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Em relação a cultura da região e sua relação com o futebol dos clubes, ambos os treinadores falam de maneira semelhante da influência cultural no futebol de cada região, e também relacionam com o biótipo dos jogadores.

“[...] existem culturas muito enraizadas em regiões do Brasil, na região sul tem uma maneira de jogar, na região mais centro oeste, sudeste tem uma outra maneira, nordeste tem outra maneira, muito baseadas em cima da sua cultura como região, e também como formação morfologia dos jogadores, a parte fisiológica dos jogadores, então se caracteriza muito por isso. ” (TB)

“ É lógico que influência né, a gente estamos num país gigantesco né, a questão lá do Sudeste é diferente da questão do Nordeste, é, no Nordeste a gente sabe que tem um pouco de dificuldade em algumas situações na parte de alimentação né, então o atleta, o jovem, vem mais desnutrido do que lá em baixo no Sul, então a cultura influencia sim né, mas, aí tem todo o aparato para você poder botar o atleta numa condição semelhante a culturas diferentes. “ (TP)

“ Podem e devem né, e influenciam. O biótipo da população, a sua formação e origem sem dúvida, nós temos hoje fazendo um comparativo tu pega o sul do país né, basicamente colonizado por italianos e alemães e pega já aqui pro nordeste, outro tipo de miscigenação, de povo, com certeza vai influenciar na sua maneira de ver o desporto de competição, e também essa questão da biotipia né, a questão da formação morfológica do jogador. “ (TB)

Identificando assim a importância que a cultura de cada região tem nas diferentes formas de jogar de seus clubes, diferenças essas descritas por Damo (1998), que cita a influência da malandragem carioca no estilo de jogo cadenciado das equipes do Rio de Janeiro. Bem como as lutas e as influências dos colonizadores europeus para caracterizar o futebol aguerrido dos times do Sul do país. Esta importância também é identificada na fala de Balzano (2008) apud Damo (1999) no qual este comenta que a cultura do País pode influenciar de maneira direta no seu estilo de se jogar futebol.

Essas diferenças de culturas que caracterizam a maneira de jogar dos clubes, juntamente com as ideias de jogo e maneira de trabalhar do treinador, falada pelo TB, relacionado ao modelo de jogo é comprovada por Gomes (2008) quando este comenta que a cultura de jogo do clube adaptado ao entendimento de jogo pelo treinador, são fatores importantes para que cada equipe possua a sua característica individual de jogar.

Ambos treinadores relacionam a cultura local com o biótipo e a formação morfológica dos jogadores, no qual as características dos atletas identificam uma região.

Essa visão pode ser confirmada por Daolio (2005) quando ele fala que o futebol de cada país possui características únicas da mesma forma que possuem seus hábitos e costumes que o caracterizem.

Sobre o biótipo da população e formação morfológica citada pelos treinadores TB e TP, e levando em consideração a região onde o clube estudado se encontra, Vasconcelos (2011) fala que no Nordeste, além da influência dos povos que habitaram a região, a seca e outras dificuldades nos quais os estados dessa região se encontram, influenciam diretamente nas características da população e consequentemente, nas características dos atletas.

Assim, pode-se identificar essa relação entre a cultura e a maneira de jogar em diversos clubes do país. Alguns desses clubes, principalmente por parte de seus torcedores, criticam uma possível mudança de postura na maneira de jogar independentemente dos resultados que venham a ser obtidos por acharem que o seu clube tem que jogar sempre da maneira que os identifique.

Quando perguntados sobre a cultura futebolística do Brasil e da Europa ambos colocaram que é importante a competitividade e a mescla dos dois conceitos.

“ Ah, não acredito nem em um nem em outro, o futebol arte é uma coisa mais romancista, isso não existe mais também, hoje tu tens que ser competitivo e equilibrado”. (TB)

“ Não, futebol, eu gosto de futebol bem jogado né, o futebol força, se você tem um atleta que só marca você não consegue fazer ele jogar mas se você tem um atleta que joga você consegue fazer com que esse atleta ocupe espaço e faça a marcação então eu, eu acredito ainda que o futebol você jogando para ganhar você tem muito mais chance de ter êxito do que você for um time que só marque ou jogue com força. “ (TP)

“ Sim, você consegue fazer isso porque, hoje, você consegue ocupação de espaço. A marcação hoje que é o futebol força que você citou, ela é marcação, é fechar espaço, diminuir espaço, não precisa você ser um atleta que dá carrinho, que chega forte, se você diminuir o espaço e fazer com que o adversário mude de direção isso daí já facilita muito e quando a bola cai no seu pé com atletas de muita qualidade você põe sempre o adversário em condições difíceis. “ (TP)

Neste sentido, Paoli (2007) corrobora com os pesquisados quando cita que os dois estilos que são mais evidentes de futebol, o futebol arte e o futebol força, e coloca que podemos observar que no Brasil o futebol arte participou de forma decisiva da construção da identidade futebolística nacional. Ainda segundo o autor, o futebol-

arte caracteriza-se, dentre outros fatores pelo atleta que pode individualmente desequilibrar uma partida com jogadas de efeito por sua habilidade técnica e astúcia no momento da ação. Já Giglio (2003) contempla o discurso dos pesquisados quando coloca que a principal mudança no futebol foi o desenvolvimento da parte física (futebol-força). Hoje, os jogadores aguentam correr mais, realizam múltiplas funções em campo, são mais disciplinados taticamente e isso aumentou a velocidade do jogo. Desta forma, o futebol arte que era tradicional no Brasil e tido como a solução dos problemas dentro das quatro linhas, e o futebol força de marcação e vigor físico, que durante algum tempo também foi a solução, no futebol atual, perderam espaço para a organização das equipes durante todo o jogo, o drible e a força passaram a ser uma ação dentro dessa organização como falam os treinadores TB e TP.

Ou seja, esse equilíbrio, levando em consideração as questões culturais, pode se dá pela busca em extrair o melhor de cada estilo, tanto do futebol arte, quanto o futebol força, a fim de ser, no futebol atual, cada vez mais competitivo. Assim, essa mudança de visão da maneira de jogar do futebol brasileiro é mencionada por Soares e Paoli (2007) apud Lovisolo (2003), como ultrapassada, pois o futebol brasileiro não é mais visto somente por jogadores habilidosos, que priorizam a individualidade, belos lances e a improvisação.

Quando indagados sobre o clube pesquisado, TP cita que há uma cultura especifica de futebol da instituição, características que o torcedor ver, gosta e que isso deve ser respeitado.

“ Sim, a gente vê que o clube é um clube que o próprio torcedor exige que seja um time muito rápido principalmente pelos lados né, se você botar um lateral que tenha uma qualidade mais defensiva ele passa a ter dificuldade então isso é uma característica do clube né, pela sua história e a gente tem que respeitar a história. ” (TP)

De acordo com Vasconcelos (2011) os torcedores expressam no futebol, características que eles mesmos almejam e admiram, desejando assim que o clube seja o reflexo dessa ideia construída que, muitas vezes é a diretamente influenciada pela mídia.

Essa cultura especifica do clube deve ser levada em consideração principalmente pela grandeza do clube e de sua torcida, esses fatores acabam influenciando diretamente no trabalho dos profissionais, principalmente nos treinadores.

Para o TB, o clube estudado deve utilizar-se de sua grandeza para sempre buscar bons resultados, assim, em relação a cultura desportiva do futebol brasileiro

“ Bom, o clube a nível, regional, a nível estadual aqui tem que ser um protagonista né, ele tem que, que, que, ser uma equipe que tem a bola, que exerça pressão sobre o adversário, que preze por uma organização ofensiva, que tenha muita intensidade ao perder a posse de bola, realmente tem que ser, assumir o papel de protagonismo a nível principalmente estadual. A nível nacional a gente sabe que aí a gente entra numa competitividade maior e aí a gente tem que saber respeitar isso. “ (TB)

Essa competitividade mais elevada que o treinador pretende em relação ao nível nacional, pode ser entendida na fala de Vasconcelos (2011), no qual a cultura do futebol cearense acaba sendo engolida pela mais elevada situação socioeconômica das regiões e dos clubes do sul do país.

De acordo com as opiniões acima é importante que desportivamente os clubes da região Nordeste, que economicamente possuem menos recursos financeiros que os clubes do Sul e Sudeste, profissionalizem sua maneira de pensar futebol, e de sentir serem menores, pois com uma visão vencedora poderão enfrentar de igual para igual os clubes do centro do país.

5.1.6. As estruturas organizacionais do jogo

Em relação aos sistemas táticos das equipes, os treinadores TP e TB dão importâncias distintas à plataforma tática. O treinador da categoria sub 20 (TB) fala em seu depoimento que busca direcionar o seu trabalho tático em relação aos princípios táticos do jogo, princípios esses identificados por Silva (2008) como norteadores do processo de organização do modelo de jogo.

“ [...] tática para mim não se resume nisso de números, losangos, figuras geométricas, quadrados, linhas, não é isso não, até eu não costumo conversar sobre isso com os meus jogadores, o que entra sim são os comportamentos, princípios e subprincípios”. (TB)

“ [...] por eu não trabalhar, por eu não achar que tática são apenas sistemas táticos, por eu trabalhar com comportamentos e trabalhar em cima dos momentos do jogo a minha avaliação a nível de plataforma tática ela é bem maior, é bem variado. Nós jogamos agora uma Copa São Paulo por exemplo e a gente dentro da competição que foi 7, 8 jogos, 7, 8 jogos nó acabamos jogando em 6 ou 7 sistemas táticos, mas pra mim isso tem muita pouca importância, a plataforma tática ou sistema tático mais importante são os comportamentos; “ (TB)

Princípios esses, que de acordo com Pivetti (2012), é uma orientação em relação ao entendimento da tática dos jogadores, participando em si a resolução de problemas em diversas situações de jogo.

Na mesma linha Garganta (1997), descreve que os princípios táticos englobam as movimentações, e estão relacionados diretamente com as ações dos jogadores, com a consciência, o conhecimento tático e com os mecanismos motores.

O pesquisador tem uma ideia diferente de Parreira (2005) de tática e sistema, pois para o autor sistema de jogo é apenas uma forma de distribuir os jogadores dentro do campo de jogo, com poucas variações em relação a essa divisão. A maioria dos treinadores busca distribuir os jogadores em três grupos, o de defesa, meio-campo e ataque.

Essa ampla visão em relação a plataforma tática de jogo, trabalhando em cima dos comportamentos pode fazer com que o mecanicismo de entender o futebol somente a partir dos números dos sistemas táticos seja colocado em desuso, oferecendo assim, um maior repertório tático e o aprofundamento em novas ideias de futebol.

Já o Treinador da equipe profissional (TP), define bem as plataformas táticas e variações dentro desses sistemas de jogo que norteiam a maneira de jogar de sua equipe:

“ Bom a gente adotou agora pra esse início de trabalho um 4-1-4-1 e a primeira variação é um 4-4-2 com duas linhas né, com pouco tempo de trabalho nós conseguimos introduzir essas duas situações mas ainda tem mais um esquema que eu gosto de usar mas a gente demanda de tempo pra trabalhar pro pessoal assimilar esses dois né, que é o 4-4-2 no losango que é um esquema que eu gosto muito e dependendo do adversário você pode fazer um quadrado, então são, nós vamos ter ai praticamente 4 ou 5 esquemas que nós vamos variar né, que são situações para você iludir, ludibriar o adversário dentro do jogo. “ (TP)

Esse esquema tático, 4-1-4-1, utilizado pelo TP para início de trabalho, é o mesmo utilizado pelo treinador Tite onde se busca uma rápida ocupação do setor de ataque, triangulações, intensidade e o 4-4-2 utilizado como variação tática pelo TP.

Segundo Santos Filho (2002), é um esquema que apresenta várias variações, conseguindo com ele, dificultar a saída de bola e criação das jogadas ofensivas dos adversários, ajuda nas ações dos jogadores de defesa e facilita os contra-ataques, porém, exigem dos meio campistas uma grande capacidade física para marcar e apoiar além de dificultar as ações dos jogadores de ataque por ficaram numa condição de inferioridade numérica.

No entanto, no futebol atual, independente do sistema tático utilizado, a busca pela intensidade dos atletas dentro do jogo é bastante buscada pelos treinadores a fim de aperfeiçoar o rendimento.

Essa ideia de utilizar os sistemas táticos para ter uma vantagem sobre o adversário dentro do jogo citada pelo TP pode ser confirmada por Grando (2014), quando o mesmo fala que esses esquemas são uma maneira que o treinador encontra de desestruturar as equipes adversárias tanto nos momentos de organização ofensiva e defensiva do jogo.

A utilização de variações de sistemas táticos se faz necessário para que o treinador tenha novidades para surpreender os adversários conseguindo assim extrair o melhor rendimento dos seus atletas dentro dessa maneira de jogar.

Observa-se também no contexto da tática e dos sistemas táticos, que os pesquisadores têm divergência de opiniões. O TB tem uma visão mais moderna de tática no futebol, segundo a literatura, fundamentando seu jogo nos princípios táticos. Já TP, considera importante o sistema tático e suas variações. Esta divergência também pode estar vinculada a formação profissional dos pesquisados.

Para TP, as características dos jogadores é fator importante para a escolha do sistema tático a ser utilizado e a fim de conseguir o melhor rendimento de cada um dentro dessa sistematização tática.

“Características dos atletas, isso é fundamental para que o atleta renda o máximo possível dentro do sistema”. (TP)

Santos Filho (2002) complementa esta afirmação, quando fala que o treinador deve se basear nas características dos seus jogadores para a escolha do sistema tático adequado.

Já para Pinho (2009) apud Gluct, (1997) cit por Paula (2005), um treinador pode ser tachado como um treinador de excelência a partir da sua maneira de extrair dos jogadores o melhor desempenho dentro de jogo.

Conforme Parreira (2005), as diferentes características dos jogadores é um dos elementos a fazer com que um mesmo esquema tático possa ser entendido e utilizado de várias formas.

Parecem peça fundamental na escolha dos sistemas táticos as características dos jogadores, pois se o treinador escolher um sistema onde vários

jogadores sintam dificuldade de se adaptar, isto pode gerar uma desorganização tática da equipe

Quando perguntados sobre os sistemas de defesa, ambos os treinadores se utilizam da mesma marcação zonal em seus trabalhos. Mas TP volta a falar dos princípios que norteiam os momentos do jogo. Já TP executa a marcação zona no campo do adversário como opção tática.

“Ah marco a zona, marcação zonal, essa é uma das características do meu trabalho, que marcam o meu trabalho, por eu achar que é uma marcação mais coerente, mais inteligente”. (TB)

“A minha marcação é sempre zona alta”. (TP)

“ [...] a minha equipe sempre ta pronta pra perder a bola, pra ocupar o espaço de uma maneira mais rápida nas transições tanto na perda quanto na recuperação da posse da bola, então um dos grandes princípios do meu trabalho enquanto treinador é questão da marcação zonal, não ter o homem como referência e sim a bola e os espaços perto da bola que são os mais importantes. “ (TB)

“ [...] porque a gente dificulta a saída de bola do adversário, rouba a bola mais próxima do gol né, e isso daí lógico que você não consegue fazer isso daí o tempo inteiro, mas o meu time vai ser sempre marcação alta porque você dificulta a saída de bola do adversário onde o nascedouro da jogada começa lá atrás. “ (TP)

Segundo Melo (2000) a marcação zona consiste na marcação dividida por setores, fazendo com que cada atleta seja responsável pelo seu setor de campo.

Ambos treinadores ao utilizarem a marcação por zona compartilham com algumas ideias de jogo do Treinador Tite, pois este, trabalha com sua equipe com um sistema de compactação com o goleiro e mais nove jogadores atrás da linha da bola; uma organização de contra-ataques, buscando rapidamente preencher os espaços livres no setor de ataque, explorando o costado da defesa.

Na mesma linha anterior, o técnico Roger treina sua equipe defensivamente buscando uma participação defensiva ativa de todos os jogadores, procurando diminuir os espaços do adversário e ao perder a posse de bola, buscar intensamente a retomada e recuperação da mesma, dificultando a organização ofensiva do oponente.

Observa-se que tanto para TB como TP o mais importante nessa marcação é a bola e os espaços que estão próximos dela, tirando assim a referência do homem ao marcar, espaços esses que segundo Melo (2000), são pré-determinados para cada jogador.

Identifica-se na marcação utilizada pelos pesquisados, que a marcação por zona e muita utilizada pelas principais equipes, e que o preparo físico e a intensidade são importantíssimos para que esse tipo de marcação tenha resultado, pela constante ocupação de espaços e intensidade de movimentação.