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SERMAYE, YEDEKLER VE DİĞER ÖZKAYNAK KALEMLERİ .................................... 38-40

FONTE: Acervo do grupo

3.2 “Você tem que assumir o comando”

O teatro popular naquele tempo, pois, era, contudo, alegria, mas que se vinculava à reflexão sobre a vida coletiva que começávamos a (re)fazer. Para nós era arte que fazia emocionar e pensar, repor e propor. Lembro que o poema “Elogio do aprendizado”, de Bertolt Brecht, ganhou vida na voz da meninada do mar, como os adultos diziam, convocando a todos para assumir o comando de suas vidas e das transformações que já ali se entrevia serem necessárias:

Aprenda o mais simples! Para aqueles cuja hora chegou Nunca é tarde demais!

Aprenda o ABC; não basta, mas aprenda! Não desanime! Comece! É preciso saber tudo! Você tem que assumir o comando!

Aprenda, homem no asilo! Aprenda, homem na prisão! Aprenda, mulher na cozinha! Aprenda, ancião!

Você tem que assumir o comando!

Freqüente a escola, você que não tem casa! Adquira conhecimento, você que sente frio! Você que tem fome, agarre o livro: é uma arma. Você tem que assumir o comando.

Não se envergonhe de perguntar, camarada! Não se deixe convencer!

Veja com seus próprios olhos!

O que não sabe por conta própria, não sabe. Verifique a conta É você que vai pagar. Ponha o dedo sobre cada item.

Pergunte: o que é isso?

Você tem que assumir o comando.

(Poema de Brecht encenado na praia pelo Flor do Sol)

O “assumir o comando” de Brecht nos remete à categoria de empowerment, conceito complexo que, a partir da Carta de Ottawa, tem alcançado dimensões importantes dentro do ideário da promoção à saúde. Para Meis (2011, p. 1438) “empowerment significa a tomada de controle, por indivíduos e coletivos, de suas vidas e do meio ambiente, tornando possível a organização comunitária e a sustentabilidade dos projetos de promoção à saúde na comunidade”. Estaríamos, desde então, nos inícios do Flor do Sol, a esboçar uma intervenção que se poderia nomear de promoção da saúde? – eu me perguntava agora.

A proposta de promoção da saúde, como já pincelamos no primeiro capítulo, foi aprovada na I Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde, em 1986, em Ottawa. Tal proposta, acrescenta Rabello (2010, p.21), que foi implantada inicialmente nos países desenvolvidos e só na década de 1990 nos demais países, se constitui em um novo paradigma, em contraposição ao paradigma flexneriano, o qual se expressa “através do individualismo, da especialização, da tecnologização e do curativismo na atenção à saúde, predominante nas práticas de saúde”, possibilitando-nos compreender que “a saúde é social e não somente uma questão técnica”.

Em documento elaborado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre a Promoção da Saúde, são apresentados cinco princípios fundamentais:

1. A ‘promoção da saúde’ afeta a população em seu conjunto no contexto de sua vida diária e não se centra nas pessoas que correm o risco de sofrer determinadas enfermidades;

2. A ‘promoção da saúde’ pretende influir nos determinantes causais ou causas das doenças;

3. A ‘promoção da saúde’ combina métodos ou enfoques distintos, porém complementares;

4. A promoção da saúde’ orienta-se claramente a conseguir a participação concreta e específica da população;

5. Os profissionais de saúde, particularmente no campo da atenção primária, devem desempenhar um papel de grande importância na defesa e facilitação da ‘promoção da saúde’ (RABELLO, 2010, p.28).

Em consonância com o entendimento de Rabello (2010), para quem a promoção da saúde transcende a mudança de hábitos individuais ou atitudes preventivas e se volta, mais enfaticamente, para aspectos globais comunitários, chama-nos a atenção, nas narrativas dos artistas do Flor do Sol, o modo como se ia gestando no grupo e na comunidade, a participação – agora mais dos jovens - nos espaços públicos e na esfera pública.

Vemos em vários momentos de suas narrativas, como eles se colocam saindo de um teatro que atendia a sua artisticidade e seguiam para uma atuação nos movimentos sociais e nas lutas do lugar – “algum encontro que tinha a ver com a questão da comunidade”, como se refere João. Vejamos:

Com o Flor do Sol, eu comecei a participar e gostar também dos movimentos, dos movimentos sociais, de reuniões, algum encontro que tinha a ver com a questão da comunidade. Os problemas da comunidade, reuniões de associação, eu gostava sempre de tá inserido, de tá participando, né, de ver com um outro olhar a questão desses problemas da nossa comunidade, e também de melhorar também a nossa vida aqui (...) Pois é, assim, o grupo me deu horizontes mais amplos... que a gente possa, todo mundo junto, com a comunidade envolvida, tá se organizando, se mobilizando, lutando, né? Porque é muita coisa que tem no nosso lugar e que é preciso que a gente lute.

A atuação e a parceria com os movimentos sociais potencializam as ações de promoção e de educação popular em saúde, tendo em vista que um dos objetivos centrais é justamente a organização das populações para superação dos problemas de saúde identificados por esses sujeitos sociais. Nesse sentido é que, desde o início da década de noventa, o Flor do Sol se transformou em um grupo de teatro popular cuja atuação o foi conduzindo, a partir do envolvimento com o que João chama de “problemas da comunidade”, a se consolidar enquanto um grupo criador e

operacionalizador de práticas de educação popular e saúde - o que ele chama de

“horizontes mais amplos”.

Assim é que além das peças críticas que se fazia, com linguagem popular, com personagens inspirados em pessoas do lugar, retratando os problemas locais, o Grupo Flor do Sol promoveu, nesses vinte anos, trabalhos de mobilização comunitária, como: os mutirões de limpeza das ruas e da praia (projeto “Redonda Limpa Vida Melhor”), a campanha contra a construção de empreendimentos turísticos nas dunas, o projeto “Novo Olhar” com jovens e adolescentes em situação de marginalidade e envolvimento com drogas, entre outros.

Em cada um desses trabalhos sociais, havia sempre uma peça que abordava os temas em foco. Desse modo é que, no tempo dos mutirões de limpeza a peça era o lixo em verso e prosa; na campanha de denúncia aos os grileiros, recitamos, em plena audiência pública da Câmara Municipal, o poema “Do povo buscamos a força”, de Augustinho Neto34; no período do projeto com adolescentes e jovens da comunidade em situações de vulnerabilidade, tínhamos o espetáculo “Abre a porta ao cotidiano e deixa o ECA35 entrar”.

Neste linear, esclarece Carvalho (2004, p.1093) que:

A implementação de práticas e processos que tenham como meta o “empowerment comunitário” demanda abordagens educativas que valorizem a criação de espaços públicos (rodas e grupos de discussão, colegiados, gestores etc.), que logrem promover a participação dos indivíduos e coletivos na identificação e na análise crítica de seus problemas, visando a elaboração de estratégias de ação que busquem a transformação do status quo.

Essa perspectiva da promoção à saúde vai ao encontro de uma educação como prática da liberdade, nos termos de Freire (1983; p.44), em que é salientada a permanente atitude crítica do homem diante do mundo, “superando a atitude do simples ajustamento ou acomodação” e negando a prática do assistencialismo, a qual faz de quem recebe a assistência um objeto passivo, sem possibilidades de participar do processo de sua própria transformação:

Uma educação que possibilitasse ao homem a discussão corajosa de sua problemática. De sua inserção nesta problemática. Que o advertisse dos perigos do seu tempo, para que, consciente deles, ganhasse a força e a coragem de lutar, ao invés de ser levado e arrastado à perdição de seu próprio ‘eu’ submetido às prescrições alheias. Educação que o colocasse em diálogo constante com o outro (FREIRE, 1983, p.90).

A tomada de consciência, a coragem de mudar a si mesmo e de assumir uma luta coletiva foi o enfoque do primeiro espetáculo cênico do grupo, montado em 1991, que se chamou “Mudanças no Galinheiro Mudam as Coisas por Inteiro”, um livro de Sílvia Orthof, adaptado para a linguagem teatral de rua.

A peça contava a seguinte estória: certo dia, o sol resolveu não ir trabalhar e, por se aproveitar da lua que lhe era subserviente, solicitou que ela o substituísse no céu, alegando estar muito doente. A lua sai irritada do seu repouso, grita com seu criado obediente, o dragão Jeremias que cospe fogo, implica com as três Marias

34 Voltaremos a esse acontecimento posteriormente, neste trabalho. 35 Estatuto da Criança e do Adolescente

(três estrelas) e assume o céu fora de seu horário habitual. Tal incidente provoca uma grande confusão na terra, a tal ponto do galo não conseguir cantar de galo nesse dia.

Furioso, então, o galo começou a reclamar das atividades domésticas da galinha, pondo-lhe a culpa pela desordem no galinheiro. A galinha, percebendo que o galo não está mais conseguindo cantar de galo, revida suas provocações, travando com seu marido uma grande discussão:

Galinha: - Então se prepare seu galo machista duma figa, chegou minha

hora e de todos os oprimidos do universo (sobe no poleiro). Se a casa está em desordem, a culpa é minha, mas também é sua.

Galo: - Ficou louca?

Galinha: - Afinal, a casa é nossa, não é? Então cuide de ajudar. Se os

pintinhos estão mal cuidados é porque você, meu marido e pai dos pintinhos, só faz cantar de galo, esquece de conversar com os filhos, esquece de ser amigo, esquece que é importante na educação e na saúde dos filhos.

Galo: - Pare com essas bobagens, antes que eu lhe dê umas bordoadas.

Desça daí, deixa de palhaçada, todo mundo tá vendo que você perdeu as moelas. Desce!

A galinha canta: co co ri có, cooó...

(Adaptação do texto de Sílvia Ortoff por Ray Lima)

Toda a peça era pautada no confronto. O texto era sempre um embate entre opressor e oprimido (sol-lua, lua-dragão, galo-galinha), intercalado por músicas que refletiam a cena. A relação de exploração que se estabelecia entre os personagens revelava relações de poder que se dão tanto no momento da produção, no mundo do trabalho (no caso da peça, o céu), como no momento da reprodução social – no caso, o cenário do galinheiro, onde se estabelecem, entre tantas relações, as de gênero e se reproduz a socialidade do cotidiano.

Na verdade, as tensões que envolvem as relações de gênero sempre foram objeto de problematização no percurso desenvolvido pelo Flor do Sol. Desvelar, no âmbito da cultura de uma aldeia de pescadores, a realidade de submissão da mulher em relação ao homem, mostrando suas contradições, emergiu sempre como uma necessidade premente, a querer se fazer entender, como anuncia Louro (2008, p.18), que “ser homem e ser mulher constituem-se em processos que acontecem no âmbito da cultura”.

Para esta autora, ser masculino ou ser feminino é uma construção que se dá ao longo de toda vida, por meio de diversas situações e relações em que contribuem as várias instituições sociais, e não pelo simples fato natural de se nascer macho ou fêmea. Assim esclarece ela:

A construção dos gêneros e das sexualidades dá-se através de inúmeras aprendizagens e práticas, insinua-se nas mais distintas situações, é empreendida de modo explícito ou dissimulado por um conjunto inesgotável de instâncias sociais e culturais. É um processo minucioso, sutil, sempre inacabado. Família, escola, igreja, instituições legais e médicas mantêm-se, por certo, como instâncias importantes nesse processo constitutivo. Por muito tempo, suas orientações e ensinamentos pareceram absolutos, quase soberanos (LOURO, 2008, p.18).

De acordo com essa autora, transformações se aceleraram no mundo todo e fizeram ressoar “novos saberes, novas técnicas, novos comportamentos, novas formas de relacionamento e novos estilos de vida”, tornando evidente uma diversidade cultural que não parecia existir. Para ela, “ainda que normas culturais de há muito assentadas sejam reiteradas por várias instâncias, é indispensável observar que, hoje, multiplicaram-se os modos de compreender, de dar sentido e de viver os gêneros e a sexualidade” (LOURO, 2008, p.19).

Esses novos modos de compreender, de que fala Louro (2008), aliados às novas formas de existência no mundo atual parecem imprimir efeitos sobre todos os contextos culturais, proliferando embates e novas transformações, contínuas. Discorre a autora que a voz que se fizera ouvir, até então, havia sido a do homem branco heterossexual. “Ao longo da história, essa voz falara de um modo quase incontestável. Construíra representações sociais que tiveram importantes efeitos de verdade sobre todos os demais” (LOURO, 2008, p.20).

Observemos, na peça do Flor do Sol, na relação encenada entre o galo e a galinha, a conflitualidade que se explicita e produz transformações que pareciam impossíveis no correr da história (e da estória) até então:

O galo quer dar uma de machão Para a galinha amedrontar

Mas ela grita em nome do oprimido A sua voz ninguém vai calar Viu, viu, viu, esse poleiro é o Brasil Viu, viu, viu, esse poleiro é o Brasil

Os desfechos das cenas eram sempre mostrando que o oprimido, a partir do momento em que enxerga sua condição de explorado, não mais aceita a dominação a que é submetido, procura reagir, luta por transformações: a galinha assume o direito de cantar no galinheiro, o dragão revida os insultos da patroa lua, exigindo ser chamado por seu nome verdadeiro – Severino (e não Jeremias, como a patroa queria que fosse) e a lua, por sua vez, passava a exigir do sol “milhões de raios

pelos serviços que prestou fora do seu horário normal”.

A educação popular traz em si essa intencionalidade política. Ela enxerga as desigualdades sociais e entende que os grupos populares desfavorecidos precisam se organizar para lutar por seus interesses, por seus direitos negados, estimulando o engajamento, a luta reivindicatória. Como também a educação popular em saúde implica no desmascaramento de ideologias que sustentam essas desigualdades. Daí Freire (1992, p.32) insistir que alcançar a compreensão mais crítica é um passo necessário, mas isso não liberta o sujeito por si só, é preciso o engajamento “na luta política pela transformação das condições concretas em que se dá a opressão”.

Essa perspectiva crítica que perpassa os trabalhos do grupo Flor do Sol, desde seus inícios, insere-se em um contexto de uma comunidade cheia de valores tradicionalmente sustentados, e que podem estar a reproduzir poderes simbólicos que devem ser transformados, como podem estar a conservar aspectos que devem ser valorados, em Redonda.

Os jovens do Flor do Sol foram seguindo suas descobertas de mundos e desencadeando mudanças no modo de pensar e agir, de ser e viver suas juventudes; nesse percurso, os personagens e tramas do teatro, vividos no largo espaço da praia e ruas de Redonda se expressavam com destemor. Sobre isso bem expressa a depoente Carla, ao refletir sobre sua história nesses vinte anos de grupo:

O que eu sei dizer é que sem esse trabalho do grupo na minha vida eu seria outra pessoa, eu não seria esta pessoa de hoje. Talvez eu fosse uma pessoa menos participativa. Não teria visão crítica sobre os problemas do nosso lugar.

Porque o grupo Flor do Sol assim abriu os horizontes das pessoas, né, de poder sonhar, de ter outras expectativas de vida, outras perspectivas.

Ajuda muito a gente ter um pensamento diferente das outras pessoas,

né? Criar novas oportunidades, novos pensamentos, ser mais sensível pra outras questões que muita gente nem nota [...] (Carla).

Vemos a associação entre o exercício do teatro e a saída para uma visão mais participativa no mundo, a ideia de dizer-se e a seu mundo junto a de sonhar,

como também a de abrir horizontes e participar nas lutas sociais do lugar, na perspectiva de transformação. Como vimos com Freire, passávamos a assumir o comando de nossa própria autoformação, na medida em que buscávamos e passávamos a protagonizar outra educação, como sublinhamos acima. “Uma educação que possibilitasse ao homem a discussão corajosa de sua problemática. De sua inserção nesta problemática” (FREIRE, 1983). Uma inserção que possui sua inventividade, onde cada pessoa comparece com sua diferença. Como observava Gabriel Tarde (In: FONSECA; KIRST, 2003, p.74):

Existir é diferir, a diferença, a bem dizer, num certo sentido, é o lado substancial das coisas, o que elas têm de mais próprio, de mais comum (...) A diferença é o alfa e o ômega do universo; por ela tudo começa {...} Por toda parte uma exuberante riqueza de variações e de modulações inauditas jorra das espécies vivas, sistemas estelares (...) E acaba por destruí-los e renová-los inteiramente. (...) Se tudo vem da identidade e se tudo visa e vai à identidade, qual é a fonte desse rio de variedades que nos encanta? Estejamos certos, o fundo das coisas não é tão pobre, tão descolorido quanto se supõe. Os tipos não passam de freios, as leis não são senão diques em vão opostos ao transbordamento de diferenças revolucionárias, intestinas, onde se elaboram secretamente leis e tipos de amanhã (...).

No exercício de dizer-se, a inventividade e na experimentação das linguagens e da luta social, a diferença como riqueza, aflui. E a experiência de transformar-se, repare-se, é vista junto a de ver-se “em comunidade”, em um acento de solidariedade inequívoco. Ressalta-se, na voz da atriz do Flor do Sol, como a experienciação da vida pública abarca um aspecto de experimentação de si também, de desenvolvimento de uma subjetivação mais lúcida, onde o ser mais se apropria de sua diferença e de suas potencialidades de transformação.

Eu lembro, eu era uma criança muito tímida, eu não sabia falar, assim, eu não sabia me relacionar com as pessoas, por isso que foi o ponto mais forte foi esse, de mudar não só a minha vida, mas, assim, na comunidade. O teatro ajudou a uma transformação [...]; eu virei uma pessoa mais participativa, comecei a participar mais de tudo - na igreja, na escola... Melhorou a participação na escola, na comunidade e até hoje eu gosto muito de me envolver nos movimentos, nos movimentos sociais, de lutar pelo meio ambiente...

Eu acho que tudo isso é consequência da minha vida no Flor do Sol; eu aprendi a pensar; coisas que eu pensava que era certa não era, o que eu pensava que era errado, não era [...] (Carla).

Vemos que no relato de um processo de emancipação humana, a partir do despertar do pensamento e da atitude críticos, vincula-se ações individuais junto a ações coletivas, tendo em vista uma transformação a que se almeja e que emerge da leitura do mundo concreto. Repara-se, também, aí, que essas leituras e

experiências de participação em transformações, parecem estar perto de uma socialidade que se gesta de nova forma no aprendizado de pertencer a um grupo.

Também se observa como essa leitura de mundo emerge das relações cotidianas, que vão ser lidas de modo crítico – “coisas que eu pensava que era certa não era, o que eu pensava que era errado, não era” -, o que corrobora com o

pensamento de Freire (1996, p.81), onde ele evidencia o diálogo como lugar de construção da crítica, que é lugar também da vocação ontológica do ser mais, ao dizer que:

O diálogo em que se vai desafiando o grupo popular a pensar sua história social como a experiência igualmente social de seus membros, vai revelando a necessidade de superar certos saberes que, desnudados, vão mostrando sua ‘incompetência’ para explicar os fatos.

Percebemos, desde aqui, que a história do grupo Flor do Sol não foi marcada somente pela alegria da meninada ao “brincar de teatro”. Como conta João nas

linhas a seguir, foi preciso partir para o enfrentamento de preconceitos e discriminações, de desvendamentos e novas produções de subjetividades para fundarmos o grupo em sua força de atuação. Como Freire (1996, p.60) observava, seria importante ver que “qualquer discriminação é imoral e lutar contra ela é um dever, por mais que se reconheça a força dos condicionamentos a enfrentar”.

Depois da entrevista com João (ou Compadre, como o chamo), eu me lembrava de mim. Do momento em que nesse tempo eu me desvelava. Lembrei-me que haviam valores bem arraigados, naquele contexto em Redonda (que ainda persistem nos dias de hoje, talvez em menor proporção): que os meninos deveriam se dedicar à pesca (este sim era trabalho de homem), enquanto as meninas deveriam se ocupar das tarefas domésticas, alimentando o imaginário social da “boa moça”. Tudo que fugisse a esse modelo acabava por se tornar motivo de conflitos nas famílias, na comunidade e de discriminação social.