O universo do futebol espetacularizado pode ser legitimamente compreendido como uma espécie de mercado de bens que mesclam em si valores econômicos e simbólicos. Todavia, esse campo e o “clubismo futebolístico” (DAMO, 2012) que orbita em torno dele não estão pairando na aleatoriedade, mas estão circunscritos em estruturas de variadas competições, como campeonatos nacionais, estaduais, torneios internacionais, da mesma forma que torneios envolvendo seleções que representam diferentes países do globo.
Assim como os adeptos de religiões precisam de suas datas comemorativas, rituais litúrgicos; os militantes de partidos políticos de suas conferências e assembleias; o engajamento clubístico, em geral, está em constante exercício; o torcedor vai aos jogos, os assisti pela TV, ele escuta notícias pelo rádio, vê matérias de portais eletrônicos, conversas com os amigos correligionários da mesma paixão clubística em um grupo online, ele compra uma material esportivo com os símbolos do clube, defende sua agremiação em uma conversa cotidiana com um conhecido – ou até desconhecido – torcedor de outro clube etc.
Esse engajamento clubístico é acima de tudo um engajamento praticado, e o é de diferentes maneiras, por meio de diversos procedimentos. Contudo, mesmo diante da multiplicidade de suas realizações práticas, esses procedimentos torcedores são em grande medida guiados por “regras” que garantem o funcionamento do sistema de representações no qual atua esse engajamento clubístico, nomeado por Damo (2012, p.71) como “clubismo”:
60 Para uma reflexão mais acurada sobre a insuficiência da perspectiva elisiana sobre o desenvolvimento do
O clubismo é um sistema de representações estruturado, de forma que o indivíduo, ao tornar-se torcedor, é capturado por códigos que orientam seu comportamento e moldam sua sensibilidade. Não convém exagerar no peso coercitivo deste sistema, mas é fato que ele funciona a pleno quando as regras são respeitadas.
Basicamente, como a literatura antropológica sobre o assunto já versou, existem dois “circuitos” de competições presentes no contexto do futebol de espetáculo; um deles é referente ao que Damo (2012, 2014) chamou de “nacionalismo futebolístico”, que diz respeito aos jogos internacionais, geralmente organizados e tutelados pela FIFA, disputados entre seleções representantes de países. O segundo circuito presente no itinerário dos clubes e torcedores, possuí maior regularidade, em geral, ocorre de forma anual, e trata dos torneios entre equipes do mesmo país (competições nacionais) ou países diferentes (competições internacionais), e no caso do futebol brasileiro, trata também de disputas locais, como os torneios regionais e locais (estaduais).
Ao se reivindicar como torcedor de um clube (ou até mesmo a mais de um), o aficionado clubístico mobiliza uma espécie de identificação torcedora que, automaticamente, devido aos processos de construções identitárias que estão virtualmente presentes nas estruturas simbólicas do campo futebolístico, acaba estabelecendo uma demarcação de diferença em relação aos torcedores de outros clubes. É nesse momento que o torcedor, por conseguinte, se identifica pertencente a um coletivo maior, a torcida de seu (s) time (s), uma espécie de “nós”, enquanto todo aquele que pertence a outra torcida são reconhecidos como os “outros”.
Para efetivar e tornar prática essa diferenciação entre identificações torcedoras é preciso de um contexto, que no caso é o dos jogos que ocorrem durante as competições futebolísticas. Quando um time se consagra campeão de uma dessas competições, os torcedores do clube a qual a equipe campeã representa, são agraciados, dentro das estruturas simbólicas referentes ao campo do futebol, com o direito de se regozijar perante os outros. Do mesmo modo, os torcedores de equipes penalizadas com desclassificações em fases eliminatórias ou rebaixamentos de divisões61, por seu insuficiente desempenho, são alvo de injúrias, jocosidades
e depreciações, garantidas pelas mesmas lógicas simbólicas que atravessam esse campo.
61 Cada competição possuí regulamentos próprios, muitas vezes semelhantes entre si, muito devido ao fato de
seguirem orientações das federações mais importantes, como internacionalmente FIFA e nacionalmente CBF. Estão nesses regulamentos as “punições” para os clubes que não atingirem um desempenho satisfatório. No caso do futebol brasileiro, os “rebaixamentos” de divisões são tidos como as penalizações máximas, tendo em vista que existe uma complexa hierarquia, simbólica e financeira, que diz respeito a essas estratificações chamadas de séries (série A, B, C e D).
Acompanhar o desempenho da equipe que representa seu clube nas mais diferentes competições, em especial as que possuem um maior apelo midiático, pois tem um valor simbólico e econômico diferenciado62, é de fato uma prática torcedora encarada por muitos
deles como uma espécie de “dever moral”. Vindo bem ou mal nos campeonatos, é importante para muitos deles estar sempre bem informado, seja por programas radiofônicos, por peças jornalísticas vinculadas no jornal impresso ou nos programas televisionados, e até mesmo em grupos nas mídias sociais.
De fato, as dinâmicas das competições63, as performances dos times em campo, os
resultados dos jogos etc., para além de oxigenarem todo o espectro simbólico do futebol espetacularizado, acabam interferindo diretamente na emoção dos torcedores e, por conseguinte, na performance torcedora, como sintetizou Diógenes (2003, p.83), “O futebol torna-se, fundamentalmente, um espetáculo que faz emergir emoções, representações, estilos, atitudes, corpos que pareciam viver subterraneamente”.
Independentemente do nível de engajamento clubístico no qual o torcedor se encontra, seja ele categorizado pelo imaginário do futebol como fanático64, seja ele um
inveterado assíduo das arquibancadas ou das partidas televisionadas, geralmente, em boa parte deles, é comum a preocupação de acompanhar o desempenho das equipes que entram em campo representando as cores e história do seu clube. Com a intensificação do uso das redes sociais da internet, tanto torcedores como os próprios clubes ganharam mais um espaço social para sua interação. Um desses espaços é o próprio Facebook, campo empírico desse estudo, e que será melhor analisado no próximo tópico.
62 É comum no futebol de espetáculo mundial alguns times participarem de mais de um campeonato na mesma
época do ano. Contudo, nem toda competição possuí o mesmo “peso”. Algumas delas são consideradas de menor relevância por uma série de fatores, como valores e tipos das premiações, tempo de sua existência etc., com isso arregimentam um menor apelo midiático e menos atenção por parte da maioria dos torcedores.
63 No caso do futebol profissional brasileiro, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol), a entidade máxima do
desporto nacional, e as federações estaduais estipulam regras específicas para cada torneio. Nessas regras estão inclusos sistemas de premiações para os times com melhor desempenho e penalizações para aqueles que tiverem desempenho insuficiente.
64 O fanatismo clubistico possui um caráter ambivalente, ora é visto com valoração, sobretudo entre seus pares
torcedores, ora é visto de forma pejorativa, pelos demais membros da sociedade, incluindo outros torcedores. O torcedor fanático, em linhas gerais, seria aquele que abre mão da racionalidade convencional para viver seu engajamento clubístico ao pleno, em termos mais literários, o fanático, como magistralmente descreveu o escritor uruguaio Eduardo Galeano (2014, p.08) “[...] é o torcedor do manicômio. A mania de negar a evidência acaba fazendo que a razão e tudo que se pareça com ela afundem, e navegam à deriva os restos dos naufrágios nestas águas ferventes, sempre alvoroçadas pela fúria sem tréguas.