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III. BÖLÜM: SİYASAL ARAYIŞLAR

3.1. Serbest Cumhuriyet Fırkası Dönemi

3.1.5. TBMM’nin Olağanüstü Birleşimi

3.1.5.2. Birleşimin İçeriği

Deleuze acertou ao afirmar que Foucault se preocupava com o que viria após o mundo da disciplina. Principalmente em algumas entrevistas durante a década de 1970, Foucault falou explicitamente do caráter transitório das instituições disciplinares, as quais percebia estarem em crise.

Ao responder questões sobre o tema das prisões colocadas por um periódico alemão em 1973, ele comentou que em países como a Suécia e a Holanda as prisões já eram mais flexíveis que na França. Afirmou que naqueles países a flexibilização das prisões não era algo isolado, mas acompanhava todo o sistema de instituições relativamente flexíveis neles criados que comportavam “a psiquiatria aberta, o controle da medicina, o acompanhamento

psicológico e psiquiátrico aos quais as populações eram expostas de maneira difusa” (Foucault, 1973: 1299).

Em outra entrevista, concedida durante sua visita ao Japão em 1978, Foucault voltou ao assunto quando questionado sobre a possível universalidade de suas análises sobre as sociedades disciplinares. Ao destacar que as análises são sempre determinadas pelo espaço e pelo tempo, em sua reposta reconheceu abertamente a crise disciplinar:

Eu estudei como a disciplina se desenvolveu, como ela mudou segundo o desenvolvimento da sociedade industrial e o aumento da população. A disciplina, que era eficaz para manter o poder, perdeu uma parte de sua eficácia. Nos países industrializados, as disciplinas entram em crise (1978:532).

Além de olhar para os mecanismos que faziam funcionar aquelas sociedades, Foucault reforçou sua percepção da sua crise ao observar que alguns indivíduos também tinham mudado, eram diferentes e mais independentes e não se sujeitavam mais às disciplinas. Diante destes indícios de mudanças, conclui que “(...) somos obrigados a pensar o desenvolvimento de uma sociedade sem disciplina” (Idem: 533).

Quando Foucault fez esta afirmação, em abril de 1978, havia acabado de encerrar o curso “Segurança, Território, População”. Tanto este curso ministrado no Collège de France, quanto o que daria no ano seguinte, intitulado “Nascimento da Biopolítica”, são atravessados por inquietações metodológicas e analíticas que abririam a perspectiva de suas pesquisas para a relação entre governos e regimes de verdade, distanciando-se do que até então havia proposto a estudar dentro de um enfoque que privilegiava a relação saber-poder. Anos mais tarde, na aula de abertura do curso “Do governo dos vivos”, ministrado em 1979/1980, Foucault pode falar deste deslocamento de forma mais explícita, porém nestes cursos a que nos referimos anteriormente não existe esta clareza, mas apenas observam-se inquietações e experimentações.

Do ponto de vista metodológico, naquele momento Foucault buscava meios para produzir uma história do Estado baseado nas práticas dos homens, “a partir do que eles fazem e da maneira como pensam” (2008a: 481). Cabe lembrar que são nestes dois cursos que

Foucault introduz em suas análises o Estado. Entretanto, não estava disposto a fazer, como sempre fez a ciência e a filosofia política, uma história construída a partir do próprio Estado. Ele buscava privilegiar análises locais que partissem das práticas e de como os homens pensam o Estado. No manuscrito reproduzido na aula de 8 de fevereiro de 1978 do curso “Segurança, Território, População” escreveu: “É verdade que nenhum método deve ser, em si, uma meta. Um método deve ser feito para nos livrarmos dele” (Foucault, 2008a:160).

Em relação à analítica, as inquietações de Foucault que atravessam estes cursos conversam com sua percepção da crise das sociedades disciplinares e voltam-se até mesmo em direção às limitações colocadas pela noção de biopoder. Responsável pela edição deste material, o filósofo político Michel Senellart comenta que, embora os dois cursos partam da evocação da problemática do bipoder introduzida por Foucault anteriormente no curso “Em defesa da sociedade” (1976), ao longo das aulas ele se afasta dela para tomar outros rumos.

De fato, tudo acontece como se a hipótese do biopoder, para se tornar verdadeiramente operacional, exigisse ser situada em um marco mais amplo. O anunciado estudo dos mecanismos pelos quais a espécie humana entrou, no século XVIII, numa estratégia geral de poder, apresentado como o esboço de uma “história das tecnologias de segurança”, cede a vez (...) ao projeto de uma história da “governamentalidade”, desde os primeiros séculos da era cristã. Do mesmo modo, a análise das condições de formação da biopolítica, no segundo curso, logo se apaga em benefício da governamentalidade liberal. Em ambos os casos, trata-se de lançar luz sobre as formas de experiência e de racionalidade a partir das quais se organizou, no Ocidente, o poder sobre a vida. Mas esta pesquisa tem por efeito, ao mesmo tempo, deslocar o centro de gravidade dos cursos, da questão do biopoder, para a do governo, a tal ponto que esta, finalmente, eclipsa quase inteiramente aquela (2008a:496).

Nossa proposta para abordar o que Senellart chama de “eclipse da questão do biopoder” passa por ressaltar que Foucault estava atento às transformações dos dispositivos de poder que estavam começando a “abrir as portas dos confinamentos” para se instalarem a céu

aberto9, como se nota nas entrevistas que concedeu no mesmo período em que ministrava estes

cursos. Além da atenção dedicada à transitoriedade das sociedades disciplinares, pensamos que o percurso traçado por Foucault, que acabou conduzindo-o aos estudos sobre governo e governamentalidade, também pode ter sido estimulado pela percepção de um possível esgotamento da biopolítica enquanto categoria analítica capaz de “abrir portas” e impulsionar uma história do presente que evidenciasse totalizações a partir do Estado (Idem:160).

O que deveria ser estudado agora é a maneira como os problemas específicos da vida e da população foram postos no interior de uma tecnologia de governo que, sem ter sempre sido liberal, longe disso, não parou de ser acossada desde o fim do século XVIII pela questão do liberalismo (Foucault, 2008b:439).

O “eclipse da questão do biopoder” implica deslocamentos. Da problemática do bipoder/biopolítica, Foucault abriu para a questão do governo e da governamentalidade. Elas o fizeram debruçar-se sobre o liberalismo e o neoliberalismo, o único momento de sua produção intelectual em que arriscou a estudar a história contemporânea como história- efetiva. Em meio a essa abertura, aparece seu interesse pela segurança, marcadamente concentrado nas análises dos chamados “mecanismos de segurança”, noção que desenvolve no curso de 1978 e sem a qual, segundo a perspectiva de Foucault, não é possível compreender a governamentalidade liberal.

Inicialmente, os “mecanismos” ou “dispositivos de segurança” aparecem nas pesquisas de Foucault sem esta denominação. São citados na última aula do curso “Em Defesa da Sociedade” na listagem dos campos de atuação do bipoder/biopolítica – a nova tecnologia do

9 O caso da “crise dos manicômios” é um exemplo do processo de “abertura” que se abateu sobre os meios de

confinamento em meados do século XX. Siqueira (2009:21) mostra como a loucura anteriormente encerrada pela sociedade disciplinar na forma de doença mental a ser “curada” em hospitais psiquiátricos transformou-se em uma “legião de compulsivos, esquizofrênicos, bipolares, crianças hiperativas, fóbicos, portadores de estresse pós-traumático que circulam pelas ruas das cidades ao ar livre e são cada vez mais estimulados a se reunirem em grupos para reivindicar políticas públicas de saúde mental”.

poder que não sabia ainda como denominar pois havia acabado de apresenta-la.10 Ao apontar a

biopolítica como tecnologia de regulação da população, Foucault apontou que existiria um último domínio abarcado por esta nova tecnologia de poder voltada para as relações da espécie humana (corpo-espécie, o humano enquanto mero ser vivo) com o seu meio, que poderia ser tanto o ambiente natural em que se vivia (geográfico, climático, hidrográfico), como também o artificial (a cidade, o território de um país). Neste primeiro momento, a biopolítica havia “ofuscado” os “mecanismos de segurança”, que vieram a ser destacados dos dispositivos biopolíticos apenas no curso de 1978. É interessante observar como as análises sobre o biopoder que, como apontou Senellart, exigiram de Foucault a situação de um campo mais amplo, ao mesmo tempo podem tê-lo levado à percepção da existência de outros mecanismos de poder além da soberania, das disciplinas e, talvez, até mesmo da própria biopolítica.

No curso “Segurança, Território, População”, Foucault atribuiu ao campo da “segurança” tudo o que é contemporâneo, como fez, por exemplo, ao citar as novas formas de penalidades e do cálculo destas que despontavam àquela época nos Estados Unidos, as quais seriam analisadas posteriormente no curso “Nascimento da Biopolítica”. Foucault parecia tão entusiasmado com os mecanismos de segurança que, na aula de abertura do curso de 1978, chega a indagar-se se não seria possível “efetivamente falar de uma sociedade da segurança” (Foucault, 2008a:15). Menciona isto apenas uma vez, sem nunca mais voltar ao tema, também porque seu entusiasmo posteriormente se voltou para a questão do governo de cada um na sociedade, realçando assim questões relativas às resistências.

10 Apesar de durante as conferências sobre a medicina social, ministradas em 1974 na Universidade Estadual do

Rio de Janeiro, Foucault ter se referido à biopolítica ao delimitar o campo da “bio-história”, foi ao longo de 1976, mais especificamente em três momentos, que Foucault ateve-se sobre o conceito de biopolítica/biopoder. Primeiramente em março, na última aula do curso “Em Defesa da Sociedade”. Depois, retomou-o em um artigo publicado em outubro daquele ano no jornal Le Monde, a propósito do lançamento do livro De la biologie à la

culture, de Jacques Ruffié. Por fim, em dezembro, quando é publicado A Vontade de Saber, o primeiro volume da História da Sexualidade. Ao contrário de autores que estabelecem diferenças entre biopoder e biopolítica, tomando esta última como tática de resistência ao primeiro com o objetivo de conjugá-los à dicotomia estabelecida entre Estado-sociedade civil, neste trabalho compreendemos ambos como expressões de tecnologias políticas de gestão das populações produzidas pela própria governamentalização do Estado.

Irredutíveis aos mecanismos de soberania e de disciplina, Foucault sublinha como característico dos mecanismos de segurança serem centrífugos, ou seja, permitirem integrar tudo o que estiver ao seu alcance, deixando os circuitos ou as séries cada vez mais amplas.

A segurança é uma certa maneira de acrescentar, de fazer funcionar, além dos mecanismos propriamente de segurança, as velhas estruturas da lei e da disciplina. Na ordem do direito, portanto, na ordem da medicina, e poderia multiplicar os exemplos – foi por isso que lhes citei este outro –, vocês estão vendo que encontramos apesar de tudo uma evolução um tanto ou quanto parecida, transformações mais ou menos do mesmo tipo nas sociedades, digamos, como as nossas, ocidentais. Trata-se da emergência de tecnologias de segurança no interior, seja de mecanismos que são propriamente mecanismos de controle social, como no caso da penalidade, seja dos mecanismos que têm por função modificar em algo o destino biológico da espécie” (Foucault: Idem:14-15).

O mais singular dos dispositivos de segurança, segundo o filósofo, é que eles recorrem aos próprios elementos que compõem a realidade para efetuar o exercício do poder, ou melhor, para governar as multiplicidades. De forma diferente dos dispositivos de soberania e disciplinares, os dispositivos de segurança não procuram impedir ou então corrigir diretamente os fenômenos. Ao contrário, deixam que eles ocorram, contudo utilizam-se dos elementos da própria realidade ou do meio para governar:

A lei proíbe, a disciplina prescreve e a segurança, sem proibir e nem prescrever, mas dando-se alguns instrumentos de proibição e de prescrição, a segurança tem essencialmente por função responder a uma realidade de maneira que essa resposta anule essa realidade a que ela responde – anule, ou limite, ou freie ou regule. Essa regulação no elemento da realidade é que é, creio eu, fundamental nos dispositivos de segurança (Ibidem: 61).

É importante ater-se sobre esta qualidade dos mecanismos de segurança. Eles deixam

fazer, pois sem que haja um nível mínimo de laissez-faire, estes mecanismos não funcionam. Como analisa Foucault, os mecanismos de segurança, que a partir do século XVIII passam a ser estimulados principalmente pela racionalidade liberal de governo, exigiram cada vez mais liberdade, entendida como garantia de movimento, deslocamento, abertura para a circulação de coisas e pessoas (Ibidem: 64); a segurança como modo de exercício da liberdade liberal.

E como agiriam, para Foucault, estes mecanismo de segurança? A segurança age sobre a multiplicidade no espaço organizando-a como um ambiente. Por vezes chamado pelo autor de “meio”, o ambiente está diretamente relacionado à promoção de circulações. Nele podem ser incluídos dados naturais ou artificiais, não importa. Eles são sempre tidos como “naturalidades” que compõem séries abertas, a serem geridas por estimativas e probabilidades. No ambiente, a segurança não se dirige aos indivíduos e nem ao povo, mas à população, à multiplicidade de homens organizados enquanto espécie biológica que possui regularidades e naturalidades próprias. Este é o modo “clássico” da atuação da biopolítica, conforme Foucault apresenta em outras oportunidades. Porém, quando a segurança volta-se para o governo da multiplicidade de coisas ela pode ser chamada de biopolítica, apesar de também recorrer a estimativas e probabilidades?

O século XVIII, para o autor, enfrentou o problema de “ressituar a cidade num espaço de circulação” (Foucault, 2008: 17). Desde a Idade Média, as cidades eram espaços isolados tanto da perspectiva física quanto do ponto de vista jurídico e administrativo. Em comparação à amplitude do campo, a cidade configurava-se como um espaço murado e denso que abrigava uma grande heterogeneidade econômica e social. Com o crescimento do comércio e das populações, as cidades viram-se obrigadas a aumentar os seus intercâmbios com o seu entorno, com outras cidades e com o campo.

Intervir sobre o meio para favorecer a circulação e evitar tudo o que fosse nocivo à cidade, ao território e ao Estado tornou-se mais uma forma de se governar a partir do século XVII – um governo que visava sobretudo o desenvolvimento das forças econômicas e sociais. Imediatamente após ter aparecido na Europa do século XVI um volume crescente de reflexões sobre a razão de Estado, Foucault destaca que agir sobre a circulação tornou-se mais uma incumbência do soberano. Esta nova responsabilidade da razão de Estado com a promoção das circulações acabou por se mesclar às anteriores que concerniam a exercer a soberania

sobre o território e governar os homens (responsabilidade esta que o Estado assume espelhando-se no poder pastoral da Igreja Católica).

Para analisar o que poderiam ser as sociedades pós-disciplina, Foucault voltou-se para acontecimentos extremamente contemporâneos que ocorriam na Europa e nos Estados Unidos: a emergência do neoliberalismo ou, como preferiu, a emergência da governamentalidade neoliberal. Em suas análises, afirmou que além de ser reivindicadora de “liberdade” ante uma razão de Estado planificadora e no extremo totalitarista (como o nazismo), a governamentalidade neoliberal seria aquela que só consegue funcionar em meio à produção de liberdades.

Segundo Foucault, esta governamentalidade não apenas necessita produzir liberdades como também as consume. Ao mesmo tempo em que cria liberdades, esta nova razão governamental estabelece limitações, controles e coerções. Este mecanismo que contrapõe liberdades e limitações, por sua vez, implica em um cálculo de criação e destruição de liberdades que Foucault denomina segurança. O problema da segurança, portanto, se apresenta quando as várias liberdades entram em conflito, o que passa a figurar como sinônimo de perigo:

Problema de segurança: proteger o interesse coletivo contra os interesses individuais. Inversamente, a mesma coisa: será necessário proteger os interesses individuais contra tudo o que puder se revelar em relação a eles, como um abuso vindo do interesse coletivo. É necessário também que a liberdade dos processos econômicos não seja um perigo, um perigo para as empresas, um perigo para os trabalhadores. A liberdade dos trabalhadores não pode se tomar um perigo para a empresa e para a produção. Os acidentes individuais, tudo o que pode acontecer na vida de alguém, seja a doença, seja esta coisa que chega de todo modo, que é a velhice, não podem constituir um perigo nem para os indivíduos nem para a sociedade. Em suma, a todos esses imperativos – zelar para que a mecânica dos interesses não provoque perigo nem para os indivíduos nem para a coletividade devem corresponder estratégias de segurança que são, de certo modo, o inverso e a própria condição do liberalismo. A liberdade e a segurança, o jogo liberdade e segurança – é isso que está no âmago dessa nova razão governamental cujas características gerias eu lhes vinha eu lhes vinha apontando. Liberdade e segurança – é isso que vai animar internamente, de certo modo, os problemas do que chamarei de economia de poder própria do liberalismo (Foucault, 2008b: 89).

Outro atributo da governamentalidade neoliberal destacado por Foucault é que ela privilegia intervenções de tipo ambiental, que agem apenas sobre as “regras do jogo” e nunca sobre os “jogadores”. Como exemplos desta forma de intervenção ambiental, retoma o trabalho de economistas estadunidenses, rapidamente citados no curso anterior, que aplicam lógicas do mercado para administrar a “oferta do crime”. Este tipo de intervenção não atua da mesma forma que mecanismos disciplinares agiriam, por exemplo, ampliando os efetivos de vigilância policial. Ao contrário:

Não uma individuação uniformizante, identificatória, hierarquizante, mas uma ambientalidade aberta às vicissitudes, aos fenômenos transversais. Lateralidade. Tecnologia do ambiente, das vicissitudes, das liberdades de (jogos?) entre demandas e ofertas (Idem:356).

Para Foucault, o neoliberalismo nos Estados Unidos não é apenas uma “alternativa política”, mas “toda uma maneira de ser e pensar” (Ibidem: 301) ou “um estilo geral de pensamento, de análise e de imaginação” (Ibidem:302). O neoliberalismo estadunidense foi hábil em expandir os mecanismos de segurança ou o jogo “liberdade e segurança” por meio de análises econômicas a campos que até então não eram propriamente econômicos, como a questão da criminalidade e da delinquência, do consumo de drogas, ou então, conforme o exemplo que se deteve por mais tempo: a teoria do capital humano e o homo economicus.

A teoria do capital humano, sobretudo nas obras dos economistas Theodore Schultz, Gary Becker e Jacob Mincer, Foucault mostra como o mercado tornou-se o princípio chave para a análise das relações sociais e o lugar da formação da verdade, segundo regras que determinam o que é falso e verdadeiro para o conjunto social. A partir deste deslocamento, por exemplo, os neoliberais reconceitualizaram a força de trabalho, tomando-a como um capital detido pelo trabalhador (e não mais como uma mercadoria, como concebia o pensamento econômico clássico), cuja competência ou aptidões para o trabalho (fatores físicos, culturais e psicológicos) são capazes de definir o fluxo de salários, tido como um rendimento que este capital pode produzir. Abriu-se espaço para que o trabalhador fosse

introduzido nas análises econômicas como um sujeito econômico ativo ou uma unidade empresarial, que encontra em suas aptidões a fonte de seus rendimentos. Decorre da teoria do capital humano uma crescente preocupação com o aprimoramento dos fatores que compõem este capital, sejam eles elementos inatos, como a saúde e a composição genética, ou elementos adquiridos, como investimentos culturais, afetivos e educativos, que incidirão sobre a maneira como cada indivíduo busca melhorar suas qualidades e até como as famílias criam seus filhos, visando maximizar as potencialidades de gerar rendas.

É neste sentido que Foucault afirma ter havido uma generalização do modelo do homo

oeconomicus do campo propriamente econômico para o campo social. O homo oeconomicus é um empreendedor de si mesmo, inscrito na lógica da concorrência do mercado produtora de sujeitos-empresa que requerem investimentos contínuos. A partir da configuração do mercado, tido como o ambiente sobre o qual são feitas intervenções, o homo oeconomicus torna-se o “eminentemente governável” por uma governamentalidade que age sobre o ambiente e não sobre o sujeito.

Note-se que o homo oeconomicos é lembrado por Foucault como aquele que pretende escapar ao poder soberano, mas que se torna governável pela governamentalidade liberal. O empreendedor de si é governado de forma indireta, na medida em que responde às demandas colocadas pelo ambiente, que no seu caso específico é o mercado.