Através da linguagem, conhecemos a realidade sem necessitar alcançá-la em sua crueza. O homem possui esse refinamento: o da representação. Nada nos chega sem alguma mediação. Mediação é diferente de midiatização. Pode-se dizer que midiatização é um tipo específico de mediação. A mediação simbólica está presente em todas as culturas e embute a noção de ponte e de troca comunicativa entre duas partes. “A linguagem é por isto considerada mediação universal”. (SODRÉ, 2006, p.20)
Midiatização, por sua vez, é “uma ordem de mediações socialmente realizadas – um tipo particular de interação, portanto, a que poderíamos chamar de tecnomediações –“, argumenta Muniz Sodré, para quem as tecnomediações são “caracterizadas por uma espécie de prótese tecnológica e mercadológica da realidade sensível, denominada medium”. (SODRÉ, 2006, p.20)
O medium, a que Muniz Sodré se referencia como prótese (do grego
prosthenos que significa extensão), funciona, segundo ele, como “um novo mundo, com nova ambiência, código próprio e sugestões de condutas”. Ou seja, o medium –
o meio, o canal, o veículo – ao invés de simplesmente espelhar a realidade vivida, a transforma, condicionando-a a “características particulares de temporalidade e espacialização”. (SODRÉ, 2006, p.21) Assim, o medium afetaria a realidade na medida em que a enquadra, a formata ou a codifica sob o ponto de vista informacional, mercadológico e tecnológico.
Midiatizar é, portanto, codificar a realidade com vistas ao consumo amplo e diversificado. A respeito, John Thompson define a mídia através de um conjunto de características: a utilização de meios técnicos e institucionais de produção e difusão; a mercantilização das formas simbólicas; a dissociação estruturada entre a produção e a recepção; o prolongamento da disponibilidade dos seus produtos no tempo e no espaço; e a circulação pública das formas simbólicas mediadas.(THOMPSON, 2005, p. 32)
“Todos os processos de intercâmbio simbólico envolvem um meio técnico de algum tipo”. Assim como “a interação face a face pressupõe alguns elementos materiais – laringe, cordas vocais, ondas de ar, ouvidos e tímpanos auditivos, etc – em virtude dos quais os sons significativos são produzidos e recebidos”, a comunicação massiva carece de certos “meios técnicos e institucionais de produção e de difusão”. (THOMPSON, 2005, p. 26) Então, é a natureza dos meios técnicos que varia de uma produção simbólica para outra. E, conseqüentemente, as propriedades desses aparatos tecnológicos determinam os tipos de intercâmbio simbólicos possíveis.
O rádio exige um tipo de técnica comunicacional diferente da que é praticada num jornal impresso que, por sua vez, se diferencia do padrão televisivo ou da comunicação virtual. Cada qual possui determinado grau de “fixação” e de “reprodução” da forma simbólica, e “essas características estão na base da exploração comercial dos meios de comunicação”, ou seja, da capacidade que “as formas simbólicas possuem de serem mercantilizadas, transformadas em mercadorias para serem vendidas e compradas no mercado” (THOMPSON, 2005, p.27)
Essas e outras peculiaridades da comunicação midiática implicam pelo menos duas constatações: primeiro, nem toda comunicação humana é um processo midiático; segundo, a comunicação midiática ocorre dentro de um formato próprio, acarretando uma série de desdobramentos ao processo comunicativo.
2.2.1 O jornalismo como uma comunicação midiática específica
Embora o jornalismo seja uma manifestação midiática sujeita, portanto, ao formato industrial e às regras de mercado impostas aos produtos da mídia, ele não deixa de ser também uma atividade diferenciada dentro do campo da comunicação e mesmo no interior dos veículos comunicativos, dada a especificidade do processo de funcionamento ao qual ele se encontra submetido.
Essa posição estratégica do jornalismo no campo comunicacional é mais ou menos valorizada pelos teóricos da comunicação, dependendo das linhas teóricas às quais os estudiosos se encontram vinculados. De uma forma ampla, pode-se dizer que existem duas concepções norteadoras dos estudos e das pesquisas em comunicação: uma - predominantemente européia - tende para a não segmentação da compreensão do processo comunicativo, partindo do pressuposto de que as particularidades existentes nas formas de se comunicar não são fundamentais para o conhecimento e a análise do processo comunicacional como um todo. Pelo contrário, as especificidades, sejam elas referentes à forma ou ao discurso, gerariam abordagens incompletas ou desvinculadas do universo maior que deve ser o campo da comunicação.
Dominique Wolton explicita e defende esse ponto de vista de amplitude na abordagem da comunicação quando argumenta com veemência que “não existe, de um lado, a informação, mensagem boa, e, de outro, a comunicação, mensagem má e desnaturada”. Ele considera essa uma distinção impossível, especialmente quando se pensa a questão historicamente. Pergunta ele: “de que serve o desenvolvimento da informação sem a técnica da mídia impressa, do telefone, do rádio e da televisão?” (WOLTON, 1999, p. 67)
No seu entendimento, os jornalistas tendem a querer ser os autores “do bom trabalho de produzir a informação”, deixando para “o comércio da comunicação” o ônus da perversão do seu trabalho, digamos, limpo. O engano dessa separação, conclui Wolton, é que “ambos dependem das mesmas regras econômicas”. (WOLTON, 1999, p.67) A conclusão de Dominique Wolton, então, vai no sentido da supremacia da economia sobre as funções tanto do jornalismo quanto da comunicação, por ele entendida, nesse contexto, como os meios comunicativos de massa.
A outra linha teórica – predominantemente norte-americana - confere ao jornalismo um lugar específico no interior do campo comunicacional, considerando que, para o avanço dos questionamentos, das discussões teóricas e da pesquisa a ele relacionados, é mais produtivo não contundi-lo com a grande máquina de comunicação de massa. Ou seja, a despeito do jornalismo não poder se apartar dos veículos nos quais ele se insere e, assim, tanto contaminar como ser contaminado pelos dispositivos por ele utilizados, a segmentação do jornalismo como uma área particular de estudo objetiva realçar o que a atividade jornalística possui de especial e única. Essa é a corrente teórica conhecida como newsmaking que incorpora também em suas premissas e pesquisas o conceito de agendamento ou de agenda-
setting. Trata-se de estudos recentes, uma vez que ganharam impulso a partir dos anos 70 do século XX, e que, segundo Mauro Wolf, “ilustram as tendências atuais da
communication research”. (WOLF, 2005, p. 137)
O conceito de agendamento ou de agenda-setting se insere nos estudos e pesquisas sobre os efeitos a longo prazo provocados na sociedade pela atuação dos meios de comunicação de massa. A hipótese central e geral do agendamento é de que existe uma relação de interferência entre a agenda midiática e a agenda pública e que a mídia, portanto, é capaz de atuar sobre a sociedade de forma a despertar interesses, gerar discussões, interferir nos debates políticos, alterar hábitos e, com isso, produzir efeitos sociais visíveis capazes de serem dimensionados por intermédio de pesquisas direcionadas.
Na teoria do agendamento, o fundamento é de que “a compreensão das pessoas em relação a grande parte da realidade social é modificada pelos meios de comunicação de massa”. (WOLF, 2005, p.143) Ou, como reforça Wolf, “a agenda-
setting sustenta que a mídia é eficaz na construção da imagem da realidade que o indivíduo começa a estruturar”. (WOLF, 2005, p.152) Como verificar e comprovar essa construção da realidade sob a influência da mídia é o desafio das pesquisas que se baseiam na hipótese do agendamento.
Quanto ao newsmaking, pode-se dizer que ele se destaca entre os estudos sobre os emissores e sobre os processos de produção nas comunicações de massa, especializando-se sobretudo nos estudos sobre os produtores de notícias. Segundo Mauro Wolf, o newsmaking avança em relação aos outros estudos sobre os processos produtivos de comunicação de massa – especialmente sobre o denominado “gatekeepers” e sobre o conceito da “distorção involuntária” –
quando abrange o “andamento normal da cobertura informativa para períodos extensos”. De tal forma que “amplia-se a problemática do caso excepcional para o andamento rotineiro”. (WOLF, 2005, p.190-191)
O primeiro fundamento teórico centrado nos produtores de notícias foi elaborado em 1947, por Kurt Lewin, num estudo sobre os problemas relacionados à mudança de hábitos alimentares e se notabilizou por ter conceituado o fenômeno dos gatekeepers na cadeia informativa. Lewin percebeu que, assim como as zonas de filtro são fundamentais no processo da cadeia alimentar, elas também existem e são decisórias no seqüenciamento da informação no interior dos veículos de comunicação. O estudo de Lewin denominou as zonas-filtro da cadeia informativa de
gatekeepers, ou seja, sistemas objetivos de regras controlados por um indivíduo ou grupo que tem “o poder de decidir se deixa passar ou interrompe a informação”. (WOLF, 2005, p.184)
Ficou evidenciado que a seleção noticiosa exercida pelos gatekeepers, dentro dos veículos de informação, é de caráter menos individual – no caso, do jornalista – e mais vinculada a um conjunto de valores profissionais e organizacionais que englobam critérios como eficiência, produção de notícias e velocidade. (WOLF, 2005, p.186)
O conceito da “distorção involuntária” já surge no final da década e 70 e diz respeito ao distanciamento que ocorre entre o acontecimento e a narrativa noticiosa desse acontecimento, uma vez que a produção da notícia está inevitavelmente condicionada a determinados procedimentos técnicos, valores e rotinas específicas as quais, por si mesmas, alteram ou, em outras palavras, deixam suas marcas sobre o produto noticioso. De acordo com Mauro Wolf, essa perspectiva é muito mais “radical” do que aquela que relaciona a cobertura jornalística a manipulações exercidas por pressões e influências externas, pois, aqui, são “as rotinas de produção” e os “valores compartilhados e interiorizados sobre as modalidades de desempenhar o ofício de informar” que afetam a informação de modo “involuntário”. (WOLF, 2005, p.189)
É possível deduzir que é o aprofundamento desse conceito da “distorção involuntária” que funda o newsmaking, uma vez que os estudos relacionados a este conceito vão se deter sobre as rotinas da produção de notícias pelos diversos veículos de comunicação, tentando responder como os procedimentos informativos atuam sobre a imagem de mundo noticiada pela imprensa. É a partir da teoria do
newsmaking que se formula mais claramente o conceito de noticiabilidade que é o assunto do qual esse trabalho trata mais especificamente.