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O aumento da demanda e do consumo de energia vem se acentuando nos países desenvolvidos e em muitos países em desenvolvimento. Esse aumento é decorrente tanto do progresso tecnológico quanto do desenvolvimento

econômico, sendo estes apontados como os responsáveis pela aceleração das alterações climáticas e ambientais.

A matriz de energia elétrica do Brasil está assentada na geração a partir de usinas hidrelétricas que representam 84% da matriz de energia elétrica (MME, 2008). A fonte é considerada “limpa”, abundante e renovável, do ponto de vista governamental, além da tecnologia de produção ser amplamente dominada pelo país e ser referência para outros países.

Porém, esses empreendimentos têm se revelado, com frequência, severamente impactantes devido à recorrência de problemas físico-químico- biológicos derivados da implantação e operação de usinas hidrelétricas, como da interação com as características ambientais do local de instalação, alterando o regime hidrológico, promovendo assoreamento, emissões de gases estufa, pela decomposição orgânica no reservatório, entre outras incontáveis problemáticas. Além destes, destacam-se também os critérios relacionados a aspectos sociais, particularmente com relação às populações ribeirinhas atingidas pelas obras (BERMANN, 2002).

De forma geral, os impactos produzidos pelas usinas hidrelétricas têm sido amplamente discutidos na literatura, porém ainda são tratados de forma inadequada nos Estudos de Impacto Ambiental. Em relação aos principais impactos físicos e biológicos, de maneira geral, pode-se citar a supressão de extensas áreas de florestas ou agricultáveis, principalmente devido ao alagamento para formação da represa, emissão de gases de efeito estufa (como o metano) e decomposição anaeróbica da matéria orgânica.

O Governo Federal, através do Ministério de Minas e Energia, no que tange à questão de planejamento energético, elaborou o Plano Decenal de

Energia (PDE) 2007/2016, que tem como objetivo planejar no horizonte de dez anos a expansão do sistema energético nacional, definido, assim, o horizonte para novas instalações de infraestrutura energética, necessária para atender ao crescimento econômico do país, segundo critérios de garantia de suprimento de forma ambientalmente sustentável e minimizando os custos totais esperados de investimento, inclusive os socioambientais e de operação (MME, 2008b).

Em termos do potencial hidroelétrico nacional, praticamente 2/3 (63,6%) se concentra na região Amazônica, principalmente nos rios Tocantins, Araguaia, Xingu e Tapajós (BERMANN, 2002). A hidrografia densa e diversificada da Amazônia apresenta muitos pontos com características que possibilitam a construção de usinas hidrelétricas: as chamadas linhas de queda (fall line), formadas por incisões fundas e vales estreitos (COSTA, 2002).

A implantação de empreendimentos hidrelétricos na Amazônia acarreta inevitáveis consequências sociais e ambientais, como influências diretas em terras indígenas ou mesmo a supressão de biodiversidade (BERMANN, 2002). As usinas de grande escala, como as construídas nesta região, estão envoltas em projetos de produção de energia inseridos em uma visão de desenvolvimento geralmente pouco democrática, antissocial e pouco louvável em termos de meio ambiente (COSTA, 2002).

Outro fato importante é que a capacidade de alta geração próxima dos grandes centros consumidores está esgotada, tendo que ser redirecionada principalmente para áreas de maior vulnerabilidade social e ambiental – a Amazônia. Neste caso, a população atingida é mais vulnerável, tendendo a sofrer cotidianamente graves consequências. Essa população é composta basicamente por comunidades indígenas, ribeirinhos e remanescentes de quilombos.

Observando o histórico de construção de barragens no Brasil e no mundo, as preocupações acerca do futuro da população atingida pelas barragens devem ser consideradas. Berman (2002) enfatiza que o discurso hegemônico proferido é de que os atingidos nada mais são do que empecilhos à “selvagem conquista da eletricidade”.

Para o autor:

A construção de uma usina hidrelétrica representou para estas populações a destruição de seus projetos de vida, impondo sua expulsão das terras sem apresentar compensações que pudessem, ao menos, assegurar a manutenção de suas condições de reprodução num mesmo nível daquele que se verificava antes da implantação do projeto [...]. O número de pessoas abandonadas pela Hidrelétrica de Cana Brava, construída sob responsabilidade da empresa belga Tractebel em Goiás, evidenciam essa avaliação. No nordeste de Goiás o diagnóstico colhido foi de morte e destruição [...] foram tabuladas 804 famílias atingidas pela barragem, a indenização afixada para algumas famílias era de R$5.300,00, o que não garante o reassentamento. Lajeado e Serra da Mesa são outras duas hidrelétricas construídas na bacia do Araguaia-Tocantins. Ainda faz parte desse enredo não democrático de construção de barragens a saga dos atingidos pela hidrelétrica de Tucuruí, sudeste do Pará, há mais de 10 anos lutando por indenização de suas terras inundadas (BERMAN, 2002).

Em meio a esse cenário de necessidade de ampliação da disponibilidade de energia elétrica, em especial para subsídio dos processos produtivos, e do conjunto significativo de impactos associados à principal forma de geração de energia elétrica no Brasil, é vital que se discuta o processo de planejamento para a expansão da oferta de energia, que até o momento tem se pautado em questões relacionadas à distribuição dos benefícios e do ônus associados aos empreendimentos, haja vista que, para possibilitar o aumento da disponibilidade de energia elétrica, os impactos são sentidos de maneira mais intensa no âmbito local, enquanto que os benefícios são quase sempre direcionados para longe do espaço impactado. Essa questão também aponta para a discussão sob o enfoque da justiça ambiental que discute, de maneira geral, a desproporcionalidade em

relação à distribuição dos efeitos socioambientais, negativos e positivos, entre diferentes atores envolvidos no processo.

Ao local assim, restam, geralmente as mazelas socioambientais, pois restam as populações desterradas e nem sempre reassentadas a contento, sendo mantida ainda à margem dos recursos transferidos ao município por parte de um poder público localmente suspeito, no mínimo. No plano externo ao local, translocal, apenas benefícios, pois tanto a sociedade quanto os empresários que recebem a energia nada imaginam sobre as agruras do processo de geração de energia “socialmente à jusante”.

Passemos à trama da institucionalidade.