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Situações de conflitos ambientais têm sido desencadeados no Brasil e no mundo, pois no geral, a economia que move a sociedade instala consequências nefandas àqueles menos abastados.

Um dos componentes motivadores para tal, principalmente no Brasil, é a construção de aproveitamentos hidrelétricos, atualmente direcionados para a Amazônia Legal, que envolvem diferentes atores, cada qual defendendo seus objetivos e anseios diferenciados. É evidente, a partir de diferentes exemplos anteriores de construções de AHE, que maiores preocupações e ações devem ser

direcionadas às populações afetadas por estes aproveitamentos. No contexto de produção de energia no Brasil, a partir de sua diretriz de manutenção da matriz de produção por hidrelétricas, algo precisa ser feito para que a situação de desleixo que beira a calamidade não seja reproduzida em escala ampliada.

Devido a isso, expomos uma discussão envolvendo duas categorias de análise, o território e a identidade, perspectivando entender os vários desdobramentos sobre os atingidos, a partir da instalação dos aproveitamentos hidrelétricos no Brasil.

No Brasil, dos eventos hidrelétricos construídos, os relatos são de que a vulnerabilidade populacional está umbilicalmente ligada àqueles desprovidos do acesso a bens informacionais e com recorte de raça e etnia.

Os depoimentos a seguir, suscitam reflexões, que evidenciam o de descaso sentido pelos afetados por parte dos que conduziam o processo de reassentamento.

(...) eles não incluíram a gente como povos indígenas Apinayé impactada, , eles negavam que chegaria o impacto dessa obra que era muito longe. A gente viu que não era contemplado. De qualquer forma ia ser impactado, direta e indiretamente.(...) Eles não queriam dialogar com a gente. (...) não conseguiu com eles nenhum diálogo que contemplasse o nosso povo (grifo nosso). (...) nas audiências não queriam que a gente falasse. Eles queriam que a Funai26 falasse em nosso nome. (...) aí não convocava a Funai nas audiências. Eles diziam que a Funai havia sido convocada. (A.C – Aldeia Abacaxi - Tocantinópolis/TO).

A narrativa demonstra, no mínimmo, a inadequação do EIA/Rima que não contemplou a Terra Indígena Apinayé como área de influência do empreendimento, desconsiderando os possíveis impactos sobre os diferentes meios. Neste campo de discussão, pode-se afirmar o descumprimento à

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FUNAI – Fundação Nacional do Índio. Vinculada ao Ministério da Justiça, é o órgão responsável pelo estabelecimento e execução da política indigenista brasileira em cumprimento ao que determina a Constituição Federal Brasileira de 1988.

legislação que normatiza a questão, sendo uma delas a Resolução Conama nº 01/86 em seu art. 5º, enfatizando que o EIA deve atender à legislação principalmente no que concerne aos princípios e objetivos previstos na Política Nacional do Meio Ambiente (PNMA, Lei 6938/81) além de atender a diretriz do Inciso III que diz o seguinte:

Definir os limites da área geográfica a ser direta ou indiretamente afetada pelos impactos, denominada área de influência do projeto, considerando, em todos os casos, a bacia hidrográfica na qual se localiza”. (BRASIL/Resolução Conama 01/86).

O EIA em questão não definiu a bacia hidrográfica como área de influência (AI) do empreendimento conforme preconiza a lei, deixando claro que a opção pela delimitação da área foi a interação com as atividade ligadas à construção minimizando a cobertura espacial dos possíveis impactos decorrentes do evento supra.

Decorrente desta circunstância, corrobora-se com a assertiva de que a insuficiência dos estudos sobre a área de influência tem sido observada nos EIA/Rima de diferentes tipos de empreendimentos conforme BRASIL, 2007). Neste quesito destaca-se a dos aproveitamentos hidrelétricos.

Durante o processo de licenciamento, a partir do relato, impingiam-se duas condições em relação a esta terra indígena. Uma, em que a Terra Indígena

Apinayé não seria afetada pelo empreendimento, sendo esta condição negada no

EIA/Rima. Porém, o município de Tocantinópolis, do qual a Terra Indígena Apinayé (Figura 17) faz parte, foi considerado como sendo parte da Área de Influência Indireta (AII), assim, nas audiências públicas iniciais os indígenas não eram convidados a participar.

Figura 17: Aldeia Abacaxi (Apinayé) em Tocantinópolis/TO

Depois, quando da inclusão da comunidade nas discussões, ainda limitou- se a participação dada à sua representação, a FUNAI, que às vezes não era convidada às audiências. Importante observar que mesmo tendo a Funai como representante nas audiências, o entrevistado demonstrou desconforto em ser representado pelo órgão, questionando o fato de o órgão pertencer ao governo e, de estar a seu trabalho.

(...) os brancos (...) representante da Funai não pode em nenhum momento responder qualquer coisa. E nós falamos pro Ministério Púbico, denunciamos para o Ministério Público que isso não era certo, essa forma de negociação. (...) Iam passando tudo, já foram fazendo, aí num certo ponto ganhamos uma liminar que precisa contemplar os Apinayés e ouvir os delegados também pra poder ter uma negociação. Sempre eles vem negando. (...) Ao longo do tempo até os caras que representavam a empresa que essa obra não ia impactar e assim não tinha impacto nenhum.

(...) depois a gente viu que já não dava como impedir, foi quando a gente foi no ministério, manifestando que seja contemplado pra pagar as compensações. (A.C. Aldeia Abacaxi – Tocantinópolis/TO).

Mediante liminar judicial, foi possibilitada a participação indígena nas audiências, mas eles logo perceberam que mesmo mesmo assim, a construção do empreendimento não poderia ser paralisada, aconteceria de qualquer modo. A partir de então, as discussões que se sucederam foram rapidamente voltando-se para o estabelecimento de compensações pelos impactos que seriam deflagrados, compreendidas como "direitos" das comunidades afetadas.

Quando possibilitada de entrar no processo dialógico, durante as audiências, essa comunidade, por vezes, era taxada de utilizar discurso conflituoso, como no depoimento abaixo:

(...) Outra coisa que eles falam é que quando a gente é ouvido eles falam que a fala de nosso povo (grifo nosso) é uma fala conflituosa. (A.C. Aldeia Abacaxi – Tocantinópolis/TO).

Depreende-se que além de ser excluída do processo de discussão e não ser considerada uma comunidade afetada, ainda eram acusados de incitar o conflito, mesmo que pretendessem, única e legitimamente, a defesa do território e das condições de reprodução de suas atividades cotidianas.

Agregam-se aqui detalhes que demonstram, ainda que de forma incipiente, um conhecimento prévio, adquirido ao longo de diferentes reivindicações, para atendimento de sua comunidade. O entrevistado, em vários momentos, demonstrou conhecer parte da estrutura "não indígena" para que a obra acontecesse. Sobre as negociações, assim discorreu:

Não (negociava) com a coletividade, muita gente, por exemplo. As comunidades tradicionais "não índio", eles tem perdido suas áreas, suas terras e muitos deles não tinham a documentação também. Aí era difícil. Daí cadê o documento (de propriedade) da terra? Se não tiver não vai (receber indenização). (A.C. Aldeia Abacaxi – Tocantinópolis/TO).

Avulta aí a visão capitalista sobre a terra, expondo grupos e pessoas ao constrangimento em nome do lucro ou das fontes (energia) que permita a sua

realização ampliada. Visão esta de dominação, discorrida por Vainer (2008), que reforça a concepção "territorial-patrimonialista".

Façamos outro aparte, haja vista que a concepção territorial-patrimonialista remete às formas de compensação e/ou indenização aos afetados, desde que os mesmos possuam os títulos de propriedade de suas áreas atingidas, alagadas. Cabe igualmente atentar para o conceito de atingido, que não é só aquele que tem sua propriedade alagada pelo empreendimento, remetendo antes "ao conjunto de processos sociais e econômicos deflagrados pelo empreendimento que possam vir a ter efeitos perversos sobre os meios e modos de vida da população". (VAINER, 2008, p. 50).

Distante dessa ampliação do conceito, a forma de compensação apresentada pelo EIA/Rima aos afetados no que se refere ao desaparecimento do processo de vazante, remete-se a "ações que promovam reabilitação econômica da produção agrícola em terras altas", porém, com o adendo de que "como o leito temporário juridicamente não pertence aos produtores, a área não é passível de indenização nos moldes tradicionais" (CNEC, EIA/Rima, 2001, p. 131). Esse componente possibilita estender a discussão para a questão dos desdobramentos dos processos no que se refere às áreas à jusante do empreendimento, elementos que incitam e promovem a reflexão apresentada pelo entrevistado