• Sonuç bulunamadı

FONTE: Acervo próprio

A barca segue seu rumo lenta Como quem já não

Quer mais chegar Como quem se acostumou

No canto das águas Como quem já não

Quer mais voltar (...)

Caminho bordado à fé Caminho das águas Me leva que quero ver

Meu pai (...) (Maria Rita)

A ponta dianteira do bote é chamada de proa e parte traseira é a pôpa. Próximo à proa, fica a chaveta, onde é fincado o mastro, que sustenta a vela. Tem a volta de proa, o estalho, escota, caneca de aguar, dormente, tabuado, costado, cintado, bordas, tabica, escoa, quartel, mediana, câmara, carninga, tranca, amurador, ligeira, desgoto, carregadeiras. Na pôpa, ficam o painel, o giro, o patinão, o varão do leme, cana de leme, o leme e o cadarço. As cavernas são a parte interna

do bote e em sua formação auxiliam a subquilha e o frade, formando o porão. Quilha é a parte inferior, que suporta as pancadas do mar. No convés, que é parte interna e superior do bote, fica o fogareiro e os alimentos. Os pescadores artesanais, na maioria das vezes, vão e voltam no mesmo dia. Fazem sempre suas refeições durante o trajeto. Na ida, tomam café com bolacha, tapioca, grude ou pão. No retorno, almoçam pirão de peixe.

De acordo com um levantamento feito em 201137, em todo município de Icapuí existem 253 botes à vela num total de 746 embarcações, sendo responsável por 106.241 kg de produção38, conforme tabela a seguir:

TABELA 3 - Número de embarcações e produção por frota em Icapuí. 2011. Tipo de Embarcação embarcação Número de Produção por frota

Barco a motor grande

(maior que 12m) 23 56.412

Barco a motor médio

(entre 8 e 12m) 148 287.743

Barco a motor pequeno

(menor que 8m) 11 13.381 Bote a motor 23 56.282 Bote à vela 253 106.241 Canoa a remo 1 0 Canoa a vela 2 0 Jangada a motor 12 2.725 Jangada à vela/remo 41 25.558 Paquete a motor 40 18.067 Paquete à vela/remo 193 57.565 Total 746 623.974 Fonte: Petrobrás

Notemos que a principal embarcação dos redondeiros, o bote à vela, mesmo possuindo a maior frota, consegue obter uma produção bem abaixo do barco motorizado. O que justifica a argumentação de que a pesca artesanal, por si mesma, não levaria à redução dos estoques pesqueiros, como o faz a pesca industrial, com sua produção em grande escala de modo que atenda as necessidades do mercado consumidor, na maioria das vezes, estrangeiro.

Voltando ao que nos dizia antes o pescador Antônio Rodrigues, vamos analisar o que o mesmo relatou sobre a mestrança. O mestre do bote, como nos

37

Projeto de Monitoramento do Desembarque Pesqueiro Regional da Bacia Potiguar executado pela Petrobrás em atendimento a uma exigência do IBAMA no âmbito do licenciamento ambiental marítimo e desenvolvido em dez municípios litorâneos, incluindo Icapuí, onde se situam 2.038 pescadores.

38

A produção por espécie revelou que Icapuí se destaca com o maior volume de lagosta desembarcada (369.826 kg), além da pesca de Caicos (45.340 kg), Ariacó (29.969 kg), Garajuba (26.472 kg) e Biquara (20.657 kg) (PETROBRÁS, 2011).

explicou, “é quem sabe o local onde é pra arriar as cangalhas, que é o canto mió de lagosto (...) ele sabe o caminho de ir”. O caminho das águas exorta a um saber

ancestral, de “experiência feito”. E como nos falou o pescador, “o mestre é profissional nessas coisas”. Assim, os pescadores, fazendo uso de saberes antigos

e moldados pela experiência de vida, constroem territórios no alto mar (Tupinambá, 1999; Maldonado, 1993; Gomes, 2002), demarcam, se familiarizam com o espaço marítimo a tal ponto de, em meio à infinitude azul do oceano, saberem exatamente onde estavam ontem e pra onde devem seguir hoje, trilhando o caminho das águas.

E para construírem suas demarcações, os pescadores tem a terra como referência, pois como nos esclareceu Antônio Rodrigues, “A direção ele baseia por um cajueiro alto que dá pra ver lá de fora. Lá do fundo, esse cajueiro fica como uma moitinha. Porque é assim, lá do fundo, a terra parece uma linha plana, então as moitinha serve de direção. A caixa dágua lá de Aracati serve pra gente marcar a profundidade que a gente tá”. E tomando essas referências ou marcações que a

experiência lhe apresenta, os pescadores constroem lugares no mar, como nos conta também Antônio Rodrigues:

Indo de mar a dentro a gente tem que saber o local bom de pescar. Quem não souber, sai dizendo que o mar tava ruim, né. Mas não, é porque tem que saber... Deixa eu te explicar melhor. Olha, tem Morro Vermelho, que é aqui mais pra perto. A gente chama assim porque de lá dar pra ver um morro alto e vermelho que tem pras bandas ali da Fontainha ou do Retirinho, tá entendendo? E assim vai indo, tem a Restinga, Cabeço, Primeiros Bancos, Segundos Bancos... Tudo isso precisa saber.

No mar de Redonda, então, pode-se pescar, conforme nos ensinou o pescador, em Morro Vermelho, Restinga, Cabeço, Primeiros Bancos, Segundos

Bancos etc. São territórios que os pescadores conhecem bem e só eles sabem

como chegar lá e como transitarem, sem auxílio de GPS, entre um lugar e outro39. Acrescenta Gomes (2002, p.40) que essa divisão e apropriação do espaço em mares “é estabelecida sobretudo pela profundidade, incluindo aí as características do relevo submarino, das correntes de água e os tipos de peixe que são possíveis de serem encontrados nesses locais”.

39 Essa pesquisa me permitiu refletir sobre coisas que eu vivi tão de perto e que ainda não tinha me obrigado a pensar sobre elas. Por exemplo, em se tratando dessa territorialização no mar, lembro que, muitas vezes, nas horas da refeição, meus pais ou avós conversavam sobre os peixes e diziam assim; “essa guaiubinha tá tão gorda, deve ser lá da Restinga”, ou se não, falavam, “compadre chegou muito cedo do mar hoje, deve ter voltado de Morro Vermelho”.

Para fazer um retorno aos conflitos de que estamos a tratar, que envolve a pesca no mar de Redonda, faz-se necessário abordar um pouco das características da pesca ilegal por compressor. Como se sabe, essa pesca é uma das principais responsáveis pela escassez da lagosta no mar, devido à captura excessiva que ela permite, sendo de grande rentabilidade a seus praticantes, diferente da pesca artesanal. Enquanto nesta se utiliza um instrumento simples e legalmente permitido – o manzuá ou cangalha, naquela os pescadores utilizam botijões de gás vazios como reservatório de ar que permitem o mergulho em profundidade.

Porém, como bem nota o informante de Redonda, a depredação da lagosta não é ocasionada pelo instrumento em si, mas pela ação humana que, com o uso dele, realiza suas intenções mais nefastas:

A pesca da lagosta veio a fraquejar. Não tem mais lagosta. Depredaram tudo, porque o compressor... não que o compressor seja um instrumento predatório, não, o mergulhador é que é. Pela ganância do proprietário da embarcação – e às vezes pela necessidade do pescador que tá devendo na bodega - então eles trazem tudo, lagosta miúda e ovada, e no seco eles vendem isso. Por isso que a pesca do compressor, pelo instrumento

mesmo, não é predatória, é o cafanguista que desce que é.

Aqui na Redonda quase sempre se pescou de manzuá – então essa área foi sendo mais conservada pelos pescadores daqui. Só que os cafanguistas vinham lá do inferno pegar a lagosta aqui, antes dela chegar no manzuá. Até tiravam do manzuá, começaram a cortar as puxadeiras, cortavam a corda dos manzuá, uma perversidade.

A pesca por compressor tem, em sua gênese, estreita relação com os interesses do capital que, desde a década de sessenta do século passado, vem fomentando a pesca industrial, em larga escala, em detrimento da pesca artesanal e da conservação desse recurso pesqueiro que é a lagosta. Vejamos alguns aspectos históricos do que estamos a argumentar:

A demanda para lagostas dos Estados Unidos se revelou como um grande potencial de lucro e fonte de divisas. Com subsídios e incentivos fiscais milionários entre 1965 e 1984 criou-se uma frota e um parque industrial sobredimensionado para os estoques limitados e logo chegou-se a uma situação de sobrepesca e foram introduzidas mais e mais medidas de ordenamento, mas sem resultados efetivos. Quando acabaram os grandes subsídios em1985 a maioria das 25 empresas de pesca que tinham sido criadas, fecharam e os 350 barcos industriais de casco de aço viraram sucata. A gestão da lagosta era responsabilidade do governo federal com a SUDEPE e depois com o IBAMA, mas não deu resultados. A gestão da pesca se dava de cima para baixo, limitando a participação as empresas de pesca, o Labomar e o Ibama no grupo GTE Lagosta. Pescadores artesanais, donos de barcos de pequena escala e a sociedade civil estavam excluídos das tomadas de decisão da política de pesca. Com o fim da pesca industrial as empresas de pesca criaram uma rede de atravessadores (sem registro empresarial) e incentivaram a pesca ilegal de compressor

(mergulho) e o uso da caçoeira. A frota artesanal e de pequena escala que pescava legalmente vem diminuindo por causa da concorrência desleal e da sobrepesca da lagosta. Também houve um trafico organizado de lagostas miúdas para os Estados Unidos por alguns exportadores e uma tolerância geral e falta de fiscalização, o que levou muitos pescadores a pescar lagostas antes que estas pudessem se reproduzir. (PROPOSTAS PARA FECHAR A PESCA DA LAGOSTA ATÉ 30 DE ABRIL DE 2014. Disponível em: http://prainhadocantoverde.org/pesca-da-lagosta-em-colapso/proposta- de-ordenamento/).

Vemos que o Estado, na gestão da pesca, muitas vezes esteve a serviço de interesses que não os dos povos do mar, mas sim dos grandes exportadores. Desde a metade do século passado, as políticas de estímulo à pesca industrial se sobrepunham consideravelmente à pesca artesanal (em que quase inexistiram programas sistemáticos de apoio e financiamento estatal), ficando esta relegada a “símbolo do atraso tecnológico do setor” (GOMES, 2002, p.72). E assim se refere Gomes (2002, p.72): “Concebo que a postura do Estado era condizente com o

processo de expansão do capital e da construção de uma nova forma de produção na pesca, que cada vez mais transforma os recursos do mar em mercadoria”.

Até hoje persistem sérios problemas no que se refere ao ordenamento da pesca, como por exemplo, a precária fiscalização da pesca ilegal por todo litoral brasileiro. E essa realidade fez com que os pescadores artesanais de Redonda construíssem processos de resistência, de que iremos tratar no tópico seguinte.

3.3.2 Os barcos Monsenhor Diomedes: “a fome do mar tem nome”

Como resposta a essa falta de fiscalização dos órgãos competentes40, os pescadores artesanais de Redonda construíram duas lanchas a motor para fiscalizarem a pesca predatória. Um pescador, atuante no movimento da associação de pescadores artesanais e marisqueiras, relata que o objetivo “era pescar livre”:

Eu ia de casa em casa, pedindo dinheiro para o rancho e para o óleo da lancha, para que nossa fiscalização não parasse, já que o IBAMA num dava conta de nada. Eu participava de toda reunião, fui pra Fortaleza falar com as autoridades... Nosso objetivo era pescar livre (...) Eu sentia muita raiva e revolta, porque assim, ao mesmo tempo que eu senti raiva deles [os escafandristas], eu sentia raiva das autoridades, porque nós paga nosso direito tudo legalizado, do jeito que eles mandam, e a gente não poder exercer nosso trabalho livre? Entendeu?

Hoje, tamo passando dificuldade; a sorte ainda é o seguro de quem já recebeu, e quem não recebeu tá comendo o pão que o diabo amassou.

40 Segundo reportagem do jornal Diário do Nordeste, o Ibama conta com menos de 20 homens para monitorar os mais de 500 km de costa.

Então, fica difícil a situação pra nós, pescador. (...) A lei num tá nem aí pra nós, a lei num tá nem aí pra nós, só diz que vai resolver, vai resolver e nunca resolve. Fica difícil pra nós, então...”

Pelo sonho da fiscalização para garantir uma pesca livre, os famosos barcos Monsenhor Diomedes I e II tornaram-se símbolos da resistência a um tipo de política de pesca (e ambiental) da qual o problema com o escafandrista é um aspecto, não pouco problemático, mas grave, sim; contudo, um aspecto que com outros constrói um conjunto do que é hoje a guerra do mar.

Continuemos mostrando o problema socioambiental, descrito no contexto das lutas do Flor do Sol. O barco Monsenhor Diomedes I e II foram aprisionando várias lanchas de compressor e trazendo para a praia de Redonda, onde eram puxados por mais de mil pessoas da comunidade, entre homens, mulheres e crianças. No início, tocava-se fogo. Depois, passou-se a deixar na praia e servir para pinturas das palavras de ordem, repetidas euforicamente nas passeatas e manifestações. Entre essas palavras, podia-se ler: “É de luta, é de paz, compressor nunca mais!” A seguir,

a fotografia mostra algumas dessas lanchas enfileiradas, em estado de degradação devido ao tempo que estão encostadas.