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2. GEREÇ ve YÖNTEM

2.4. BOS ve Serumda Spesifik IgG Antikorlarının Tespiti Ġçin ELISA Yönteminin Uygulanması

Trasímaco é um dos grandes retóricos que vive na mesma época de Sócrates. Se for correto o argumento sobre sua participação no movimento de Têramenes contra o sistema instituído por Péricles e a favor do governo segundo o regime que predominava antes da democracia, ele se apresenta como um defensor da tirania. As crenças e costumes defendidos por ele são as da época em que a tirania reinava em Atenas. Assim, Platão leva para o diálogo uma personagem que está ligada diretamente com a defesa do pior regime político. Aquela postura de caráter democrático em que se privilegiam as liberdades individuais e a posse de bens e propriedades é suplantada, não pela voz de Sócrates, mas de Trasímaco. Sua primeira participação n’A República surge como uma reviravolta no diálogo. Ele toma o discurso em suas mãos sem rodeios. Trasímaco não faz como Sócrates que tenta persuadir Polemarco aos poucos. Ele simplesmente se impõe e determina pela força o que é a justiça através de um discurso pelo qual se justifica o poder de qualquer governante. Nesse contexto, o papel de Trasímaco se volta menos para sua suposta participação na política a qual pretendia justificar a tirania, do que à exposição de um discurso sobre os acontecimentos em torno da justiça.

Toda a exposição de Trasímaco geralmente é sintetizada em uma frase: “a justiça consiste na vantagem do mais forte” (REP, 344c). Assim, o sentido de justiça é delimitado pela sua conveniência, e esta, pela força do mais forte. Mas o que é “o mais forte”? O que é “conveniência”? Qual o sentido se atribui à justiça a partir dessa relação de conveniência com o mais forte? Estas três perguntas Trasímaco se propõe a explicar para enfatizar que os questionamentos de Sócrates não tem muito sentido. No entanto, a apresentação de Trasímaco rompe o diálogo com Sócrates, mas só se desenvolve a partir dos questionamentos deste. Em primeiro momento, Sócrates parece tentar gerar em Trasímaco a mesma confusão que levou Polemarco a se calar, mas ele não consegue. Se Trasímaco fala sobre um “mais forte”, Sócrates introduz “o mais fraco”. Todas as afirmações de Trasímaco são questionadas a partir de questões que aparentam ter o único objetivo de confundí-lo. Desse modo, as inquietações de Sócrates leva a formulação de um argumento que

se opõe ao de Trasímaco, porém, este não se deixa confundir. Ele percebe as armadilhas de Sócrates e procura desenvolver ao máximo seu pensamento. Os dois iniciam uma briga que se revela o principal ponto pelo qual se gera todo o embate em A República: Trasímaco versus Sócrates; visível versus invisível; política versos ciência; melhor homem versos pior homem; melhor cidade versos pior cidade. Portanto, ao se falar de “mais forte”, de sua “conveniência” e das implicações sobre justiça em Trasímaco é preciso esticar um sentido para esses termos a partir do embate com as provocações de Sócrates.

5.4.1 TRASÍMACO, O MAIS FORTE

Céfalo e Polemarco, Glauco e Adimanto se voltam para um sentido de justiça segundo as relações pessoais; Trasímaco e Sócrates se voltam para o poder de quem estabelece a justiça; porém sob vias interpretativas totalmente opostas.

Trasímaco é um mestre em retórica. Conhece as estratégias discursivas. Entra no discurso porque se sente incomodado com as observações de Sócrates. Sua tentativa é a de revelar, como escreve Mario Vegetti (2003, p. 15), “a força, o ‘kratos’, não contra a lei, mas por trás dela [...]. Portanto, se a justiça é o respeito das leis, e se as leis são instrumentos do poder, ora, a justiça, conclui Trasímaco, não é outra coisa senão a vantagem do mais forte, tou kreittonos sympheron”. O que é justo e injusto é definido pelo governante, seus governados, para não serem punidos, devem internalizar, memorizar e cumprir as decisões dos mais poderosos. Uma ação injusta é aquela que se ergue contra as deliberações do governante e não contra o governado. Nesse aspecto, o injusto é Sócrates ou é Trasímaco? Sócrates seria o injusto por dizer que a justiça convém ao mais fraco e que ela não se submete às leis da cidade ou de seu governante. Trasímaco seria o justo por defender o poder do soberano.

Para Trasímaco o pastor só tem o trabalho de engordar as ovelhas para poder alimentar-se delas, comercializá-las ou então por que é obrigado por seu patrão (REP, 343b). Strauss (1978, p.81) vê que o argumento mais devastador contra Sócrates é fornecido pelas artes. Tal arte é a arte do pastor - a arte sabiamente escolhida por Trasímaco, a fim de destruir o argumento de Sócrates, especialmente desde que os reis e outros governantes foram comparados aos pastores desde os tempos mais antigos. O pastor está certamente preocupado com

o bem-estar de seu rebanho - de modo que as ovelhas podem fornecer-lhes as mais suculentas costeletas de cordeiro. Não se deixando enganar pela imagem em que o pastor trata o tempo todo seu rebanho com preocupação e zelo visando o bem estar do próprio rebanho, pode-se ver claramente que a preocupação exclusiva daqueles homens gira em torno do bem estar deles mesmos e de seus proprietários. Assim, o governante só demonstra algum zelo pelos cidadãos porque necessita deles para o benefício próprio. O que é tido como justiça e justo deriva da vontade dos governantes. Os cidadãos só tem conhecimento do que é justo em uma sociedade porque o governante difunde entre eles um significado de justiça que está mais apropriado a torná-lo mais poderoso. Robert Muller (2005, p. 279), depois de chamar a justiça de um bem alheio, estrangeiro (bien étranger), no sentido de que ela não está naquele que a pratica, salienta que, na visão de Trasímaco, a diferença entre governante e governado, sobre a compreensão de ser justo, reside unicamente no cinismo dos fortes que podem utilizar o manto da justiça para encobrir suas ações e interesses enquanto recomendam o exercício do ser justo a outros. Trasímaco tem a preocupação de descrever como a prática da justiça ocorre na história.

Não é de estranhar que depois de séculos de massacres, escravidão e guerras, sempre promovidos pela ganância de homens que se intitulavam de “mais fortes” tal expressão cause espanto a quem se encontra na situação de governado. Principalmente porque há países de políticas imperialistas que se esforçam em dominar outras nações. Dizer “os mais fortes” é pensar que alguém pretende usar sua força para seu benefício próprio, um interesse que se traduz em obter riquezas e poder de subordinação material e ideológica. Platão, já na sua época, vive essa situação, afinal Sócrates é condenado e morto pelos mais fortes de sua pátria. Assim, a figura de Trasímaco não está sendo ingênua quando diz que a justiça convém aos mais fortes, àqueles que têm o poder supremo de dominar, escravizar e usar tudo que está no seu alcance para obter riquezas e satisfazer seus interesses individuais. No sentido de Trasímaco, o “mais forte” não passa de um tirano, seja em um regime democrático ou outro qualquer. No dizer de Cornford (1945, p. 21), o mais forte tem o significado referido não somente a homens que governam pela coerção física, mas também a homens que controlam o conhecimento necessário para governar.

Trasímaco é um questionador que tem raiva de Sócrates, já Sócrates desconsidera praticamente tudo de Trasímaco. Não é bem assim. Trasímaco se

aborrece com a situação servil que Sócrates impõe aos cidadãos. Sócrates diz: “Neste caso, Trasímaco, é evidente que arte alguma nem comando algum provê a seu benefício próprio, mas, como dizíamos a um momento, assegura e prescreve o do governado, visando a vantagem do mais fraco e jamais a do mais forte” (REP, 346e). Bloom (1991, p. 326) observa que a preocupação de Trasímaco gira sobre o ponto levantado por Sócrates em que submete a justiça ao ato de fazer o bem aos outros, especificamente àqueles que não têm a força do poder. Para Trasímaco, Sócrates age de maneira inaceitável: primeiro impõe um bem comum em que ele mesmo não acredita; depois, faz com que os homens e as cidades negligenciem sua condição histórica, suas necessidades e interesses. Se uma das etapas do método de Sócrates é a ironia, suas provocações zombam das cidades e dos homens usando como argumento um contexto impossível de ser praticado. Assim, Sócrates é um hipócrita por não acreditar no que vê e nem mesmo no que diz no contra argumento. Trasímaco observa, comenta Bloom, que desde que as cidades entendem que justo é o que seus soberanos definem enquanto justo, e desde que sempre os soberanos são os mais fortes, o justo é a vantagem do mais forte e não acontece de outro modo. Sócrates é um hipócrita porque fala que o justo se caracteriza como algo que não expressa as crenças e os acontecimentos na cidade. A proposta de Sócrates diz que a justiça não se refere aos acontecimentos, mas a outra coisa daquilo que acontece, mesmo que essa coisa não tenha se mostrado em toda sua claridade. Sócrates é desleal para com as cidades conhecidas em sugerir que a justiça está além da lei a qual não atinge os homens amigos da sabedoria. Afirmar que a justiça não se submete á vontade do governante, é um ato de loucura, segundo a perspectiva de Trasímaco. Bloom (p.328) ainda enfatiza que para Trasímaco o soberano faz as leis e essas leis sempre acontecem de modo a refletir os seus interesses. Oligarquias fazem leis que favorecem e protegem oligarquia, a democracia faz as leis que favorecem e protegem a democracia, etc. O regime político é o ponto de começo absoluto, não há nada além dela. Para entender o tipo de justiça praticada em qualquer cidade deve-se olhar seu regime. As leis têm sua origem no ser humano o qual precisa se organizar politicamente. Aquele que as obedece, em reverência ou com medo, está simplesmente servindo em favor do mais forte, seja o mais forte um único homem, ou a grande maioria dos habitantes, ou qualquer outro grupo politicamente relevante da cidade.

Diante da situação em que se deve obedecer a lei, resta somente duas alternativas, lembra Bloom: tentar fugir dela ou tornar-se seu próprio legislador. A tese de Trasímaco é simplesmente que o regime faz as leis e que os membros do regime devem olhar para seu próprio bem e não para o bem comum. A cidade não é uma unidade, mas uma composição de partidos que se opõem, e o partido que vence os outros é a fonte da lei. Não há diferença fundamental entre a tirania e outros regimes porque todos têm o mesmo fim egoísta. Justiça, portanto, não é um fenômeno fundamental, pois é gerada segundo as leis. Assim, aquele que estabelece e faz cumprir a lei é o mais forte.

Trasímaco insiste que o decreto do soberano é a última palavra, e que não há nenhum recurso além dele, enquanto Sócrates insiste que as leis só são justas na medida em que obedecem a um padrão de justiça superior às leis e independente da vontade do soberano.

Apesar de Trasímaco aparentemente se opor a Sócrates há algo em sua exposição que pode servir ao propósito do bem comum? Há sim, responderia Bloom se enfrentasse essa pergunta. Trasímaco desvela o egoísmo dos governantes e de suas leis. Estas servem unicamente ao interesse privado de uma parte da cidade enquanto faz mal ao resto. As leis e crenças não são direcionadas ao bem comum. Elas são usadas para condenar todos que põem em questionamentos valores, crenças e comportamentos que sustentam o poder dos que são os governantes.

Apesar de aparentarem contradição, Sócrates e Trasímaco dizem muitas coisas semelhantes. A investigação de Sócrates torna-se uma reorientação da exposição de Trasímaco. Nessa reorientação, Sócrates civiliza Trasímaco e demonstra que é preciso defender um discurso em que a justiça está para o “mais fraco” (tò héttonos) porque assim ele se torna plausível aos cidadãos e ao filósofo. Logo, caso o discurso torne-se plausível aos cidadãos, também é conveniente aos governantes.

Sócrates não nega que o mais forte é quem governa e estabelece a lei. Quem enfatiza essa associação entre Trasímaco e Sócrates é Bloom (p. 328). Há um silencio que aceita a visão de que todos os regimes existentes são como Trasímaco diz que são. Os dois homens, portanto, concordam que o caráter do grupo dominante é o núcleo da política, que os governantes são o mais forte, e que a justiça é um fenômeno político e deve ser incorporado nas leis de uma cidade. A

questão entre eles é se todos os governantes, todos os legisladores, devem ser egoístas na forma como Trasímaco insiste que são. Bloom ressalta que, deste ponto em diante, o diálogo se volta à análise do regime político. Assim, Sócrates tenta encontrar um tipo de homem, uma classe política, que seja ao mesmo tempo forte e de espírito público. A sua investigação abre o cenário para a discussão de justiça como harmonia.