III. BÖLÜM: SİYASAL ARAYIŞLAR
3.4. Cumhuriyet Halk Fırkası’nın Üçüncü Büyük Kongresi
3.4.1. Parti Programı
Espaço sideral, órbita terrestre e planeta Terra. Eis outros espaços a serem analisados sob a perspectiva das relações de poder que se instauram. Trata-se, portanto, de uma questão ao mesmo tempo topológica e política a ser problematizada a partir da projeção do humano para fora do seu planeta.
Neste estudo pretende-se mostrar como o acontecimento espaço-sideral desloca nossa percepção para ressaltar das relações de poder aquelas que concernem mais à regulação do que a qualquer outro mecanismo de poder. A regulação aparece nas relações de poder quando, por diversos motivos, uma força não consegue impor-se a ou anular outras forças para que o seu fluxo se expanda. As regulações dizem respeito a relações de moderação, de equilíbrio e de convívio entre forças distintas que não podem se anular, uma vez que suas existências são necessárias para a configuração de uma determinada economia de poder, ou porque uma anulação poderia implicar em um alto custo político e também poderia colocar em risco uma dada configuração das relações de poder.
Tendo como chave de leitura a analítica desenvolvida por Michel Foucault no conjunto de sua obra, podemos observar diferentes mecanismos de poder que se ajustam configurando as diferentes sociedades que o filósofo descreveu e analisou.28 Em primeiro
lugar o poder soberano (o “poder de morte”), que se ocupa da distribuição da justiça e da manutenção do território nas sociedades de soberania, mediante apropriações, confiscos e banimentos.
Na base das relações de poder nas sociedades disciplinares está o biopoder (o “poder sobre a vida”). Foucault define que um de seus polos seria o poder disciplinar – individualizante
28 Muitos estudos procuraram enfocar o ajuste entre soberania e biopolítica, sobretudo os trabalhos de Giorgio
Aganbem, Michel Hardt, Antonio Negri e Roberto Esposito. Porém, poucos exploraram as tecnologias de poder que funcionam a partir da combinação disciplina e regulação, ou apenas da regulação, que foram capitais para o desenvolvimento do neoliberalismo.
e encarregado de agir sobre os corpos humanos dispostos em espaços fechados (confinamentos) para deles extrair mais energias econômicas e inibir resistências políticas.
O outro polo, a biopolítica, voltar-se-ia para o governo da população, apresentando, assim, um aspecto totalizante. Ao debruçar-se sobre a biopolítica, Foucault destacou o seu aspecto de “poder regulador” desdobrado de sua atuação sobre o conjunto dos homens tomados enquanto espécie. A biopolítica do Estado requeria, dentre outros elementos, informações produzidas pela estatística. Por meio da análise destas informações, recorrendo portanto a probabilidades sobre os nascimentos, mortes, casamentos, incidência de doenças, longevidade, e também as condições que faziam todas estas categorias variarem, a população passou a ser governada com o objetivo de majorar a vida. A partir desta forma de governar à distância, que não se dirige diretamente aos indivíduos mas ao conjunto que conforma a população, Foucault evidenciou relações de poder derivadas do que chamou de mecanismos de regulação, descrevendo a biopolítica como “uma série de intervenções e controles
reguladores” (Foucault, 2005:131).
Porém, a regulação, como mostrou Foucault, não se restringia apenas à biopolítica. Ela também estava na base do funcionamento de outros mecanismos de segurança, os quais descreveu como relacionados ao governo das mercadorias, dos recursos naturais, dos ares, das moradias, das ruas, ou seja, dispositivos destinados a se ocuparem e a promoverem as circulações das coisas, sem as quais não haveria continuidade dos investimentos capitalistas.
Frente a uma razão de Estado instituída pelo pensamento político do século XVII baseada na regulamentação, o pensamento econômico que emerge no século XVIII denunciou o aspecto intervencionista e autoritário, chamado de artificial, desta razão de Estado. Como proposta, os economistas defendiam menos Estado e uma nova arte de governo que teria como princípio fundamental zelar pela “naturalidade” dos processos econômicos e sociais. Esta nova governamentalidade deveria mais gerir e regular do que intervir e regulamentar.
Foucault (2008a) apresenta esta nova governamentalidade como o liberalismo, que fez da liberdade um elemento indispensável para o seu próprio funcionamento, pois torna- se produtora e consumidora de liberdade. É importante enfatizar o que significa a preocupação com a “naturalidade”, com os processos naturais, expressa pela economia política e pelo liberalismo que tanto se esforçaram para defendê-los e incentivá-los em suas práticas governamentais.
Os fisiocratas foram os primeiros a enfatizar esta naturalidade no século XVIII. Suas críticas à razão de Estado baseavam-se no modelo de funcionamento do mercado. No pensamento liberal, o mercado é uma naturalidade que sempre busca livremente encontrar o seu próprio equilíbrio, de forma que oferta e demanda estabelecem por mecanismo naturais o valor de uma mercadoria, o seu melhor preço, o preço normal. Decorre disso que o pensamento liberal possui uma grande fascinação pelo “natural”, tendo como modelo de bom governo aquele que respeita a espontaneidade dos mecanismos econômicos. É importante frisar que este “natural” do liberalismo foi construído a partir da oposição ao “artificial” atribuído pelos economistas à razão de Estado. No lugar de intervir na economia e na sociedade, a nova arte de governo, de acordo com os liberais, deveria respeitar o natural, cujas evidências seriam oferecidas mediante a observação do que ocorre espontaneamente no mercado, nos circuitos econômicos, na sociedade.
São estas evidências ditas “naturais”, este conhecimento obtido pela economia política com a observação do “comportamento natural”, que vão limitar internamente a razão de Estado. Para os liberais, como aponta Foucault, nem mesmo as liberdades individuais deveriam interferir neste processo, pois são externas à razão de Estado.
O liberalismo e sua versão neoliberal mostram como na história dos dispositivos de governo houve uma certa tendência à valorização das tecnologias de poder ligadas à
regulação, no lugar de se privilegiar mecanismos que funcionam por meio da proibição ou da regulamentação prescritiva.
Embora não deixem de recorrer aos outros mecanismos já citados, as sociedades de controle expandem o regime da regulação para todos os campos da vida, incluindo assim no âmbito do governo aquilo que anteriormente não pertencia a sua alçada. Por exemplo: são nas sociedades de controle que o clima passará a ser regulado ou governado. É nelas que se cria, pelo menos, a inteligibilidade de que o governo das ações e condutas humanas poderia controlar as mudanças climáticas indesejadas como o aquecimento global.
Nesta tese, partimos do pressuposto de que os mecanismos de regulação são mecanismos de controle, ou seja, que as relações de poder denominadas controle são relações de regulação. É muito comum a associação direta do termo controle ao sentido de “poder, domínio ou poder, ou autoridade sobre alguém ou algo” (Houaiss, 2012).
Porém, não o empregamos aqui com esta acepção, pois os mecanismos de controle associados à regulação que procuraremos descrever dizem mais respeito a atos de “verificação” e “checagem”, sentido que o vocábulo também possui. Aliás, os dicionários etimológicos datam a acepção de “dominação” atribuída ao vocábulo controle como sendo posterior ao sentido de “verificação” e “checagem”. Na etimologia do vocábulo em inglês, o sentido de dominação aparece no século XV.29
Já na evolução das palavras francesas contrôle (substantivo) e contrôler (verbo), a acepção de dominação aparece inicialmente no século XVII, relacionado a uma “vigilância dominadora”, para no século XIX passar a ser utilizado como sinônimo de dominação.30
29 De acordo com o vocábulo “control” no Online Etymology Dictionary. Disponível em:
http://www.etymonline.com/index.php?term=control&allowed_in_frame=0. Consultado em 18/04/2014.
30 Cf. os vocábulos contrôle e contrôler no dicionário Le Trésor de la Langue Française informatisé. Disponível
em: http://atilf.atilf.fr/dendien/scripts/tlfiv5/visusel.exe?12;s=2941295970;r=1;nat=;sol=1;. Consultado em 18/04/2014.
A palavra “controle” tanto na língua inglesa (control) quanto na língua francesa (contrôle) remontam ao século XIV quando se formaram por derivação do termo em latim
contrarotulus, que poderia ser traduzido por “contra o rolo”.31 Na Idade Média, o contrarotulus designava o método usado na administração feudal em que os registros de coisas ou pessoas eram efetuados em duplicidade. Antes da difusão do papel como suporte para a escrita, ocorrida com a invenção da imprensa no século XV, os pergaminhos eram os meios em que se registravam as mais diversas informações.
Os pergaminhos que se desenrolavam perpendicularmente, de cima para baixo, denominados rotulus, além de serem empregados para leituras públicas de textos litúrgicos ou de proclamações oficiais, eram preferencialmente utilizados para a confecção de listas administrativas, para a escrita de petições destinadas ao Papa, ou para listar o nome dos clérigos mortos, nos Rouleaux des morts (Rolos dos Mortos), muito comuns na Idade Média.32 Para assegurar que os rotulus arrolavam informações autênticas, elaboravam-se os contrarotulus, que eram cópias idênticas dos rotulus, também em pergaminho, feitos para servirem de meios de verificação, de checagem, de controle.
O século XV, que também acompanhou a emergência do Estado Moderno, viu esta técnica contábil medieval de verificação ser substituída por anotações em livros – método difundido pelas cidades italianas que, após a invenção da imprensa, passaram a utilizar livros de contabilidade para controlar seus negócios comerciais. Estas técnicas contábeis dizem respeito ao nascimento da estatística, a ciência dos Estados.
31 Segundo Bizzochi (2014), cotrarotulus, do latim, teria dado origem à expressão “contre rôle”, transformada
em “contrêrole” pelo francês do século XVII, e que se derivou no substantivo “contrôle” e no verbo “contrôller”, os quais foram tomados de empréstimo pela língua portuguesa no século XVIII. Disponível em: http://revistalingua.com.br/textos/blog-abizzocchi/controle-e-controlar-qual-e-o-primitivo-326777-1.asp. Consultado em 18/10/2014.
32 Cf. a exposição virtual “L’Aventure des Ecritures, matières et formes”, realizada pela Bibliothèque nationale
de France (BNF). Disponível em: http://classes.bnf.fr/dossisup/supports/index13.htm. Consultado em 12/11/2014.
A produção deste duplo registro, voltado para a certificação da autenticidade do registro original, era uma maneira de se regular não apenas o que existia de real, mas também de instituir mecanismos de regulação da própria prática administrativa. Assim, podemos observar que tecnologias voltadas para a verificação e para a checagem foram produzidas por todas as sociedades ao longo dos tempos, ou seja, todas as épocas produziram suas tecnologias de governo das coisas e dos homens derivadas da regulação. Porém, são nas sociedades de controle que os dispositivos de governo baseados nas regulações, que aqui denominamos por controle, se sobrepujam às demais tecnologias políticas de governo, alterando assim a composição geral dos mecanismos de poder.
O filósofo francês Frédéric Gros (2012) acredita que a regulação poderia ser pensada como uma forma de poder específica e diferente das tradicionalmente enfocadas pela filosofia política. Ele observa que o pensamento político clássico habituou-se a trabalhar apenas com as noções de coerção e de consentimento enquanto mecanismos de poder. Os dois casos são formas diferentes de se produzir obediência. No primeiro, pela submissão da vontade de um indivíduo a uma força superior que o domina, valendo-se da violência para fazer o outro se dobrar (o modelo da dívida). Já no segundo caso, o indivíduo aliena-se livremente de sua vontade e passa a obedecer por consentimento a uma lei ou a uma ordem (o modelo do contrato).
Foucault construiu uma analítica do poder diferente da instituída pela Teoria Política clássica. Para ele, haveria o poder soberano e o poder disciplinar, porém mesmo neste outro modelo estabelecido por Foucault, diz Gros, ainda prepondera a questão da vontade, de como “uma vontade se impõe a outras”. Trata-se, ainda, de tecnologias de produção de obediência que, segundo Gros, compreendem “a submissão física, o consentimento refletido, o respeito ao proibido e a docilidade disciplinar” (2012:212).
Quanto à regulação, Gros aponta haver uma ruptura em relação aos demais mecanismos de poder, pois ela não se dirigiria à vontade, mas se endereçaria prioritariamente às realidades e
às naturalidades do meio. Ao invés de ter como finalidade submeter, produzir consentimento, impor respeito ou então docilizar, ela visaria promover equilíbrios e moderações. A regulação – e nisto o autor se apoia no que anteriormente Foucault havia descrito sobre os mecanismos de segurança – volta-se para o ambiente, organizando-o para que os sujeitos performatizem suas ações com vistas a otimizar os seus interesses (Foucault, 2008b).
Na tradição do pensamento liberal, os sujeitos econômicos (seja o da troca ou o da concorrência) demandam liberdade para empreender seus negócios, o que se realizou na prática por meio da adoção de medidas voltadas para limitar internamente a razão de Estado e a constituição do mercado como um ambiente de liberdade econômica, que passou a funcionar como lugar de produção da verdade da prática governamental (Idem). É importante sublinhar que este corolário liberal não implica em menos intervenção estatal, como pretende- se fazer crer. O que ocorre é que as intervenções deixam de ser diretas, no sentido de não serem efetuadas na forma de uma lei que obrigue o indivíduo a algo ou uma norma que regulamente um procedimento. Na prática liberal, o Estado, ou o soberano, não intervém sobre o indivíduo, mas sobre o ambiente. Dentre os diferentes mecanismos que o Estado possui para governar, a governamentalidade liberal procura privilegiar as intervenções indiretas, aquelas que recaem sobre o ambiente-mercado, sem tocar diretamente no indivíduo, embora este sempre seja afetado pela mudança ambiental, uma vez que toda alteração do ambiente implica no recálculo das estratégias para que seus interesses sejam alcançados.
O caso das taxas de juros é um bom exemplo para se observar como se governa intervindo sobre o ambiente e como os mecanismos de intervenção estatal são corriqueiros. A taxa de juro definidas pelo banco central de cada país é a referência para a oferta de crédito em um determinado território. Ela tem a capacidade de incidir sobre o ritmo da economia de um país, impulsionando o seu crescimento ou refreando a sua atividade, pois determina tanto a capacidade de produção como a de consumo da população ao regular a disponibilidade de
crédito. Não é a toa que este mecanismo é o mais utilizado pelos governos para regular a economia com o objetivo de prevenir ou superar crises. A liberalização da taxa de juros, ou seja, permitir que os juros da economia de um país flutue conforme a realidade do mercado, é uma das medida defendidas pelo neoliberal Consenso de Washington, elaborado por instituições financeiras internacionais que se tornou, a partir de 1990, a política oficial do Fundo Monetário Internacional a ser aplicada em países em desenvolvimento com problemas de endividamento. Também não é por acaso que as mudanças nas taxas de juros sempre sejam alvo de intermináveis debates, pois indiretamente afetam a todos, do industrial que produz componentes para satélites à dona de casa que compra tomates. Mas a constituição deste espaço da liberdade de oferta e demanda, e para que ele exista, são necessários organismos internacionais, bancos, bolsas, seguros, tribunais de arbitragem e justiça, enfim, um conjunto de elementos que confiram segurança a este ambiente.
No momento em que o neoliberalismo, pensado como uma prática governamental e uma relação entre governantes e governados (Ibidem), se expande em relação aos países em que emergiu ou foi implantado33 com a pretensão de recobrir todo o globo terrestre, o ambiente
de liberdade econômica que requer para o seu funcionamento teve de ser ampliado na mesma proporção. Como no neoliberalismo não existe liberdade sem o seu duplo complementar, a segurança, programas de regulação também tiveram de ser configurados para a escala global, a fim de garantir a liberdade de circulação de determinados fluxos (capital, produtos, mercadorias, recursos naturais, determinadas pessoas) e impedir quaisquer riscos e ameaças à sua livre movimentação, sobretudo os que produzem riquezas. Desta forma, a inteligibilidade neoliberal que, como aponta Foucault, permite analisar relações sociais e comportamentos individuais em termos de oferta e procura, também acabou se generalizando pela superfície do
33 Em Nascimento da Biopolítica, Foucault se ateve principalmente na análise de dois diferentes modelos de
neoliberalismo: o estadunidense e o alemão. Ele mostra que, enquanto nos EUA o neoliberalismo desenvolve-se a partir da cultura e do “jeito de ser” dos estadunidenses, na Alemanha ele foi implantado na reconstrução daquele país após a Segunda Guerra Mundial, sendo a liberdade de mercado o “princípio organizador e regulador do Estado” (2008b:158).
planeta. Agora esta inteligibilidade não permanece mais restrita às fronteiras de um país ou de um grupo de países que possuem um mercado comum, mas reconfigura-se para a extensão do planeta, desde as suas superfícies até suas profundidades.
O mercado se planetarizou à medida em que a Terra foi pretensiosamente transformada em um conjunto sistêmico que poderia ser gerido por uma racionalidade do
cálculo. Para o funcionamento desta emergente governamentalidade planetária, a Terra e tudo o que a compõem passaram a ser cifrados mediante o emprego de tecnologias computo- informacionais, alimentadas pelas possibilidades inauguradas pela obtenção de dados a partir da perspectiva espaço-sideral. Não é difícil de imaginar que, na atualidade, as tecnologias computo-informacionais conectadas aos artefatos espaciais possam desempenhar o papel dos
contrarotulus medievais. Porém, estas tecnologias da gestão de coisas e de pessoas funcionam como programas que checam e verificam de maneira contínua e instantânea, e podem acompanhar quase em tempo real o que se passa com o que existe sobre a Terra. Deste controle tão próximo e concomitante, até mesmo ganha força a pretensão de se produzir a própria realidade, como se a gestão da informação pudesse produzir o que seria o existente e como se o vivente no planeta pudesse governa-los.
Retomar este percurso da configuração do planeta como um ambiente controlável e passível de intervenções, no qual Estados, empresas, ONGs e indivíduos, transformados em sujeitos-empresa, buscam otimizar os seus interesses, sempre evitando que este ambiente de liberdade/segurança seja ameaçado, é um modo de observar a emergência da ecopolítica das sociedades de controle que descreve Passetti. Esta é a forma pela qual as sociedades de controle procuram configurar o seu planeta, em contraposição à noção de mundo forjada pelos antigos e que entrou em colapso com as sociedades disciplinares. Um planeta se faz mediante a configuração de conexões inteligentes dos fluxos que devem atravessar os tantos
mundos que já surgiram: antigo, velho, novo, primeiro, segundo, terceiro, bárbaro, civilizado, desenvolvido, subdesenvolvido, em desenvolvimento...
Na configuração do planeta, o acontecimento sideral ocupa um espaço singular. Ao sair da Terra para ocupar o lugar das estrelas, o ser humano olhou para trás e reconheceu sua morada como um único planeta. O acontecimento sideral que, como pretendemos mostrar, está entre as procedências das sociedades de controle, colocou para as economias de poder o problema de como se gerir a Terra em sua totalidade. Neste sentido, ele abre a oportunidade para se observar a sobrepujança dos programas de regulação sobre as demais economias de poder.
No século XX, a Terra emergiu como corpo a ser gerido, não segundo o modelo de uma “federação de Estados livres” como defendia Kant (2008), mas na forma de um imenso mercado sobre o qual proliferaram mecanismos de segurança. É justamente do jogo entre liberdade e segurança que o planeta como um conjunto sistêmico de fluxos integrados nasceu. Não sem ironia, ele quase sucumbiria natimorto se o lançamento da guerra e da política para a órbita terrestre não tivesse conseguido controlar os riscos de uma hecatombe mediante a configuração do primeiro e realmente planetário programa de segurança a produzir equilíbrios sobre os arsenais nucleares, governando-nos para afastar o planeta de seu fim.
capítulo 2