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1.1. Sorun

1.1.1 İmge

1.1.1.1. İmgenin Tanımı

Evoco dois pensadores para socorrer o método cognitivo de apreensão da realidade a fim de contribuir para novas abordagens: Spinoza e a ética como sabedoria de vida (SPINOZA, 2013); Morin e o pensamento complexo (MORIN, 2005, 2007).

No movimento de revisão das propostas de Descartes, os pensadores encontraram em um de seus discípulos uma alternativa que agradou a muitas escolas pós-modernas de filosofia: o sistema de Spinoza.

Valendo-se dos métodos dos geômetras e, portanto, de Descartes, desenvolvendo seu raciocínio em torno de axiomas, postulados, escólios e demonstrações, Spinoza finda por construir uma realidade reunificada. Ao nos fazer entender que o todo é uma só e a mesma realidade, sendo nossas ações como que variações desse todo, eleva cada menor ato do ser a importâncias divinas. Os afetos, portanto, adquirem nova autoridade, revigorada pela força do todo de que são manifestações.

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Descartes separava a realidade cognoscível em duas substâncias: a pensante e a extensa, sendo a atividade daquela como que mestra e possuidora desta. Era o ideal do homem moderno de dominar a natureza, aqui em sua face cognitiva. Spinoza entende apenas haver uma só substância e vários afetos dela. Várias consequências são destacáveis dessa simples manobra: 1. Não podemos reivindicar o título de possuidores da natureza, mas nos reconhecer como parte dela; 2. Nossos movimentos não estão descolados do ecossistema, mas enredados nele de forma imanente; 3. O corpo não é um ser autômato cujas paixões devemos controlar, mas um complexo que nos define, à medida que o formamos e deformamos; 4. A liberdade do ser não está em se desprender dos determinismos naturais, mas em ter lucidez para entender os movimentos das coisas; 5. As paixões são tanto mais alegres quanto mais façam com que o indivíduo se reconheça e vibre como partícipe íntimo do universo, e tanto mais tristes quanto o façam se enrijecer em estados de cisão com o que lhe circunda. Daí que o remorso, a mágoa e o arrependimento são paixões tristes, e o amor, um íntimo parceiro da alegria.

Se a ética de Spinoza fosse a que dominasse a prática médica, o amor deveria ser uma constante nas relações. A luta contra a doença não seria um esforço de duvidar e vencer a dúvida, mas um exercício de lucidez da realidade de si. As aulas de fisiologia seriam menos expositivas e mais um convite para a própria percepção, de seus ciclos, de como se conectam com os naturais, com os ciclos do semelhante, e de como todos somos semelhantes porque afetos da mesma natureza. Não haveria surpresa nas descobertas da neuropsicoimunologia, ramo da medicina que vem crescendo no último século, revelando interações entre as mais diversas funções orgânicas e os estados emocionais, pois as fronteiras entre os sistemas orgânicos que erigimos para melhor entender o homem seriam tidas como ilusórias desde o início. A doença não seria uma inimiga a se combater, mas sim uma sinalização de que o equilíbrio foi perdido em algum ponto. A alegria não seria uma informação irrelevante na anamnese, mas sim o primeiro sinal de que o corpo retorna à saúde.

Quando estudávamos os filósofos nas aulas de fundamentos da epistemologia para o mestrado, o professor nos incitava com ironia socrática. Quais os tipos de conhecimento a que poderíamos ter acesso? Como chegávamos até esse conhecimento? Falaram da primazia do cérebro, como se fosse do corpo extenso. Falei que, quando escrevia poesia, corpo e alma estavam misturados. Ele chamou-nos a atenção para o fato de que havíamos acabado de colocar duas tradições de pensamento em choque: eram os cartesianos e os spinozistas.

O médico cartesiano tenta dominar o fenômeno da doença arredia, no corpo que se lhe apresenta. Busca, aguerridamente, a verdade da cura, separa as variáveis da equação.

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Afasta-se do paciente a fim de não cair nas ilusões que essa relação poderia engendrar. Formula hipóteses em verdadeiros campos de batalha intelectual. A mais forte destrói a mais fraca e gera hegemonia. É o que permite saltar da hipótese para a decisão médica, assumir os riscos e intervir sobre o corpo doente, ainda que à revelia dele. Como um cavalo indomável, os efeitos colaterais afloram. Até onde a hipótese diagnóstica tenha força, deverá ser mantida a conduta, e o que vier como adversário deverá ser colocado em confronto até que se renda ou que vença, surgindo novo poder: a próxima hipótese.

O palhaço é um spinozista. O fenômeno lhe invade sem que ele queira lhe capturar. Os afetos que aquilo gera revelam-se em seu corpo, aceitos. A criança doente lhe entrega a dor. Ele não a nega, não a combate, deixa que o atravesse e gere seu estado. A relação e o jogo que vem com ela são tudo. Domina e é dominado. Nenhuma dessas posições importa, mas importa a transição, o tempo de cada uma. Não é o palhaço que importa nem a criança. É tudo.

Como essa nova visão de mundo pode nos sugerir um método que investigue a realidade sem cindi-la? É o que Morin (2005, 2013) chama de pensamento complexo. E, sobre a contribuição de Spinoza para este pensamento, comenta:

Sua mensagem profunda é ligar Conhecimento, Compreensão, Alegria e Amor, termos que se remetem um ao outro e que dão valor e sentido à vida humana. [...] É na ideia de imanência, na ideia de uma natureza autocriadora, na ideia de inserir a criatividade na natureza, no mundo vivo e, certamente, no mundo humano, que se encontra a extraordinária modernidade e fecundidade de Spinoza. (MORIN, 2013, p. 64).

Morin (2005, 2007), então, propõe uma nova forma de fazer científico, em que o sujeito cognoscente enfrente a necessidade do autoconhecimento a fim de ascender ao conhecimento do outro. Assumir a realidade como um sistema aberto, sujeito a trocas constantes em equilíbrios sucessivos, e capaz de se auto-organizar. A nova ciência que propõe não progride sem integrar as muitas ciências, pois nasce da incapacidade de um só sistema conseguir explicar as várias inconsistências que se acumulam no confronto com a complexidade das relações. Relembra:

A ciência clássica tinha rejeitado o acidente, o acontecimento, o acaso, o individual. Qualquer tentativa para reintegrá-los só podia parecer anticientífica no quadro do antigo paradigma. [...] Os problemas essenciais, os grandes problemas do conhecimento, eram sempre reenviados ao céu, tornavam-se espectros errantes da filosofia: Espírito, Liberdade. A ciência, do mesmo jeito, tornava-se cada vez mais exangue, mas seu fracasso enquanto sistema de compreensão era mascarado por seu sucesso, correlativo, enquanto sistema de manipulação. (MORIN, 2007, p. 52).

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Algumas inquietações levam Morin (2005, 2007) a propor um novo método de investigação. A ânsia dos modernos por dominar a natureza mostrou-se não apenas ilusória, mas também danosa. A revolução científica que engendrou essa vontade foi apoderada por uma práxis política que culminou na visão de um horizonte apocalíptico do esgotamento dos recursos naturais. O pensamento complexo propõe uma ética do equilíbrio do homem com o meio e não uma disputa.

Para fugir do hábito de dominadores faz-se mister aceitar a possibilidade do complexo na elaboração de uma visão de mundo. Por muito tempo, em nosso pensamento ocidental, fosse na posição grega clássica, fosse na concepção cristã, a ordem sempre se confundiu com a excelência do universo. O caos era representado como o que a razão ainda ignora, ou como o lado diabólico da vida. As pesquisas que Morin traz à luz evidenciam o caos como parte fundamental do processo de vitalização de qualquer sistema, um momento de indeterminação ou liberdade. No campo biológico, por exemplo, uma cascata de movimentos a favor e contra o desfecho final dá forma a um conjunto harmônico que é vivo exatamente por ser dinâmico, com seus fluxos e refluxos.

Um dos casos mais emblemáticos da ruptura da noção de permanência incólume, como uma coluna bem estabelecida sustentadora de um corpo-verdade, é o sistema ósseo do corpo humano. As descobertas biológicas das minúcias celulares revelam que o osso é um tecido de forças que está constantemente submetido a pressões de destruição e reconstrução, tendo como células protagonizadoras desses movimentos os osteoclastos e os osteoblastos, respectivamente. Para pensarmos a partir deste novo paradigma, é necessário assumir a indeterminação como elemento gerador de novidade, tanto quanto o cosmo. Não mais largar o corpo como manto inútil ao pensamento, a coisa extensa em conflito com a coisa pensante, mas sim promover o diálogo dos dois.

A lógica a que muito tempo estivemos fazendo reverência é a aristotélica, serva das noções de não contradição e do terceiro excluído. Dizem, em suma, que se uma proposição é verdadeira, a sua negação só poderá ser falsa, não devendo haver um intermediário entre ambas. Essa lei da lógica aristotélica evita que pensemos sobre as zonas de fronteira. Morin, então, valendo-se das observações empíricas que revelam os esforços da matéria por trás da placidez da aparência que lhe confere identidade e das noções de dialética heraclitiana, atualizadas por Hegel, agrega ao pensamento complexo a liberdade de se pensar a negação do verdadeiro como um movimento da realidade rumo a outro nível de verdade:

Para Hegel, a abstração é o que isola do contexto e do conjunto. Desse modo, seria possível salvar as verdades isoladas do erro, que reside em seu próprio isolamento,

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articulando-as a outras verdades, mesmo antagônicas. A verdade era a totalidade e essa ideia de uma integração das verdades isoladas em um todo que as conserva e ultrapassa me encorajou e legitimou em minhas aspirações adolescentes de reunir, religar os diferentes campos do saber e do conhecimento, de articular o que é separado em um movimento “enciclopedante” (com isso, quero dizer a arte, o método que coloca o saber em um circuito e não negligencia nenhuma das variadas dimensões). (MORIN, 2013, p. 78).

O diálogo que Morin defende entre o caos e o cosmos, a desordem e a ordem, um uma colisão da qual emergem novas propriedades para um sistema, não pode prescindir da narrativa, da linguagem poética, das metáforas, até mesmo do romance, se quisermos falar sobre o humano:

Então, não são as fórmulas matemáticas que vão nos dizer o que é uma vida humana, não são os aspectos externos sociológicos que a incluirão no seu determinismo [...] Até o momento, foi o romance que, melhor do qualquer sociologia, nos mostrou esse misto de ordem e desordem, de sorte de azar, de acontecimento e de não-acontecimento, de acidentes e de fatalidades que tece nossas vidas. (MORIN, 2005, p. 227).

Por fim, nessa breve exposição do pensamento complexo, importa saber o status do pesquisador na própria investigação. O modelo que se pretende ultrapassar considera que a inserção de um investigador não neutro em sua pesquisa pode comprometer as conclusões. Em busca de um ideal de objetividade que deve primar pelo enfoque do objeto cognoscível isento de subjetividade, fez-se com que as ciências sobre o homem e a sociedade não apenas fossem adiadas, mas, quando enfim presentes na história da ciência, resvalassem no juízo de não científico por apresentar vieses da subjetividade do pesquisador. Morin, em outro momento da história das ciências, toma conceitos da física quântica, que enuncia ser impossível a definição simultânea da posição e da velocidade de um determinado elemento atômico, em virtude do considerável efeito perturbador que o pesquisador dessas variáveis exerce sobre elas mesmas.

Ao rebater o viés da subjetividade do pesquisador com um conceito de física, o filósofo coloca sobre novos fundamentos epistemológicos o modelo científico. Para a física clássica, a ideia de imperturbabilidade do sistema pelo pesquisador, semelhante ao cuidado que os cirurgiões têm para não contaminar o campo cirúrgico, residia na ordem do intocável. Para a física quântica, não passa de uma ilusão que tem sentido apenas prático para a ordem de fenômenos em que ela foi engendrada: a do cotidiano, longe do infinitamente pequeno ou do infinitamente grande.

Todo sistema sofre modificações quando um novo elemento o influencia. Em vez de desperdiçar a energia mental com a busca do afastamento objetivo, o pesquisador deve se

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enveredar no jogo da busca das respostas, preparando-se para o que há de provocar com a sua presença, atento para as reorganizações a que o sistema vai se submeter para atingir novo equilíbrio. As proposições que há de formular poderão sofrer modificações, cujo contrário não deverá ser menos verdade.

Levando esses aspectos em conta, ao invés de desconsiderar a própria subjetividade, aquele que se propõe investigar o humano deve cuidar de se conscientizar paralelamente. É o que Morin sugere no trocadilho do título de sua obra que populariza as noções de pensamento complexo: “Ciência com consciência”. É o que tratei de fazer no capítulo anterior ao me descrever como território em que venho andando.

Em cena clássica do grande palhaço russo Slava Polunin (SLAVAS..., 1993) ele encena um jogo que cria junto a um paletó pendurado em um cabide no momento em que o está limpando. A fim de retirar os pelos do braço do paletó com mais eficácia, veste apenas aquela manga que escovaria. De repente, é tomado de susto pela própria mão que o acaricia como se fosse uma terceira pessoa. Ela, a mão de Slava que agora cria uma ilusão sobre nós de ser a mão do próprio paletó vitalizado, toma a escova do palhaço e passa a limpá-lo. O objeto cuidado passa a ser o objeto cuidador. Slava estranha, olha evasivo para os lados, mas seu rosto é chamado pela mão do paletó para que ele se concentre naquela interação e viva aquele momento.

Essa estética do estranhamento, que é também uma estética do riso, simboliza o pensamento complexo que descrevemos. O sujeito pensante atuante sobre a matéria depara-se com a surpresa de ela o envolver. Esquiva-se, em vão, para se libertar desse enredamento estranho. Quem é aquela matéria que o acaricia? Ele está nela.

Benzer Belgeler