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Quando era menina ouvia uma história sobre o assobio: os mais velhos diziam que o assobio à noite ou no meio da mata poderia atrair a Matintapereira241, uma espécie de espírito da floresta que dá passagem e proteção em troca de tabaco. Diziam que ela sempre aparecia precedida de assobios longos e fortes; era descrita como uma mulher velha de cabelos longos e lisos. O espírito da velha índia poderia ficar zangado se a oferta de tabaco não fosse satisfeita, o que resultaria em boas surras que eram praticadas com seus cabelos em forma de cordas escuras. O efeito dessa antiga lenda sobre mim e as outras crianças era sempre o medo de encontrar nos nossos quintais o espírito [da velha índia] à procura de tabaco e de sentir o susto e a dor dos açoites que ela costumava dar em quem lhe desagradasse. Naquela época nem imaginava que a história tinha conexão com as culturas indígenas cuja presença marcante é facilmente percebida na sociedade cabocla paraense dos nossos dias.

Confesso que foi com certa surpresa que encontramos a Matintapereira, mencionada no livro de Florestan Fernandes, entre o repertório de rituais dos Tupinambá. Segundo Fernandes, a Matintapereira era um pássaro que aparecia quando os antepassados desejavam comunicar-se com os vivos; além do caráter involuntário da aparição que propiciava a comunicação com o sagrado – pois a iniciativa era dos espíritos dos antepassados e não dos vivos – a descrição de Fernandes guarda outra semelhança com a história contada na minha infância: a presença dos assobios que comunicavam a chegada da Matintapereira.242 Pelo que podemos perceber o assobio estava conectado a rituais sagrados e crenças indígenas, pois era através dele (assobio) que os espíritos dos antepassados indicavam a sua presença e desejo de comunicar-se com os vivos. A propósito, durante o período estudado em nosso trabalho, encontramos alguns casos de índios que foram presos por andarem embriagados assobiando à noite nas povoações coloniais, causando desordens entre os moradores.

241O nome Matintapereira pode ser encontrado como Matinta Perera ou Mat-taperê, optamos pela forma

encontrada no livro de Florestan Fernandes citado acima. Sobre a lenda da Matintapereira, ver também: MONTEIRO, Walcyr. Visagens e Assombrações de Belém. Belém: Smith Editora, 2007

A recorrência de desordens nas povoações foi ordinariamente noticiada nas correspondências das diversas autoridades que ocupavam cargos na administração das vilas e lugares da capitania do Grão-Pará. Entendemos desordem por desobediência, pois aquela palavra sempre estava associada a algo que fugia às regras e expectativas de uma vida tida como civilizada. Desse modo, a desordem foi uma das maneiras encontrada pela população indígena das povoações daquela capitania para resistir, negociar e conquistar espaços dentro da nova sociedade que passaram a compor.

Observamos nesse trabalho [que agora damos por encerrado], a desordem e a ausência243 como mecanismos de resistência e discordância de controles e violências

(maus tratos) praticados pelos “brancos” e em grande medida pelos diretores das vilas. Assim, as desordens realizadas pelos principais e demais índios das povoações devem ser entendidas como repertórios políticos daqueles sujeitos. Além da resistência e discordância traduzida pela “desordem”, observamos também a utilização de códigos culturais dos conquistadores pelas lideranças indígenas para obter cargos e patentes, bem como para garantir o direito à terra e outros privilégios econômicos. Portanto, podemos afirmar que os vários sujeitos aldeados nas povoações coloniais e comumente chamados de índios viveram, desde o início da colonização da região, processos de mestiçagens e, em fins do século XVIII, eram sujeitos culturalmente híbridos. Apesar disso, a sociedade paraense daquela época aparece nas fontes dividida entre índios, negros e brancos, a despeito da inegável presença mestiça (e da mestiçagem cultural) sua visibilidade não é dada de forma generosa pelos documentos daquela época.

Pela fluidez própria da sociedade colonial, percebe-se que a pretendida (pela metrópole) assimilação dos índios se configurou na produção do novo. Códigos distintos estavam constantemente em relação e os processos de traduções necessárias, vividas pelos vários personagens daquela história, produziram efeitos que ultrapassaram e se distanciaram das estimativas e expectativas dos conquistadores. Alteridades foram traduzidas e produzidas nos e pelos encontros/confrontos ocorridos no espaço das povoações coloniais e fora dele; para que a convivência de culturas tão distintas fosse possível foi necessária a construção de um sem números de rearranjos políticos e sociais.

243 A ausência foi criada pelas autoridades coloniais como uma das categorias definidoras da situação de

sujeitos que abandonavam suas povoações de moradia. Os ausentes aparecem nas listas dos moradores das povoações e somam com o numero do restante da população, contudo, a sua situação é definida com a ausência.

Formas de ver o mundo tiveram de ser adaptadas, línguas foram traduzidas, reduzidas e extintas para que universos distintos pudessem conviver mesmo que de maneira conflituosa; interesses em jogo determinaram as disputas por repertórios culturais específicos e por espaços sociais privilegiados. Sem dúvida essa síntese poderia ser aplicada a outras experiências sociais, mas o que gostaríamos de deixar claro aqui é o caráter inclusivo da nossa leitura, pois observamos que as relações sociais de poder foram exercidas e vividas pelos vários sujeitos que compuseram a população daquela capitania que, portanto, não se restringia a grupos ou a culturas específicas. Entendemos que a condição de vencedor ou perdedor é também concebida culturalmente no âmbito da produção de conhecimentos acerca do passado.

As lideranças indígenas sofreram inflexões profundas durante todo o período colonial, contudo, na segunda metade do século XVIII, observamos a duplicação do ser principal. Naquele período eram as chefias tradicionais de grupos que viviam fora dos espaços coloniais e eram paralelamente autoridades formalmente reconhecidas e instituídas pela Coroa portuguesa. Na condição de chefias tradicionais seguiam as dinâmicas internas do seu próprio grupo, já na condição de autoridades coloniais de grupos descidos desempenhavam papéis de mediadores entre mundos distintos sem perder atributos e carismas fundamentais para ter sua autoridade preservada entre seus liderados. Esses últimos, os principais e demais autoridades indígenas coloniais, interessaram-nos mais particularmente, interpretamo-los como sujeitos capazes de articular códigos culturais alheios para garantir seus interesses e os daqueles que lideravam. Foram alvos preferidos das ações políticas metropolitanas, as quais promoveram, ao longo do processo de colonização da região, o aprofundamento hierárquico entre os sujeitos que identificavam como índios; muitos principais acumularam cargos nas suas povoações e como tais eram tratados distintivamente em relação ao restante da população indígena; a pretendida produção de desigualdades sociais e políticas entre aqueles sujeitos objetivava o fortalecimento de valores europeus entre as lideranças indígenas que deveriam atuar como vassalos fiéis a Sua Majestade.

Seguramente, o fosso pretendido entre as autoridades indígenas e seus liderados não se processou conforme planejado pelo poder metropolitano, já que isso implicaria a perda de autoridade e prestígio das próprias lideranças, entretanto, notamos

que se conformaram desigualdades pelo próprio acesso e privilégios que aquelas dispunham, o que não ocorria com grande parte da população indígena das povoações.

Entretanto, apesar de termos dado certo destaque à presença de sujeitos indígenas e mestiços nas esferas e relações de poder, ocupando espaços que não se limitavam à subordinação, – onde os “índios” aparecem sempre como objeto de disputa entre os “dominadores”, ficando assim no plano da marginalidade passiva – reconhecemos a existência de uma maioria de “índios”, mestiços e negros que arcavam com a produção econômica da empresa colonial, sofriam discriminação racial e social. Desse modo, quando tentamos elucidar a formação de uma „elite‟ mestiça no interior da capitania do Grão-Pará, temos o objetivo de destacar a complexidade das relações sociais ali desenvolvidas, assim como o processo de promoção de desigualdade social agenciado pela política metropolitana como meio de produção de lideranças fiéis à Coroa lusitana e capazes de garantir o desenvolvimento da colonização da região. Não obstante, entendemos que aquela desigualdade constituiu-se em termos das possibilidades presentes nos próprios repertórios culturais indígenas, já que a distância entre líderes e liderados obedecia a