Antes de se fechar o círculo que envolve a fundação inicial da cidade, é preciso tocar ainda no assunto da politização de Eros, porque a prática sexual mostra-se como uma peça fundamental no argumento de Sócrates.
As mulheres estão liberadas para fazer sexo com qualquer um de sua classe e estes com qualquer uma delas. Não há controle nas relações sexuais? O número nupcial não é uma forma de controle? Não é o controle de toda prática sexual, o numero nupcial é uma forma de controle somente dos casamentos com fins de procriação.
Desse modo, os filhos são de todas e de todos eles. Se não há pai e mãe reconhecidos hereditariamente, há família? Não há família como um grupo de pessoas que estão ligados consanguineamente e que alguns são responsáveis pela educação dos filhos, a família são todos os moradores da cidade, esta é a grande comunidade, mas a educação é dada pela cidade. Strauss (1978, p.117) lembra que a abolição da família não significa, primeiramente, a introdução da promiscuidade, significa a regulamentação sexual a partir do que é útil para a cidade ou do que é necessário para o bem comum. Pode-se dizer que a consideração da utilidade substitui a consideração do sagrado: humanos do sexo masculino e feminino se unem para copularem exclusivamente para a produção do melhor descendente, de maneira semelhante aos criadores de cães, pássaros e cavalos que buscam uma melhoria genética para seus animais. As reivindicações do deus Eros são silenciadas e a nova ordem afeta a proibição habitual contra o incesto, uma das regras mais sagradas segundo a tradição ateniense. No novo regime, ninguém vai saber quais são seus pais naturais, filhos, irmãos e irmãs, mas irão considerar todos os homens e mulheres da geração mais velha como seus pais e mães, de sua própria geração como seus irmãos e irmãs, e da geração mais jovem como seus filhos (REP, 463c).
Ninguém deve saber quem é filho ou pais biológicos. Homens e mulheres devem acasalar com o intuito de gerar bons filhos para o Estado o qual irá educá-los
segundo o que é prescrito nas leis. Fora da idade de procriação ou sem permissão do governo não se pode procriar. Mas se homens e mulheres ultrapassarem essa idade, devem ter a liberdade de se unirem a quem quiserem. As únicas exceções são: “suas filhas, mães, netas ou avós; [...] a seus filhos, pais e parentes em linha direta, descendente ou ascendente” (461c). Sócrates conclui que o governante consegue impedir a procriação incestuosa dizendo que ninguém deve se unir a quem nasceu no décimo ou sétimo mês do dia em que qualquer deles foi nubente (461d), mas no mínimo um tipo de incesto ainda é válido, a união entre irmãos. O efeito dessa lei proibitiva deve surtir efeito sobre homens e mulheres no sentido de que eles não precisam se preocupar com o ato incestuoso. Se a cidade tem o poder de instituir o que deve ser feito, toda a responsabilidade é de suas tradições. Assim, uma ação como a pena de morte pode ser aplicada sobre os nascidos para impedir a geração de indivíduos com problemas físicos e mentais ou que não se adequem às regras de nascimento. Mais uma vez a nobre mentira surge no diálogo para orientar as ações dos governados sobre a questão de casamentos e procriações.
Sócrates não condena a prática sexual, não se é proibido fazer sexo por fazer, mas o administrador deve controlar os números de matrimônios e orientar a moderação sexual. Os matrimônios devem ser controlados para gerar bons filhos ao Estado. A forma de controle são os falsos mitos. No contexto matrimonial, os falsos mitos assumem a forma religiosa, porém, uma religiosidade fundamentada na imutabilidade da ideia do bem por postular um deus imutável.
Acreditar que o momento de união com fins de procriação é um ato religioso, não é acreditar que há deuses personificados que agem diretamente sobre o embrião. Não há deuses no sentido contado pelas mentiras sem nobreza de Homero ou Hesíodo e os restantes poetas (REP, 377d). Como lembra novamente Bloom (1991, p. 384), as relações sexuais com fins de procriação, ou seja, os casamentos, são sagradas devido a sua forma religiosa de culto.
Casamentos na cidade de Sócrates devem ser vistos como sagrados. Mas, observa ainda Bloom (p. 385), se há algo como casamento, não significa nada mais do que uma relação sexual temporária, pois não há casas particulares, não há reconhecimento de paternidade. O aspecto religioso dos casamentos é necessário porque mesmo sem um compromisso com algum elo familiar específico, os cidadãos devem acreditar no poder desses relacionamentos. A consequência dessa prática sagrada é que restringe a religiosidade a uma ação em benefício da cidade. Esta
assume para si o papel religioso, além de todos os outros papéis como o papel de educadora, de paternidade e também de maternidade. Ela é mãe e pai de seus habitantes os quais são todos irmãos. Dessa forma, do mesmo modo em que a atividade erótica se torna uma parte do dever público, a prole se torna parte do patrimônio público. A família é abolida, e a cidade assume seu papel.
Bloom (p. 386) observa que as prescrições de Sócrates sobre a família realmente significam que todo mundo na cidade está intimamente relacionado, não há primos, todo mundo é, pelo menos, irmão ou irmã de todo mundo. Para Bloom, Sócrates pede sanção divina para aqueles amores incestuosos. O mais absurdo do que Sócrates diz, é a permissão, até certo nível, do incesto. Se por um lado, não é permitido a procriação entre parentes, por outro, nada é dito sobre a prática sexual fora do contexto da procriação.
Sócrates apresenta um modelo de procriação que não existe em nenhuma cidade. Por lei todos os membros da cidade são o mais próximos de parentes e eles não conhecem os seus parentes naturais. Se os que se unem para gerar filhos são irmãos segundo o regime de Sócrates, eventualmente podem ser primos, irmãos de sangue, pai e filhos sem que saibam. Bloom (p. 385) diz que deve haver incesto nesta cidade e que Sócrates permite a prática mais absurda entre as relações heterossexuais.
Nenhum dos nascidos deve ser reconhecido como filhos de sangue, são todos irmãos. Eles devem ser gerados segundo a autorização da cidade (REP, 461b). Se todos são irmãos, Sócrates tira o reconhecimento de pai e mãe biológicos. São pais porque geram, mas são irmãos porque a filiação é passada para o poder do administrador. Como todos os costumes giram em torno do que faz a cidade ser a melhor, a noção de pai e mãe dada aos indivíduos não tem a mesma importância que tem em outras cidades. Na relação incestuosa dessa cidade há uma verdade que legitima a prática. Só há incesto entre irmãos porque é o que todos são. Logo, não há incesto entre pais e filhos, mesmo que ocorra o ato sexual.
Na cidade de Sócrates ninguém sabe que seus parentes são aqueles que estão em união. Se a cidade é quem determina o caráter sagrado dos matrimônios; não há como reconhecer filiação hereditária, consequentemente, o incesto é permitido na medida em que não interfira na formação da cidade. Sem essas condições reprodutoras, não há governo dos melhores dos homens, o filósofo não governa. As condições procriadoras são responsáveis pela geração dos habitantes
segundo cada natureza e pela formação de homens e mulheres que preservem a harmonia entre as principais virtudes, assim, como pela garantia da continuidade do reino do melhor dos reis. A prática do incesto surge de maneira legitimada como uma das condições necessárias para uma cidade se erguer de modo harmônico, de modo justo. O ser justo, isto é, a ação em favor da harmonia da cidade está em primeiro lugar. Os governantes, filósofos reis, não podem hesitar em moldar tudo e todos em detrimento de sua cidade e, consequentemente, da manutenção de seu poder.