João Brígido dos Santos (1829 - 1921) vivia e participava ativamente das atividades político-culturais do Cariri durante os anos 1850, sendo um dos principais cicerones de Freire Alemão (1859-60) na ocasião da visita e instalação da Comissão Científica de Exploração na cidade de Crato. Brígido também ajudou na escrita de Ensaio Estatístico da Província do Ceará (1864) de Thomaz Pompeu de Sousa Brasil, sobretudo na quarta parte que apresenta um “Resumo cronológico da história do Ceará”, de 1603 a 1861. João Brígido nasceu em São João da Barra, na província do Espírito Santo, posteriormente anexada à província do Rio de Janeiro, chegando ao Ceará ainda criança.
Ele foi professor, jornalista, historiador, cronista, tendo exercido por muitos anos mandatos como deputado e senador pelo Ceará. Pelo conjunto de sua obra como historiador, João Brígido159 tornou-se membro do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro - IHGB em 1862. Ele também compôs o grupo de intelectuais do Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano - IAHGP, instituição fundada em 1862 e sediada em Recife. Ainda nos oitocentos, esse intelectual coloca para si o projeto de construir a história regional. Ele iniciou em 1855 a escrita de Apontamentos para a história do Cariri, obra publicada em forma de livro em 1888.
Apontamentos para a História do Cariri, de João Brígido, apresenta várias tradições sobre a “Descoberta do Cariri”. A obra é considerada uma das pioneiras sobre a região, sendo inicialmente apresentado em capítulos no Diário de Pernambuco durante o ano de 1861. O livro resultou de estudos realizados por esse intelectual na década de 1850, década na qual o jovem Brígido fundou e dirigiu o jornal O Araripe, que teve sua primeira edição lançada em 1855160. Ele é reconhecido como um precursor do jornalismo no sul do Ceará. A coleção desse periódico foi emprestada a Freire Alemão (1859-60), que a utilizou como fonte de leitura e transcrição nos dias que não foi a campo na sua estadia em Crato.
159 O autor informa que em 1862 foi nomeado “[...] membro do Instituto Histórico do Rio de Janeiro, quando não
passávamos ainda d’um professor primário dos sertões do Ceará”. (p.V, Noticia, com data de 6 de janeiro de 1888, na edição fac-sim. 2007). Brígido não manteve vínculo com o Instituto do Ceará por disputas e divergências políticas em relação ao grupo que comandava essa instituição, o que não impede o reconhecimento de sua contribuição à historiografia cearense e do Cariri.
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João Brígido tinha apenas 26 anos de idade quando fundou O Araripe, considerado o primeiro jornal do interior do Ceará.
Segundo João Brígido dos Santos o livro volta-se a “lançar os primeiros fundamentos da história do Cariri” (BRÍGIDO, 1888/2007161, p. 3). Na segunda metade do século XIX, a crença na ciência impõe aos intelectuais a “[...] desconfiança frente a asserções não verificáveis, lançando em acentuada suspeição a palavra falada. Não à toa a busca por documentos escritos (como os livros das Câmaras) que, parcos e amiúde mal conservados, pudessem servir de contrapeso num meio sociocultural preponderantemente iletrado e ainda claramente lastreado na tradição oral”. (SILVA FILHO, 2006, p. 14).
João Brígido explica (1888/2007, p. III) que “Com esta modesta designação, completamos em 1858 o trabalho ora reproduzido [ ] Dois anos consumimos em consultar documentos, revolvendo os archivos162 da antiga segunda comarca”. A segunda comarca ou Comarca de Crato foi criada em 27 de junho de 1816. O item primeiro do alvará de sua criação informa: serve-lhe de cabeça a vila de Crato, “[...] compreendendo no seu distrito as vilas de S. João do Príncipe [Tauá], Campo Maior de Quixeramobim, Icó, Santo Antônio do Jardim e S. Vicente de Lavras”.163
Apontamentos para a História do Cariri começa pela “Descoberta do Cariri” (século XVII) e segue até a proclamação da Independência do Brasil (século XIX), tendo o intelectual desenvolvido uma parte detalhada no livro sobre a participação de indivíduos do Cariri no embate e movimento entre monarquistas e republicanos, envolvendo seus vínculos com manifestações deflagradas em Pernambuco e outras Províncias do chamado norte do país.
Brígido, ao tratar a origem do seu povo, aponta que os Cariris geralmente são retratados como “uma nação em extremo belicosa, como quase todas as outras que povoaram o Brasil”. Para ele, esse povo
Vivendo à margem de belos regatos, desfrutando um clima temperado, dispondo de inumeráveis frutos silvestres, que lhes forneciam um alimento rude, mas abundante, tinham amor a seu paraíso, e lutavam de contínuo contra outras hordas, que lho queriam roubar. Os Cariús, os Calabaças , e os Inhamuns, dos quais os primeiros habitavam ao norte do Araripe, os segundos à margem do Salgado, e os últimos os sertões do Inhamum, eram inimigos constantes, com aqueles viviam em contínua guerra. Aqui as ligas e os rompimentos eram incessantes, a guerra um hábito, uma ocupação ordinária. (BRÍGIDO, 1888/2007, p. 05-6)
Para Brígido (ibid.), as facilidades e disponibilidade de recursos à sobrevivência motivam por parte dos índios, “amor a seu paraíso” e justificam seu espírito guerreiro. Para o
161 Foi consultada obra fac-símile do livro de 1888, editada em 2007. 162
No Diário de Freire Alemão (1859-60/2007, p. 69), o intelectual ao descrever atividades do dia 29 de janeiro de 1860, na estadia em Crato, informa que trabalhou com “alguns extratos do livro antigo da Câmara do Crato, que contém os atos da criação da vila etc. Este livro está em mãos dum particular e decerto não volta mais para o Arquivo! Também todo o Arquivo da Câmara está em casa do João Brígido, que o está estragando!”
Cariri também convergem outras nações indígenas e aventureiros, ampliando os conflitos pela sua posse. O intelectual acrescenta ainda desde os setecentos a “reputação [do Cariri] de paiz eminentemente aurífero” (Brígido, 1888/2007, p. 28164). Todos esses aspectos denotam o quanto essa parte sul do Ceará configura-se como zona de contato, entrecruzamento e conflitos entre diferentes sujeitos, ditos “nativos” e adventícios. Quanto aos que chegam ao Cariri, além dos motivados por sua reputação de refrigério das secas, de ‘paiz’ que dispõe de fontes variadas de sobrevivência, estão os enviados por autoridades externas para assumirem postos de comando e polícia em um território, que distante das capitais das províncias do norte e da corte, era difundido como lugar da anarquia e de desordem.
Ao citar alguns episódios de “intrigas e desordens no Cariri”, ocorridos nos setecentos, Brígido (ibid., p. 43-4) aponta a rapidez do povoamento do Cariri:
Não obstante tais inquietações e tamanha falta de segurança, o Cariri povoava-se com incrível rapidez, graças a facilidade, com que eram encontrados aí os meios de sobrevivência. O solo era vasto e fértil e a flora provida de uma coleção variada de frutos silvestres, que forneciam alimentação abundante, substancial, e de má qualidade às famílias pobres, carecidas de meios para os trabalhos rurais, e sobretudo aos índios aldeados e dispersos.
Brígido (1888) se reporta a alguns eventos citados como convulsões políticas por Brasil (1864). Ele situa tais desordens nos setecentos, quando foram abertas as minas do Cariri, habitado por “Um povo de imigrados e aventureiros, entregue a si mesmo, ou administrado por autoridades fracas e ignorantes, desenfreado e quase bárbaro” (BRÍGIDO, 1888/2007, p. 31). João Brígido também menciona os povos que chegavam aos brejos e vales do Cariri nos períodos de grandes secas, saindo de várias partes do Ceará e de outras unidades administrativas adjacentes, como Pernambuco, Bahia, Paraíba. Os recursos naturais e respectivas possibilidades dessa “zona acima do Icó” são “dados” que chegam aos viajantes, como informou George Gardner em seu Diário de Viagem. São informações divulgadas e partilhadas entre os migrantes e viajantes, que perambulam e circulam em terras dessa parte do Brasil. É provável que esse constitua um dos elementos para se compreender a maior quantidade de adventícios que passam e se instalam nas “terras dos Cariris”.
A relação efetivada entre os da terra e os que chegam de diversas outras partes tornam o Cariri uma zona de contato e de atrito, aumentando a sua população, sua produção, mas potencializando também rivalidade entre as pessoas, tanto que esses aspectos ganham espaço
164 Brígido (1888/2007, p. 29) informa que logo depois do seu descobrimento o Cariri foi conhecido por Minas
do Cariri, e que em 1812 [1712], “um capitão-mór, residente na Paraíba, noticiou ao governador geral de Pernambuco que existiam algumas minas de ouro no Cariri, e lhe enviou amostra deste metal, procurando interessá-lo na sua extração.”
na escrita de viajantes, sobretudo de Freire Alemão (1859-60). João Brígido destaca que, desde o período das guerras entre os índios Cariris e outras tribos, “Aqui as ligas e os rompimentos eram incessantes, a guerra um hábito, uma ocupação ordinária.”
Sobre a “Descoberta do Cariri”, João Brígido (1888, p. 6) alerta: a época precisa “tem sido um objeto de custosas indagações”, supondo que a mesma tenha ocorrido entre 1660 e 1680. Na ausência de arquivos públicos e devido ao fato de ser muito antigo, Brígido alerta que esse assunto está mais no terreno das conjecturas, não se definindo como “uma verdade para a história”. Assim, o intelectual elenca duas das principais notícias deixadas por pessoas que viveram desde a última metade do século XVIII, acrescentando a sua própria tradição.
A primeira tradição é baseada nas memórias do capitão-mor Joaquim Antônio Bezerra de Menezes, “octagenário” que “reproduz de cór as datas e os fatos mais particulares da história do Cariri”. Nessa versão, publicada inicialmente na edição do dia 14 de julho de 1855 do jornal O Araripe, aparece a trajetória de um “escravo do vaqueiro da fazenda Várzea, além do Rio São Francisco, do Senhor da Torre, sendo furtado, no estado de rapaz, pelos índios da tribo Cariri, foi conduzido para este lugar, onde constituiu-se um forte capitão dessa tribo.” (BRÍGIDO, 1888/2007, p. 9). O escravo retornou a fazenda da Várzea e o senhor da Torre enviou uma bandeira comandada por João Corrêa Arnaud, que acampou na Cachoeira de Missão Velha, mas que em virtude de encontrar “a tribo em anarquia’, seguiu o rio Salgado abaixo até o Icó “[...] e na lagoa que hoje se denomina da Torre, acampou e esteve pelo correr do ano de 1590, pouco mais ou menos.”
João Brígido supõe essa tradição razoável, mas suspeita do tempo da primeira entrada com João Corrêa Arnaud. Ele acrescenta outra tradição, que também destaca a participação do negro, que era “escravo de Medrado, procurador da casa da Torre da Bahia”. O escravo, roubado desde a menoridade pelos índios Cariris, “se tinha com eles identificado”, propondo “que procurassem o auxilio dos brancos, oferecendo-se para consegui-lo”. Nessa narrativa, aparecem inúmeros combates entre os ‘brancos’ da bandeira enviada por Medrado, que contava e apoiava as explorações feitas pelo negro e os Cariris nas terras do vale, e outras tribos que “[...] se queriam apropriar’ “dos recursos naturais, de que gozavam os Cariris” (BRÍGIDO, 1888/2007, p. 12). Nessa versão, apresentada no Araripe no dia 6 de março de 1858, conforme registros tomados do professor primário de Missão Velha, Bernardino Gomes de Araujo, considerado pelo historiador, “[...] um homem de muito critério e capacidade” (BRÍGIDO, ibid., p. 15), também é mencionado João Correia Arnaud como um dos combatentes da ‘empresa’ enviada por Medrado para ‘estender os domínios de sua procuradoria’ nos terrenos dos Cariris, porém tal fato é colocado entre os anos de 1706-1707.
A chegada de uma força comandada por João Corrêa Arnaud é o resultado do aconselhamento do referido negro, que propôs aos Cariris que recorressem ao auxílio dos brancos para enfrentar novos ataques das tribos dos Carius, Calabaça e Inhamum. A bandeira foi um recurso importante para que os Cariris enfrentassem as inúmeras guerras contras outros grupos indígenas, sendo também valiosa às tropas de brasileiros que com eles se aliavam para “defender e tomar posse” dessas terras férteis. A fertilidade das terras é um importante fator para a associação entre grupos diferentes e também para disputas desses com outros adversários, que exerçam ameaça à apropriação e controle territorial.
Brígido (1888/2007, p. 16) procura conciliar alguns fatos das duas tradições, mas não dá “como incontestável ter sido este o modo e o tempo da descoberta do Cariri”. João Brígido considera a existência de pelo menos três entradas em diferentes momentos nos terrenos do Cariri. A primeira feita por Medrado, que ele avalia como um “[...] simples reconhecimento, e somente serviu para indicar o caminho a novos aventureiros.” (ibid.) Uma segunda, conduzida por João Mendes Loubato e seu filho padre Antônio Mendes Loubato, que vieram do Icó, seguindo o rio Salgado e chegaram na Cachoeira junto ao brejo de Missão Velha. Ele aprecia que tal entrada sucedeu entre 1678 a 1683. A terceira entrada foi feita por João Correia Arnaud, “enviado da casa da Torre, de quem tinha recebido uma doação dos terrenos do Carité, Burity-grande e Cachoeira” (BRÍGIDO, 1888/2007, p. 18).
Para João Brígido (ibid), “Não se pode dar, razoavelmente, a Arnaud o nome de descobridor”, que chegou ao Cariri de 1706 a 1707. Ele aponta (1888/2007, p. 18). : “No Cariri não havia então uma população abundante, eram raros os brancos; mas além das três aldeias Missão-Velha, Missão-Nova, e Crato, já existiam fazendas de gado e muitos colonos estabelecidos; e se Arnaud teve que sustentar alguns conflitos com os selvagens, é por que nem todos tinham sido aldeados e muitos haviam dispersos, não só da tribo Cariri, como das confinantes; o que subsistiu muitos tempos depois.”
O intelectual afirma ainda que em 1717, “tantos povoadores havia já, que, estando concedidas todas as terras molhadas, os proprietários e criadores se iam fazendo doar as terras secas, que rodeiam a região” (idem, p. 20). Esse último dado é colocado para que o historiador argumente que a “descoberta teve lugar muito antes de 1706 e algum tempo depois de 1590.” Brígido supõe: foram os aventureiros baianos, partidos do rio São Francisco, os pioneiros na descoberta e povoamento do Cariri no período entre 1660 a 1680.
João Brígido cita o episódio do negro, escravo da Casa Torre, uma fazenda na margem do rio São Francisco, que ao cair em poder dos Cariris, ganhou “pelos recursos de sua inteligência”, a afeição dos “selvagens” e “ensinou aos portugueses o caminho do Cariri”. O
negro conduziu os portugueses “por entre as hordas ferozes, as selvas impenetráveis, e os inumeráveis pântanos e ribeiros.” (BRÍGIDO, 1888/2007, p. 7). Ele destaca João Corrêa Arnaud, por tomar para si a proteção do nascente povoado de Missão-Velha, e por regular a sua edificação e polícia. João Brígido destaca ainda o papel dos missionários no povoamento do Cariri.
Quanto ao aldeamento promovido por ordens religiosas, evangelizadoras, o estudioso ressalta sua importância na história regional. Brígido aponta que os Cariris “[...] eram propensos a obedecer, e seu aldeamento foi feito sem nenhum custo, logo que a voz evangélica dos missionários se fez ouvir” (BRÍGIDO, ibid., p. 6). Em Apontamentos para a história do Cariri, o autor apresenta dois tipos de respostas dos nativos no contato com outros grupos sociais: a guerra como um hábito dos Cariris em defesa do lugar que essa “nação” co- habita, que, pelas condições que dispõe é alvo da cobiça de outros povos indígenas e também de aventureiros; por outro lado, a obediência às autoridades religiosas.
Para Brígido (1888/2007, p. 11), as missões tiveram início em meados do século XVIII, apontando e destacando o italiano frei Carlos do convento da Penha, que “[...] abriu missão em Missão-velha e depois em Missão-Nova e Miranda, de onde se passou para o Crato”. Ele supõe que a primeira, a Missão-velha iniciou em 1725, tal como aparece em Brasil (1864/1997). Segundo Brígido (ibid., p. 47-8) “Missão-velha já tinha uma população considerável, quando a 20 de janeiro de 1747, o bispo D. Frei Luiz de S. Thereza expediu ordem ao visitador Manoel Machado Freire para separá-la do curato do Icó, sob o título de Minas dos Cariris-novos [ ]”. Quanto ao futuro termo de Crato (instalado em 1764), surgiu e cresceu enquanto missão do Miranda: “Em 1762, a missão do Miranda já era um arraial bem povoado e quiça mais importante do que o de Missão-Velha, já por ser mais contíguo ao Araripe, e já pela maior extensão de brejos, que o rodeiam.” (BRÍGIDO, 1888/2007, p. 52). Assim como Brasil (1864), Brígido (ibid.) aponta o fator posição - dos núcleos habitacionais em relação a chapada - influenciando o tamanho, o crescimento e prosperidade dos povoados.
Quanto à povoação de Jardim, Brígido (ibid., p. 55-6) destaca seu aparecimento tardio: “Até os fins do século 18, era ainda a vila do Jardim um sítio inteiramente desconhecido. Segregado, como está, dos focos de população do Cariri, pelo prolongamento da ponta meridional do Araripe, que o separa, por um deserto de cinco léguas, das freguesias da Barbalha e Missão-velha, não tinha participado da imigração, que havia povoado estes lugares.” Segundo ele, foi na grande seca de 1792 que essa situação modificou-se, pois “veio acolher-se ao Jardim”, “[...] o padre João Bandeira, homem inquieto e empreendedor, que fazia profissão de longas e perigosas viagens pelos sertões do Piauí e outros, muito afeito às
lutas contra a natureza e contra os homens quase bárbaros dessa parte do Brasil, e com reputação de valente, que o fazia respeitado por toda a parte.” Brígido (ibid., p. 57) salienta o fato de que “Um sacerdote, naqueles tempos, era raro, e o povo sentia a maior necessidade de se prover dos recursos espirituais. Havia portanto um arraial, onde existia um sacerdote.”
Em Apontamentos, João Brígido menciona o “império” que os missionários tinham sobre os índios e os terrenos do Cariri: “[...] eram eminentemente poderosos, e seus arraiais gozavam de toda a imunidade, não sendo lícito a alguém entrar neles, sem consentimento deles.” (ibid.,p. 24). Informa ainda que “os índios do Crato foram os mais numerosos, que se arraialaram no Cariri”, e que a criação da vila (1764) reduziu o absoluto império dos missionários sobre “aqueles que tinham sido os senhores exclusivos do paiz!”. O historiador cita os maus tratos e a dispersão desses povos, culminando com as ordens do governador geral de Pernambuco, José César de Menezes, que obrigou “os índios do Miranda e todos os que existiam no Cariri” a “deixar o seu paiz e seguir para os aldeamentos do litoral.”
Segundo Brígido (1888/2007, p. 27-8) “O ouvidor José da Costa Dias e Barros foi quem as executou, e desde 1780 essa gente infeliz deixou Missão-Velha, condenada a ir longe de sua pátria definhar na miséria e perecer da bexiga e outros males, que à porfia [sucessivamente] procuravam exterminá-los.” Na história do Cariri feita por Brígido, ao lado das entradas comandadas por grandes proprietários que faziam as próprias leis e exércitos e das missões religiosas, aparecem a luta dos Cariris e o despovoamento do vale por esses grupos indígenas que primeiro o habitaram.
Os índios e mestiços aparecem na história regional de João Brígido, mas ainda é possível verificar a forte concepção de povoamento e descobrimento como processos ligados à chegada e ampliação do número de descendentes dos colonizadores, ou seja, dos colonos brancos. Como ele mesmo se refere sobre a chegada de Arnaud em 1706 ou 1707, “No Cariri não havia então uma população abundante, eram raros os brancos [ ]”(BRÍGIDO, 1888/2007, p. 18).
Além de mencionar a expulsão dos primeiros habitantes para longe de sua pátria, sobretudo a partir da segunda metade dos setecentos, Brígido também destaca vários episódios de contendas e movimentos revoltosos no Cariri. Em torno de 90 páginas, dentre as 148 do livro Apontamentos para a história do Cariri, são dedicadas à descrição de eventos dessa natureza, que Brasil (1864/1997) chama de ‘convulsões políticas’. João Brígido menciona os já citados conflitos entre os Montes e Feitosas; as discórdias entre Manoel Ferreira Ferro e José Pereira Lima, derivadas de contestações “por amor de limites”, que
resultaram em hostilidade armada. Para o intelectual, conforme aumentavam os recursos do paiz, ampliava-se de igual modo a insolência dos grandes proprietários.
Brígido também narra o evento que culminou com a criação de Jardim, o qual tem início com a disputa para ocupar o lugar de capitão-mor do Cariri por parte de dois sujeitos: José Pereira Filgueiras e José Alexandre Corrêa Arnaud, sendo o primeiro escolhido para esse cargo importante. O segundo, “descendente do povoador de Missão-velha”, que era sargento- mór, deu ordem de prisão a um parente de Filgueiras, que ao procurar resgatá-lo, matou quatro homens que o escoltavam (da família Callado, da clientela de Alexandre Arnaud). Após esse evento, João Brígido (1888, p. 61) menciona que “Filgueiras foi desde então, o