2. MANİFOLDLAR
2.3. Motorlarda Egzoz Sistemleri
A bibliografia sobre jornais de caricatura no Brasil ainda está em construção. Apesar das duas obras consagradas no país se remeterem aos principais caricaturistas e publicações sobre esse gênero de linguagem gráfica humorística - com as obras de Herman Lima e de Joaquim da Fonseca, por exemplo - se faz necessário um trabalho de pesquisa atento para se referir aos principais veículos e espaços de divulgação deste tipo de linguagem de humor nos já 172 anos de caricatura no Brasil. Portanto, um estudo dos suplementos de humor dos grandes jornais do país, das revistas e jornais alternativos e demais publicações que contenham a caricatura como discurso gráfico nos anos 1960 – anteriores ao Pasquim - ainda está para ser feito.
Entretanto, tentou-se reunir aqui algumas referências coletadas durante a pesquisa, como forma de tentar sinalizar aproximações entre o Pasquim e estas publicações de humor. As maiores influências ao Pasquim entre as publicações da imprensa alternativa são a revista
Pif-Paf, criação de Millôr Fernandes, e a Carapuça, de Sérgio Porto. Além da proximidade
temática com os suplementos de humor Cartum JS (encartado no Jornal dos Sports), O
Manequinho (no jornal Correio da Manhã) e O Centavo (na revista O Cruzeiro).
O nome Pif-Paf vem a partir de sessão homônima na revista O Cruzeiro, mantida
durante 18 anos por Millôr Fernandes. Com a saída da revista, em 1964, logo após o golpe militar, Millôr reuniu inúmeros humoristas para colaborarem na revista. Entre eles estavam Ziraldo e Fortuna, que cinco anos depois iriam juntar-se novamente ao “guru do Meyer” para desenhar no Pasquim. Revista de circulação quinzenal, em formato tablóide, era impressa em policromia28 no sistema de rotogravura29 e vendida em bancas. A redação era o próprio estúdio de Millôr que, na sua postura de artista de linguagens múltiplas (como jornalista, cartunista, artista plástico, escritor, tradutor, autor de teatro e humorista) sempre foi considerado “mestre” pelas gerações de 1960 e 1970 no humor gráfico brasileiro. Assim como a maior parte da imprensa alternativa, como o Pasquim:
“Pif-Paf nasceu sem nenhum esquema profissional de produção. Os humoristas entregavam suas colaborações, mas não trabalhavam na revista. Millôr Fernandes, com a experiência de O Cruzeiro, produzia tudo. Uma precariedade que se tornaria marca registrada da imprensa alternativa. Quando a distribuidora Fernando Chinaglia circulou seu número 1, na penúltima semana de maio de 1964, Pif-Paf vendeu cerca de 40 mil exemplares, com enorme impacto nos meios estudantis, jornalísticos, políticos e intelectuais. Apesar de voltada predominantemente à crítica de costumes e de ter sido preparada antes do golpe, Pif-Paf foi recebida como uma resposta ao golpe militar.” (KUCINSKI: 1991, p. 18)
28 Policromia é o mesmo que impressão “colorida”, a partir de pelo menos quatro das cores básicas de impressão.
São elas: cyan (ou ciano), magenta, amarelo e preto. Quando é feito com menos cores, diz-se que foi feito em bicromia (duas cores) ou tricromia (três cores), como forma de distinção da policromia.
29 Rotogravura, segundo Marina Oliveira, é “um processo de impressão encavográfico recomendado para
projetos de altas tiragens, com exigência de grande qualidade. Originária da indústria têxtil do século 19, é um processo de impressão direta, majoritariamente com alimentação em bobina” (OLIVEIRA: 2000, p. 65)
Por conta de uma charge na edição de nº 04 da revista Pif-Paf, o cartunista Claudius foi preso. Tornou-se, assim, lembra Bernardo Kucinski, o primeiro humorista preso após o golpe militar de 1964. Após a saída do cárcere, Claudius fez um texto ironizando o tratamento através do interrogatório dos militares, com o título “Rigorosamente incomunicável”. Na edição de nº 8, Millôr Fernandes escreveu o editorial “Advertência”, que mandava os militares ficarem atentos à ação dos opositores e a circulação de Pif-Paf, pois, dizia o editorial, “dentro em breve estaremos caindo numa democracia”. A edição foi apreendida em diversos lugares e Millôr encerrou a revista.
Pela qualidade de seu projeto gráfico, sua junção entre texto e imagem, sua tônica de linguagem gráfica baseada no humor, na caricatura, na charge, no cartum e com a participação de futuros colaboradores do Pasquim, Pif-Paf pode ser considerado uma espécie de precursor do semanário carioca. Entretanto, ao contrário de Pif-Paf, que circularia durante quatro meses somente, durante o ano de 1964, o Pasquim duraria 22 anos, de 1969 a 1991.
Os suplementos de humor, nos jornais da chamada grande imprensa, são importantes de serem lembrados por serem espaços de cartunistas que fariam parte posteriormente do
Pasquim. Em sua biografia sobre o cartunista Henfil, Denis de Moraes remete-se a alguns
destes cadernos semanais. O Centavo abrigou boa parte dos cartunistas da chamada nova geração do final dos anos 1960, como Adail, Wilmar, Redi, Wagner e o próprio Henfil. No O
Centavo, eram criadas por Henfil sátiras sobre temas inoportunos aos militares no poder,
como guerra e militarismo, lembra Dênis de Moraes. No Manequinho, criado pelo jornal
Correio da Manhã, descreve Moraes:
“(...) pontificavam Millôr Fernandes, Ziraldo, Claudius Ceccon e Jaguar. O Manequinho resistiu até a fúria castrense consolidar-se com a edição do Ato Institucional Nº. 5, em 13 de dezembro de 1968. Para Fortuna, Henfil foi a revelação do suplemento: ‘No lugar de generais pesadões, ele desenhava soldados simples, apenas com capacetes e cassetetes. O resultado eram tiras muito menos poluídas visualmente e com perfeita noção de movimento´” (MORAES: 1997, p. 93)
Mas, segundo o próprio Jaguar, fundador e humorista que mais tempo permaneceu no
Pasquim, a Carapuça é o “embrião” do semanário carioca. Segundo Jaguar, em texto de
abertura do primeiro volume da antologia (1969-1971), intitulado “Toda a verdade (vá lá, meia) sobre o começo do Pasquim”:
“O embrião do Pasquim foi gerado em setembro de 1968, no dia em que morreu Sérgio Porto, sobejamente conhecido como Stanislaw Ponte Preta. Ele era responsável pela Carapuça, tablóide semanal de humor. Na verdade, o jornaleco poderia continuar indo as bancas. O autor dos textos, de cabo a rabo, era Alberto Eça, que conseguia fazer uma imitação razoável do jeito de escrever do fero cronista. O pessoal do ramo sabia que o estilo do Stan era inimitável, mas dava pra engabelar a plebe ignara. (...). Mas como explicar aos leitores? (...) Murilo Pereira Reis, da Distribuidora Imprensa, que editava a Carapuça, chamou Tarso de Castro, que na época fazia um baita sucesso com sua coluna na Última Hora. Tarso encontrou-se comigo no Jangadeiros e quis saber de minha opinião. “Melhor fechar e abrir outro jornal”, sugeri. Sérgio Cabral já tinha dito o mesmo. A editora topou. Tarso convidou Sérgio Cabral e eu escalei Claudius e Carlos Prósperi para fazer o projeto gráfico.” (JAGUAR: 2006, p. 07).
Entretanto, apesar de tantas referências anteriores no humor gráfico, o Pasquim iria superar as tiragens de Pif-Paf e da Carapuça, circulando semanalmente em todo o país e criando uma popularidade, uma afinidade dos leitores, uma ânsia pelos seus próximos números, em torno da publicação que foi de certa forma inesperada, inclusive para os seus próprios criadores. Além disso, iria inovar a linguagem do jornalismo, como com a entrevista sem copidesque, e do próprio humor, como atestam muitos humoristas, cartunistas e chargistas nos dias atuais.