2. BULGULAR VE YORUM
2.1. Sanal Dünya Second Life
2.1.4 Second Life İçinde Basit Bir Küp Yaratma
O sociólogo Boaventura de Sousa Santos levanta a bandeira da defesa das epistemologias do sul. Entende que a forma de pensar dominante é a ditada pelos impérios econômicos do hemisfério norte, relegando realidades culturais como as da América Latina a segundo plano.
Para elucidar o mecanismo pelo qual essa subordinação acontece, disserta sobre as monoculturas epistemológicas, fazendo referência às formas de plantações que esgotam as riquezas de um determinado solo, no caso, o das experiências do ser humano no mundo. São
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elas as monoculturas do saber ou rigor do saber, do tempo linear, da naturalização das
diferenças, do universal e do global, dos critérios de produtividade e de eficácia capitalista.
A rigorosidade do saber atrela-se à hegemonia do pensamento científico e do erudito. A do tempo linear faz referência à forma de conceber o tempo como a flecha do sentido geradora de conceitos, como progresso e desenvolvimento. A naturalização das
diferenças escamoteia as construções sociais das diferenças entre os homens, o que gera
hierarquias que cristalizam os considerados inferiores na base da pirâmide, defendendo os considerados superiores. A monocultura do universal e do global privilegia essas dimensões totalizantes em detrimento do que se fomenta no local. Os critérios de produtividade e
eficácia capitalista colocam em xeque as experiências que não geram produtos facilmente
vendáveis e geradores de lucro para o mercado.
É através desses braços que a epistemologia do norte produz ativamente a invisibilidade de outras epistemologias que, dessa forma, tornam-se marginais. Assim fala Santos (SANTOS, 2004, p. 17):
São, assim, cinco as principais formas sociais de não-existência produzidas pela epistemologia e pela racionalidade hegemônicas: o ignorante, o residual, o inferior, o local e o improdutivo. Trata-se de formas sociais de inexistência porque as realidades que elas conformam estão presentes apenas como obstáculos em relação às realidades consideradas relevantes, sejam elas realidades científicas, avançadas, superiores, globais ou produtivas.
Analiso, a partir desses conceitos de Santos, o poema “O Rei e o Palhaço” (ANTÔNIO..., 2003), escrita por Bráulio Tavares, musicada e interpretada pelo cantador e brincante9 nordestino Antônio Nóbrega, como emblemática do tema estudado por esta pesquisa:
Sua coroa é de ouro O meu chapéu é de palha A sua cota é de malha O meu gibão é de couro Sua justiça é no foro Minha lei é o consenso O seu reinado é imenso Minha casa é meu país Você é preso ao que diz Eu digo tudo o que penso
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Brincante é o participante do folguedo popular (FERREIRA, 2012). Quando os artistas populares, particularmente no Nordeste, conduzem uma ciranda ou qualquer roda de dança, e mesmo os espetáculos de rua, dizem que vão brincar, daí denominarem-se brincantes. É mais uma das faces do palhaço. Brincante também é o nome dado por Antônio Nóbrega ao instituto que criou em homenagem a esses artistas, no qual ele divulga essa arte de brincar dançando em meio ao povo (INSTITUTO BRINCANTE, 2015). Em cada espetáculo, Nóbrega sempre deixa aparecer seu alter ego palhaço, o Tonheta, mostrando que a intimidade entre brincantes e palhaços é tamanha que provoca mistura.
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Você vem com a arma erguida Eu vou abaixando a guarda Você vem vestindo a farda Eu de roupa colorida Você disputa corrida Eu corro pra relaxar Sua marcha é militar A minha é de carnaval Seu traje é de general Eu visto pena e cocar Você vem com a força bruta Eu vou com a ginga mansa Você vem erguendo a lança E eu erguendo a batuta Você me traz a cicuta Eu lhe dou chá de limão Você diz que é capitão Eu só sou um mensageiro Você é um brigadeiro Eu sou só um folgazão Você liga a motosserra Eu planto flor no cerrado Você só anda calçado Eu piso com o pé na terra Você quer vencer a guerra Eu quero ganhar a paz Você busca sempre mais Eu só quero o que é meu Você se acha europeu Eu sou dos canaviais
Antônio Nóbrega apresenta uma história de militância a favor da divulgação da cultura nordestina. As letras a que dá vida giram em torno do romanceiro popular, e suas danças resgatam os passos e as gingas dos brincantes. Educado no manejo de instrumentos eruditos, fez a tradução desta cultura para o contexto popular. Serve-se dos instrumentos musicais dos cantadores de rodas populares, como a rabeca e a viola, com a presteza que aprendeu nos concertos harmônicos de moldes europeus. Em seus versos há elementos do imaginário do sertanejo, alguns herdados da cultura ibérica. A religiosidade faz parte do conteúdo de suas poesias, mas também as brincadeiras eróticas das camadas populares.
Nesse poema, os versos são setissílabos, como em muitos contos de cordel, e a combinação de rimas é ABBAACCDDC como no galope à beira-mar, ambas construções tipicamente nordestinas.
Bráulio e Nóbrega colocam frente a frente dois personagens em que podemos enxergar a epistemologia hegemônica, detentora do poder oficial na figura do rei, e um tipo de epistemologia do sul, a do palhaço, com outro tipo de poder.
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O palhaço descrito é o camponês, de onde vem mesmo a etimologia da palavra palhaço — aquele que se veste de palha para suportar as quedas com que diverte o público nas praças. Calça couro como um vaqueiro, indivíduo livre, mas amante de sua comunidade, de seu país, da terra que o identifica. A roupa é a colorida dos folguedos, cuja alegria descende das cores dos índios ancestrais, pintados de seiva, e cuja ginga vem da mole pelve dos negros ascendentes.
É da cultura desse povo oferecer alimento e prosa para todo forasteiro, mesmo que seja o rei que traz a sangria, a cicuta. Folgam em passar sua mensagem adiante ao som das violas e das rabecas, na oralidade da educação. Respeitam a natureza de onde tiram o sustento. Cultivam uma forma de subsistir que, por sua pequena escala de sobrevivência, não chega a desgastar o solo. Sem ouro ou palácios, experimentam o prazer das chuvas, com o pé na terra enlameada em meio aos canaviais.
O palhaço, como acontecia com os bobos das cortes medievais, tem essa audácia de peitar o rei e dizer verdades. Ao invés da voracidade daqueles que possuem muito, querendo ainda mais, contentam-se com o pouco da vida. Cada minúsculo elemento no palco é motivo para todo um espetáculo.
Eis que se mostram, a um só golpe, todas as categorias de Santos dinamizadas. O palhaço representa outro tipo de saber que privilegia o consenso do povo para além das leis de cartório. O tempo não corre, relaxa. As diferenças das classes estão explícitas nas formas de vestir e de marchar, mas o diálogo faz subir o palhaço à altura do rei e gera, no espectador, a predileção por aquele. Esvazia-se a obviedade de que a vida nobiliárquica seja preferível. Sobre o universal e o global, o rei se enquadra nos moldes europeus, faz lembrar o peso do colonizador sobre ele. Os canaviais passam a imagem de um gozo das belezas locais. É outra dimensão de mundo e de prazeres, portadora de outra escala de análise. Por fim, a
produtividade, representada na noção do “querer sempre mais”, é confrontada com a
suficiência do já existente, do “só quero o que é meu”, lembrando a austeridade do sertanejo, respeitador dos produtos do próprio suor, que valoriza cada objeto conquistado com o capital simbólico das emoções, das lembranças e das vivências nele imanentes.
B fala sobre o estranhamento do tempo e sobre como isso se reflete no viver o
palhaço:
Uma sensação de tranquilidade, de eu “estou no momento certo, na hora certa”. E quando eu penso nisso, eu me lembrei de uma pergunta que foi feita ontem [em um evento que ele esteve], que é: “onde está o tempo?”. Eu não consegui desenvolver muito bem, mas a gente para pra pensar, onde que o tempo está? O que é o tempo pra gente, entendeu? E o que é isso de estar no lugar certo na hora certa? Qual é essa
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hora e qual é o lugar? E eu acho que a minha resposta é quando existe a conexão entre mim e o mais verdadeiro eu, entendeu? E que muitas vezes acontece quando eu vou pra visita e quando eu coloco a máscara do palhaço.
Rf entende a outra lógica de produtividade:
A: É o que se chama de encontro, seria encontro, encontro não direcionado a uma produtividade direta, sabe? Assim, é o encontro inútil.
Rf: Sim. É o encontro inútil. Do ponto de vista técnico.
É abrindo essa brecha na epistemologia hegemônica que podemos conceber a importância das atividades do ator risível como o palhaço e o seu derivado, o doutor palhaço. A comédia é considerada como um fazer menor ou de malandros, como se prega desde a infância na fábula da cigarra e da formiga, onde esta, trabalhadora e previdente, condena à morte aquela que viveu cantando na época em que deveria amealhar reservas. Os alunos de medicina mais enredados nos estudos curriculares olham com desdém aqueles que despendem suas horas livres em atividades não médicas de alegrar hospitais.
Quem assim pensa presta culto à visão grega clássica do corpo social, metaforizada na divisão corporal. As partes de baixo são mais ligadas à matéria e, portanto mais grosseiras. As partes de cima, como o pulmão que é arejado por espírito (pneuma, em grego), são nobres. Daí advém que o destino da pólis deve ser decidido pelos intelectuais, sendo a atividade mais dignificante que alguém pode exercer. E o sustento de tudo deve ser relegado aos trabalhadores braçais, pessoas menores (CHAUÍ, 1995).
A arte circense e a do palhaço correm pelos sulcos do povo trabalhador. A linguagem incorreta, o andar coxo, a fala tosca, a face disforme, tudo no palhaço denota a imitação do que pode existir de pior na plebe aos olhos do rei e, dessa forma, a marca da desigualdade social.