4. KAYNAK ÖZETLERİ
4.2 Sahne Sınıflandırma / İmge sınıflandırma Problemi
4.2.2 Orta seviye öznitelik vektörleri
Com todos os problemas surgidos no Parque Ibirapuera após sua inauguração e com todas as críticas feitas à Prefeitura, começaram a surgir alguns sinais de melhora ainda no começo da década de 1960.
Um dos primeiros edifícios que apareceu na mídia como alvo de remodelação foi o Palácio de Exposições, que iria “receber pintura plástica idêntica à utilizada pelos norte- americanos em seus foguetes estratosféricos.”312 A pintura igual a dos foguetes não deixa de
ser significativa dado o imaginário “Wellsian” da obra, conforme apontado por Mindlin e, inclusive, seu uso como Museu da Aeronáutica a partir de 1956313.
311 Ver PETROVICI, Liliana-Mihaela. Photography – a vehicle of architectural communication Disponível em:
<http://constructii.utcluj.ro/ActaCivilEng/download/atn/ATN2012(3)_11.pdf >. Acesso em: 21/02/2015.
312 Folha de S. Paulo, 15 de março de 1961, p. 14. Disponível em: <http://acervo.folha.uol.com.br/fsp/1961/03/15/21/>.
Acesso em: 23/05/2014.
313 Cabe notar que aeronáutica é a atividade e o estudo da locomoção aérea no interior da atmosfera terrestre, bem
como dos meios utilizados para esse fim (aeronaves). A locomoção aérea fora da atmosfera terrestre (acima dos 200.000 m de altitude) passa a estar incluída no âmbito da astronáutica.”
Folha de S. Paulo, 15 de março de 1961, p. 14, autoria não creditada314
A fotografia do pavilhão ressalta o caráter reluzente do material utilizado em seu revestimento exterior. O facho de luz em perspectiva, criado pela sombra da marquise, resulta em sensação de movimento e, assim, também condiz com o material de foguetes que seria utilizado no revestimento da obra.
Nem todas as imagens do período foram utilizadas para remeter a esse tipo de concepção de futuro, pois este também apareceu, indiretamente, de maneiras mais singelas. O chegar da primavera foi utilizado simbolicamente pelos jornais com o intuito de demonstrar a promessa de nova vida ao Parque. Nesse sentido, as construções deixaram de ser o foco principal de atenções e a natureza ganhou maior destaque. Se a infinitude dos componentes de construções pode causar efeito assombro e de sublimidade na arquitetura, pode-se pensar, nos espaços verdes do Parque, em outro tipo de infinidade, um que causa prazer. Esse sentimento pode ser associado com o pitoresco. A primavera salientada nos jornais, por exemplo, é compreendida como um acontecimento agradável, pois “a imaginação é alimentada com a promessa de algo mais e não se fixa no objeto presente dos sentidos.”315
314 Disponível em: <http://acervo.folha.uol.com.br/fsp/1961/03/15/21/>. Acesso em: 23/05/2014.
315 BURKE, Edmund. Uma Investigação Filosófica Sobre a Origem das Nossas Ideias Sobre o Sublime e o
“A quase primavera”, autoria não creditada / O Estado
de S. Paulo, 05 de agosto de 1965, p. 56 Estado de S. Paulo, 08 de outubro de 1965, p. 34“A paisagem renovada”, autoria não creditada / O 316
Artigo publicado pelo O Estado de S. Paulo em 1965 tratou do fim do inverno e da aproximação da primavera, com os sinais das primeiras folhas nas árvores: “é o caso das paineiras do Parque do Ibirapuera”317. Alguns dias depois, outro artigo do mesmo jornal fez
referência a uma “paisagem renovada”, uma vez que “mais de 200 novas árvores já foram plantadas no Ibirapuera pela Prefeitura, de acordo com o plano de remodelação do Parque, para o qual poderá ser adotado projeto de Burle Marx.”318
Há algo de idílico nessas imagens, principalmente na segunda, que revela uma luz vindo do fundo da imagem em direção ao observador. De maneira pouco usual ao que foi observado até agora, essas fotografias retratam o Parque com foco não na modernidade da arquitetura, mas no espaço verde oferecido à contemplação. A atenção deixa, nesse momento, de recair no complexo arquitetônico para se debruçar sobre a paisagem natural (ainda que se deva argumentar, conforme já citado anteriormente, que paisagem nunca é ‘natural’, pois é sempre
316 Disponível em: <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19650805-27698-nac-0056-999-56-not/busca/Ibirapuera> e
<http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19651008-27753-nac-0034-999-34-not/busca/Ibirapuera>. Acesso em: 21/05/2014.
317 O Estado de S. Paulo, 05 de agosto de 1965, p. 56. Disponível em: <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19650805-
27698-nac-0056-999-56-not/busca/Ibirapuera>. Acesso em: 21/05/2014.
318 O Estado de S. Paulo, 08 de outubro de 1965, p. 34. Disponível em: <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19651008-
um construto sociocultural). De qualquer modo, a mudança de foco de um tipo de paisagem para outro é significativa do uso que se pretendia que a população fizesse desse espaço.
Além das árvores, os lagos também começam a aparecer com mais frequência nas fotografias em meados da década de 1960, já que, se limpos, seriam capazes de proporcionar “ao paulistano, principalmente nos fins de semana, horas de agradável divertimento. O Parque vai ser submetido a um processo de remodelação a fim de que possa oferecer maiores atrativos.”319 Era importante que a população da cidade pudesse usufruir do espaço público do
Ibirapuera. A condição deteriorada do Parque dificultava esse uso e a capacidade de recreação e relaxamento dos usuários. Por isso, era preciso que o Parque pudesse oferecer “maiores atrativos.” O artigo de O Estado de S. Paulo, publicado em junho de 1965, comenta sobre o início da limpeza geral do Ibirapuera, inclusive dos lagos, e a colocação de novos gramados que estavam sendo realizados pela Prefeitura. Entre os melhoramentos em vista estavam os projetos de iluminação do Parque, estacionamentos, policiamento e ampliação do parque infantil com balanças e gangorras. Pensava-se também na possibilidade de por em prática os projetos paisagísticos de Burle Marx, que nunca haviam sido executados, e até mesmo na exibição de exposições ao ar livre em baixo da grande marquise. Com relação à limpeza dos lagos, previa-se a canalização de parte do córrego do Sapateiro para que o esgoto não fosse lançado in natura, poluindo e até mesmo secando os lagos do Ibirapuera.
Com os lagos limpos, a paisagem do Parque pode aparecer relacionada à recreação e ao descanso do público. A natureza é vista como um ambiente variado, acolhedor e propício que favorecia, no usuário e/ou observador, o desenvolvimento de sentimentos sociais. Isso pode ser observado na retratação das águas calmas com barcos que transportam famílias e namorados e com as cadeiras colocadas às margens do lago, oferecendo momentos de relaxamento e de contemplação ao público do Parque320.
319 O Estado de S. Paulo, 30 de junho de 1965, p. 26. Disponível em: <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19650630-
27667-nac-0026-999-26-not/busca/Ibirapuéra+Parque+remodelação>. Acesso em: 21/05/2014.
320 Cabe notar que, ainda no século XIX, os fotógrafos do Pitoresco, conscientemente ou não, ajudaram a legitimar
a reivindicação da fotografia de ser aceita como uma forma de arte, inserindo-a na tradição estabelecida de pinturas e de gravuras de paisagem. Ver ACKERMAN, James S. The Photographic Picturesque. Artibus et Historiae, Vol. 24, No. 48 (2003), IRSA s.c. Disponível em: <http://www.jstor.org/stable/1483732.>. Acesso em: 09/10/2015. Acesso em: 03/09/2015.
“Remodelação”, autoria não creditada / O Estado de S.
Paulo, 30 de junho de 1965, p. 26 “Este é um dos lagos do Ibirapuera que vai ser dragado”, autoria não creditada / O Estado de S. Paulo, 06 de setembro de 1966, p. 14321
Nas duas imagens dos lagos aqui reproduzidas, é possível atentar para a serenidade que pode ser proporcionada aos usuários do Ibirapuera, localizado em meio à cidade moderna. Com o skyline verticalizado ao fundo da primeira imagem e com a construção moderna erguida na segunda que, nesse caso, compõe a paisagem do Parque, o (aparente) contraste entre a metrópole moderna e a tranquilidade do espaço público pode ser notado. É dessa possibilidade de o Ibirapuera oferecer um espaço para lazer e relaxamento ao público metropolitano que vieram as maiores críticas a sua deterioração e algumas das mais fortes razões, justamente por parte desse público, para sua remodelação.
Paulistanos no Ibirapuera, 1965, autoria não
creditada / Folhapress Dimanche après-midi à l’île de La Grande Jatte, 1884-1886, Georges Seurat,
321 Disponível em: <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19650630-27667-nac-0026-999-26-
not/busca/Ibirapuéra+Parque+remodelação> e <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19660906-28033-nac- 0014-999-14-not/busca/lagos+Ibirapuera>. Acesso em: 21/05/2014.
Na fotografia acima, os usuários do Ibirapuera estão no primeiro plano, imersos em suas atividades de lazer nas margens do lago; ao fundo, num segundo plano, observa-se o skyline de São Paulo. Esse contraste parece procurar simbolizar o oásis verde, de ordem e harmonia, que existe dentro do espaço mais desordenado e frenético que é a metrópole moderna.
A fotografia remete à pintura modernista de Georges Seurat intitulada Dimanche après-midi
à l’île de La Grande Jatte: o corpo d’água possui formato similar e encontra-se na mesma posição,
barcos velejam nele; meninos sentam à beira do lago; crianças correm na grama; famílias passeiam no espaço público. Na tela, o pintor busca encontrar forma para a aparência de classe na sociedade capitalista, especialmente para a burguesia. O tema de Seurat, contudo, “é a rigidez do lazer parisiense, desanimado e avacalhado, no qual a própria recreação é cheia de pose.”322 Suas personagens são
retratadas como “pessoas endomingadas, que caminham sem prazer pelos lugares onde se supõe que devem caminhar aos domingos.”323 Já a imagem fotográfica do Ibirapuera em 1965 revela, até mesmo
pelo caráter próprio da fotografia, personagens mais dinâmicas, em movimento. No primeiro plano, na lateral esquerda da fotografia, há a figura de uma menina de pé, que se encontra em posição similar à da figura feminina da tela. A imagem da menina da fotografia, contudo, está borrada devido ao movimento que fez no momento da captura da imagem, enquanto a personagem de Seurat encontra- se estática. Apesar da diferença em dinâmica, a classe das personagens da pintura e da fotografia parece ser a mesma. As pessoas retratadas ocupando este espaço público não são iguais às que o ocupavam antes da implantação do Ibirapuera. Os cidadãos que são incluídos dentro do projeto de modernização – e não excluídos dele, como aconteceu com a população que morava na favela do Ibirapuera no início da década de 1950 – parecem pertencer à mesma classe média, burguesa.
Essa observação não deixa de causar estranhamento, pois com tamanha deterioração descrita, seria de se esperar que o Parque fosse frequentado por classes mais marginalizadas, ou excluídas, da sociedade. As fotografias analisadas para esta pesquisa, porém, não revelam isso.
Mesmo com as dificuldades enfrentadas no Ibirapuera, parcelas da população paulistana ainda frequentavam o espaço. Era importante, porém, dar início às reformas necessárias, até mesmo para que esse uso pudesse ser ampliado. De acordo com artigo de O Estado de S. Paulo,
322 FÈVRE, Henry. La Revue de Demain. In: CLARK, T.J. A Pintura da Vida Moderna. São Paulo: Companhia
das Letras, 2004, p. 350.
323 PAULET, Alfred. Paris, 5 de junho de 1886. In: CLARK, T.J. A Pintura da Vida Moderna. São Paulo:
de 1967, as obras parciais de reforma do Parque tiveram início somente neste ano, “no setor onde está localizado o obelisco em homenagem aos heróis de 1932.”324
“Para o dia 9 de Julho, o Parque do Ibirapuera será reformado”, autoria não creditada / O Estado de S. Paulo, 09 de junho de 1967, p. 12325
Dois anos depois, em 1969, foi entregue à população da cidade o trecho da avenida 23 de Maio até o Parque Ibirapuera, além da ligação da avenida 23 de Maio com a avenida Rubem Berta. A perspectiva criada pela ligação da 23 de Maio, de onde já se avista o Mausoléu, até o Parque ajuda a completar a narrativa a respeito da ação seletiva de momentos da história de São Paulo que contribuíram para o “agigantamento” do Brasil.
Apesar do início das obras de reforma, as críticas com relação ao mau estado de conservação do “Ibirapuera, o parque que S. Paulo não tem”326, não cessaram.
324 O Estado de S. Paulo, 09 de junho de 1967, p.12. Disponível em: < http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19670609-
28267-nac-0012-999-12-not/busca/Ibirapuera>. Acesso em: 21/05/2014.
325 Disponível em: <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19670609-28267-nac-0012-999-12-not/busca/Ibirapuera>.
Acesso em: 21/05/2014.
326 O Estado de S. Paulo, 25 de agosto de 1967, p.33. Disponível em: < http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19670825-
“Ibirapuera, o parque que São Paulo não tem”, autoria das imagens não creditada / O Estado de S. Paulo, 25 de agosto de 1967, p. 33327
Dentre as imagens publicadas no artigo, quatro retratam crianças – com balões, brincando no trepa-trepa, com fitas, sentadas na grama –, vistas como as principais prejudicadas pelo estado de abandono do Parque. Somente uma imagem retrata homens trabalhando para a recuperação do Ibirapuera, prometida pela Prefeitura em razão do apelo da população e da mídia.
O Ibirapuera foi tido como “dívida da Prefeitura”, já que era utilizado por diversos “tipos” que o frequentavam: “juventude (...), velhice (...), estadistas (...) artistas, cientistas, homens de negócio (...), do País e do estrangeiro”328. O Parque, que era considerado a “sala de visitas de São Paulo”,
possuía, como “hostess (...) uma dama desleixada.”329 O articulista ainda relaciona o estado de
conservação em que se encontrava o Parque com a etimologia do nome Ibirapuera e sugeriu: “que se
327 Disponível em: <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19670825-28333-nac-0033-tur-1-not/busca/Ibirapuera>.
Acesso em: 21/05/2014.
328 O Estado de S. Paulo, 25 de agosto de 1967, p. 33. Disponível em: <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19670825-
28333-nac-0033-tur-1-not/busca/Ibirapuera>. Acesso em: 21/05/2014.
mude o nome para fugir à predestinação. Yby-ra-puêra significa pau podre, árvore antiga, extinta, que foi e já não é (Melhor que o Parque Ibirapuera, que nem mesmo ainda chegou a ser).”330
“Ibirapuera é dívida da Prefeitura”, autoria das imagens não creditada / O Estado de S. Paulo, 25 de agosto de 1967, p.35331
Mais uma vez, aparecem as figuras que frequentam o Parque – crianças, famílias, namorados – e somente duas das fotos dessa página de jornal são de obras construídas: o Ginásio e o Monumento às Bandeiras. A imagem desse último, acompanhado de sua legenda – “e nós não conseguimos desbravar um parque” – é expressiva.
330 O Estado de S. Paulo, 25 de agosto de 1967, p. 35. Disponível em: <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19670825-
28333-nac-0035-tur-3-not/busca/Ibirapuera>. Acesso em: 21/05/2014.
331 Disponível em: <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19670825-28333-nac-0035-tur-3-not/busca/Ibirapuera>.
Detalhe de O Estado de S. Paulo, 25 de agosto de 1967
O bandeirismo, que até então aparecia somente como positivo, sinal de bravura e de força, é usado agora, passados os festejos do IV Centenário para os quais o Ibirapuera foi planejado e construído, para mostrar a incapacidade de manter o Parque em bom estado de conservação para usufruto do público. Há uma espécie de inversão de valores na ironia da legenda, que marca esse novo momento da história do Parque.
4.5 Outras publicações internacionais: “New Directions in Latin American Architecture” e