1. GİRİŞ
1.1. Sorun
1.1.2 Sanal Dünya
1.1.2.2. Sanal Dünyalar
Fellini, em seu clássico filme sobre palhaços, “I Clowns” (FELLINI, 1970), percorre uma história ficcional que se inicia na ambiguidade gerada por esse personagem, o palhaço, dentro do imaginário de um garoto, que diz ser ele próprio quando criança.
As memórias que trazem sua mãe ajeitando a casa se misturam com a traumática ida ao circo em que palhaços grotescos dominam o palco, escancarando cenas agressivas ao som de alegre banda. O impacto daquela experiência sobre o garoto o fez empreender uma viagem, já adulto e diretor de cinema, por esse universo dos palhaços. Resgata, então, a figura do louco da vila, figura campesina objeto do insulto de todos por se tratar de um “pobre diabo”. Riem dele, atiram-lhe pedras sem pudor, e continuam as vidas. É um passatempo.
Vão criando corpo as descobertas do diretor. Viaja aqui e ali, Itália e França, para dar de cara com os maiores palhaços vivos de que já se ouviu falar. E estes relembram os mortos. Entre uma cena e outra, “I Clowns” vai deixando escapar situações cotidianas risíveis, como, por exemplo, a figura do bobo do bairro que se atreve a jogar uma cantada despudorada para a mulher que todos se permitiam apenas flertar. É como se o tal louco deixasse escapar o desejo contido dos outros, provocando uma pequena catarse, não trágica, mas alegre: “Ufa! Ainda bem que foi ele, mas ainda bem que foi”.
Outro tipo de palhaço também entra em cena, não o bobo, mas o mandão: em uma estação de trem, onde todos os meninos travessos galhofam da figura do guardinha, logo se aquietam em uma reverência quase religiosa ante a figura do oficial nazista. Os meninos borram-se de medo, mas os adultos que lhes assistem bolam de rir. Ainda aqui é o mesmo sentimento de “Ufa!”. É a catarse do riso.
O que há de comum entre os grotescos palhaços de circo, o louco da vila, o bobo do bairro, o oficial nazista? Geram riso com a própria existência, com a simples presença. Às vezes, medo. Levantam o véu do que se queria oculto. Perigo. Levantam o humor de quem não se queria triste. Leveza. Impõem um silêncio e um estado de alerta a quem não se quer exposto. Vigília. Desarmam quem se deixou levar pela brincadeira. Graça.
A catarse associada ao riso prenuncia a ligação entre a arte, particularmente a dramática, e a saúde. No universo grego, a catarse, que significa purificação, era um sentimento experienciado pela plateia diante das tragédias, expurgando as paixões, ou das
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comédias, fazendo o mesmo com nossos ridículos (SPONVILLE, 2011). Quase podemos ver os discípulos de Asclépio prescrevendo assistir a uma tragédia ou comédia em prol de extirpar uma doença. Movimentos da alma em busca do reequilíbrio dos humores, da harmonia com o cosmos circunvizinho, do refazimento das relações justas entre todas as coisas.
Na antiga Grécia, a arte tinha seu lugar próprio de acontecer, assim como a catarse. Sempre foi importante ao poder que esses arroubos artísticos não questionassem sua autoridade. A institucionalização da arte tem essa face que comunga com o desejo da política de que ela possa aquietar os ânimos do povo.
A improvisação não é bem-vinda aos olhos da disciplina. E mesmo quando ela ocorre nas mãos de um hábil cirurgião sempre se dá pelas vias que não comprometem o edifício da arte médica hegemônica. Enquanto um determinado paradigma domina, os artigos científicos que surgem e guiam as práticas parecem reforçá-lo. Somente periodicamente vemos a ciência evoluir através de revoluções — não de continuidade —, que, todavia, careciam de momento propício para florescer, é o que defende Tomas Kuhn (2009), quando fala que a assimilação de uma descoberta requer a elaboração de um novo conjunto de regras para reconhecê-la como existente. O que Kuhn afirma sobre as revoluções científicas Foucault extrapola para a cultura em geral, na elaboração do seu conceito de episteme (FOUCAULT, 1995; GOMES, 1991). Todos os atores (e, portanto, ideias) que ousam dançar fora do ritmo vigente (paradigma e episteme) correm o risco de serem silenciados pelo poder hegemônico.
Ilustrando essa discussão sobre o disciplinamento do corpo e da mente, resgato Boal (2003), quando ele nos narra o dia em que Sólon, o grande legislador grego, foi assistir ao espetáculo de Thespis, ator, poeta, coreógrafo e... bêbado (Boal faz questão de frisar com essas mesmas reticências):
Começou o espetáculo, bem comportado. No meio do poema, dançando frenético, embalado pela coragem e pelo medo, Thespis não se conteve. Sentiu uma coisa estranha, uma coceira na garganta, e gritou para quem quisesse ouvi-lo: ‘Me segura que eu vou ter um troço!’. Ninguém segurou, transidos estavam. Thespis enlouquecido, saltou para longe do coro e... replicou. Sentiu aquela coisa, aquele troço, como tão graciosamente havia dito, e começou a dizer o que lhe veio à cabeça! Estava possuído, como sacerdotisa de Baco, como se estivesse em pleno Mistério de Elêusis, depois de várias doses de, até hoje, não se sabe o quê. Falou da cidade, da política, dos homens e das leis! [...] Espanto! Assombro! Medo! Um simples corista ousara replicar! Mais: na frente do Chefe de Estado! Se ele o fez, isto provava que era possível fazê-lo! E ninguém havia pensando nisso... Todos continuavam obedientes, cantando em coro... e a liberdade era possível... mas ninguém sabia. [...] Sem se dar conta, Thespis havia criado um personagem que não era coro: o Protagonista, o Proto, o Primeiro, o que está só, o que se rebela, pensa e age por si mesmo – sem mimeses, sem mimetismo, sem imitar ninguém! –
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descobrindo-se quem é, abrindo caminhos, mostrando o possível, tornando-se aquele que se embrenha no desconhecido. (BOAL, 2003, p. 26-29).
Rf, quando falava sobre as permissões que o palhaço dá, também aproximou essa
figura ao álcool: “porque a pessoa, às vezes, tem vontade [de se expressar]. Por exemplo, outra coisa que quebra muito as barreiras pessoais é o álcool. A culpa é do álcool. Para a gente, a culpa é do palhaço, entendeu?”.
É o que os integrantes do Projeto Y parecem fazer: embriagar-se de palhaçaria para transmitir uma mensagem cujo texto ainda está em processo de escrita. Vindos de áreas cujo diálogo interprofissional ainda se constrói com suor, protagonizam a experimentação de novas sensibilidades e racionalidades estranhas ao seu campo de atuação. Um projeto que partiu da própria medicina, sinalizando que as múltiplas dimensões do sujeito, mesmo invisibilizadas pela norma oficial, não perdem sua existência em potência no indivíduo. Cavam brechas para se atualizar ao sol que faz vicejar todas as alegres e boas iniciativas, no momento oportuno.
Os médicos, no hospital, onde se dá majoritariamente nossa formação, têm seus corpos submetidos ao ir e vir da cadeira de prescrição e estudo ao leito de observação do doente. Nossos olhos são adestrados a olhar a máquina humana no que ela tem de matemática e racional, previsível e padronizável. Não faz parte de nossa formação dançar, cantar e cair com o paciente, pelo paciente. Mas, o palhaço inverte, em seu delírio, o que parecia tácito e permanente.
O senso comum associa o nicho do palhaço ao circo. Uma das grandezas do filme de Fellini é mostrar o quão imiscuída está essa figura em nosso cotidiano — em nós mesmos. A arte moderna, desde seu berço renascentista, com sua marca antropocêntrica, tomou essa direção: a de nos fazer enxergar a estética que exala dos poros das coisas mais cotidianas, partindo mesmo dos corpos humanos. O artista cada vez mais se exime de imitar a perfeição geométrica do cosmos na sua obra, preferindo expressar o ponto de vista do homem comum cheio de paixões e ridículos.
O palhaço tem uma poética que serviu muito pouco ao belo, ao lógico, à escrita. Realçar o que no corpo traz a humanidade das pessoas comuns e que nos atos é motivo de graça é a vida dele. Por não ser da ordem da história oficial em saúde, o palhaço faz emergir a pergunta por aquilo que foi recalcado na dimensão humana, e que continua a ser. Parece ser o que nos faz libertar o riso, se quisermos desfazer o recalque, ou trancar o cenho, se quisermos recalcar ainda mais.
Se é da ruptura com padrões costumeiros que se faz a palhaçada, entende-se que esta arte só pode ser assim em relação a um outro que se mostra estável no seu modo de ser.
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Esse outro é o parceiro de jogo que pode ser a plateia ou outro palhaço. Caçoar do outro é apontar que este poderia ser diferente, menos risível. É aqui que a arte da palhaçaria faz suas vezes de política quando, brincando, diz ao rei as verdades que ninguém ousa. E, quando extrai riso através da exposição do ridículo de si, é aqui que ela dialoga com a autocrítica que mostra para a sociedade, indiretamente, o espelho que a faz tomar consciência de seus próprios ridículos, mas sem a ofender escancaradamente. De um modo ou de outro, ele estimula a reelaboração do real em seus diversos devires.
As artes de teatro e saúde se misturam com a dança do palhaço, porque vão atrás do ritmo da vida. Ele captura os ritmos da alegria como um feroz caçador, e com uma inocência que o absolve aos nossos olhos. Quando menos esperamos, nos tem roubado o riso pela quebra que promoveu na dor que acreditávamos perene, uníssona com o coro trágico. É uma arte da surpresa como o é a arte de qualquer larápio e prestidigitador, mas também a arte da inocência aparente que faz do imprevisto não uma tragédia, por ser implacável, mas sim uma alegria, já que é sinalizadora de possíveis.
Todo o corpo do palhaço está engajado em seu ofício. Por vezes é de tal magnitude esse engajamento que a fala inteligível lhe escapa. Valem mais os sons de qualquer parte, das mais esdrúxulas, do que a submissão a um texto pré-moldado.
O corpo todo fala, mas é o nariz que mais se destaca. Para gerar o riso a partir do cotidiano deve-se suspender tudo o que é óbvio a partir de uma pequena mudança. No corpo do palhaço, o nariz faz as vezes de indutor do estranhamento.
Nikolai Gogol, proeminente escritor russo, havia intuído isso em seu pequeno romance satírico intitulado O Nariz (GOGOL, 2001). Com a simples retirada dessa cartilagem do seu local habitual (Gogol fez com que o nariz de Major Kovliov, assessor do juiz do colegiado eleitoral, fosse parar dentro do pão do barbeiro Ivan Yakovlévitch!) o romancista vai perturbando a personalidade dos diretamente envolvidos com a trama nasal e mostrando o jogo de representações a que se submetem as pessoas comuns no dia-a-dia. O Nariz passou despercebido bem embaixo do nariz de todos, apenas por estar disfarçado de conselheiro de Estado. Nesse sentido, é do estranhamento que nasce a graça. Mas do estranhamento que não coloca quem ri em risco de morte.
Defende o ator, mímico e professor de arte dramática Jacques Lecoq (2010) que o palhaço, em essência, nos faz rir no momento em que ele parece não pretender fazê-lo. Muitas vezes, quanto mais se tenta produzir o riso, menos se consegue, e quanto mais espontaneamente se fracassa, mais se é engraçado. O fazer palhaçada e o ser palhaço devem
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se confundir de tal modo que não se perceba intenção no gesto, sob pena de a artificialidade macular todo o conjunto e malograr a ação.
Solicitei um dia aos alunos para que se pusessem em círculo e nos fizessem rir. Um após o outro, eles tentaram umas palhaçadas, umas cambalhotas, uns jogos de palavras fantasiosos, tudo em vão! O resultado foi catastrófico. Sentíamos algo preso na garganta, uma angústia no peito, tudo se tornava trágico. Quando se deram conta desse fracasso, pararam com a improvisação e foram sentar-se, desapontados, confusos, perturbados. Foi então, vendo-se naquele estado de fraqueza, que todos se puseram a rir, não do personagem que pretendiam apresentar, mas da própria pessoa, assim, despida. Encontramos! O clown [palhaço] não existe fora do ator que o interpreta. Somos todos clowns. Achamos que somos belos, inteligentes e fortes, mas temos nossas fraquezas, nosso derrisório, que, quando se expressa, faz rir. (LECOQ, 2010, p. 213)
Foi o que Hm experienciou:
Eu me lembro muito de... conversando... sempre que eu converso com os mais novos, eu brinco que eu nunca fui um bom palhaço, assim, sabe? Nunca me achei o mais engraçado, ou o mais “Porra, muito foda aquilo que o Hm fez na visita!”, entendeu? E que foi muito bom quando eu parei de procurar e que eu me lembro, assim, que mais para o fim, que foi caindo a ficha, até, tipo assim, pô, estou encerrando meu ciclo aqui. Eu lembro que as visitas eram tão boas porque eu não estava mais querendo provar para mim mesmo que eu tinha que fazer alguma coisa, sabe?
Que todos nós temos o que esconder é fato. O palhaço, então, é aquele que, diferente da maior parte da humanidade, submetida à ditadura do corpo perfeito (perfeição entendida como moda), portanto, submetida à ilusão do tempo e das opiniões, vive na exposição de sua imperfeição. Nasce, cresce, se desenvolve, morre e renasce no que deve lhe fazer inferior. Por que não aproveitar essa inferioridade quase onipresente para alegrar o dia? Vê-se que há chamadas suficientes para isso.