Para uma parte da população do Brasil, o Nordeste e o Semiárido são sinônimos. Muitos brasileiros não sabem que não há sequer um quilômetro de terra semiárida no estado nordestino do Maranhão ou que há mais pessoas habitando o Semiárido mineiro do que no seu similar no estado do Piauí. Minas Gerais tem quase três vezes o número de pessoas habitando a sua região semiárida do que o Semiárido sergipano. Outros desconhecem que parte daquela região está localizada no litoral do Ceará e do Rio Grande do Norte, ladeando praias paradisíacas, além de ter sido palco de um importante período econômico para o país devido à produção e exportação de algodão para a Europa durante a Revolução Industrial.
A região semiárida continua a permear a imaginação de muitos brasileiros como inóspita, desértica, com poucos recursos hídricos e seres humanos famélicos e violentos. Lugar de retirantes das secas, habitat dos personagens de O Quinze, de autoria de Raquel de Queiroz, ou do livro Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Seres retratados nos famosos quadros Os Retirantes, do pintor Candido Portinari, ou ainda o Severino da poesia de João Cabral de Melo Neto em seu famoso poema Morte e Vida Severina. Há um sem-número de obras literárias, pinturas, poesias e canções que tentam descrever aquele habitat. Ao mesmo tempo, há uma ambiguidade com relação à percepção sobre aquela região, já que “O sertão aparece como o lugar onde a nacionalidade se esconde, livre das influências estrangeiras” (ALBUQUERQUE JR. 1999, p. 67). Por isso, foi o lugar escolhido para as pesquisas de Mário de Andrade sobre a cultura popular nos anos 1920, pois ele considerava que lá ainda estava resguardava a brasilidade pura.44 O movimento artístico denominado de Tropicalismo, por exemplo, foi concebido depois que o cantor Gilberto Gil passou uma temporada no estado de Pernambuco e teria retornado ao Sudeste impressionado com a miséria e a força criadora
44 Para Gontijo, (2010, p. 609), “Prevalecia um paradoxo: ao mesmo tempo que o sertão era visto como espaço por excelência da brasilidade, em oposição à cidade, lugar do cosmopolitismo e dos estrangeirismos, também podia ser interpretado como um problema para a nacionalidade, se associado ao atraso, em contraste com o espaço urbano, local do progresso e da modernidade.”
nas expressões artísticas daquele estado45 (que estava em ebulição com as Ligas Camponesas) convivendo lado a lado.
Tabela 3 – População total residente no Semiárido por situação de domicílio, segundo as unidades da Federação – 2010
Estado População Urbana População Rural Total
ALAGOAS 503.589 396.960 900.549 BAHIA 3.978.096 2.762.601 6.740.697 CEARÁ 3.018.886 1.705.819 4.724.705 MINAS GERAIS 725.248 507.141 1.232.389 PARAÍBA 1.418.612 673.788 2.092.400 PERNAMBUCO 2.376.320 1.279.502 3.655.822 PIAUÍ 520.613 524.934 1.045.547
RIO GRANDE DO NORTE 1.211.672 553.063 1.764.735
SERGIPE 250.082 191.392 441.474
SEMIÁRIDO 14.003.118 8.595.200 22.598.318
Fonte: Instituto Nacional do Semiárido. 2012. Disponível em: <http://www.insa.gov.br/wp- content/themes/insa_theme/acervo/sinopse.pdf>. Acesso em: 04 jun. 2015.
Luiz Gonzaga é certamente o caso de maior sucesso entre artistas que propagaram, através de suas composições musicais e de sua voz, um estereótipo do habitante sertanejo para o restante do país. Algumas de suas canções, como Asa Branca, consolidaram uma percepção sobre a região que está arraigada ainda nos dias atuais. Inadvertidamente, a letra de Asa branca serviria para consolidar no Brasil a impressão de um Nordeste como um lugar unidimensional, que o sociólogo Freyre classificaria de “[...] o norte maciço e único de que se fala tanto no sul com exagero e simplificação”. (FREYRE apud MARCELO e RODRIGUES, 2012, p. 25).
Não que antes de Luiz Gonzaga não houvesse uma visão estereotipada sobre os moradores daquela região, já que no tempo do Brasil Colônia, os índios do Semiárido eram vistos como mais violentos que os da zona litorânea.46 Mas Gonzaga despontou quando o
45 Sobre o Tropicalismo e a viagem de Gilberto Gil, confira Verdade Tropical (VELOSO, 1997, p. 130-131). 46 Esta visão vem desde os tempos da colônia, como ressaltado por Pompa (2010 p. 269), “O mundo ‘tapuia’ foi pensado, desde o começo da colônia, em oposição ao mundo tupi: feroz habitante do sertão, o ‘tapuia’ é a alteridade humana radical presente em toda a literatura do século XVI ao século XVIII. Nas crônicas, à
rádio massificava-se e atingiu o seu auge com a chegada da televisão no país, o que facilitou a divulgação de suas canções (MARCELO e RODRIGUES, 2012). Sua indumentária para as apresentações públicas (chapéu de couro e gibão) caíram em uma representação limitada, impregnando o imaginário coletivo brasileiro a respeito de como se comportam e se vestem os sertanejos. Não era algo novo, pois este processo já havia sido iniciado através das fotos registradas pelo sírio Benjamin Abrahão,47 em 1936, do famoso cangaceiro Lampião e do seu bando, fotos estas publicadas nos grandes jornais do país. Abrahão também realizou filmagens que foram aproveitadas em alguns filmes nas décadas seguintes sobre o cangaço (MELLO, 2011B). Seria o início da divulgação de uma estética sertaneja, seguida por muitos outros artistas da região como estratégia de marketing para a divulgação de suas obras artísticas.
Malvezzi (2007, p. 11) sugere que “A imagem difundida do Semiárido, como clima, sempre foi distorcida. Vendeu-se a ideia de uma região árida, não semiárida. É como se não chovesse, como se o solo estivesse sempre calcinado, como se as matas fossem sempre secas e as estiagens durassem anos.” Para muitos, é como se do Semiárido não pudesse surgir algo que não sejam galhos secos, cactos e seres magros com os rostos queimados do sol a vagar pelo país suplicando por comida e emprego ou sempre prontos a receber ajuda governamental, por menor que seja. Como já comentado anteriormente, são imagens petrificadas e resistentes a encontrar respostas que a contradigam, pois estão por demais fixadas no imaginário brasileiro.
Tabela 4 – Distribuição relativa da população residente (%) região semiárida – 2013
ESTADOS ANO 2000 ANO 2010
PIAUÍ 34,1% 33,5%
CEARÁ 56,7% 55,9%
RIO GRANDE DO NORTE 57,8% 55,7%
PARAÍBA 57,2% 55,6% PERNAMBUCO 40,9% 41,6% ALAGOAS 29,8% 28,9% SERGIPE 22,3% 21,3% BAHIA 49,4% 48,0% NORDESTE 38,2% 37,4%
Fonte: Leite e Souza, 2013. Disponível em: <http://www.insa.gov.br/wp-
content/themes/insa_theme/acervo/sinopse.pdf>. Acesso em: 04 jun. 2015.
extraordinária homogeneidade cultural dos Tupi da costa se opõe a excepcional diversidade cultural e linguística dos povos do sertão: gente de ‘língua travada’, segundo a célebre expressão jesuítica.”
É a partir de seus limites, e não de suas potencialidades e possibilidades, que o Semiárido é apresentado, sempre carente de políticas para o seu “desenvolvimento”. O número dos que lá habitam desmentem a ideia de uma região sem vida, pois são mais de 22 milhões de habitantes. Alguns dos estados nordestinos chegam a ter mais de 50% de sua população total vivendo no sertão, embora esta porcentagem tenha diminuído entre os anos 2000 e 2010, com exceção do estado de Pernambuco. Sua população tem passado por grandes transformações nas últimas décadas como consequência das migrações forçadas e da busca das novas gerações por uma melhor qualidade de vida nas cidades. Além disso, a queda no índice de natalidade tem refletido no número de habitantes de 0 a 14 anos de idade na zona semiárida dos estados do NE e a migração das últimas décadas resultou no aumento do envelhecimento da população.
Tabela 5 – Residentes no Semiárido nordestino por faixa etária (%)
Faixa etária ANO 2000 ANO 2010
0 a 14 anos 33,8 27,0
15 a 59 anos 56,7 61,2
60 anos ou mais 11,5 11,5
Fonte: Leite e Souza (2013). Disponível em:
<http://www.insa.gov.br/wp-
content/themes/insa_theme/acervo/sinopse.pdf>. Acesso em: 04 jun. 2015.
Durante o primeiro governo de Getúlio Vargas, com o fim de demarcar a área geográfica que receberia as verbas governamentais para o “combate” às estiagens, aquele presidente estabeleceu o que viria a se chamar de Polígono das Secas. Ainda naquela década, o Presidente Vargas chegou a enviar para a prisão alguns coronéis nordestinos desafetos seus dentro do seu esforço de criar uma autoridade central em um país continental.
O Polígono foi estabelecido pelo Decreto 175, de 1936, envolvendo toda a área com pluviosidade de até de 800 mm, considerada como baixa (RIBEIRO, 2007). É também a partir deste momento que a nomenclatura Nordeste passa a emergir com mais força para melhor
definir onde deveriam ser investidos os recursos federais. O Polígono das Secas teve suas fronteiras modificadas por pressões políticas nos anos de 1947 e depois em 1951, quando alguns estados da federação estavam interessados na verba de 3% do orçamento da união destinada ao “combate à seca”. Outras pequenas alterações ocorreram em 1963, 1968 e 1997. Estas mudanças do limite territorial da área a ser considerada como semiárida sempre sofreu interferências dos políticos da região e de interesses econômicos relacionados aos grandes projetos implantados pelos governos nas áreas para além do chamado Polígono das Secas, principalmente no caso dos incentivos fiscais oferecidos pela Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste – SUDENE – e pelo Bando do Nordeste do Brasil – BNB. Sua última delimitação foi estabelecida pelo Ministério da Integração Nacional – MIN – em 2005. Ele ocupa cerca de 12% do território brasileiro. Abrange 1.135 municípios (mais de 20% do total de municípios do país) e ocupa 980.133,079 km² do território nacional.
A caatinga é o bioma que ocupa a maior área territorial do semiárido. Sua vegetação predominante é também chamada caatinga, termo originário da língua tupi-guarani que significa mata branca48 ou mata rala. Esta vegetação é típica do sertão brasileiro e não é encontrada em nenhuma outra parte do planeta com as mesmas características. Embora ela ainda se encontre em fase de estudos, sabe-se que “hiberna”, isto é, perde as suas folhas para economizar energia durante o verão e nos grandes períodos de estiagem. No entanto, a imagem que foi propagada da caatinga é a de uma vegetação pobre em biodiversidade e dominada por arbustos com galhos secos, o que está bem longe da verdade, como atestam os recentes estudos científicos sobre aquela vegetação.49 Duque (1980) debruçou-se sobre a biodiversidade presente naquela região e advogou por uma relação diferente com a vegetação xerófila do Semiárido para a melhora da qualidade de vida dos habitantes daquele meio, o que resultaria em equilíbrio socioambiental e diminuição das desigualdades econômicas se a mesma fosse explorada de forma equilibrada, segundo ele. Embora estudos recentes comecem a desfazer certos mitos sobre aquele bioma, ainda há muito o que se revelar sobre o mesmo, já
48“Estudiosos da língua indígena afirmam que, na verdade, caa, não se refere, nesse caso, ao mato propriamente dito, mas, sim, à composição de morros e vegetação. Isso porque, tornando-se rala e despida de folhas na época da seca, a vegetação que cobre os morros forma uma paisagem clara e desértica. Finalmente, outros atribuem origem diferente ao termo. Alegam que ele surgiu da combinação abreviada de caa (mato) e tininha (seco), isto é, “mato seco”. (BRANCO, 2003, p. 9). O fato de que os europeus encontraram uma vegetação nomeada pelos indígenas, demonstra que estes “[...] já realizavam exercícios de classificação e diferenciação de grandes áreas florísticas, facilitando a apropriação e o uso dos recursos da natureza local.” (PÁDUA, 2009, p. 119).
49 Segundo Malvezzi (2007, p. 57), “A vegetação da caatinga também não é tão uniforme como se costuma pensar. Tem, pelo menos, três níveis. O primeiro é arbóreo, com uma altura variada de oito a doze metros, árvores de ótimo porte; o segundo é arbustivo, com uma altura de dois a cinco metros; o terceiro é herbáceo, com menos de dois metros.”
que foi de pouca atração para os estudiosos por décadas. Até este momento, foram catalogadas na caatinga 178 espécies de mamíferos, 591 de aves, 177 de répteis, 79 espécies de anfíbios, 241 de peixes e 221 abelhas.50
O que diferencia o Semiárido brasileiro de seus similares no planeta é que a maioria das regiões semiáridas em outras partes do mundo possuem uma precipitação pluviométrica média anual de 80 a 250 mm e no sertão nordestino esta média é de 300 a 800 mm/ano (SUASSUNA, 2007), com a característica de que acontecem entre um período de três a cinco meses durante o ano, podendo variar de região para região geográfica mesmo dentro do chamado “Polígono das Secas”. Esta variação e imprevisibilidade podem, inclusive, causar enchentes em anos mais chuvosos. Seu subsolo é 70% cristalino, o que faz com que grande parte da água não seja armazenada e escoe pela superfície (REBOUÇAS, 1997). Com relação à água que é depositada em reservatórios naturais ou artificiais como os açudes, há que se levar em conta o grande índice de evapotranspiração decorrente das mais de 3.000 horas de sol a cada ano.
Embora a região tenha ficado conhecida como escassa em recursos hídricos, estudos recentes comprovam que não existe falta de água no Semiárido. Como afirma Rebouças (1997, p. 128), “Destarte, o que mais falta no semiárido do Nordeste não é água, mas determinado padrão cultural que agregue confiança e melhore a eficiência das organizações públicas e privadas envolvidas no negócio da água.” O que se carece, de fato, é de infraestrutura para distribuir os mais de 36 bilhões de m³ armazenados nos mais de 70 mil açudes e barragens do NE. A base necessária para a distribuição dos recursos hídricos para os que deles necessitam já foi estudada e é de conhecimento público como se pode atestar com o Atlas do Nordeste51 divulgado pelo governo federal no ano de 2005, provavelmente o mais importante estudo elaborado por pesquisadores apontando os problemas e as soluções para a questão hídrica em cada município estudado.
50 Disponível em <http://www.mma.gov.br/biomas/caatinga>. Acesso em: 04 jun. 2015. A riqueza das plantas da caatinga (que foi reconhecido como Reserva da Biosfera, em 2001, pela UNESCO) pode ser exemplificada no estudo do médico pernambucano Marco Menelau ao desenvolver o Sistema de Essências Florais do Nordeste com plantas nativas dos municípios pernambucanos de Gravatá, Bezerros, Caruaru, Garanhuns. Disponível em: <http://floraisdonordeste.blogspot.com/>. Acesso em: 13 dez. 2013.
51 O Atlas Nordeste foi lançado pela Agência Nacional de Águas – ANA - em 2005. O Volume 2 intitulado Atlas Brasil de Abastecimento Urbano foi lançado em 2010. Disponível em: <http://atlas.ana.gov.br/Atlas/forms/Home.aspx>. Acesso em: 13 dez. 2013.
Figura 4 – Mapa da delimitação do Polígono das Secas em 1951
Fonte: Rebouças (1997, p. 132).
Figura 5 – Mapa com a região semiárida nordestina, a delimitação do Polígono das Secas em 1989 e a área de cobertura do FNE
Fonte: BRASIL. Relatório final do grupo de trabalho interministerial para redelimitação do Semiárido nordestino e do Polígono das Secas. Ministério da Integração Nacional. 2005, p. 32. Disponível em: <http://www.cpatsa.embrapa.br/public_eletronica/downloads/OPB1839.pdf>. Acesso em: 10 jun. 2015.
Figura 6 – Mapa da área semiárida nordestina com isoieta52 de 800
mm e a delimitação do Polígono das Secas
Fonte: BRASIL. Relatório final do grupo de trabalho interministerial para redelimitação do Semiárido nordestino e do Polígono das Secas. Ministério da Integração Nacional. 2005, p. 58. Disponível em: <http://www.cpatsa.embrapa.br/public_eletronica/downloads/OPB183 9.pdf>. Acesso em: 05 jun. 2015.
52 “Isoieitas correspondem à representação espacial das curvas que unem pontos de mesma precipitação (mm de chuva) para um período determinado.” (NUNES, 2012, p. 374).
Figura 7 – BRASIL. Nova delimitação do Semiárido brasileiro. Secretaria de Políticas de Desenvolvimento Regional/MIN, 2005.
Fonte: Nova Delimitação do Semiárido Brasileiro. 2005, p. 6. Disponível em: <http://www.asabrasil.org.br/UserFiles/File/cartilha_delimitacao_semi_arido.pdf>. Acesso em: 04 jun. 2015.
O problema secular com relação à distribuição da terra e da água jamais foi atacado por qualquer governo e permanece como uma pedra intocável para lidar com as outras questões da região.
Embora a distribuição e o acesso à água de qualidade seja o tópico central quando o assunto é o Semiárido, e esta distribuição seja imprescindível para mudar o quadro atual – como atesta o trabalho realizado por grupos com a construção de cisternas de placa e o seu impacto positivo na melhoria da saúde dos sertanejos –, ela por si só não resolverá problemas como a concentração de renda. A ajuda governamental com sua visão tecnocrática e negadora dos conhecimentos locais nunca buscou resolver as raízes das desigualdades sociais do Semiárido e sempre culpou o clima pela sua existência.
São essas concentrações de terra e de água que vêm gerando um fosso entre uma pequena parcela e a maior parte da população sertaneja e não “o sol inclemente” como aventado por tantos cronistas ao descreverem sua visão sobre o Semiárido nordestino. Para muitos estudiosos, o grande problema daquela região já não é a quantidade de recursos hídricos, presente nos milhares de açudes e barragens construídos no último século, mas sim a qualidade do solo, vítima de séculos de uso inadequado pela pecuária, pelo cultivo de monoculturas, por projetos de irrigação mal gerenciados, entre outros. Sem confrontar estas questões, e elas não têm sido combatidas nos últimos governos, dificilmente o Semiárido poderá trazer à luz todos os seus potenciais socioeconômicos e continuará a manter uma imagem de região problema do Brasil.