2. EVLĠYA ÇELEBĠ SEYAHATNAMESĠ‟NDE ĠNCĠ
2.4. SEYAHATNÂME‟DE ĠNCĠ‟NĠN KULLANIM YERLERĠ
A violência e a criminalidade, como discutido ao longo deste trabalho, são problemas complexos e que afetam negativamente o bem-estar dos indivíduos e a economia. A complexidade do problema envolvido, sua heterogeneidade e ausência de conclusões empíricas concretas tornam o tema amplamente debatido não apenas na sociedade, mas na comunidade acadêmica como um todo.
Como apresentado ao longo do trabalho, muitos esforços foram e ainda continuam sendo feitos, na tentativa de apontar um caminho mais claro e definido do problema da criminalidade. Contudo, verifica-se que os novos estudos e abordagens tornam o tema mais complexo e, conseqüentemente, mais distante de uma solução prática. A principal característica observada entre os pesquisadores da área é a inexistência de consenso sobre as causas e origens da criminalidade. Essa questão destaca a problemática existente ao se tratar do tema e, ao mesmo tempo, estabelecer políticas públicas que, se não reduzam, ao menos contenham o atual crescimento da criminalidade.
Nesse sentido, a diversidade de políticas adotadas ao redor do mundo reflete esse problema. Ações das mais diversas formas e princípios têm sido observadas em diversos países; assim, em alguns casos, a análise de seus resultados permitiria compará-las e determiná-las como propostas eficientes ou não no combate à criminalidade. Contudo, até essas questões são discutidas. O caso de Nova York, por exemplo, consiste numa das maiores discussões levantadas nos últimos anos a respeito das causas e combate à criminalidade. Os formuladores e defensores da política adotada, denominada “Tolerância Zero”, argumentam que a redução significativa das taxas de criminalidade, observada durante a década de 1990, em Nova York, foi conseqüência de tal política. Por outro lado, autores questionam os resultados encontrados e argumentam que a redução não se deveu, única e exclusivamente à política adotada. De fato, houve redução significativa das taxas de criminalidade durante o
período estudado, porém, segundo esses autores, essa redução seria conseqüência de uma política adotada há mais de duas décadas e sem nenhuma ligação, intenção ou objetivo quanto ao combate à criminalidade. Essa política foi a liberação do aborto em 1973.
Essa argumentação traz à tona outras questões importantes envolvidas com o tema. Devido à dinâmica e complexidade das relações sociais, ações tomadas nas mais diversas áreas e com os mais diversos propósitos podem afetar significativamente as taxas de criminalidade, inclusive no longo prazo. Questões como crescimento econômico, redução de desigualdades, entre outros, são temas constantemente abordados como variáveis que afetam a criminalidade no longo prazo.
No Brasil, muito pouco tem frutificado dessa discussão. Na maioria, muitas políticas adotadas não são submetidas a essa análise; além disso, percebe-se que a atual discussão visa mais uma reforma estrutural dos agentes envolvidos com a segurança pública do que propriamente ações práticas e de longo prazo no combate à criminalidade.
O presente trabalho teve como objetivo apresentar uma política alternativa de segurança pública para o estado de Minas Gerais, tendo como base a alocação dos recursos entre os agentes envolvidos. Assim, a proposta aqui formulada não tem a intenção de se tornar uma solução definitiva contra a criminalidade, muito menos de ser o único indicador de alocação de recursos no estado. A idéia subjacente à política proposta é que ela sirva como um importante instrumento de auxílio a governantes e tomadores de decisões na distribuição de recursos em segurança pública. Dessa forma, espera-se que, no longo prazo, a melhoria da distribuição dos recursos no estado possa contribuir de forma positiva para redução das atuais taxas de criminalidade.
Sob tais aspectos, desenvolveu-se o presente trabalho, primeiramente na análise da evolução e distribuição da criminalidade e a partir deste estudo da formulação da política de realocação de recursos. A primeira conclusão retirada desta análise é de que o tamanho dos municípios representa um fator determinante das taxas de criminalidade. Como discutido, essa evidência, segundo alguns autores, é conseqüência da confluência de fatores, como: ofensores motivados, alvos viáveis, ausência de prevenção, desordem física, organização/desorganização social, etc.
Além disso, a análise da distribuição espacial evidenciou a existência de um padrão de difusão espacial, no qual municípios com altas (baixas) taxas de criminalidade são, em média, circundados por municípios também com altas (baixas) taxas de criminalidade, além da formação de alguns clusters espaciais. Essa observação torna-se importantíssima na determinação de qualquer política eficiente de combate à criminalidade, pois fica evidente a
existência de uma interdependência espacial entre os municípios próximos, sendo suas taxas de criminalidade influenciadas pelas taxas de criminalidade de seus vizinhos. Dessa forma, calcularam-se taxas espaciais de criminalidade, com o propósito de quantificar essa dependência e considerá-las na distribuição de recursos em segurança. A idéia subjacente foi estimar um índice, o qual representasse o real risco de ocorrência de crimes violentos num determinado município, considerando-se a influência de seus vizinhos.
Somado a esses dois indicadores, optou-se por incluir no cálculo de alocação de recursos um componente que refletisse a eficiência técnica na alocação de recursos pelos municípios mineiros. É importante destacar que a idéia não é comparar com afinco as diferenças de eficiência entre os municípios de Minas Gerais. É fato que a diferença de tamanho entre os municípios modifica as formas de interações entre a polícia e a sociedade contribuindo consideravelmente para a sua eficiência; então, era de se esperar que a polícia, nos maiores municípios, fosse mais ineficiente na alocação de recursos. Entretanto, torna-se fundamental incluir um indicador de eficiência, a fim de se estipular uma medida coerente de distribuição de recursos eficiente e também coerente com as reais necessidades do setor analisado.
Dessa forma, incorporou-se na proposta o escore de eficiência, o qual refletiu uma grande diversidade entre os municípios mineiros. Novamente, destaca-se que tais diferenças podem ser fruto de diferentes ambientes que a polícia enfrenta no seu cotidiano; contudo, essas diferenças também podem representar a ineficiência relativa de alguns municípios no combate à criminalidade. Assim, espera-se que a divulgação e promoção dessa política estimule os diversos agentes envolvidos a otimizarem a utilização de recursos, procurando aumentar gradativamente seus escores de eficiência e, conseqüentemente, obter uma parcela maior de recursos.
Assim, foi constituído o modelo proposto, o qual incorpora variáveis de tamanho e ocorrência de crimes violentos como fatores que representam a necessidade de recursos, além da eficiência técnica, como fator econômico na alocação destes. O modelo torna-se um modelo dinâmico, visto que as variáveis devem ser avaliadas periodicamente, pois como na sua estimação, tanto as taxas espaciais de criminalidade quanto o escore de eficiência técnica são medidas relativas em relação a outros municípios; conseqüentemente, a mudança de apenas um município pode afetar significativamente as variáveis de outros municípios.
Os impactos esperados pela adoção da proposta seguiriam a seguinte dinâmica: municípios que apresentassem maiores taxas de criminalidade e eficiência técnica receberiam mais recursos (policiais). Como as variáveis utilizadas no modelo apresentam valores
relativos, o aumento do número de policiais num determinado município (mantendo constantes os outros municípios) tenderia a reduzir as taxas de crimes e a eficiência técnica. A redução das taxas de criminalidade se daria, entre diversos fatores, pelo incremento da vigilância e pela redução da desordem social. A redução da eficiência técnica, entretanto, ocorreria, pois no seu cálculo a variável “policiais” entra no modelo como um insumo; assim, um aumento nos insumos (mais que proporcional ao aumento do produto) provocaria redução do escore de eficiência. Na medida em que os municípios que foram contemplados com mais policiais tendem a reduzir suas taxas de criminalidade além da eficiência técnica, a necessidade de alocar mais recursos passa a ser daqueles municípios que não receberam recursos no primeiro momento. Por isso, o modelo é dinâmico e tende a ser estável no ponto de equilíbrio eqüitativo.
O modelo, na forma como é proposto, não seria utilizado para determinar uma quantidade (parcela) de recursos exatos que seriam destinados a cada município. A idéia principal subjacente à proposta de alocação de recursos é criar um indicador, baseado em fatores definidos, que represente a necessidade de recursos de um município. Dessa forma, a diferença encontrada entre a distribuição de recursos ideal (calculada) e a real (vigente) permitiria ordenar os municípios de acordo com as necessidades de cada um. Assim, ter-se-ia um critério definido para alocação de novos recursos em segurança pública.
Em síntese, espera-se que a adoção dessa proposta, além de ser uma maneira criteriosa de distribuição de recursos, possa surtir efeitos positivos no combate à criminalidade. Como discutido ao longo do trabalho, esta é uma proposta de solução minimalista para o caso da segurança pública. Entretanto, devido à dinâmica do modelo, espera-se que a forma como é feita a distribuição dos recursos estimule os responsáveis pela administração, coordenação e planejamento de cada localidade a adotarem medidas que otimizem o uso dos insumos disponíveis e empreguem ações mais eficientes no combate à criminalidade, levando, conseqüentemente, a uma redução das taxas de criminalidade no estado de Minas Gerais.