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Essa quarta parte será encerrada com breve subseção sobre o projeto de criação da Província dos Cariris Novos, para o qual se destaca o enunciador Martiniano de Alencar (1794 - 1860), padre que virou senador em 1832 e que apresentou esse projeto em 1839 ao Senado. Esse projeto foi reapresentado pelo filho do senador Alencar em 1856 no Diário do Rio de Janeiro, o seu homônimo, José Martiniano de Alencar (1829-1877), mais conhecido atualmente como o escritor e romancista José de Alencar.

Câmara Municipal, com o Ouvidor Lagos, cumpram o decreto e marquem as eleições para sete de setembro, data que correspondeu ao grito do Ipiranga.” Entre setembro e dezembro, ocorre a marcha para Icó em causa pela independência e para afastar aqueles que não aceitavam o decreto constitucional, e que sinalizavam “contra a causa do Brasil”. O grito às margens do Ipiranga somente chega a Câmara de Fortaleza em 24 de novembro, data em que a mesma adere à “aclamação do Imperador Pedro I”. Figueiredo Filho, 1964, p. 19, assinala que a vila de Crato já fizera a “libertação da província e a jornada da liberdade”, movimentando-se para a metrópole desde 28 de setembro de 1822. Em dezembro daquele ano aconteceu a “fuga dos elementos da Junta do Governo, pró-lusitanos”. Os eleitores da capital elegem o governo provisório de Filgueiras e outros que tinha ocupado a liderança em todos os acontecimentos.

167 Figueiredo Filho (1964, p. 10) apresenta como título do seu capítulo sétimo do volume 2 da obra História do

Cariri: “A segunda Comarca do Ceará faz o movimento de independência, em 1922.” Ver nota anterior.

168 Além de Brígido (1888), dois autores tratam desses eventos: Pinheiro (1950/2009) e Figueiredo Filho (1964),

afastando dos mesmos a associação com movimentos separatistas. Além deles, vale consultar outros pesquisadores que se dedicam em anos mais recentes a esses acontecimentos.

O segundo Martiniano de Alencar relançou a ideia de criação da referida província e tal artigo foi reapresentado por Brígido no jornal “O Araripe” em seu número 46, de 31 de maio de 1856. Eis uma parte do texto:

A Nova Província do Crato

A idéia da criação de uma nova Província na comarca do Crato é uma idéia antiga, já discutida no Senado, e que hoje começa a reviver e a tomar algum vulto. Os habitantes daquele lugar, desejando ver realizado esse projeto de um dos seus patrícios, o Sr. Senador Alencar, acabam de criar um jornal “O Araripe”, destinado exclusivamente a sustentar essa causa justa, que nos propomos defender com os nossos fracos e pequenos recursos. Embora à primeira vista essas idéias de divisões de Províncias pareçam questões de interesse local, é impossível contestar a vantagem que de uma boa divisão administrativa resulta para o governo de um País, e sobretudo o acréscimo de rendas, o aumento de produção que traz criação de uma Província que se acha em condições tão favoráveis como a que se projeta na comarca do Crato. Uma das cousas que mais receia o Governo, quando se trata de criar uma nova Província, é o aumento de despesas provenientes da sua organização administrativa, mas este temor não pode existir a respeito do Crato, cuja renda atual, junta à dos municípios que lhe devem ser anexos, é superior à de muitas Províncias já criadas.

O artigo no qual o escritor José de Alencar expõe as “vantagens que oferece a criação da Província dos Cariris Novos”, reproduzindo alguns documentos que existiam no Senado sobre esse tema, ilustra como nos anos 1830 e 1850, as ideias de separação da parte chamada Cariris Novos da “extensa Província do Ceará” ganham relevo. O projeto foi apresentado em 14 de agosto de 1839 pelo senador Alencar, tendo parecer favorável das Comissões de Constituição e Estatística169 do Senado, que considera conveniente sua criação “[...] pela razão geral de que semelhantes distritos por mui longínquos escapam à ação e vigilância do administrador, e da parte dos governados mais se lhes dificultam os recursos, já em especial por que a idéia dessa subdivisão tem a seu favor a experiência e os conhecimentos práticos do nobre Senador170 que acaba de presidir aquela Província.”.

É importante salientar a referência aos “distritos longínquos que escapam à ação e vigilância do administrador” e a valorização e legitimidade da proposta também em função da experiência administrativa da autoridade que a apresenta, o senador Alencar. A projetada Província teria como capital a vila do Crato, conforme as seguintes especificações da Comissão de Estatística: “Que a nova Província do Cariri Novo, criada com as povoações

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Assinam o referido documento Visconde de S. Lepoldo, o Marquês de Paranaguá e Bernardo Pereira de Vasconcelos.

170 José Martiniano Pereira de Alencar nasceu em Crato em1794 e faleceu no Rio de Janeiro em 1860. Foi

senador pela província do Ceará de maio de 1832 até sua morte. Durante seu mandato vitalício de senador, foi presidente da província do Ceará por duas vezes, de 6/10/1834 a 25/11/1837 e de 20/10/1840 a 06/04/1841. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/>. Acesso em: 16 abr. 2010.

designadas no projeto171, ficará limitada a uma extensão de 120 a 130 léguas de N. a S. e de 50 a 60 de L. a O., com uma população de 140 mil habitantes e com renda suficiente para as suas despesas [ ]. Tendo interinamente por Capital o Crato, fica o Governo na proximidade do centro da Província e mais perto das povoações que se acham na divisa das outras Províncias”.

Conforme José de Alencar (1956, apud PINHEIRO, 1950/2009, p.33), “Se naquela época o Senado julgava essa criação útil e necessária, atualmente as vantagens hão de achar- se na proporção do crescimento da população, de renda e de indústria, que se observa naqueles lugares”. O aumento demográfico e dos artigos econômicos ampliam “as vantagens” da criação da Província dos Cariris Novos, permitindo trazer para “perto das povoações”, que se acham nas extremidades do Ceará e na divisa com outras províncias, a “ação” e a “vigilância” do Governo. João Brígido, o redator de “O Araripe”, era partidário da criação dessa província. Ele considerava a “divisão administrativa” do Império uma necessidade, argumentando que se criada a Província do Cariri reuniria nos anos 1850, “mais de 350 mil almas”.

O historiador Girão (1953, p. 34), um século depois da fermentação e insucesso da criação da Província dos Cariris Novos, aponta: o projeto de sua criação, “[...] resultava de necessidades mais imperiosas da região”, e não iniciou pelo padre e senador Alencar. “Em 10 de julho de 1828 o Presidente Nunes Berford dirigiu à Câmara do Crato uma representação, em que mostrava a conveniência de criar-se a Província do Cariri Novo”. Para o estudioso, a ideia não foi efetivada, nem em 1828, nem onze anos depois (1839), quando Martiniano de Alencar ofereceu ao Senado imperial o citado projeto de lei. Girão (ibid.) menciona ainda que em 1846, agora na Assembleia Provincial, “reagitou-se” o anseio pela criação da Província dos Cariris Novos. Em 1846 a ideia foi reapresentada ao Senado e a Câmara dos Deputados. Na referida ocasião, “Dizia-se o Legislativo cearense:

‘[...] convencido da conveniência e pública utilidade que nasceria de criar-se, nos sertões denominados Cariris Novos, uma província formada da parte do território desta (Ceará) e das outras que com ela confinam’, e expunha os argumentos de fundamentação do pedido. Eram, entre outros, em primeira linha, ‘a grande distância que separa as capitais das referidas províncias dos lugares conhecidos por Cariris Novos’, concorrendo para que a ação dos respectivos governos não se desenvolvesse e objetivasse com a prontidão, celeridade e energia indispensáveis, e, em segundo lugar, a necessidade de aumentar o progresso, principalmente o da agricultura, na zona caririense, ‘ao que parece - conforme as palavras textuais do documento - colocado pela Providência no meio de sertões em extremo áridos para servir como

171 Deveria compor-se a Província “das duas comarcas do Cariri e da de São João do Príncipe [Tauá], no Ceará,

do município de Pambú, na Baía, das comarcas da Boa Vista e Pajeú, em Pernambuco, do termo de Jaicós, no Piauí, e finalmente do município de Sousa, na Paraíba”. (PINHEIRO, 1950/2009, p.33).

fornecedor comum de viveres e toda a casta de cereais aos numerosos habitantes da vasta porção de território, que apenas se presta à criação dos gados e as escassas plantações de legumes que nascem, crescem e frutificam no curto período das estações chuvosas’.

Como terceira justificativa se explicava que na citada região aumentava prodigiosamente a população, que todos os dias cresce pela frequente imigração dos povos que para ali concorrem acossados pelos flagelos de que se vêem perseguidos da fome e da miséria nos estéreis sertões em que habitam, sendo certo, no entanto, que de envolta com a gente honesta e laboriosa os Cariris Novos têm sido inundados de centenas ou antes de milhares de vadios e malfeitores. Tudo se sanaria com a instalação da almejada Província. (GIRÃO, 1953, p. 34-5).

As três razões para criar a Província dos Cariris Novos podem ser assim resumidas: a posição distante da “zona caririense” em relação aos centros das Províncias que com ela confinam e à sede imperial, dificultando a “prontidão, celeridade e energia” da ação dos referidos governos; o grande potencial agrícola dessa zona diferenciada dos “sertões áridos”, que pode se tornar em fornecedora de “víveres e toda a casta de cereais aos numerosos habitantes da vasta porção de território, que apenas se presta à criação dos gados e as escassas plantações de legumes”. Por último, o projeto responderia a um grande “imperativo de segurança e paz”, ao mesmo tempo “econômico-social” (GIRÃO, 19536), dessa parte do território que cresce “todos os dias” pela imigração dos que chegam “dos estéreis sertões em que habitam”, formando elevado contingente populacional, que reúne tanto a “gente honesta e laboriosa” dos Cariris Novos quanto os “vadios e malfeitores”.

Os argumentos delineiam, de um lado, “os privilégios” naturais e “a valia econômica” dos Cariris Novos. Por outro lado, chamam atenção para a sua distância em relação aos centros de poder, provinciais e do Império. Essa parte do território na qual as ações dos governos tardavam a chegar crescia em população e no meio dela o “cabra172”, “tipo gerado” dos “vadios e malfeitores”, atraídos pelos “privilégios geográficos do vale”, assinala Girão (1953, p. 36). O importante intelectual do Instituto do Ceará, ao apresentar no começo da

172 Sobre o “cabra” no Cariri, João Brígido (1888/2007, p. 102-106) relata um evento em 05 de agosto de 1821

na igreja matriz de Crato: na ocasião realizava-se ação de graças em comemoração à adoção de regime constitucional de Lisboa. Antes desse episódio, não faltavam no Cariri pessoas que contribuíam para fazer circular e aumentar as superstições entre “homens embrutecidos”. Brígido informa: “A população da serra de S. Pedro e suas imediações era, entre todas, a mais fanática e pervertida”(1888/2007, p. 102). Complementa: “Estes homens ferozes e embrutecidos tremiam de cólera a notícia de qualquer solenidade, e armados invadiam a matriz do Crato, aos gritos de - Viva Nossa Senhora da Penha!” Ficaram conhecidos como “cerca-Igrejas”. O povo fazia associação direta entre monarquia e religião, rei e Deus. Figueiredo Filho (1964, p. 7-8) ressalta: falar em constituinte “[...] não cheirava bem ao rurícola, fiel à Igreja e ao Rei”. Não faltavam os que difundiam que os constituintes iam tirar do altar a Senhora da Penha e substituí-la por “uma mulher de vida airada chamada Úrsula” (ibid., p. 6). Na Igreja matriz do Crato, 05 de agosto às oito horas da manhã, os numerosos assistentes estavam bem tranquilos para a celebração “[...] quando ‘um grito de terror se ouviu: Os cabras! [ ] Uma multidão numerosa de habitantes do campo, sujos, mal vestidos, ou cobertos de trapos [...] se precipitou sobre aquela gente, inerme e desapercebida” (BRÍGIDO, ibid., p. 105). Nesse episódio, o então sargento-mor Pereira Filgueiras “dominou os CABRAS”, reaparecendo em outros acontecimentos como figura apaziguadora, aponta o historiador Figueiredo Filho (1964, ibid).

década de 1950 o texto “Tentativa de Interpretação do Cariri” justifica: os “laços mais ideais ou cívicos de amor às unidades políticas de que faziam parte as comunas indigitadas para a constituição da nova Província”, apesar de terem alimentado o separatismo, não se pautavam em “intenções anti-cearenses”. Para Raimundo Girão (1953, p. 36)

Ao que acima de tudo se visava era particularmente a objetivação dos benefícios da região, colimando-se no obtê-lo, em última análise, tão só os altos interesses nacionais. Seria a nova Província mais um filho quanto ao Brasil e mais um irmão junto às demais que o integravam.

Os movimentos que “convulsionaram o Cariri” nos oitocentos, as iniciativas de criação da Província dos Cariris, depois a campanha de criação do Estado do Araripe são pronunciados por enunciadores como manifestação da individualidade político-cultural dessa região que contempla aspirações de liberdade política, democrática e republicana desde meados do século XIX. No Diário de Freire Alemão (1859-60/2006-07), aparecem várias folhas no qual o intelectual examina documentos e conversas sobre as “revoltas do Cariri”. Alemão ressalta a “separação” em distância dessa parte longíngua da Corte imperial, demonstrando sua preocupação com “a ideia” que as pessoas dessas partes “têm da corte, do governo e do soberano”. Ao mesmo tempo alerta:

São estes sentimentos perigosos para a tranquilidade e integridade do Império, que convém por todos os meios destruir. Infelizmente o procedimento do governo, não dando toda a atenção às províncias longínquas, dá argumentos em que se podem firmar! Creio que a política mais conveniente era olhar ainda mais para as extremas do Império que para o centro. (ALEMÃO, 1859-1860/ 2007, p.50)

Mesmo antes de se tratar de forma especializada do tema do regionalismo e do exercício de regionalização, os ‘contrastes’, as tensões e (di) visões das “partes do país” existiam e provocavam manifestações sociais e acontecimentos discursivos. O projeto de desmembramento dos Cariris do território do Ceará é retomado praticamente um século depois do pronunciamento do segundo Alencar (1856) e da campanha de João Brígido (desde 1855 no Jornal O Araripe), em um período de circulação e discussão das ideias de divisão territorial e regional do Brasil.

A breve menção ao projeto de criação da Província dos Cariris Novos, os argumentos de Girão (1953) e as impressões de Alemão fornecem importantes elementos para se iniciar a discussão das interpretações da região do Cariri durante o século XX, que é, ao mesmo tempo, alimentada por programas do século anterior e por novos elementos do contexto político- institucional do século vindouro. Nesse período, a produção e a apuração de representações do Cariri cearense como uma região nítida e diferenciada ganham mais enunciadores e difusores.