Polemarco, herdeiro de Céfalo, assume a palavra de seu pai ao defender que o ser justo consiste em “devolver a cada um o que se lhe deve” (REP, 331e) segundo explica o poeta Simônides. Nesse momento, é preciso situar o contexto que Polemarco está envolvido. O poeta de sua citação não é Homero ou Hesíodo. Polemarco usa as palavras de Símonides, um poeta, segundo John H. Molyneux (1992, p. 174), no auge da guerra pérsica, período em que a constituição democrática ateniense possui forte poder bélico, sob o comando de Péricles, capaz de se igualar ou mesmo superar o poder dos Espartanos. Polemarco propõe uma interpretação de Símonides segundo o esplendor da democracia: aquele poeta estaria transmitindo um sentido de justiça no contexto dos costumes de uma Atenas democrática. Apesar dessa interpretação, não é possível dizer que Símonides defenda a democracia ateniense, até mesmo porque sua convivência com homens defensores da tirania é maior que seu convívio com homens defensores do regime democrático (MOLYNEUX, 1992, p. 153-154, 224). Portanto, se Platão conhece a história da personagem, se há alguma ligação de Polemarco com a defesa da democracia, é possível admitir que a tradição defendida por Polemarco glorifica o regime democrático. Porém, não é possível dizer que as palavras de Símonides transmitem uma defesa da democracia. Sócrates não concorda com Polemarco sobre o sentido da frase de Símonides (REP, 332a) lembrando-lhe da contradição que há em restituir armas a alguém que fica louco, o mesmo argumento usado contra Céfalo.
Polemarco dá razão a Sócrates e propõe outro sentido para o que o poeta diz. Dizer a verdade e devolver o que se deve não se refere a devolver ou dizer algo que vá prejudicar quem emprestou, caso este seja amigo uma vez que não se
devem prejudicar os amigos. Mas, se for um inimigo, deve-se devolver e não se negar a falar, pois é natural que lhe seja dado algo que o prejudique (332a). Para Polemarco, o justo é o homem aliado aos amigos, e a justiça é, neste momento, conveniente ao grupo de tal homem. Rosen (2005, p. 31) propõe que talvez Polemarco veja nas mentiras algo ruim e que, portanto, deve ser aplicada aos inimigos. Este ponto, para Rosen, é repensado por Sócrates no tema da importância da nobre mentira. Assim, é possível acrescentar no dizer de Rosen que a mentira não se refere ao que é prejudicial somente, mas ela e a verdade podem ser tanto prejudiciais como benéficas. Se aplicadas ao amigo, precisam ser benéficas, porém, se aplicada aos inimigos, elas precisam ser prejudiciais.
O sentido que Polemarco atribui à justiça é submetido ao sentido que ele dá sobre o que é bom e prejudicial. Assim, Sócrates passa a uma análise do que é bom e do que prejudica para ver se a afirmação de Polemarco é um argumento justo sobre justiça. Para Bloom (1991, p. 318) o sentido de justiça na perspectiva da ajuda aos amigos e prejuízo aos inimigos é peculiarmente uma definição política e sua dignidade se submete à dignidade da vida pública. Uma vez que cada nação precisa de guerras e de se defender, só pode fazê-lo se seus cidadãos se importarem com o sentido de justiça dado por Polemarco. Ao contrário, eles não estarão dispostos a matar e morrer em nome de sua pátria. Se a ação distinta entre amigos e inimigos e a inclinação para ajudar uns e prejudicar outros, são apagadas da vida civil, a vida política torna-se impossível. Esta é a definição política necessária à justiça, e produz seu tipo específico de nobreza humana expressa na virtude do cidadão. A proposta de Polemarco leva Sócrates a desenvolver uma técnica característica do restante do diálogo: Platão desenvolve ao máximo a opinião das personagens, e demonstra os argumentos que levam a sua negação. Há primeiro Polemarco que herda a afirmação de Céfalo, depois, há Trasímaco que retoma o tema da justiça a partir de Polemarco; há Glauco e Adimanto que herdam a provocação de Trasímaco; há Sócrates que herda a proposta de Adimanto e Glauco e, por fim, o próprio Sócrates herda de si mesmo a provocação que toma corpo no fim como um apelo aos deuses.
Quais argumentos levam a desconstrução das afirmações de Polemarco? É possível resumi-los em um só: Simónides fala um enigma, como os poetas fazem (REP, 332b), do qual não pode ser delimitado para fins políticos sem sabedoria. Bloom (1991, p. 316) analisa a ênfase de Sócrates em pedir para Polemarco
interpretar Símonides. Essa ênfase consiste no ponto de Polemarco precisa aprender a argumentar e saber interpretar é o primeiro passo no caminho da aceitação incondicional de mudar a forma de entender a vida segundo um antigo regime. É preciso adotar um novo regime baseado no diálogo racional. Nesse novo regime, observa Bloom, a autoridade das opiniões da tradição e do poder das posses de riquezas não desempenha nenhum papel. Até o final de sua conversa com Sócrates, Polemarco está ciente de que não pode obter ajuda de Símonides e que deve encontrar suas próprias explicações que satisfaçam suas crenças sobre a justiça. Ele e Sócrates devem unir-se no acordo de que Símonides não poderia ter dito o que Polemarco afirma, pois não se fundamenta em um discurso razoável. Símonides permanece respeitável, mas apenas porque se supõe que ele aceita ser submetido a autoridade da interpretação de Polemarco e Sócrates, que agora está livre dele, uma autoridade baseada na argumentação.
O resultado das objeções de Sócrates leva o tema da justiça para o campo dos poetas na medida em que Polemarco não consegue entender claramente seu significado, ou seja, na medida em que a justiça torna-se cava vez mais um maior enigma. Rosen observa que Sócrates quer confundir Polemarco, mais do que apresentar uma saída do enigma. O objetivo de Sócrates é levar Polemarco a pensar sua própria tese. Sócrates cita exemplos de atividades especificas e artes como a culinária, a medicina, a agricultura, o trabalho de pedreiro, o jogador profissional, o músico, a equitação e outras, mas nenhuma delas mostra o que é a justiça. Para Rosen (2005, p. 35-36), um dos motivos de Sócrates usar a arte para justiçar algo que se mostra sem nada de arte, é a questão de que a justiça não é uma técnica, mas é o fim para o qual a técnica é aplicada. Se os costumes de Atenas optam por incluir a justiça na arte da política, da administração ou outra qualquer, eles precisam por a justiça como seu fim e não como um meio para se alcançar outros fins, pois o fim da justiça é o próprio homem. Porém, a discussão sobre a natureza da justiça só entra em cena com a apresentação das quatro virtudes.
No embate com Polemarco, Sócrates só diz diretamente, sem explicações que a justiça é uma virtude e, como tal, não pode prejudicar a ninguém. Nesse contexto, Rosen vê que Polemarco não é um personagem supérfluo e de argumentos fracos sobre o drama do problema da justiça. Polemarco, diz Rosen (p. 37), é, sim, o próprio problema. Ele precisa reconhecer a força do enigma que
enfrenta para se abrir a uma visão mais detalhada da questão. Desse modo, somente após várias objeções de Sócrates é que Polemarco conclui não saber nada, só sabe que as coisas são assim como estão ditas. Ele diz: “Não, por Zeus – respondeu. – Não sei o que pretendia dizer; entretanto, acho ainda que a justiça consiste em beneficiar os amigos e prejudicar os inimigos” (REP, 334b). Polemarco se mantém irredutível, mas se dispõe a concordar com Sócrates por não ter forças para enfrentá-lo. Rosen (2005, p. 36) chama a atenção para a questão de que quase todos os argumentos defendidos por Polemarco não são dele mesmo, é Sócrates que o induz a aceitá-los. Ainda, esses mesmos argumentos, os quais são refutados por Sócrates estão desenvolvidos no contexto da cidade justa. Devido a essa aparente contradição em negar os próprios argumentos para depois defendê-los, Sócrates quer confundir Polemarco, não para prejudicá-lo, mas para fazê-lo entender da urgência de se discutir o problema da justiça e da vida justa na cidade, isto é, de uma vida em harmonia com a cidade, e de uma cidade em harmonia com a vida de todos os cidadãos. É possível acrescentar ao que Rosen (p. 36-37) comenta: a harmonia não somente dos amigos que defendem as leis democráticas de Péricles ou dos gregos de um modo geral, mas de todos os homens.
A divergência entre Polemarco e Sócrates, se dá principalmente em uma questão específica: o que é verdadeiramente bom para a cidade. Bloom (1991, p. 325) avalia essa questão. Se Sócrates e Polemarco divergem sobre o que é verdadeiramente bom é porque Polemarco está ainda confuso. Mesmo com toda admiração pela justiça, Polemarco não a vê como algo bom em um sentido geral. Justiça é somente mais um meio de preservar a vida e propriedade particular com fins de ter uma vida agradável. Aquela definição de Polemarco não deve ser considerada mais como pré-requisito para a satisfação do egoísmo coletivo: ser fiel aos membros de seu próprio grupo para se tirar melhor proveito dos que estão fora não é a melhor maneira de se entender a vida justa. Em princípio, nada impede que o egoísmo se estenda sobre o indivíduo e destrua as relações políticas, se a justiça não for pensada como bem em si mesmo. O perigo em submeter a justiça ao bem particular é o que faz Sócrates alertar, ao falar da decadência na democracia, que aquela condição de liberdade absoluta, na qual cada um só se interessa por si mesmo, prepara o terreno para o governo do tirano. Só se a justiça se impor como um fim, não um meio, torna-se sensato manter a vida justa e a vida filosófica. Assim, Bloom observa que existe uma tensão em Polemarco: seu amor de propriedade e
seu amor pela justiça. Essa tensão é o que Sócrates expõe e o que Trasímaco se prepara para atacar.