De acordo com Foschiera (2009), o surgimento da produção de energia elétrica no Brasil aconteceu paralelamente ao período de transição de uma economia primária exportadora para uma economia industrial. E ocorreu de modo diferente dos países centrais, onde a industrialização surgiu anteriormente ao desenvolvimento da eletricidade.
O autor aponta que historicamente a produção de energia elétrica flutuou entre as mãos do Estado e da iniciativa privada. O processo de geração, transmissão e distribuição privilegiou poderosos grupos econômicos, pela entrega dos processos às empresas e, ainda quando o Estado detinha o controle desta situação, no final, boa parte da energia acabava sendo subsumida por estas mesmas corporações.
O benefício direcionado propositadamente às corporações, apesar de utilizarem o discurso do "benefício para todos", fez aumentar paulatinamente os questionamentos sobre: "energia para que e para quem? Para qual finalidade
estava se construindo a infraestrutura elétrica? Quem eram os grandes consumidores de energia produzida?" (FOSCHIERA, 2009, p. 89).
A partir de sua busca sobre a história do setor elétrico no Brasil, o autor evidencia quatro períodos distintos:
a) O período de 1890 a 1930
Foi marcado, essencialmente, pela desnacionalização do setor, principalmente na década de 20 do século XX, o que tornou insignificante aquilo que restara fora do capital internacional.
b) O período de 1930 a 1945
Gradativamente, em meio às turbulências do período, como a crise econômica mundial de 1929, a Revolução de 1930, que marca o fim da República Velha, e a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e seus desdobramentos, provocaram mudanças políticas, econômicas e sociais no país. Foschiera (2009 apud Oliveira, 1986) aponta que a gestão centralizada dos estados foi perdendo força a partir da ruptura gradativa do poder das oligarquias agroexportadoras regionais e foram sendo substituídas pela centralização do poder no âmbito federal, respaldada pelos setores burgueses da indústria nacional juntamente com militares, aliados à classe média. Os arquipélagos econômicos (vinculados à economia internacionalizada) foram substituídos pela economia nacional apoiada pela indústria do país, segundo o famoso processo de “substituição de importações”.
Neste contexto, o setor elétrico também foi atingido a partir das ações do governo Vargas, podendo ser destacados: o ato assinado em 1931, que proibiu a compra ou concessão de aproveitamento sobre cursos ou queda d´água pela iniciativa privada; a criação do DNPM (Departamento Nacional de Produção Mineral) em 1933; a promulgação do Código de Águas em 1934 (Foschiera, 2009 apud Pinheiro, 2006) e; a criação do CNAEE - Conselho Nacional de Águas e Energia Elétrica, em 1939.
A centralização da política de produção de energia elétrica ocasionou a redução de investimentos privados no setor. Ao mesmo tempo, ampliava-se o consumo de energia pelas indústrias e pelas residências e abria-se a possibilidade de uma crise de energia no Brasil.
c) O período de 1945 a 1962
Período de intensos debates sobre a intervenção ou não do Estado no setor produtivo. Neste intervalo de tempo ocorreram as presidências de Gaspar Dutra, Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. As discussões tinham dois vieses: um manifestando os princípios do liberalismo econômico e outros em defesa da industrialização acelerada com forte intervenção estatal na economia. Os debates se estenderam para o setor elétrico, no qual os defensores da iniciativa privada apontavam a estrutura tarifária, o Código de Águas e a política cambial como entraves a investimentos no setor. Contrariamente, os defensores da intervenção estatal enfocavam a construção das usinas hidrelétricas pelo Estado e, até mesmo, a absorção das empresas privadas pela esfera pública. Este bloco alimentava a ideia de que as empresas de geração e distribuição desconsideravam as necessidades reais da sociedade e usavam do monopólio para ganhos facilitados sem se preocuparem com investimentos significativos no setor.
Foschiera (2009), utilizando de informações do Centro de Memória da Eletricidade apontadas por Silva (2001), argumenta que, no governo de Gaspar Dutra, para atender os interesses dos grupos liberais, foi lançado o primeiro Plano Nacional de Eletrificação privilegiando a construção de usinas de pequeno e médio porte, dividindo o país em regiões autossuficientes em recursos energéticos e, ainda, limitava a ação do Estado, que deveria atuar em prol da iniciativa privada.
No retorno de Vargas ao poder, em 1951, é novamente encampada a ideia do estado desenvolvimentista, planificador e interventor, reconsiderando que a
industrialização tem papel de destaque no cenário nacional e que as empresas estatais são o ponto de equilíbrio da proposta.
A energia elétrica também foi um foco central de discussão no governo de Kubitschek. Chegou a ser organizada uma semana de debates sobre energia elétrica no ano de 1956. A semana teve como ponto de pauta o destino dos recursos do Fundo Federal de Energia (FFE) e a criação da Eletrobrás. Os liberais brigavam pela destinação dos recursos para a iniciativa privada e se posicionaram contra a criação da Eletrobrás. O Código das Águas também foi discutido na semana. O Governo de Juscelino Kubitschek proporcionou a criação de empresas públicas federais e estaduais com a finalidade de organizar o processo de expansão de geração de energia elétrica. Ainda assim, permitiu que a distribuição de energia fosse realizada a partir de investimentos privados. Esta foi a forma encontrada para conter os ânimos entre grupos de interesses tão antagônicos.
Apesar do indicativo de nacionalização das empresas, a proposta jamais sinalizou à oposição ideológica do Estado ao capitalismo. Tratava-se de mais um mecanismo para destinar maior lucro ao capital privado, o que levava o Estado a se portar, também, como um agente capitalista (FOSCHIERA, 2009).
d) O período de 1962 aos anos 1990
Marcado pela substituição do modelo de produção de energia regionalizado e assistemático para um modelo com características nacionais e sistematizadas. Este período é notadamente marcado pela criação da Eletrobrás em 1962 e pelo governo militar. Neste ínterim, várias empresas privadas foram absorvidas pelos estados, tornando-se públicas, como a Companhia de Energia Elétrica
Riograndense, absorvida pelo Rio Grande do Sul ainda em 1959, e a Light, adquirida em 1978 pelo Estado. O Estado passa a controlar a quase totalidade do setor de energia, sob sua alçada. (GONÇALVES JÚNIOR, 2007). Este período também foi marcado pelos sistemas interligados, possibilitando a distribuição de energia em âmbito nacional, ainda que persistissem algumas dificuldades regionais neste sentido. As usinas hidrelétricas de Tucuruí e Itaipu foram construídas neste intervalo de tempo.
Souza (2004) aponta que na década de 70 do século XX as crises do petróleo motivaram a criação do PNPCH - Programa Nacional de Pequenas Centrais Hidrelétricas, objetivando desenvolver tecnologia nacional para motivar um novo ciclo de implantação de pequenas centrais, perdido, anteriormente, no esquecimento.
Thiago Filho (1999), referindo-se ao programa mencionado, afirma que o mesmo não teve respostas positivas, pois o momento de vulnerabilidade da política monetária não garantiu o montante necessário de recursos pelo Estado. As ações do programa acabaram tornando-se localizadas, sem que restasse materializado um ponto de vista abrangente e nacional, como esperado.
A partir da década de 80, o Brasil passa a seguir um processo de reformulação do setor elétrico, tornando possível a privatização e descentralização para empresas transnacionais, produtores privados e autoprodutores de energia.
Para Foschiera (2009), o planejamento do setor elétrico desconsiderou as questões sociais, principalmente sobre os atingidos, bem como desconsiderou os impactos ambientais. Parte da importância que deveria ser dada só foi surgindo a partir da mobilização de setores externos ao planejamento do setor energético,
sendo compostos por agências multilaterais de financiamento, grupos ambientalistas, dos movimentos sociais, das universidades, pelas leis ambientais e, também, por atores sociais sensíveis à questão ambiental.
Como se viu, o país nunca teve realmente efetivado, uma agenda de desenvolvimento econômico. O Estado foi sempre cortado por lobbies e grupos de interesses não só nacionais, como transnacionais, efeito da própria mundialização do capital e da incapacidade de o capitalismo periférico brasileiro estipular e fazer cumprir suas metas, não só de industrialização como de sustentação energética da mesma.
O país, assim – é possível dizer sem medo de errar – tem sua história caracterizada não só por agentes externos desinteressados na sua industrialização doméstica (que poderia mudar sua importância e posição na hierarquia internacional), como internamente, devido à presença de agentes econômicos que lucram com a posição de subserviência do país no cenário internacional, monopolizando até certos setores econômicos internos, evitando a concorrência e o aparelhamento técnico em mundo cada vez mais globalizado e competitivo.
Vejamos um ponto mais do assunto no tópico subsequente.