenco completo de todos os possíveis aspectos e variedades do riso. Para nós são importantes os aspectos do riso ligados, direta ou indiretamente, ao problema da comicidade e, nesse caso, não há necessidade de uma lista preparada empiricamente, mas é suficiente estabelecer categorias fundamentais” (PROPP: 1992, p. 171).
Vale salientar, a título de distinção metodológica, a separação e a semelhança entre humor, comicidade e riso. Em síntese, pode-se dizer que o humor é, com suas raízes na teoria dos humores, uma predisposição do espírito e do organismo ao riso, à gargalhada, ao sorriso, à alegria, suas conseqüências fisiológicas. Entretanto, por sua linha tênue, costuma-se usar a comicidade, ou seja, as formas como o humor se manifesta nas artes, na comunicação e na linguagem em suas relações com o homem, como seu sinônimo. Humor e comicidade seriam - de uma forma geral - sinônimos e - de uma forma restrita - conceitos correlatos. Apesar, contudo, da diferença estar justamente na expressividade do humor a partir do cômico, este visto como linguagem. O riso seria, portanto, conseqüência destes. Uma expressão humana, uma reação ao cômico, este como estética. E uma reação também ao humor, como uma predisposição do espírito ao riso.
Um dos estudos considerados “clássicos”, onde o assunto foi desenvolvido, é o do filósofo francês Henri Bergson O riso: ensaio sobre a significação da comicidade (2004). Em uma reflexão em que aproxima a categoria humor da categoria comicidade - sendo o riso a conseqüência destes, portanto - Bergson explicita que:
“Não há comicidade fora daquilo do que é propriamente humano. Uma paisagem pode ser bela, graciosa, sublime, insignificante ou feia; nunca será risível. Rimos de um animal, mas por termos surpreendido nele uma atitude humana ou uma expressão humana.” (BERGSON: 2004, pp. 02-03).
Para Bergson, o homem não é apenas um animal que “sabe rir”, mas também um animal que faz “rir” (BERGSON: 2004, p. 03). A ênfase que se dá ao riso, como uma manifestação que depende das relações entre sujeitos num universo mediado pela realidade dos contatos, confrontos e negociações, coloca este, riso, como o que Bergson chamou de um
gesto social. Fonseca, no desenvolvimento das origens sociais do riso, defende o argumento
de Bergson:
“A tendência ao cômico parece, com efeito, profundamente enraizada na natureza humana, sendo um dos primeiros sentimentos desenvolvidos pela sociedade ainda em estado bárbaro. O senso do ridículo e do amor por aquilo que é divertido se encontra mesmo entre os selvagens e está presente em suas relações com os outros. Mesmo antes que os povos sonhassem em cultivar a literatura ou as artes, era diversão para os guerreiros levar seus inimigos e seus adversários ao escárnio, rindo de suas fraquezas, ridicularizando seus defeitos físicos ou intelectuais, dando-lhes apelidos tirados destes mesmos defeitos; enfim, a caricaturá-los [grifo nosso] em palavras ou a reduzi-los a anedotas que causassem o riso. (...) O riso como fenômeno social envolve um largo aspecto de reações sociais: rimos com mais facilidade em grupo do que quando estamos sozinhos. O riso é, muitas vezes, meramente um gesto social.” (FONSECA: 1999, p. 21).
Isto ajuda a caracterizar o jornalismo de humor como um fenômeno social, cultural, histórico e político, por exemplo, como mecanismo que possibilite um julgamento, uma crítica ou um exame que assumem características particulares de expressividades através de tentativas de causar o riso. Estas expressividades podem ser verbais ou escritas (por meio da
palavra), visuais (por meio da imagem) ou ambas. É o caso da caricatura como gênero jornalístico (MELO: 1994, pp. 162-174).
O Pasquim - com sua não adequação aos modelos culturais, políticos e sociais hegemônicos do contexto da ditadura militar – enquadra-se nas qualificações acima, descritas por Bergson. Não que o humor fosse a única tônica da fala do jornal, como adverte José Luiz Braga (BRAGA: 1991, pp. 127-155), como pode se perceber em textos mais “sérios”, como os do jornalista Paulo Francis, por exemplo, mas o humor é uma das tônicas principais do jornal, característica marcante e essencial para a sua compreensão.
O humor - salienta o filósofo francês contemporâneo André Comte-Sponville - é uma virtude, em meio a outras importantes, como a coragem, a justiça, a generosidade, a gratidão, a compaixão, a simplicidade, a tolerância e o amor, cujo humor pode se servir de todas elas para se expressar, como bem descreve. Para ele:
“O humor não impede a seriedade a outrem, nossas obrigações para com ele, nossos compromissos, nossas responsabilidades, até mesmo com nossa própria existência. Mas impede de nos iludirmos e de ficarmos demasiado satisfeitos”. (COMTE- SPONVILLE: 2009, p. 230).
O humor político, social e cultural do Pasquim, como forma de combate e antagonismo às atrocidades, aos abusos, às intolerâncias, às ignorâncias e às injustiças cometidas durante o regime político autoritário por parte dos militares e de sua base de sustentação civil, parece ser um bom exemplo a ilustrar essa virtude.