Esse processo de individualização do processo saúde-doença também pode ser visualizado nas narrativas de algumas mulheres entrevistadas, que também enfatizaram a importância do cuidado de si para a manutenção de sua saúde: “Em relação à minha saúde, eu me cuido bastante” (Vânia, entrevistada 02). Ou ainda: “Gosto de cuidar da minha saúde. É difícil a gente tomar isso como hábito; não faço tudo, mas procuro fazer o máximo que eu posso” (Maísa, entrevistada 04).
Essa ênfase no cuidado de si reforça a individualização do processo saúde- doença, que faz das mulheres responsáveis pelo cuidado da própria saúde. Mas, qual a relação entre esse processo de individualização com a medicalização da vida, cada vez mais presente nos dias atuais?
O conceito de medicalização tem sido proposto tanto no âmbito da crítica do modo como a medicina moderna “colonizou a vida”, tornando-se uma ameaça (Ilitch, 1975: 9), quanto pelo o modo como a medicina torna-se uma fonte para estabelecer regras que orientam as práticas de cuidado de si, normatizando a vida pessoal e social (Aïch e Delanoë, 1998). Para Helman (2003: 153), a medicalização, “consiste na maneira como a jurisdição da medicina moderna vem se expandindo nos últimos anos, abrangendo, atualmente, problemas que não eram definidos como entidades médicas”.
Trata-se de um processo, no qual a medicina redescreve tanto os eventos considerados fisiológicos, tais como: a gravidez, o parto, a menopausa, o envelhecimento, como comportamentos sociais, considerados desviantes, tais como: o uso excessivo de bebidas alcoólicas, o uso de drogas ilícitas, a agressividade, a tristeza, o luto, formas de exercício da sexualidade. Todos esses fenômenos fisiológicos e sociais passam a ser submetidos à lógica da normatização médica, sendo remetidos à intervenção de alguma prática especializada da medicina.
Como bem define Fassin (1999: 5 – trad. minha), “a medicalização é uma construção social. Ela consiste em conferir uma natureza médica às representações e às práticas que não eram até então socialmente apreendidas em termos médicos”. Como consequência, abre-se a possibilidade de expansão ilimitada da medicalização da vida, de tal forma que qualquer aspecto da vida social e pessoal pode ser redescrito em termos de um diagnóstico médico. Ainda, de acordo, com Fassin (1999: 5 – trad. minha), “a medicalização é acima de tudo a redefinição de um problema existente em uma linguagem médica”.
Nesse sentido, toda e qualquer forma de expressão da vida pode ser classificada em um diagnóstico previsto em um CID (Código Internacional de Doenças) e, consequentemente, ter um remédio na medicina. Como aponta Corrêa (2001: 27): “a
medicalização implica em considerar a interferência do discurso e da prática médicos na construção do sentido e da significação da própria ideia de vida e de processos vitais (corpo, saúde, doença, morte, prazer e sofrimento)”.
É importante ressaltar que a medicalização não implica apenas uma conquista profissional da medicina, na qual os médicos se apropriam de problemas que anteriormente não estavam sob suas prerrogativas. A medicalização é uma transformação cultural, tornando-se uma prática social, por meio da normatização da vida pessoal e social 22 (Fassin, 1999: 5,6).
Nessa linha, a medicalização, concebida como um processo de normatização da vida social e pessoal, pela medicina, está diretamente ligada ao processo de individualização vivenciado nas sociedades modernas. Nas palavras de Corrêa (2001: 28):
A medicina moderna, enquanto prática social, não encontra um indivíduo autônomo, sobre o qual agir, ao contrário, ela é daquelas práticas (...) pelas quais o indivíduo se constitui e constrói a valorização do cuidado de si, as normas de higiene, as necessidades em termos de saúde, o combate ao mal-estar e ao sofrimento causado pelas doenças.
As práticas e os discursos da medicina moderna incidem diretamente sobre a construção do indivíduo concebido como um sujeito responsável pelos cuidados de si mesmo e de sua saúde.
A obra de Foucault oferece uma pista importante para compreendermos a maneira pela qual a medicina moderna corrobora com a construção do indivíduo
22 Ainda nas palavras de Fassin (1999: 7 – trad. minha): “a medicalização se torna um fenômeno social e não apenas um fato profissional, a partir do momento em que o reconhecimento de um problema como patológico se desdobra em uma inscrição no espaço coletivo, onde a saúde pública ultrapassa os limites da clínica médica, em suma, onde a medicalização assume uma dimensão política (...) Além de uma realidade cultural, a medicalização é um fato político, por meio do qual se desvela o modo como as socidades são governadas”.
responsável pelo cuidado de si 23. Dentre as formas de construção do sujeito analisadas por Foucault, destaca-se aquela relacionada às maneiras através das quais nos tornamos o que somos. Trata-se dos discursos e das práticas relacionadas ao “cuidado de si”, que conduz à emergência de “estilos de vida”, de “modos de existência” e “modos de viver”, enfim, aos modos de subjetivação. Para Foucault (1997: 111), “a história do cuidado e das técnicas de si seria, portanto, uma maneira de fazer a história da subjetividade (...) através do empreendimento e das transformações, na nossa cultura, das relações consigo mesmo, com seu arcabouço técnico e seus efeitos de saber”.
Percorrendo as práticas cotidianas da Antiguidade, Foucault (1990) destaca as formas através das quais os sujeitos se relacionavam consigo mesmo, configurando uma espécie de “tecnologia” de cuidados de si, através de exercícios, de técnicas e de procedimentos que operavam um modo específico de construção do sujeito. Para Foucault, essa “tecnologia do eu” ou do “governo de si” compõe-se de um “certo número de operações sobre seu corpo e sua alma, pensamentos, condutas, ou qualquer forma de ser, obtendo uma transformação de si mesmo (...) não apenas no sentido mais evidente da aquisição de certas habilidades, mas também no sentido de aquisição de certas atitudes” (Foucault, 1990: 48). É assim que, “o cuidado de si (...) é um privilégio – dever, um dom -, uma obrigação que nos assegura a liberdade, obrigando-nos a tomar- nos, nós próprios, como objetos de toda a aplicação” (Foucault, 1985: 53).
Ora, a normatização da vida pessoal e social, vivenciada pelo processo de medicalização, implica num conjunto de regras de comportamento, que forjam um novo modo de construção do sujeito, marcado pela necessidade do cuidado de si e de sua saúde. Essa forma de normatizar a vida social foi definida por Rabinow (1999) como
23 Em entrevista, Foucault enfatiza o objetivo de seu trabalho: “o alvo do meu trabalho durante os últimos vinte anos não foi analisar o fenômeno do poder, nem elaborar os fundamentos de tal análise. Meu objetivo tem sido criar uma história dos diferentes modos pelos quais os seres humanos na nossa cultura tornam-se sujeitos” (Rabinow, 1999: 31).
uma “biossociabilidade”, isto é, uma sociabilidade constituída no interior do processo saúde-doença, cujas regras enfatizam os procedimentos de cuidados de si: corporais, médicos, higiênicos e estéticos24.
A medicalização da vida proporciona aos indivíduos a possibilidade de orientarem suas práticas de cuidados à saúde, redefinindo seus comportamentos, modos de existência e estilos de vida, pois investe sobre seus corpos, a fim de torná-los indivíduos responsáveis pelos cuidados de si.
A medicalização se coloca, portanto, como um modo de gestão da vida e da ordem social, legitimando a normatização pela medicina. Para Fassin (1999: 10 – trad. minha), “se no nível cultural, medicalização da sociedade corresponde à reformulação de problemas sociais em termos da medicina, pode-se acrescentar que, no plano político, ela implica na legitimação desta reformulação”.
A individualização do processo saúde-doença, reforçada pela medicalização da vida pessoal e social, redefine os termos da responsabilidade do indivíduo no cuidado de sua saúde. Como bem aponta Fassin (1999: 6 – trad. minha), “a apropriação pelo indivíduo ou pelo grupo de valores e de decisões em matérias de saúde, como por exemplo, no caso de cuidados familiares (...) pode representar uma forma mais avançada da medicalização”.
Essa forma de normatização da vida provocada pela medicalização também traz consigo um grave potencial iatrogênico. Como observa Nogueira (2003: 185), a iatrogenia causada pelo processo de medicalização aparece sob três formas principais: a iatrogênese clínica, causada pelos próprios cuidados de saúde, resultando em danos à
24 Como aponta Ortega (2004), na “cultura da biossociabilidade criam-se modelos ideiais de sujeito baseados na performace física e estabelecem-se novos parâmetros de mérito e reconhecimento, novos valores com base em regras higiênicas e regimes de ocupação do tempo (...) Na biossociabilidade, todo um vocabulário médico-fisicalista baseado em constantes biológicas (...) populariza-se e adquire uma conotação ‘quase moral’ ao fornecer princípios de avaliação que definem a excelência do indivíduo” (2004: )
saúde atribuíveis à falta de segurança, ao abuso das drogas e das tecnologias médicas mais avançadas; a iatrogenia social, causada pela crescente dependência da população para com as drogas, os comportamentos e as medidas prescritas pela medicina: preventiva, curativa, industrial e ambiental e a iatrogenia cultural, que consiste na destruição do potencial cultural das pessoas e das comunidades para lidar de forma autônoma com a enfermidade, a dor e a morte.
A medicalização da vida pessoal e social tem, portanto, importantes implicações para a saúde, podendo causar danos devido à crescente dependência da figura onipotente do médico e de seu diagnóstico, com a consequente decadência do valor dado a outras práticas de cuidado. A vida pessoal e social passa a ser gerida sob a lógica médica, cujas regras enfatizam a necessidade do cuidado de si, sob a égide da medicina.