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4. KAYNAK ÖZETLERİ

4.2 Sahne Sınıflandırma / İmge sınıflandırma Problemi

4.2.3 Derin öğrenme ve öznitelik vektörleri

de Rupert Spade e Yukio Futagawa (1971)

Entre o final da década de 1960 e o início da de 1970, surgiram novas publicações de escopo internacional a respeito da arquitetura produzida na América Latina e, dentro desse escopo, também no Brasil. Francisco Bullrich, crítico e arquiteto argentino, foi um dos pioneiros ao historiar a arquitetura do subcontinente. Em 1969, publicou duas obras sobre a arquitetura latino-americana:

New Directions in Latin American Architecture foi publicada em Londres e Arquitetctura Latinoamericana 1930/70, em Buenos Aires. Ambos os livros seguem uma mesma linha de

interesse na arquitetura latino-americana enquanto contribuição à arquitetura linha de interesse na qual a arquitetura latino-americana aparece enquanto contribuição à arquitetura moderna.

Yukio Futagawa foi um fotógrafo de arquitetura japonês que também atuou como editor, tendo fundado a “A.D.A. Edita” e sido diretor da revista fotográfica “Global Architecture”. Futagawa viajou pelo mundo retratando edifícios que lhe chamassem atenção. Dessa maneira,

produziu um arquivo enorme de imagens de obras arquitetônicas, que não só documentou, mas das quais também apresentou sua interpretação pessoal da história da arquitetura. Em 1971, Futagawa lançou, juntamente com o crítico de arquitetura Rupert Spade, livro sobre a obra de Oscar Niemeyer, com título homônimo.

Essas publicações, apesar de conterem textos explicativos e analíticos, conferem prioridade às fotografias das obras arquitetônicas e, assim, ajudaram a divulgar imagens da arquitetura moderna da região em outros âmbitos.

4.5.1 “New Directions in Latin American Architecture” e “Arquitectura Lationoamericana 1930/1970”, de Francisco Bullrich (1969)

O livro New Directions in Latin American Architecture foi pretendido como uma espécie de catálogo dos exemplos mais significativos, segundo seu autor, Francisco Bullrich, da arquitetura sendo produzida na América Latina no período. Dentre os exemplos selecionados para representar a produção brasileira, encontram-se muitas obras de Niemeyer, como o MESP, a Casa das Canoas, o Hospital Sul América, todos no Rio de Janeiro, o conjunto da Pampulha, em Minas Gerais, e Brasília. De São Paulo, um dos poucos exemplos é o Hotel Copan. Importante notar que o Parque Ibirapuera não consta entre esses principais exemplos, ainda que o autor tenha advertido, em seu prefácio, que seria impossível possuir conhecimento detalhado e atualizado de todos os desenvolvimentos no âmbito arquitetônico através da América Latina e que “é possível que um projeto muito recente interessante tenha sido omitido.”332 Como o livro é de mais de uma década

após a inauguração do Parque Ibirapuera, esse não pode ser pensado como um motivo possível para a omissão. Antes, é possível pensar que o estado de deterioração em que o Ibirapuera já se encontrava no final da década de 1960 tenha contribuído para sua exclusão na compilação de Bullrich. Ainda que o Ibirapuera não tenha figurado entre as páginas do livro, seu principal arquiteto, Oscar Niemeyer, foi destacado como importante profissional brasileiro de reconhecimento internacional. Bullrich comenta as qualidades “de sonho, de imaginação quase de ficção científica”333 de suas obras, características que reconhece ainda mais nas maquetes

arquitetônicas do que nas obras em si.

332 BULLRICH, Francisco. New Directions in Latin American Architecture. London: Studio Vista, 1969, p. 11. 333 Ibidem, p. 24.

É possível pensar que a fotografia de maquetes tenha contribuído de maneira importante para a percepção de Bullrich acerca do caráter “futurista” e imaginativo da obra de Niemeyer. No sentido de ser impossível conhecer todas as obras existentes na região, é interessante notar que o autor comenta que ainda que tenha viajado muito pelo continente, ele teve que recorrer a periódicos quando informações de primeira mão não estavam disponíveis. Essa afirmação ajuda a atestar o valor fundamental que fotografias tiveram na divulgação (e percepção) das obras arquitetônicas modernas.

Em Arquitectura Lationoamericana 1930/1970, Bullrich ressalta, entre os exemplos de arquitetura brasileira, obras predominantemente cariocas: o MESP, a Obra do Berço, o Conjunto Pedregulho, o Parque Guinle, entre outros, apesar de ter citado também o Conjunto da Pampulha, em Minas Gerais, Brasília e algumas obras em São Paulo, como a Fábrica Duchen, o Hotel Copan e o Parque Ibirapuera. Bullrich diz ter optado por não focar demasiadamente nas obras de Niemeyer dentro do contexto brasileiro, já que “os numerosos estudos dedicados a sua obra tornariam desnecessária uma apresentação mais detalhada de sua personalidade neste breve trabalho.334

Mesmo assim, ao comentar a audácia estrutural de algumas obras na produção brasileira, o autor cita, como exemplo, a rampa do interior do Palácio das Indústrias, que aparece ilustrado por uma fotografia de Marcel Gautherot, fotógrafo francês radicado no Brasil, que colaborou ativamente com Niemeyer retratando suas obras dentro da estética modernista.

Rampa do Palácio da Indústria, Parque Ibirapuera, Marcel Gautherot / “Arquietctura Latinoamericana 1930/1970”, de Francisco Bullrich, 1969

334 BULLRICH, Francisco. Arquitectura latinoamericana 1930/1970. Buenos Aires: Editorial Sudamericana,

A imagem de Gautherot enquadra a rampa do Palácio das Indústrias desde um ponto de vista que privilegia sua forma pouco usual. A geometria dos componentes do edifício e o contraste formado entre as tonalidades clara e escura favorecem a “atmosfera de sonho” sobre a qual Bullrich comentou.

4.5.2 “Oscar Niemeyer”, de Rupert Spade e Yukio Futagawa (1971)

Dentre as obras retratadas no livro Oscar Niemeyer, está o Parque Ibirapuera, ou “os prédios de exposição do quarto centenário de São Paulo”, de acordo com o título do trecho. Juntamente com o Copan, também de autoria de Niemeyer, essa é a única parte do livro dedicado a obras localizadas em São Paulo. A grande maioria dos projetos registrados está no Rio de Janeiro ou em Brasília. Minas Gerais aparece somente com o complexo de Pampulha.

“Oscar Niemeyer”,1971, pp.74-75. Fotografías de Yukio Futagawa

A fotografia que abre a sessão é do Palácio dos Estados. Sua dimensão extrapola a largura de uma só página e ocupa duas meias páginas, de modo contínuo. Dessa maneira, o comprimento do prédio é enfatizado. Os carros que passam na rua logo à frente do Palácio conferem escala ao edifício e corroboram na interpretação de sua extensão. A presença de árvores, como palmeiras, ajuda a remeter o observador ao imaginário referente a um parque – principalmente um parque no Brasil –, pois, de resto, o espaço circundante ao prédio parece bastante árido e deserto. No canto esquerdo inferior da página, há uma foto das rampas externas

que dão acesso ao Palácio dos Estados. As rampas recortam a paisagem do fundo e criam focos de interesse diversos na imagem, essa sim com uma vegetação um pouco mais presente.

“Oscar Niemeyer”, 1971, pp. 76-77. Fotografía de Yukio Futagawa

A próxima fotografia do Ibirapuera no livro avança totalmente sobre duas páginas inteiras criando uma grande imagem, capaz de causar o impacto que Futagawa parece acreditar que a arquitetura sendo retratada merece. Trata-se de uma vista do interior do Palácio das Indústrias, com sua sinuosa rampa e com seus pavimentos. Os contrastes entre claro e escuro não foram excessivamente trabalhados, pois aparecem de maneira sutil, mas permitem um retrato mais sugestivo da volumetria da obra. Essa fotografia remete a outras vistas aqui nessa pesquisa335 por ter sido tirada da mesma parte do prédio e de similar ângulo. Ao contrário das

outras imagens, contudo, não há a presença de pessoas circulando no espaço retratado por Futagawa, nem sinais de uso, como painéis e objetos. O espaço parece ter sido esvaziado para que a fotografia fosse tirada. Assim, a imagem de Futagawa retrata a arquitetura de maneira mais nítida e lhe confere maior sensação de estabilidade e de requinte formal.

335 Refiro-me aqui às imagens comentadas no capítulo 3 desta dissertação, publicadas nos jornais O Estado de S.

“Oscar Niemeyer”, 1971, pp. 78-79. Fotografías de Yukio Futagawa

A última sessão de fotografias do Ibirapuera apresenta uma foto de página inteira do Palácio de Exposições e outra, ocupando pouco mais de meia página, do Palácio das Nações. Esta última fotografia retrata o prédio ressaltando os pilotis em forma de “V” (estilizados), os brise-soleil e, ainda que não tanto quanto no Palácio dos Estados, a horizontalidade da obra.

A fotografia do Palácio de Exposições confere destaque não só à arquitetura, mas ao céu do fundo, que aparece movimentado pelas ações da luz e do sol nas nuvens. Ainda que o prédio esteja pequeno na imagem como um todo, ele é monumentalizado pela sua relação com o céu. Há certa força e dramaticidade na imagem nesse sentido. A forma inusitada da seção de esfera, que remete a uma espaçonave, ganha ênfase na sua relação com o vasto espaço aéreo circundante. Ao longo de seus sessenta anos de carreira, Futagawa fotografou obras modernistas de alguns dos arquitetos mais renomados do mundo – como Frank Lloyd Wright, Richard Neutra e Mies van der Rohe – e os apresentou em uma série de livros, assim como em revistas. Apesar de Oscar Niemeyer já ter posição estabelecida no âmbito internacional na década de 1970, a publicação do livro de Futagawa sobre sua obra o reiterou enquanto um dos mestres do modernismo. Dentro do conjunto de trabalhos de Niemeyer, Futagawa selecionou as obras que lhe pareceram ser as mais paradigmáticas e o Parque Ibirapuera figurou nessa seleção.

4.6 Influência do Parque Ibirapuera na arquitetura moderna brasileira

Ao marcar momento importante do desenvolvimento da arquitetura moderna brasileira, o Parque Ibirapuera representou, para além da pujança e do progresso de São Paulo, oportunidades de desenvolvimento para a elaboração de procedimentos arquitetônicos que posteriormente seriam realizados em outros projetos, principalmente nos do próprio Niemeyer. Com a inauguração do Parque e com o auxílio de suas imagens que circularam amplamente na mídia, ajudou-se a criar determinado imaginário para a arquitetura moderna brasileira tida como paradigmática. Conforme o já citado depoimento de Carlos Lemos: “Depois da criação do Ibirapuera, nenhuma outra obra pública ignorou o moderno na arquitetura.”

Com o passar dos anos, é possível perceber o estilo arquitetônico do Ibirapuera começar a se propagar. Até mesmo nos jornais fez-se menção ao fato. Segundo O Estado de S. Paulo em matéria publicada em 1967:

O arquiteto Oscar Niemeyer (...) recebeu do governador Israel Pinheiro a incumbência de elaborar o projeto do Parque das Exposições, a ser construído na Gameleira, local que o próprio arquiteto recomendou. O Parque das Exposições será construído dentro do estilo do Ibirapuera em São Paulo, e servirá para feiras nacionais e internacionais, audições artísticas e congressos336.

Em Minas Gerais, portanto, o Parque da Gameleira, que deveria ganhar novo pavilhão para exposições, com projeto do arquiteto Oscar Niemeyer e do engenheiro Joaquim Cardozo, deveria seguir os padrões de modernidade do Ibirapuera. A obra, contudo, nunca foi concluída. Em 1971, ocorreu o que ficou conhecido como um dos maiores acidentes da construção civil brasileira. Israel Pinheiro, na sua ânsia para deixar um legado arquitetônico do seu governo, pressionou para que a entrega do moderno pavilhão da Gameleira saísse prontamente, ainda durante o seu mandato, mesmo que operários já estivessem alertando o governo sobre fissuras e estalos nos alicerces. A estrutura desabou e cerca de dez mil toneladas vieram abaixo. Com a queda da estrutura, quase cem operários morreram e houve pelo menos o mesmo número de feridos.

O projeto da Gameleira não é muito comentado entre as obras de Oscar Niemeyer por ele nunca ter sido completado e, talvez, pela “sombra” que o episódio poderia lançar sobre a

336 O Estado de S. Paulo, 25 de junho de 1967, p. 15. Disponível em: <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19670625-

figura de um dos mais renomados arquitetos modernistas brasileiros337. No seu projeto, porém,

a influência do Ibirapuera era percebida.

Se o Parque das Exposições acabou sendo pouco comentado devido à tragicidade do evento, outra obra, dessa vez muito comentada e louvada devido ao seu caráter monumental, foi Brasília. Os projetos da nova capital, em parte, seguiram estilos previamente apontados no Ibirapuera. Na época de sua construção e inauguração, Brasília foi vista como um exemplo de projeto modernista de grande ousadia, mas não foram encontradas referências específicas às possíveis influências do Ibirapuera na nova cidade. Foi somente em razão do oitavo ano de existência da nova capital que surgiu o paralelo impresso na página do jornal O Estado de S.

Paulo, em abril de 1968:

À procura de um denominador comum para caracterizar os edifícios, digamos nobres, da Nova Capital, levou o arquiteto a projetar um elemento estrutural que fixa, de maneira impressionante, a paisagem arquitetônica da cidade. É exatamente esse elemento que serve de base à nossa publicação. Contudo, apesar de Niemeyer ter anunciado seu aparecimento nos projetos de Brasília, encontramos sua origem em realizações bem anteriores do arquiteto, como a capela de Pampulha (apoio da marquise sobre a entrada do templo), a Fábrica de Biscoitos Duchen e o Parque Ibirapuera. (...) como podemos observar no primeiro desenho (alto da página, à esquerda), a linha de contorno que irá definir os elementos estruturais das obras de Brasília já se esboça no Marco do IV Centenário de São Paulo, também projetado por Niemeyer. (...) Nos desenhos subsequentes tomamos idêntico partido, fazendo-se notar a antecipação, já no anteprojeto do Parque Ibirapuera (Planetário e Auditório), da inversão de massas que caracteriza os edifícios da Câmara e do Senado. A solução para o teatro – não construído no Ibirapuera – parece ter sido transferida por Niemeyer para Brasília, com a inversão da forma e o acréscimo de montantes de concreto nas fachadas principais. Pela foto no rodapé da página pode-se sentir a afinidade plástica entre o Teatro e a Catedral338.

337 Segundo o artigo “Curadores atacam mostra sobre desabamento de obra de Niemeyer”, de Silas Martí,

publicado na Folha de S. Paulo em 17 de junho de 2014, “o episódio conhecido como a tragédia da Gameleira, o bairro de Belo Horizonte que abrigava a construção, é ainda hoje um ponto obscuro na trajetória de Niemeyer.” Ver <http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/06/1471755-curadores-atacam-mostra-sobre-desabamento-de- obra-de-niemeyer.shtml>. Acesso em: 13/10/2015.

338 O Estado de S. Paulo, 20 de abril de 1968, p. 7. Disponível em: <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19680420-

“Brasília, poesia em ritmo de arquitetura”, autoria das imagens não creditada / O Estado de S. Paulo, 20 de abril de 1968, p. 7339

O artigo de jornal faz referência a três principais influências do Ibirapuera em Brasília: a linha de contorno da espiral do progresso; a cúpula do Palácio de Exposições e a forma (invertida) do Auditório, naquela época ainda não construído. Ainda que a forma da espiral e do Auditório possam ser compreendidas como interpretações mais soltas, a seção de esfera do prédio hoje conhecido como Oca é de mais fácil identificação. A cúpula como forma autônoma, livre no espaço, é outra tipologia que persistiu na obra de Niemeyer, sendo que a primeira experiência foi desenvolvida no Pavilhão de Exposições. O sucesso obtido no Parque Ibirapuera culminou nas duas cúpulas, uma delas invertida, que formam os prédios do Senado e da Câmara dos Deputados na Praça dos Três Poderes, em Brasília. Algumas versões diferentes da cúpula foram desenvolvidas posteriormente ao Ibirapuera e a Brasília, principalmente nos anos mais recentes: a sala de conferência da sede do Partido Comunista Francês, em Paris, de 1965; a Sala Poliesportiva “A Cúpula”, em Argel, na Argélia, em 1975; a Fundação Oscar Niemeyer, em

339 Disponível em: <http://acervo.estadao.com.br/pagina/#!/19680420-28535-nac-0007-999-7-not/busca/Parque+Ibirapuera>.

Niterói, em 1999; o Centro Cultural de Goiânia, em 2006; o Museu de Arte de Brasília, em 2007; O Centro Cultural Internacional Oscar Niemeyer, em Avilés, na Espanha, em 2011.

É possível pensar que semelhanças entre os diversos projetos de Niemeyer, e entre diversas fotografias de sua arquitetura, ocorressem nos âmbitos internacional e nacional, em alguns dos principais centros de poder no país da época: Rio de Janeiro, que a elite de São Paulo pretendia “igualar” ou mesmo “superar” em prestígio enquanto cidade metrópole moderna, produtora de riqueza e de cultura; Belo Horizonte, onde foi construído, ainda na década de 1940, o complexo da Pampulha e, depois da construção do Ibirapuera em São Paulo, haveria o Parque das Exposições, na Gameleira; e Brasília, moderna capital planejada.

É evidente que as obras de Niemeyer encontram grande ressonância com seus trabalhos erguidos no Brasil e fora dele. Nesse sentido, o Ibirapuera pode ser compreendido como um sucessor da Pampulha e como uma espécie de precursor de Brasília. Nos três casos, é possível relacionar o fato de as obras construídas para representar a modernidade terem sido erguidas em espaços sem construções anteriores – a “página em branco” conforme escreveu Recaman –, com imagens que se pretendia passar ao público, fosse ele nacional ou internacional

CAPÍTULO 5 – A CONSOLIDAÇÃO DE UM PARQUE OU DE UMA PAISAGEM HETEROTÓPICA

Com o transcorrer do tempo – desde a época de sua construção, passando pela inauguração, até um período posterior, quando o Parque já estava melhor integrado à vida da cidade –, o Ibirapuera foi representado como um espaço público de grande importância, que deveria refletir a modernidade e a monumentalidade de São Paulo dentro do contexto de progresso almejado também para o país. Essa aspiração foi mais forte no período de idealização, construção e inauguração do Parque, mas permaneceu mesmo após essa época, inclusive quando ele entrou em decadência. A ambição de fazer do Parque um símbolo de modernidade apareceu no complexo arquitetônico e paisagístico de diversas formas, fazendo alusões à história passada, sua influência no presente e nos apontamentos das possibilidades para o futuro. A acumulação de diferentes tempos e a justaposição de vários pequenos espaços, aparentemente incompatíveis entre si, contidos simultaneamente dentro de um outro maior, são, conforme se apontou na introdução deste trabalho, alguns dos princípios utilizados para definir o conceito de heterotopia, espaço concreto no qual idealizações e representações se encontram presentes. Para Michel Foucault, o mais antigo exemplo de heterotopia, que toma a forma de sítios contraditórios, é o jardim persa. Nele, eram reunidos diferentes tipos de plantas dos quatro cantos do mundo, numa espécie de microcosmo, ao redor do espaço central da fonte, ainda mais sagrado do que os outros e para onde as atenções eram atraídas. “O jardim é a menor parcela do mundo e daí é a totalidade do mundo.”340

A partir dessa análise, é possível supor que os parques possam ser compreendidos como heterotopias e o Ibirapuera é emblemático nesse sentido. Em seu projeto paisagístico, também se encontram plantas de diferentes regiões: da mata atlântica, da amazônia, do cerrado, do sertão. Em seu complexo, forma-se uma heterogeneidade que é típica do país. Ainda que esteja localizado na cidade de São Paulo, o Ibirapuera possui uma simbologia mais abrangente, que o conecta com uma interpretação paulistana seletiva e elitizada da história do Brasil. Trata-se de um microcosmo da nação que pretende representar sua totalidade e que condensa natureza e cultura no espaço urbano, criando um “enraizamento paisagístico que fortalece uma consciência