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Marx, busca na filosofia dialética a sua visão materialista e histórica como forma de se contrapor ao pensamento mecanicista. Nesse sentido, para o método dialético marxiano a transformação da sociedade é o problema central dessa perspectiva epistemológica, o qual trata de desenvolver “a essência prática da teoria a partir da relação que estabelece com seu objeto” (LUKÁCS, 2003, p. 65).

O próprio Marx é explícito ao adotar essa perspectiva revolucionária da ciência como método filosófico e investigativo. É na práxis que o homem deve transformar o mundo objetivo:

A questão de atribuir ao pensamento humano uma verdade objetiva não é uma questão teórica, mas prática. É na práxis que o homem deve demonstrar a verdade [...]. Os filósofos se limitaram a interpretar o mundo de diferentes maneiras; mas o que importa é transformá-lo (MARX; ENGELS, 2005, p. 120, grifo dos autores).

Nossa proposta está teórica e politicamente seduzida pelo forte perfume revolucionário que emana da dialética marxiana, cujo aroma permite ao pesquisador sentir o cheiro do engajamento político em favor dos oprimidos. Por engajamento

entendemos uma referência a uma postula de filiação e participação ativa em uma determinada causa social, em especial, pondo-se a serviço de uma sociedade justa, igualitária e emancipatória (FEITOSA; LEITE, 2011).

Nesse sentido, a análise dialética da realidade permite a destruição do edifício filosófico que ancora o materialismo vulgar, isto é, a pseudoconcreticidade. Esse último é um termo usado por Kosik (1995) para denotar a vertente que se baseia na “fetichista e aparente objetividade do fenômeno, e o conhecimento da sua autêntica objetividade” (p. 61). Destarte, o caráter histórico do fenômeno, empregado pelo materialismo histórico e dialético, permite avançar sobre a posição a-histórica e neutra do mecanicismo, bem como pelo caráter eminentemente subjetivista que predomina em outras abordagens epistemológicas vistas nos parágrafos anteriores (item 2.2.).

Para Saviani (2007), na concepção dialética (histórico-crítica) da educação existe uma articulação entre diversos níveis que circundam a prática social real, a saber: o primeiro nível correspondente à filosofia da educação; o segundo nível representa a teoria da educação, também geralmente chamado de pedagogia; por fim, o terceiro, é o nível da prática pedagógica. Na visão dialética esses níveis se articulam e estabelecem entre si relações recíprocas, de modo que cada nível se comporta ao mesmo tempo como determinado e como determinante dos demais. Uma relevante decorrência desse modo de entender a educação e a pesquisa nessa área é que a prática pedagógica, “em lugar de aparecer como um momento de aplicação da teoria da educação, é vista como ponto de partida e ponto de chegada cuja coerência e eficácia são garantidas pela mediação da filosofia e da teoria educacional” (p. 80).

A dialética será a base sobre a qual se erguerá os alicerces para o caminho percorrido durante a pesquisa9. De acordo com Minayo (1999), o pesquisador deve possuir uma visão clara sobre os fundamentos epistemológicos subjacentes a pesquisa empírica. Dessa forma, o investigador é capaz de concatenar suas ferramentas de investigação, seus sujeitos de pesquisa e os objetivos da mesma.

Nesse sentido, a seguir, iremos discorrer sobre a dialética. Entretanto, para percorrer as diversas facetas dessa visão de mundo é necessário nos debruçarmos sobre a história da filosofia, o que seria algo impossível para essa tese de doutoramento. Assim, para tentar sintetizar recorremos a dois filósofos que comentam sobre o histórico

9 Paráfrase da famosa frase de Marx: “[...] El conjunto de estas relaciones dé producción forma la estructura económica de la sociedad, la base real sobre la que se eleva un edificio (Uberbau) jurídico y político [...]” (MARX; ENGELS, 1978, p. 137).

da dialética: Melo Neto (2002) e Konder (1981). Para o primeiro, com base em considerações etimológicas, podem ser consideradas, pelo menos, algumas fases dos quatro conceitos principais da dialética: a dialética como um método de divisão, vista por Platão; a dialética como lógica do provável, presente em Aristóteles; a dialética como lógica, segundo Kant; a dialética como síntese dos opostos, a partir das formulações de Hegel/Marx. A dialética teve início na filosofia da Grécia antiga, a qual era vista como a arte do diálogo (BARROCO, 2008; KONDER, 1981). Ainda nesse período, a dialética sofre uma mudança, e passa a ser entendida como a arte de, no diálogo, explanar uma afirmativa (tese) por meio de uma alegação capaz de deliberar e distinguir com nitidez os conceitos envolvidos na contenda.

Cabe denotar que outras possibilidades de compreender o que é a dialética podem surgir ao analisarmos a perspectiva etimológica do termo. Para Melo Neto (2002), a expressão dialegein pode significar diversas acepções, como por exemplo, “escolher”, “selecionar”. Não obstante, a sua forma derivada dialesgesthai possui a significação de “conversar com”, “raciocinar com”. Por outro lado, o advérbio “dia” pode assumir valores: espaço–temporais, significando “através”, “entre”, “durante”; causais; modais, significando “com”; e pode denotar estado (condição). Grosso modo, “a expressão dialégein que significa desenvolver (de forma completa) um discurso (MELO NETO, 2002, p. 5, grifo do autor).

Certamente, poderíamos falar sobre outros inúmeros filósofos que versaram sobre a dialética. Contudo, acreditamos que tal perspectiva não é possível dentro desse capítulo de tese10. Assim, usaremos como artifício um salto no espaço-tempo para chegarmos, deste modo, a era da modernidade.

Segundo Konder (1981, p. 7), no tempo histórico atual, a dialética “é o modo de pensarmos as contradições da realidade, o modo de compreendermos a realidade como essencialmente contraditória e em permanente transformação”.

Essa perspectiva encontrou com Hegel um grande interlocutor. Para esse filósofo, a superação dialética é concomitantemente a negação de uma realidade específica, a permanência de algo de essencial que existe nessa realidade negada e a ascensão dela a um estado superior. A título de exemplo da visão hegeliana, podemos destacar o que acontece no trabalho humano. Nele, existe uma matéria-prima que é negada, ou seja, é destruída em sua forma natural, mas ao mesmo tempo ela é

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conservada e adquire uma forma nova, modificada, correspondente aos objetivos humanos. É o que se vê, por exemplo, no uso do algodão para a fabricação de uma vestimenta: o algodão é plantado, colhido, e em seguida, fiado, transformado em tecido, porém ele não desaparece de todo, e sim, passa a fazer parte do tecido, que vai ser costurado e, depois de pronto, torna-se uma vestimenta humana.

Dentre as principais características da filosofia hegeliana expressa na obra “Fenomenologia do Espírito” (HEGEL, 1992) temos o saber absoluto. Esse saber é um saber de si, ou seja, ele é um conhecimento que não produz um saber exterior àquilo que é conhecido. Para Hegel, o interior das coisas é revelado pelos fenômenos do mundo (MÜLLER, 2005).

Na filosofia hegeliana, os fenômenos são o meio para compreender a verdade; ele representa a união contraditória entre o que é exteriorizado e o que é interior nas coisas. Nesse sentido, diferença/identidade, forma/conteúdo, essência/aparência se unem no mesmo fenômeno. Assim, os fenômenos são formados por múltiplas partes. Afirma o filósofo que os fenômenos são um jogo de força, o qual está mediando a interação entre interior e exterior do mundo objetivo.

A filosofia hegeliana não busca elaborar algo de concreto. Na verdade, ela concede a um conteúdo a sua forma verdadeira, a qual está presente no próprio fenômeno. Em seu livro “A Sagrada Família”, Marx (2003, p.72) critica a visão idealista de Hegel, afirmando que para esse último, o essencial das coisas não é sua existência real, passível de ser apreciada através dos sentidos, “mas sim o ser abstraído por mim delas e a elas atribuído, o ser da minha representação, ou seja, ‘a fruta’”.

É em Marx que a dialética se desenvolve na forma materialista, na qual se localiza no seio de sua proposição o mundo das coisas, da matéria, e a interação dos seres humanos com ela. O materialismo histórico e dialético não considera a matéria e o pensamento como categorias isoladas, e sim como feitios de uma mesma natureza que é indissociável. Para Marx os conceitos devem ser elaborados a partir da investigação sobre o real, e não arbitrariamente, como na filosofia hegeliana.

Segundo Marx, ao criticar os neo-hegelianos, afirma que

[...] ele [Hegel] criou essas frutas do seio de seu próprio intelecto abstrato, que ele representa para si mesmo como um sujeito absoluto fora de si – no caso concreto como “a fruta” – e em cada existência que expressa ele leva a cabo um ato de criação (Ibid., p. 75).

Na concepção de Marx, grosso modo, o ponto de partida para a filosofia deve ter início no mundo real, ou seja, a realidade concreta; em seguida, as percepções sobre o mundo real devem ser transformadas em conceitos, em revelações da concretude; por fim, esse conhecimento deve voltar à realidade para transformá-la através da práxis. O pensador busca as contradições do mundo real, a fim de desmascarar as ideologias que ocultam os fenômenos sócio-históricos.

Dessa forma, a existência material precede qualquer pensamento, isto é, não há probabilidade de pensamento sem existência concreta. Marx inverte, então, a dialética hegeliana11, uma vez que ele coloca a materialidade na gênese do movimento histórico que constitui o mundo, opondo-se a teoria idealista, que dá primazia as ideias. Assim sendo, Marx elabora a dialética materialista. O autor explicita com maestria seu pensamento no famoso posfácio da segunda edição alemã de “O Capital”:

A mistificação que a dialética sofre nas mãos de Hegel não impede, de modo algum, que ele tenha sido o primeiro a expor as suas formas gerais de movimento, de maneira ampla e consciente. É necessário invertê-la, para descobrir o cerne racional dentro do invólucro místico. (MARX, 1996, p. 140).

Buscando referendar seu materialismo histórico e dialético, Marx lança mão das seguintes palavras: “Tudo o que existe, tudo o que vive sobre a terra e sob a água, existe e vive graças a um movimento qualquer. Assim, o movimento da história produz as relações sociais, o movimento industrial nos proporciona os produtos industriais, etc.”. (2009, p. 126). É importante esclarecer que para Marx, o mundo não é composto nem por pura ideia nem apenas matéria, e sim é uma síntese de ideia e matéria que apenas poderia existir a partir da mudança da realidade concreta segundo um projeto previamente ideado na consciência (LESSA; TONET, 2008).

No plano político, o materialismo histórico e dialético de base marxiana permite superar os impasses do materialismo vulgar e do idealismo. Esse último é acusado de reduzir a luta de classes ao embate de ideias; aquele é criticado por desconsiderar o papel das ideias na história.

Sobre o princípio da historicidade, Marx fala que ele é a chave para compreender o contexto material da sociedade.

A sociedade burguesa é a organização histórica da produção mais desenvolvida, mais diferenciada. As categorias que exprimem suas condições, a compreensão de sua própria organização a tornam apta para abarcar a organização e as relações de produção de todas as

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formas de sociedade desaparecidas, sobre cujas ruínas e elementos se acha edificada, e cujos vestígios, não ultrapassados ainda, leva arrastando, enquanto que tudo o que fora antes apenas indicado se desenvolveu, tomando toda sua significação etc. A anatomia do homem é a chave da anatomia do macaco. O que nas espécies animais inferiores indica uma forma superior, não pode, ao contrário, ser compreendida senão quando se conhece a forma superior. A economia burguesa fornece a chave da economia antiga etc. porém, não conforme o método dos economistas, que fazem desaparecer todas as diferenças históricas e veem a forma burguesa em todas as formas de sociedade (MARX, 2008, p. 264).

Para o materialismo histórico e dialético, a luta de ideias é muito importante para orientar as ações concretas dos homens, acima de tudo para se fazer a revolução. Como nos dizem Lessa e Tonet (2003, p. 23): “Sem ideias revolucionárias, não há ações revolucionárias; contudo, sem ações revolucionárias, as ideias revolucionárias não têm qualquer força”. Dessa forma, para que as ideias revolucionárias possam se materializar em ações transformadoras é imperativo que elas espelhem adequadamente as necessidades e possibilidades de cada espaço/tempo histórico.

É importante destacar que Marx indicou que em Hegel a dialética estava, por assim dizer, de cabeça para baixo (mundo das Ideias Absolutas, cujo ponto de partida era das ideias para a matéria), e decidiu, então, colocá-la sobre seus próprios pés. Marx é claro ao afirmar que seu

[...] método dialético não só difere do hegeliano, mas é também a sua antítese direta. Para Hegel, o processo de pensamento, que ele, sob o nome de idéia (sic), transforma num sujeito autônomo, é o demiurgo do real, real que constitui apenas a sua manifestação externa. Para mim, pelo contrário, o ideal não é nada mais que o material, transposto e traduzido na cabeça do homem (MARX, 1996, p. 140). Boa parte das críticas sobre a dialética de Hegel resulta do fato de ele ser idealista, ou seja, Hegel subordinava os movimentos da realidade física à lógica de um princípio que ele chamava de Ideia Absoluta (MÜLLER, 2005). Como essa Ideia Absoluta é um título nebuloso, os aspectos da realidade material eram, frequentemente, descritos pelo pensador de maneira muito elusiva. O idealismo, como visto em Hegel, não nega a existência da matéria, contudo, afirma que a nossa relação com o mundo material assume a forma pelo qual é reconhecido pela consciência (LESSA; TONET, 2008).

O materialismo histórico e dialético de base marxiana não considera a matéria e a consciência como categorias disjuntas, e sim como aspectos de uma mesma natureza que é indissociável. Para Marx, o mundo dos seres humanos nem é pura ideia nem é apenas matéria, mas sim uma síntese dialética de ideia e matéria que apenas poderia

existir a partir da transformação da realidade, conforme um projeto previamente idealizado na consciência. Assim, as categorias que brotam da dialética marxiana são “[...] um produto do pensar, do conceber; não é de modo nenhum o produto do conceito que pensa e se gera a si próprio e que atua fora e acima da intuição e da representação, mas é elaboração da intuição e da representação em conceitos” (MARX, 2008, p. 259).

O materialismo histórico e dialético arquiteta o mundo dos seres humanos como a síntese de prévia-ideação e matéria natural, as quais se agregam no e pelo trabalho. Nem apenas ideia, nem só matéria, mas uma síntese entre as duas, que origina uma nova forma de ser: a sociedade humana.

Nesse sentido, Grespan (2002) indica que a retomada da dialética na crítica do capitalismo e da Economia Política por parte de Marx não emana de uma simples adesão a essa perspectiva teórico-epistemológica, como se a mesma devesse valer por si própria, isolada dos sujeitos/objetos a que se aplique. Esta relação entre método e objeto, forma e conteúdo, seria ela própria inteiramente não-dialética. De modo oposto, é devido ao seu objeto, o qual se constitui de modo contraditório, que o filósofo percebe ter de investigá-lo dialeticamente.

Para o materialismo histórico e dialético marxiano, os fenômenos aparecem de forma distinta do que são essencialmente, e distinguem-se dois níveis de realidade: o da essência12 e o de da aparência. De uma forma dialética mais profunda, ambos os níveis coincidem, entretanto não imediatamente, e sim por mediações sucessivas, as quais podemos chamar de movimento espiral teórico-prático.

Vejamos as palavras de Marx ao falar sobre seu método de investigação/explanação:

Entretanto, seria sempre o seguinte: as categorias simples são a expressão de relações nas quais o concreto menos desenvolvido tem podido se realizar haver estabelecido ainda a relação mais complexa, que se acha expressa mentalmente na categoria correta, enquanto concreto mais desenvolvido conversa a mesma categoria como uma relação subordinada.

O dinheiro pode existir, e existiu historicamente, ante que existisse o capital, antes que existissem os bancos, antes que existisse o trabalho assalariado. Desse ponto de vista, pode-se dizer que a categoria simples pode exprimir relações dominantes de um todo pouco desenvolvido ainda, relações que já existiam antes que o todo tivesse se desenvolvido, na direção que é expressa em uma categoria mais complexa. Nesse sentido, as leis do pensamento abstrato, que se eleva

12 É relevante indicar que a “essência” no sentido marxiano não uma edificação a priori, mas uma construção social e histórica, por tanto, sempre em mudança.

do simples ao complexo correspondem ao processo histórico real. (MARX, 2008, p. 260-1)

Desta feita, percebemos que as teorias não são nem a verdade nem a eficácia de um outro modo não teórico de apropriação da realidade; elas representam uma “compreensão explicitamente reproduzida, a qual de retorno exerce a sua influência sobre a intensidade, a veracidade e análogas qualidades do modo de apropriação correspondente” (KOSIK, 1995, p. 32, grifo do autor).

Assim sendo, Marx colocada a realidade social no plano histórico, arando um solo fecundo e totalmente atual. O autor assinala que a esfera do saber humano se movimenta no plano abstrato e no plano da realidade social que vivemos. Elevar-se do empírico como ponto de início, conhecido apenas na aparência do fenômeno ao saber efetivo das forças, mediações e determinações múltiplas que produzem esta realidade, exigem uma elaboração investigativa. Neste processo de elaborações sucessivas, surgem as categorias teóricas, as quais são ferramentas indispensáveis, mas não suficientes e nem estáticas. Elas nos permitem penetrar no tecido mais profundo que constitui a realidade investigada. Neste processo, as categorias, para não arruinar o seu caráter de historicidade, necessitam serem reconstruídas com as especificidades dadas pela realidade investigada.

Considerando esses pontos, uma categoria fundamental para a dialética marxiana é a totalidade. Para iniciar a explanação sobre esse princípio, trazemos as palavras utilizadas por Marx no texto intitulado “O Método da Economia Política” (2008, p. 258-9):

O concreto é concreto porque é a síntese de múltiplas determinações e, por isso, é a unidade do diverso. Aparece no pensamento como processo de síntese, como resultado, e não como ponto de partida, embora seja o verdadeiro ponto de partida, e, portanto, também, o ponto de partida da intuição e da representação.

A totalidade, do ponto de vista marxiano, é uma síntese das múltiplas formas que possui um objeto concreto, incluindo sua historicidade. Essa categoria pressupõe que o conhecimento das partes e do todo conjetura uma reciprocidade, pois o que confere representação tanto ao todo quanto às suas diversas partes que o constituem são determinações, isto é, inter-relações, que perpassam e completam a transversalidade do todo. Assim, não pode haver conhecimento das partes sem o todo, como ocorre na perspectiva cartesiana, o que gera uma amputação traumática dos membros que o constituem, ocasionado a morte da totalidade. As partes só podem ser compreendidas se a análise investigativa/expositiva percorre o caminho da transversalidade essencial do

todo. Ao andar por esse caminho, é possível chegar às terras ensolaradas da totalidade, cujos raios de luz dissipam a escuridão da fragmentação.

Baseando-se na obra de Marx, Konder (1981, p. 41) afirma que para a dialética marxista “o conhecimento é totalizante e a atividade humana, em geral, é um processo de totalização, que nunca alcança uma etapa definitiva e acabada”.

A ideia de totalidade compreende a realidade em suas íntimas características e suas conexões internas, debaixo da aparência e da causalidade linear dos fenômenos. Tais ligações são necessárias para a dialética, já que essa última se posiciona em oposição ao positivismo, o qual considera a causalidade dos fenômenos de forma simplória as manifestações fenomênicas, não chegando a atingir a apreensão dos processos totalizantes da realidade.

A escolha dessa categoria como um dos fundamentos epistemológicos que dão suporte a nossa tese de doutoramento se deve a uma escolha eminentemente política, uma vez que reconhecemos que:

Apesar do desuso cada vez maior, mais sistemática e crescentemente condicionado por motivos ideológicos, que filósofos, sociólogos, antropólogos, historiadores e até artistas fazem dessa categoria, mais cabalmente nos atuais tempos de descostura e dos pós-modernismos, nunca é demais lembrar e confirmar o estatuto onto-gnosiológico e o valor lógico intrínseco dessa importante categoria, sem a qual qualquer interpretação teórica do mundo fica reduzida a um amontoado incoerente, amorfo e desarticulado de fragmentos, do qual não pode resultar processo de efetiva produção de conhecimento. (CARVALHO, 2007, p. 179).

Após essa explicitação, cabe-nos fazer um importante esclarecimento acerca da totalidade: ela não significa o todo ou tudo que está presente no mundo concreto. Na verdade, a totalidade representa um conjunto de eventos articulados. Dito de outra forma: esse princípio dialético representa o todo estruturado que se desenvolve e se cria como produção social humana.

O próprio Marx é taxativo ao indicar como seu método procede, buscando as inter-relações entre os vários aspectos da totalidade. Por exemplo, numa passagem do