Pela legislação anterior, a sociedade por quotas de responsabilidade limitada formava-se de duas ou mais pessoas, e todas assumiam de forma subsidiária a responsabilidade solidária pelo total do capital social, consoante definia o Decreto n. 3.708, de 10.01.1919.
Embora mantida a mesma estrutura societária pela nova codificação na atualidade, o certo é que “o Decreto n. 3.708/19, que regulava as sociedades limitadas, encontra-se revogado em face da legislação civil em vigor, que trouxe uma maior consistência a esse tipo societário, haja vista que o instrumento normativo anterior caracterizava-se por omissões em pontos essenciais”.76
Hoje, configura a quarta espécie de sociedade personificada tratada pelo Código Civil de 2002, tendo simplificada sua denominação anterior, sociedade por quotas de responsabilidade limitada (arts. 1.052/1.087), para apenas sociedade limitada, e passa, pelo novo ordenamento, a ter um regime jurídico consolidado em apenas um diploma legal, o que antes se dava pelo Decreto n. 3.708/19, ora revogado, e, subsidiariamente, pela lei das sociedades anônimas, nos casos de omissão do contrato social (cf. Decreto n. 3.708/19, art. 18).
76 PIRES, Antonio Cecílio Moreira; WIEGERINCK, João Antonio, O direito societário e as alterações
Pela nova legislação, aplicam-se-lhe as regras do Código Civil e, em suas eventuais omissões, incidem as normas das sociedades simples (art. 1.053). Acresça-se, todavia, que a aplicação subsidiária da lei das sociedades anônimas ainda é possível, desde que haja expressa previsão no contrato social (art. 1.053, parágrafo único). Tem-se, aliás, recomendado a inserção de disposição clausular específica nesse sentido, em razão de que as regras da lei das sociedades anônimas são mais claras e já contam com entendimento doutrinário e jurisprudencial consolidado.
Sempre entendida como um sociedade ora de pessoas, ora de capital, tudo conforme as diretrizes que possam emanar do respectivo contrato social, a sociedade limitada tem por característica fundamental o fato de que a responsabilidade dos sócios se restringe ao valor do capital social. Atribui-se sua grande difusão na sociedade moderna a alguns fatores importantes: a) é de formação mais simples do que, por exemplo, a sociedade anônima; b) a responsabilidade dos sócios restringe-se ao capital social, o que a distancia da sociedade solidária; c) é de funcionamento menos formal do que, por exemplo, a sociedade anônima, já que dispensa ônus significativos, como a publicação de balanços e outros atos; d) possibilita a opção entre a firma social e a denominação, o que significa possibilidade de sua aproximação, a um só tempo, quer da sociedade de pessoas, quer da sociedade de capital. A gerência da sociedade incumbe a qualquer dos sócios nomeados, e o sócio-gerente, quando age nos limites da lei e do contrato, não responde pessoalmente pelas obrigações contraídas em nome da sociedade. Por determinação expressa do Código Civil de 2002, em casos de omissão do contrato e da lei específica, aplicam-se subsidiariamente as regras da sociedade simples (CC, art. 1.053).
O novo Código trouxe novidades para a sociedade limitada. Aproximou-a da sociedade anônima, ao aumentar determinadas exigências, como a necessidade de realização de assembléia anual (art. 1.078). Ordenou maior responsabilidade aos administradores. Conferiu maior poder e maior proteção aos minoritários. Fixou formalidades mais rigorosas, como obrigar, ao término de cada exercício, a elaboração de inventário, balanço patrimonial e balanço de resultado econômico (art. 1.065), o que antes se exigia apenas para a sociedade anônima. Obrigou que as deliberações sociais se tomem em reunião ou assembléia, quando mais de dez os sócios, exigência essa que deve constar de contrato social (art. 1.072). Ante tais novas formalidades exigidas, preconizam alguns que, em determinados casos, talvez seja mais vantajoso abrir uma sociedade anônima de capital fechado.
A distinção fundamental foi a da sociedade com mais de dez quotistas, para a qual se exige uma administração mais complexa. Em caso contrário, segue-se o determinado no art. 1.060: a administração pode ser exercida “por uma ou mais pessoas designadas no contrato ou em separado”. Também para sociedades com mais de dez quotistas, as deliberações sociais serão tomadas em reunião ou assembléia (art. 1.072 e parágrafos). Dispensam-se, todavia, a reunião ou a assembléia, “quando todos os sócios decidirem, por escrito, sobre a matéria que seria objeto delas”.
Foram introduzidas formalidades específicas para a convocação de assembléias (art. 1.152, § 3º); tais requisitos, porém, foram dispensados, “quando todos os sócios comparecerem ou se declararem, por escrito, cientes do local, data, hora e ordem do dia” (art. 1.072, § 2º).
Na defesa dos interesses da minoria, facultou-se a convocação de reuniões ou assembléias “por sócio, quando os administradores retardarem a convocação por mais de sessenta dias, nos casos previstos em lei ou no contrato” (art. 1.073, I, primeira parte), e também “por titulares de mais de um quarto do capital social, quando não atendido, no prazo de oito dias, pedido de convocação fundamentada, com indicação das matérias a serem tratadas” (art. 1.073, I, segunda parte). E se facultou ao contrato social instituir um Conselho Fiscal (art. 1.066).
É de fácil percepção que, por um lado, as formalidades introduzidas visaram à possibilidade de que empresas de maior porte vistam o modelo das sociedades limitadas como estrutura de viabilização, raciocinando a lei que estruturas maiores não podem ter uma administração tão simplista e despojada, sem obediência a determinados requisitos mais complexos. A dispensa de formalidades, por outro lado, tem por destinatárias as empresas limitadas de pequeno ou médio porte. Além disso, diversas das providências cautelares destinam-se à proteção da minoria, que, de outro modo, não teriam como salvaguardar seus interesses.
A justificativa para uma série de modificações das regras até então contidas no Decreto n. 3.708, de 10.01.1919, foi que essas sociedades permitiam, em sua antiga estrutura, abusivas decisões da maioria e subordinavam a administração à vontade arbitrária dos sócios majoritários, não obrigados a prestar contas de suas decisões, sem que a minoria tivesse
condições de participar eqüitativamente dos lucros, ou mesmo pudesse fazer valer seus direitos. A nova lei, assim, teria vindo para corrigir esse estado de coisas, assegurando os direitos e interesses a todos os quotistas, pondo termo aos abusos até então praticados sem meios de defesa. Além disso, teria passado a prever novas estruturas sociais, como Diretoria, Conselho Fiscal e Assembléia Geral, respeitando o livremente disposto no contrato social e sendo obrigatórias apenas em casos que especificou. Com isso, teria evitado uma estruturação rígida e teria permitido uma ampla variedade de formas, com possibilidade de constituição desde os moldes da sociedade anônima até o da sociedade simples.
Para diversos autores, entretanto, essas profundas alterações havidas na sociedade limitada não se deram na direção da jurisprudência consolidada ao longo dos anos ao apreciar questões na vigência do Decreto n. 3.708/1919, já que, no ordenamento anterior, essa espécie societária aparecia como um modelo organizacional flexível, adaptável às diferentes necessidades, sem burocracias maiores, nem realização de assembléias e publicações de atas e demonstrações financeiras, apenas exigíveis para as sociedades anônimas.77
É certo que o coordenador da comissão elaboradora, em defesa do novo sistema, afirmou serem dispensáveis essas formalidades, “quando todos os sócios comparecerem ou declararem por escrito, cientes do local, data e ordem do dia”, ou quando decidirem por escrito sobre a matéria (CC, art. 1.072, § 3º)78. Mas – afirmam os opositores – unanimidade, declarações de todos, por escrito, acaso não constituem real e verdadeira burocracia?79
Além disso, abandonar a regra da maioria para adotar a unanimidade significa alteração que, em última análise, transfere o poder da maioria para a minoria, já que esta, se não quiser a alteração, simplesmente inibe sua ocorrência. Exatamente por isso argumentam alguns que, na preservação dos destinos das sociedades, a salvaguarda dos direitos da minoria não pode ser exercida de modo que signifique verdadeira supressão dos direitos da maioria e um real impedimento à vida da sociedade. E isso sem falar na possibilidade de criação de espaço aos oportunistas e de ensejo à elevação dos custos sociais.
77 Cf. SZTAJN, Rachel. Externalidades e custos de transação: a redistribuição de direitos no novo Código Civil,
cit., p. 19.
78 Cf. REALE, Miguel. Invencionices sobre o Código Civil. O Estado de São Paulo, São Paulo, 15 fev. 2003. 79 SZTAJN, Rachel, op. cit., p. 19.