BÖLÜM 2. SAVURMA (SANTRİFÜJ) DÖKÜM
2.3. Savurma Döküm Metodları
O primeiro contato com algoritmos no Campo da Comunicação ocorreu por meio do trabalho de SAAD e BERTOCCHI (2012) que abordou o tema ressaltando aspectos comunicativos para o campo de estudos e práticas do jornalismo:
processo que tem seu cenário instalado no back office da rede (algoritmos, software, sistemas de bancos de dados, aplicativos, linguagens de máquina etc.), um processo maquínico que só terá uma dimensão socialmente transformadora a partir do exercício do processo comunicativo, ou seja, a partir da atuação do profissional de comunicação como agenciador, municiador, mediador, articulador e analista humano comportamental dessa etapa de organização e criação de significados à imensa massa informativa que circula no ciberespaço. (SAAD e BERTOCCHI , 2012, p. 125).
A perspectiva e possibilidade de tal reflexão proposta pelas autoras favoreceu o desenvolvimento e orientações acerca das questões presentes nesta investigação. Pois, de nada adianta dizer a profissionais e pesquisadores do campo da comunicação que algoritmos são fórmulas matemáticas ou textos inseridos em códigos, linguagens de programação, destinados a realizar procedimentos específicos. Ou ainda, compará-los a “receitas de bolo” e processos cotidianos repetitivos, como várias vezes observei em livros dedicados ao tema.
Do mesmo modo, não nos é útil contemplar conjuntos de imagens de algoritmos disponíveis no Instagrams ou Google Images (e há muitos), uma vez que, para a maioria dos pesquisadores do campo da comunicação essas ilustrações não fazem o menor sentido. Outra noção que precisa ser revista em nosso vocabulário é o “mito do algoritmo”, uma vez que não existe “o algoritmo”, mas é a combinação deles que torna esse tipo de conhecimento valioso atualmente.
Algoritmos são um conjunto de regras que carrega consigo cálculos ou expressões frequentemente aplicado a software. Compõem uma sequência finita de passos que pode ser descrita por meio operadores aritméticos relacionais e lógicos para execução de uma tarefa. “Programas são algoritmos escritos em uma linguagem de programação (C, Pascal, Java, Phyton) e que são interpretados e executados por uma máquina”, BRASSARD; BRATLEY (1996, p. 2). Para os autores, algoritmos podem ser considerados métodos, processos repetitivos com regras claras que visam solucionar determinado problema: “[...] assumimos que um algoritmo é um conjunto de regras para calcular a resposta correta para determinado problema”. (BRASSARD; BRATLEY, 1996, p. 3).
“A execução de um algoritmo normalmente não deve envolver decisões subjetivas, o uso da intuição ou criatividade. Assim, uma receita culinária pode ser considerada um algoritmo ao descrever exatamente como fazer determinado prato, fornecendo com exatidão quantidades de ingredientes a se usar, bem como instruções detalhadas quanto ao tempo de cozimento do prato. Por outro lado, se incluir noções vagas como "adicione sal a gosto”' ou “cozinhe até ficar macio”, então não poderíamos mais chamá-la de um algoritmo”. (BRASSARD; BRATLEY, 1996, p. 2).
bem definidos que estabelecem condições para a entrada (input) e saída (output) de dados em sistemas. Uma vez aplicado, esperamos resultados corretos. Também existem algoritmos que dão respostas aproximadas a algumas circunstâncias de acordo com BRASSARD; BRATLEY (1996, p. 2). Algoritmos realizam três procedimentos principais: recebem informações, processam informações e geram uma saída com resultados para usuários ou para um outro algoritmo.
Ora, apesar de observarmos claramente a vigência de processos comunicativos em tais conceituações, essas definições parecem menosprezar o modo significativo com que algoritmos afetam nossa vida. E isto é, uma vez que fomos capazes de gerar exércitos de “escravos” aptos a lidar com volumes imensos de informação no séc.XXI, que não sentem dor ou fome, nem frio, nem sede, eles por sua vez, e só por vingança, formataram o mundo à sua própria maneira. Talvez o conceito de algoritmo que mais se aproxime da comunicação sejam “mantras” adorados e reverberados por milhões de pessoas como em SLIM e STARR (2013)61 e VEGAS e MIKE (2014)62.
De maneira que faz-se necessário o inicio de procedimentos de tradução do conceito de algoritmos para o campo. Essa estratégia metódica segue passos já percorridos por WAGNER (2010) que relata a reinvenção de conceitos para determinadas culturas do conhecimento. Em reflexão sobre a prática do etnógrafo, WAGNER(2010) menciona a necessidade de se inventar a cultura observada de modo a traduzi-la como conjunto de conhecimentos compreensível às demais culturas. Por meio dessa estratégia, podemos compreender o significado de relações de parentesco, o sentido do trabalho e instâncias como “fé”, “amor” provenientes de culturas que não a nossa.
É esse mesmo procedimento metódico que iremos seguir daqui em diante, neste capítulo, ao propor a tradução do conceito de algoritmo para o campo da comunicação. Portanto,
61 SLIM, Fatboy; SATTR, Riva; BEARDYMAN. Eat, sleep, rave, repeat. (2013) Disponível em:https://youtu.be/wBoRkg5-Ieg?list=RDwBoRkg5-Ieg Acesso em 2 set. 2013.
62 VEGAS, Dimitri.; MIKE, Like. Bringing the world the madness. Disponível em:
a) Algoritmos podem ser traduzidos como a ordem do discurso, conforme apresentada em FOUCAULT (1970/2009) ao descrever o terceiro procedimento de controle do discurso que diz respeito a regras de linguagem e, deste modo, refere-se a possibilidades ou não de comunicação:
Creio que existe um terceiro grupo de procedimentos que permitem o controle dos discursos. Desta vez, não se trata de dominar os poderes que eles têm, nem de conjurar os casos de sua aparição; trata-se de determinar as condições de seu funcionamento, de impor aos indivíduos que os pronunciam certo número de regras e assim de não permitir que todo mundo tenha acesso a eles. Rarefação, desta vez, dos sujeitos que falam; ninguém entrará na ordem do discurso se não satisfizer a certas exigências ou se não for, de início, qualificado para fazê-lo. Mais precisamente nem todas as regiões do discurso são igualmente abertas e penetráveis; algumas são altamente proibidas (diferenciadas e diferenciantes), enquanto outras parecem quase abertas a todos os ventos e postos, sem restrição prévia à disposição de cada sujeito que fala. (FOUCAULT, 1970/2009, p. 36 e 37).
No ritual das trocas comunicativas, algoritmos controlam poderes, acesso e configuram estruturas de disseminação da informação. De igual modo, dominam a prevalência ou não quando se trata de aparições dos sujeitos que falam. Definem formatos
comunicativos para textos, sons e imagens, definem tons de discursos por meio da instituição de símbolos “[...] e todo o conjunto de signos que devem acompanhar o discurso; fixa, enfim, a eficácia suposta ou imposta das palavras, seu efeito sobre aqueles aos quais se dirigem, os limites de seu valor de coerção. (FOUCAULT, 1970/2009, p. 38 e 39).
O controle sobre a ordem do discurso por meio da inteligência de algoritmos pode ser observada em timelines, treads do Twitter, listas e blogs. E a inteligência objetivada em dispositivos e aplicativos de comunicação é excludente da partipação da maioria de usuários que não possui poder para alterar a ordem. Para se obter acesso a níveis de permissão, compreensão e manipulação da ordem do discurso, algoritmos exigem uma linguagem própria, conhecimentos específicos que carregam consigo esforços comunicativos cujo domínio não pertence à multidão: protocolos, códigos e toda a parafernalha maquínica que os acompanha. Por meio da ordem do discurso algoritmos fixam claras regras capazes não só de transformar o “barulho” dos dados em informação, mas de organizar e comandar formatos possíveis de interações entre seres humanos.
b) Algoritmos podem ser traduzidos por meio da ética da repetição, centrada no desejo de repetir parâmetros para formatação e organização de objetos, dados, percursos. A ética da repetição em algoritmos revela aspectos culturais embutidos em códigos que visam à organização do mundo segundo critérios norteados por desejos e expectativas E a ética traduz- se também em ritmo e em estética visível da repetição que é o cerne de algoritmos. Por meio dessa estética cacofônica um tanto quanto simples, mas fruto de complexos desejos, reconhecemos o modo como algoritmos atuam no mundo. No âmbito epistemológico, a inovação só pode nascer e advém de exaustivos procedimentos repetitivos, como previamente descrevera DELEUZE (1968/2009). A ética desejante da repetição pode ser observada por meio da segurança proposta através de condições lógicas que permitem agrupamentos ou não de objetos seguindo a noção básica da Teoria de Conjuntos. Trata-se de combinações de preposições, locuções, predicados, adjetivos e verbos. Condições tais como: se, e, ou, sim,
não, verdadeiro, falso, contém, não contém, qualquer um mas não ambos, interseções, pares, para todo elemento desse tipo separe ou agrupe ou organize deste modo, etc. A vantagem em
se estabelecer condições lógicas repetitivas aplicadas a grandes bases de dados é a possibilidade de resolver “trabalhos braçais” que demandariam esforço e tempo de maneira rápida e fiel às condições prescritas pelo “fato de haver uma verificação de condição [...] para
determinar se a repetição prossegue ou não. Essa é a base para a implementação dos comandos de repetição em algoritmos”. (MEDINA; FERTIG, 2006, p. 60).
c) Algoritmos podem ser traduzidos como produtos culturais: a combinatória de algoritmos capaz de propor meta-informações de segunda ordem valiosa, WEINBERGER (2007) não é aleatória, mas fruto de conhecimento acumulado. De maneira que a invenção técnicas que carregam consigo combinatórias de atributos prescinde de modos de se entender o mundo. Assim, o nascimento de programas operacionais, ferramentas de busca e técnicas de monitoramento não poderiam se dar em momentos anteriores da história da humanidade. Esses produtos agregam consigo visões de mundo, culturas assim como foi descrito a respeito do método no capítulo anterior. Enquanto patente ou conhecimento objetivado, adentram à esfera do mercado podendo ser comercializados de diversas maneiras e inclusive pirateados. Podem ser aprimorados por meio da demanda e experiência de usuários, stakeholders e novas invenções de engenheiros e programadores. Deste modo, podemos dizer que eles são também um produto cultural de nossa época, pois contemplam nossas práticas, hábitos de uso da tecnologia.
d) Algoritmos podem traduzidos como filtros inteligentes e altamente perceptivos, instâncias em que adquirem características humanas. São filtros do nosso mundo e passamos por eles frequentemente despercebidos. Essa combinação de arte e ciência segundo NISBET; ELDER; MINER (2009) modela e direciona o nosso olhar segundo percepções do que achamos ser agradável ou nos diz respeito. A natureza humana, o prazer, a tristeza, a dor, o amor são filtrados e percebidos por algoritmos que passam a definir o que “parece ser mais importante” para cada usuário. A seleção, organização de parâmetros, variáveis, métricas automatizadas compõem critérios de autoridade para determinados conteúdos em detrimento a outros. Isso inclui mensurações sobre nossas práticas comunicativas, o modo como intervimos no mundo, informações que compartilhamos, a organização de nosso grupo de amigos e contatos, ou seja, como vivemos e manifestamos gostos, interesses, desejos em em rede. Filtros inteligentes e perceptivos são responsáveis pela “forma como pensamos como o mundo em si é organizado e - talvez mais importante - como pensamos terem autoridade para nos dizer que assim o é". (WEINBERGER, 2007, p. 23). O objetivo de algoritmos de aprendizagem de máquina (SVM) é prever valores de saída de novas amostras, com base em
seus valores de entrada. “Algoritmos de aprendizagem precisam generalizar a partir dos padrões de entrada de informações para descobrir os valores de saída”. ANAMI, WADAWADAGI e PAGI (2014, p.4). A aprendizagem de máquinas é um campo fértil para a divagação acerca do que é possível e até onde irão chegar os sistemas inteligentes. TURKLE (2012) relata o quão híbrida pode ser a relação dos seres humanos com máquinas inteligentes que passam a se configurar para além da instância de comunicação utilitária, adquirindo outro tipo de performance, voltada para a experimentação, compreensão de atitudes, entendimento de sentimentos e dependência. Robôs desenvolvidos para dar resposta às carências e depressões de seres humanos, que reagem ao toque, ao olhar, à entonação da fala.
De acordo com URICCHIO (2011), a virada algorítmica permanece enraizada em práticas vivenciais e semióticas humanas que permitem a ocorrência de um subjacente simbólico colaborativo.
As semelhanças estruturais em termos de intermediação algorítmica permitem uma reconfiguração das relações sujeito-objeto, e uma nova dinâmica para a geração de sentido e de valor que pode ser encontrado em diversas aplicações […] A aritmética de precisão do algoritmo continua a ser a base das nossas moedas e vidas econômicas. Mas à medida que exploramos novas possibilidades a partir do crescimento da capacidade para manipulá-lo podemos também começar a refletir, de forma mais crítica, sobre as diferenças nos modos emergentes de representação [...] (URICCHIO, 2011, p 34. ).
Diante desses aspectos pensamos qual seria o papel do comunicador no contexto em que técnicas de monitoramento expandem limiares do saber a partir da descoberta de padrões de comportamento humano. Nossa condição ainda epistemologicamente submissa a métricas e variáveis presentes em software de monitoramento irá alterar-se ao abrirmos nosso espectro enquanto área e domínio de conhecimento, ocupando-nos em propriamente pensar e repensar parâmetros iniciais na modelagem inicial de sistemas, reavaliando e propondo a combinatória de condições e filtros sensíveis sob a perspectiva da comunicação.