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GENEL YÖNETİM GİDERLERİ VE PAZARLAMA GİDERLERİ ..................................... 41-42

Esse processo em seu conjunto contribuiu para que a comunidade de Prainha do Canto Verde chegasse a refletir que o insucesso e a deficiência dos alunos da Escola Municipal Bom Jesus dos Navegantes não se devia à incapacidade dos seus filhos em aprender, mas “recolocar que a escola é que não estava sendo boa para eles”. E se perguntaram: “como esta escola pode servir para a nossa vida aqui, como pescadores que somos e que queremos criar nossos filhos e dar futuro a eles?” (GOMES, 2002, p.137).

E daí que a escola começa a se aliar com os movimentos de contestação e resistência à lógica hegemônica do capital para o litoral, passando a estar “inexoravelmente ligada à afirmação da vida e da luta dos povos do mar, em sua diferença e concretude” (GOMES, 2002, p.150). Defende Gomes (2002, p.115), fundamentado no educador americano Michael Apple, que a escola deve ser pensada relacionalmente, “enquanto situada em um espaço geo-político e cultural contraditório, imbricado em relações sociais de dominação e exploração”.

Vemos que todo esse processo, de tentativa de mudança da função social da escola, em busca de fazê-la estar a serviço das lutas dos povos do mar e dos seus movimentos de resistência, apesar de carregar a especificidade do que foi e vem sendo vivido em Prainha do Canto Verde, é, na verdade, uma realidade a ser enfrentada por outras comunidades litorâneas diante da expansão capitalista, da expulsão de suas terras e do esfacelamento de suas culturas.

O espetáculo do Flor do Sol propunha uma escola que não tratasse o pescador como um “analfabeto”, mas como alguém em busca de complementar seus saberes com coisas novas que a escola poderia trazer, como uma reflexão sobre a realidade concreta com suas contradições e explorações e, quem sabe, a afirmação de um movimento de resistência e pela vida. E, imbricado a esses saberes, estaria a partilha da vida em comum, como propõe uma das primeiras professoras de Redonda:

Naquela época que eu comecei a formar as escolas daqui, mesmo com toda dificuldade eu tinha aquele gosto de ensinar. Não tinha local certo, não tinha energia, era lamparina a gás ou umas lâmpadas que tinha, a álcool, eram poucas cartilhas, nem todo mundo podia ter, mas a gente dava um jeito. Quantas aulas eu não planejei até de madrugada? Pois é, e nas escolas de hoje tem gente que diz: - eu vou dar meu horário, quem quiser aprender, aprende. Virou uma coisa só por outros interesses. Parece que o povo... Porque hoje tudo é com outros interesses. Antes o povo não esperava vir lá de cima, dos políticos. A praia tava suja? Vamos varrer a

praia. E varriam, sem interesse. A escola hoje devia trabalhar mais, focar mais essa parte de vivência. E não só de ajudar a ler, escrever e conhecer... Entrar nessa parte de conviver, de repartir a vida, de partilha.

A crítica da professora ao que ela chama de “outros interesses”, pelo que se apreende da entrevista, poderia ser atribuída aos professores que hoje estão nas salas de aula, seja em Redonda ou em qualquer outro canto, não por um compromisso com o processo educativo, mas somente para fins empregatícios, por exemplo. Esse modo de pensar – “eu vou dar meu horário, quem quiser aprender,

aprende” -, contribuirá mais ainda para que o pescador fique “encolhido e escondido feito carne de ostra”.

Ao acreditar que “a escola hoje devia trabalhar mais, focar mais essa parte de vivência e não só de ajudar a ler, escrever e conhecer... Entrar nessa parte de conviver, de repartir a vida, de partilha”, a sábia professora nos levar a pensar que:

A tarefa mais importante para a escola e para uma perspectiva mais democrática de educação é certamente lutar contra a fragmentação e a dispersão, reatando, pela retomada da linguagem expressiva, os elos da coletividade; preenchendo o vazio deixado pelo individualismo (SILVA, 2008, p.87).

Seria essa uma escola utópica? Penso também que reatar os “elos da coletividade”, como expressa Silva (2008), que eram mais sólidos na Redonda antiga, seria uma das possibilidades de fortalecimento da luta contra os interesses do capital e de reafirmação da vida dos povos do mar.

3.3 “Que sóis de sangue choram luas frias?” – A conflitualidade que envolve a pesca artesanal em Redonda

Permanecendo seguindo a trilha apontada pelos passos do Flor do Sol, seus textos e os contextos em que eles foram produzidos, não se poderia deixar de abordar, mesmo sem querer esgotar a questão, a conflitualidade que sempre permeou o cotidiano da pesca artesanal da lagosta frente à prática da pesca por escafandro.

3.3.1 “Fogo e águas se mesclavam”

Os conflitos – batizados popularmente de guerra do mar ou guerra da lagosta – vêm se arrastando desde a década de oitenta quando, em 1989, houve o primeiro confronto direto, entre pescadores artesanais de Redonda e escafandristas, provenientes de outras comunidades pesqueiras do município de Icapuí. Na ocasião, houve tiroteio em alto mar, aprisionamento e queimas de barcos de escafandristas na praia de Redonda, episódio este que foi repercutido pela imprensa nacional, muitas vezes tratando os pescadores de Redonda como vândalos ou até criminosos, que estavam em busca de “fazerem justiça com as próprias mãos”.

Quando o Flor do Sol iniciou seus trabalhos, as polêmicas, as intrigas, as revoltas que até hoje envolvem a pescaria em Redonda estavam bem afloradas e o grupo de teatro continuava tentando ser o porta-voz de si próprio como povo do lugar e dos que não tinham voz. Os versos abaixo, tantas vezes utilizados nas cenopoesias, nos falam dessa luta:

Um dia, apareceram na Redonda Uns escafandristas que

Mergulhavam até os bancos de coral Pegando a lagosta com as mãos; Abriam os manzuás e roubavam A pesca dos redondeiros, Deixando o povo à míngua. Houve protesto, denúncias, Pedidos às autoridades, Mas ninguém dava atenção. Até que um dia os pescadores Perceberam que havia

Muito cabra morredor Entre os mergulhadores; Gente com cara de defunto Outros pedindo para apanhar E era assim que a coisa Tinha que se resolver. Nessa noite ninguém dormiu.

Houve reza e choro entre as mulheres, Mas nenhuma escondeu o homem Debaixo da saia.

A revolta deu armas E coragem ao medo. As crianças calaram.

Só se via as brasas dos olhos. Ninguém conta quantos barcos foram Mas não havia homens que

Os velhos diziam que suas vidas Fariam menos falta

E os jovens que tinham Muito mais a defender... O mar estava calmo

Como convém aos cúmplices E aos coiteiros.

Não houve chuva nem vento Apenas a brisa suficiente Para deslizar sem barulho. Fogo e águas se mesclavam Como elementos imiscíveis. As labaredas pintavam caras Cheias de ódio e medo.

Havia pavor no estremecer das ondas E nos cardumes em fugas...

Só os mais ferozes tubarões Aguardaram as sobras Da guerra dos homens. Lanchas queimadas na praia, Desassossego...

Da guerra ninguém guarda nada Só o segredo

Mas se outro jeito havia Outro não deram

Os homens em cujas mãos dançavam O poder e a desgraça.

(Poema cedido pela autora Helena Lutécia ao grupo Flor do Sol para sua cenopoesia36)

Esta poesia de Helena Lutécia conta um conto verdadeiro: a história da guerra da lagosta. Fala do surgimento dos escafandristas que, além de praticarem uma pesca ilegal, ainda “mergulhavam até os bancos de coral e roubavam a pesca dos redondeiros”. A partir daí, uma sucessão de atos de protestos se

desencadearam. Como não houve intervenção das autoridades competentes, os pescadores chamaram para si a responsabilidade de intervir com as próprias mãos,

“a revolta deu arma e coragem ao medo”. Os redondeiros, então, mobilizaram o

contra-ataque aos escafandristas – “fogo e águas se mesclavam como elementos

imiscíveis, as labaredas pintavam caras, cheias de ódio e medo”. E se iniciaram,

após os primeiros conflitos no alto mar, episódios de tomadas das lanchas dos compressores – “lanchas queimadas na praia, desassossego”.

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Estávamos a ensaiar na praia quando esta autora, a passear pela Redonda, aproximou-se para nos assistir. No final, trocou algumas palavras com o grupo e apresentou seu poema, o qual havia composto depois de conversas com os moradores.

Os escafandristas não se intimidaram após esses primeiros confrontos e voltaram sorrateiramente para matar, a tiros, um pescador de Redonda chamado Simeão, quando este estava a trabalhar, em sua costumeira pescaria. Tal acontecimento veio a acirrar ainda mais a revolta da comunidade e a total repulsa a prática da pesca por escafandro e por compressor, a tal ponto que as desavenças perduram até hoje.

“Os cafanguistas” como se fala em Redonda, são identificados pelos redondeiros como os verdadeiros inimigos da comunidade. Além de não respeitarem o período do defeso, eles destroem os equipamentos de pesca dos redondeiros e praticam uma pesca ilegal – essas são as principais reclamações que se ouve por parte dos pescadores artesanais. Estes justificam sua revolta argumentando que se deparam com um trabalho que não é nada fácil para “poder conseguir o pão de cada dia”, como defende Rodrigues, e ainda têm que “encarar esses bonitinhos que só têm o trabalho de mergulhar lá e tirar o nosso sustento e de nossas famílias”.

Para entendermos um pouco mais o quanto a pesca artesanal se difere da pesca por compressor – embora tudo que dissemos antes já antecipou muitos detalhes - vamos nos guiar pelo leme do jovem pescador Antônio Rodrigues que, desde menino, aprende o ofício dos mais velhos e tem carregado em sua vida, a pesca. Ou seria, na sua pesca, a vida?

O pescador artesanal acorda, rotineiramente, antes das quatro horas da manhã, encontra-se com seus companheiros de embarcação (geralmente mais três, formando uma tripulação de quatro) na praia. Às vezes, dá tempo de fazer uma fogueirinha antes de tomarem a jangada que os transportam até o bote. “Já me acostumei com esse horário” – conta Rodrigues – “até dia de domingo, que eu não vou pescar, eu me acordo cedinho, a não ser que eu tenha tomado um porre à noite”.

Para chegarem até o bote, eles contam com o trabalho do embarcador, como é chamado aquele que leva a jangada até o porto dos botes, utilizando uma vara grande que serve de propulsão. Essa vara é fincada no chão e o embarcador a empurra para baixo e para trás, em movimentos repetidos que forçam a jangada a seguir de mar adentro. Em cima, seguem vários pescadores que, ao chegarem ao porto, são distribuídos em seus barcos para iniciarem a viagem até os locais de pesca. Ao encostar à lateral do barco, os pescadores atravessam as embarcações deixando a jangada.

Já em seus respectivos botes, os pescadores artesanais põem-se a erguer as velas ou “levantar o pano”, como preferem chamar. O pano é costurado no mastro

por meio de cordas. O mastro é um pau grande e muito pesado e serve para manter a vela erguida. “Levantar o pano” é uma tarefa que exige a participação de, no

mínimo, três pescadores, devido ao esforço exigido. Sobre a tripulação dos barcos (que geralmente são parentes), e as tarefas executadas, assim explica Rodrigues:

Nós vamos de três ou quatro num bote. Um é o mestre e os outros são proeiros. Se tiver quatro pescador, é três proeiros; se tiver três, é só dois proeiros. O mestre é quem sabe o local onde é pra arriar as cangalhas, que é o canto mió de lagosto, né, ele sabe o caminho de ir, sabe onde nós arriemo ontem as cangalhas. Então, ele fica no leme, assume o comando do bote. A direção ele baseia por um cajueiro alto que dar pra ver lá de fora. Lá do fundo, esse cajueiro fica como uma moitinha. Porque é assim, lá do fundo, a terra parece uma linha plana, então as moitinha serve de direção. A caixa dágua lá de Aracati serve pra gente marcar a profundidade que a gente tá. O mestre é profissional nessas coisas. Dependendo do que ele avista, ele sabe onde nós tamo. Nós proeiro faz a balda, prepara a puxadeira, nós puxa as cangalha, também tem que iscar, cambar saco, levantar o mastro, puxar a escolta, espichar o estalho, aguar a vela... muita coisa, e o mestre também ajuda também nessas coisas pesada. Tem mestre que se garante em fazer tudo, como Toim de Nenê de Maroca. Muitos desses pescador novo aprenderam pescando no bote dele, o Santa Ana.

Explica ele que “a balda” é um modo de arrumar os manzuás ou cangalhas em cima do bote, de forma que eles fiquem organizados para serem utilizados durante a pescaria – “tem um jeitim que a gente bota pra dar certo, pra num

enganchar e a gente num perder tempo”, esclarece. “Puxadeiras” são cordas longas

com isopor amarrado nas pontas, tanto servem de marcação quanto para puxar os manzuás. “Iscar” é pôr a isca no arame e dentro do manzuá; na maioria das vezes,

as iscas são cabeças de bagre ou de outro peixe.

“Cambar o saco” é ficar movimentando, várias vezes durante a pescaria, os

sacos de areia que ficam nas laterais do barco, fazendo o contrapeso – “toda vez

que o bote troce, nós troca os sacos de lado”. Cada saco desse, informa o pescador,

pesa aproximadamente cento e cinquenta quilos. “Estalho” é um pedaço de pano

com cordas nas bordas, uma espécie de vela pequena e “espichar o estalho” é botar

uma vara e empurrá-lo pra frente, pra que o mesmo fique esticado. “Escolta” é a