III. BÖLÜM: SİYASAL ARAYIŞLAR
3.1. Serbest Cumhuriyet Fırkası Dönemi
3.1.8. Serbest Cumhuriyet Fırkası’nın Kapanma Süreci
A noção de sociedades de controle também produziu ressonâncias fora da Europa e dos Estados Unidos. No Brasil, o cientista político Edson Passetti, estudioso da obra de Michel Foucault e dos anarquismos lançou, em 2003, o livro Anarquismos e sociedade de
controle, que reúne uma série de textos publicados pelo autor de 1998 a 2002, acrescido de um ensaio especialmente escrito para o livro.12
A leitura que Passetti faz da noção de sociedades de controle parte de uma perspectiva interessada em problematizar o presente para, além de cartografar dispositivos de poder que o configuram, buscar resistências. Daí em sua produção intelectual a fina dissecção analítica que produz sobre a contemporaneidade ser inseparável de suas análises sobre os anarquismos.
A partir do esquema das sociedades de controle apresentado por Deleuze, Passetti produz outras análises que acabam por acrescentar novas perspectivas à noção que poderiam ou não estar implícitas no que fora desenvolvido pelo filósofo francês em seu post-scriptum. Acreditamos que seja interessante ressaltarmos aqui alguns pontos destas análises.
Passetti observa a sociedade de controle como uma nova configuração das relações de poder que ultrapassa, porém não suprime por completo, a sociedade disciplinar. Portanto, uma das primeiras características que frisou em diversos textos sobre esta sociedade é que o controle “se fortalece por meio da noção de inacabado” (Passetti, 2003:30). Nela, tudo se encontra em constante aperfeiçoamento, prevalecendo o regime do inacabado, inclusive o que concerne a possíveis novas institucionalizações e dispositivos de poder (Idem, 2007:30).
O aspecto do inacabado também pode ser verificado no fato desta sociedade, segundo Passetti, ser em rede, eletrônica, configurada por fluxos velozes que rapidamente se atualizam. É interessante a percepção apresentada pelo autor quando afirma que “os lugares são redefinidos como fluxos” (2003:29), apontando o efeito da chegada da Internet e seus outros espaços abertos para resistências, mas também para a proliferação de dispositivos de captura.
Para o autor, corroborando os apontamentos de Deleuze, a sociedade de controle é uma sociedade que opera por “protocolos e interfaces” (Idem:30), em sintonia com a configuração das máquinas computo-informacionais que o autor observa terem emergido
12 Apesar desta ser a primeira publicação de Passetti sobre o tema da sociedade de controle, esta noção vem
sendo trabalhada pelo autor desde a sua tese de doutorado em Ciência Política, defendida em 1994, com o título “Política e massa : o impasse liberal por Ludwig Von Mises”.
desde meados do século XX e se tornado importantes plataformas para a operação dos dispositivos de controle a céu aberto.
A sociedade de controle redimensiona os espaços tanto no âmbito local quanto no internacional. Neste sentido, Passetti destaca, por exemplo, que as periferias pobres das cidades passam a se configurar como campos de concentração a céu aberto, voltadas para incluir as populações que, segundo Deleuze, seriam “pobres demais para a dívida e numerosas demais para o confinamento” (1990: 246). Já no plano internacional, a partir da emergência dos terrorismos nos anos 1990, Passetti sublinha o aspecto transterritorial não apenas dos conflitos e guerras, mas também das conformações multilaterais das organizações internacionais que observa enfraquecer a soberania dos Estados privilegiando as relações que chama de transterritoriais a despeito das relações interestatais. O aspecto transterritorial das sociedades de controle também está presente na emergência do capitalismo em fluxo, com suas multinacionais, aglomerados econômicos, na proliferação de ONGs e em todas as suas implicações para os Estados.
Mais um aspecto destacado por Passetti sobre a sociedade de controle é o de ela se tratar de uma sociedade de participação. Nela, todos são convocados a participar da política e da democracia, porém esta participação funciona com um dispositivo inibidor e capturador de resistências:
A sociedade de controle requer e convoca à participação de cada um nos múltiplos fluxos: objetiva não deixar sequer um micro-espaço vago para ser preenchido por resistências de insurgentes. Por meio de reformas constantes, restringindo cada vez mais as instituições da sociedade disciplinar para as novas se consolidarem, ela visa capturar resistências, ampliando programas de inclusão (Passetti, 2007: 12-13).
A convocação à participação da sociedade de controle também se trata de um investimento voltado para extrair energias inteligentes uma vez que, como argumenta Passetti, máquinas podem fornecer as energias produtivas que as sociedades disciplinares procuravam extrair do corpo dos trabalhadores. Interessa agora “criar condições para cada um se sentir
atuando e decidindo no interior das políticas de governos, em organizações não- governamentais e na construção de uma economia eletrônica” em um planeta que assiste avançar o predomínio da produção imaterial sobre a produção material (Idem, 2003:29-30). Nas contemporâneas relações capitalistas, observa Passetti, a força de trabalho é estimulada a assumir feições empreendedoras na forma de capital humano e do empreendedor de si, que obtém rendas também de suas energias psíquicas, resultante dos investimentos que lhes foram feitos ao longo da vida nas formas de educação e saúde (Ibidem, 2013).
Na sociedade de controle, a participação que imobiliza resistências ainda pode ser encontrada nos negócios sociais que proliferam para incluir por meio da instalação de equipamentos sociais, educação eletrônica, na melhoria das condições das comunidades, da periferia, dos campos de concentração a céu aberto de onde não devem sair os miseráveis, alvos de metas das políticas transterritoriais (Passetti, 2007).
Mais uma tecnologia de pacificação das sociedades de controle está em recobrir com direitos aqueles que nas sociedades disciplinares eram os principais alvos dos dispositivos de normalização. Segundo Passetti (2003, 2007), atravessar asilos, prisões, escolas, minorias, crianças é uma estratégia de inclusão que apazigua lutas.
A sociedade de controle é uma sociedade de segurança que se pauta num triângulo formado pela reafirmação da incerteza assentada no aperfeiçoamento do inacabado — característica marcante do trabalho intelectual —, pela confiança nos programas — de governo, organizações e computação — e pela tolerância como maneira de lidar com assimetrias e dissemetrias. Funda a era da democracia, da convocação à participação redimensionando a representação por uma pletora de direitos que suprimem os específicos direitos sociais, anteriormente conseguidos. Constrói-se uma vida em fluxos regidos segundo protocolos, uma vida diplomática em que não prepondera mais o Estado diante do exterior, mas em que se afirma o exterior organizado segundo o modelo estatal sobre o interior: era do cosmopolitismo, da hospitalidade aos assemelhados, da crença na paz perpétua, do empírico, da comparação, do pluralismo e do relativismo cultural. Nem Hegel, nem Marx, mas era de Kant (Passetti, 2004).
Além de era da democracia, cuja confiança neste regime é estimulada e consolidada por uma pletora de diretos que visa conformar condutas pelas práticas da tolerância e de inclusão, a sociedade de controle também é descrita por Passetti como uma época de
conservadorismo moderado (2007:17). Nela, dissemina a valorização da ética da responsabilidade social que aproxima Estado, empresas e sociedade civil para o compartilhamento da prestação de serviços às populações, reelaborando, assim, práticas filantrópicas e ampliando a captura de resistências e rebeldias.
Um dos últimos redimensionamentos que destacamos nas análises de Passetti sobre a transposição das sociedades disciplinares para a sociedade de controle diz respeito aos limites da biopolítica. De forma adversa ao verificado em outros autores até agora mencionados, as pesquisas de Passetti levaram-no a confirmar que a “biopolítica não é um conceito universal, diz respeito à sociedade disciplinar” (2013:88).
No lugar da biopolítica, Passetti observa emergir na sociedade de controle a
ecopolítica planetária13, uma nova relação de poder que busca “governamentalizar os
ambientes” (Idem:105) e que pode ser entendida como a “prática de governo do planeta nos tempos de transformação de si, dos outros, da política, das relações de poder e do planeta no universo, com desdobramentos transterritoriais e variadas estratificações conectadas” (Ibidem: 89). É importante frisar que a ecopolítica parte da produção da verdade capitalista sustentável para govenamentalizar o Estado (Ibidem:89).
Herdeira dos investimentos biopolíticos das sociedades disciplinares, um dos ambientes que a ecopolítica investe para governamentalizar é o planeta, talvez o mais importante deles. Como afirma o autor:
13 A noção de ecopolítica de Passetti não deve ser confundida com a definição que o também cientista político
Philippe Le Preste (2005) dá à ecopolítica, entendendo-a como as relações políticas no âmbito da proteção do meio ambiente e dos seus recursos.
Estamos numa sociedade de controle voltada para a ecopolítica. O ambiente planetário passa a ser alvo do investimento na vida. Não mais uma vida biológica, do indivíduo como bem e finalidade, a saúde de cada homem na Terra segundo a moderna concepção ocidental de sociedade e Estado europeia e estadunidense investindo no fazer a vida. A vida dos minerais, da flora, da fauna, dos mares e dos risos, dos humanos passa a ser vista em interfaces. Um novo saber sobre a vida, ultrapassando os balizamentos biológicos e evolucionistas, procura relacionar matéria e espírito, natureza e cultura, manifestações de vida, defesas de espaços, como reservas e santuários, mas sobretudo emergência de uma ética que redimensione as ocupações das superfícies, profundidades e ares, simultaneamente, conserve etnias espalhadas pelos diversos lugares como herança da própria humanidade. Conservar o planeta, sua etnias, recuperar zonas devastadas pelos investimentos no passado, apoiar populações carentes, enfim, dar qualidade de ida ao planeta (Passetti, 2003:268).
Além de deslocar os estudos sobre as sociedades de controle observando a emergência de novas relações de poder que não se esgotam na biopolítica, mas que se configuram a partir dela, Passetti foi o único autor que ao longo do percurso de quase 30 anos após o surgimento da noção de controle e de sociedades de controle chamou atenção para a relação entre sociedades de controle e acontecimento sideral.
Como apontado anteriormente, nas pistas deixadas por Deleuze não constam referências ao espaço sideral como uma das procedências destas sociedades. O primeiro autor a inclui-lo em suas análises sobre as sociedades de controle foi Passetti, o que é citado em diversos trechos dos textos reunidos no livro Anarquismos e sociedade de controle, de 2003. Misto de admiração com o quão longe o humano foi capaz de chegar e com a perpetuação de práticas de dominação do homem pelo homem, Passetti expressa as inquietações que o livre pensar provoca:
A Terra continua azul. Ela sempre foi azul. Nós fomos informados pela voz de Yuri Gagarin e depois pelas imagens, via satélite, publicadas nas revistas coloridas. Em breve tempo assistimos pela televisão, ao vivo, à chegada à Lua. Navega-se pelo espaço, constroem-se estações orbitais, instalam-se satélites e senta-se diante da TV ou do monitor do computador para orar pelos deuses midiáticos. A sociedade de controle, que prepondera desde a segunda metade do século XX, ainda e uma sociedade com base numa sociabilidade autoritária, que educa para a guerra, medos, supostos direitos. A sua base ainda é a de uma educação que acredita na punição e em supostos direitos universais de igualdade. Precisamos abolir a punição. A Terra é azul (Idem:84).