Cotidianamente, classificamos um fato como atual quando ele aconteceu recentemente ou está acontecendo ainda. Mas, também consideramos um fato atual quando ele capta a nossa atenção, ainda que se trate de um fato que não seja propriamente novo. A atualidade, então, não se encontra apenas no que é inusitado, tampouco no que é imediato. A atualidade pode estar naquilo que se traduz em significado para nós. De um modo ou de outro, porém, a noção de atualidade está invariavelmente atrelada à noção de tempo: um tempo cronológico e um tempo subjetivo, que se encarrega de nos aproximar ou nos distanciar dos acontecimentos que nos rodeiam e com os quais mantemos algum tipo de relação direta ou indireta. Assim é que se pode dizer também que o que denominamos como atual se encontra sintonizado com os contextos cultural e social em que nos achamos inseridos, do que se depreende que o conceito de atualidade é extremamente variável, impreciso e escorregadio, uma vez que a atualidade está no campo da significação que determinado fato é capaz de desencadear em cada um ou em vários de nós, ao mesmo tempo, dentro de um determinado ambiente social.
Pois com toda a imprecisão embutida na noção de atualidade, é ela que organiza, conduz e alinhava o relato noticioso, bem como é ela que fundamenta toda a engrenagem do sistema de produção jornalístico. A atualidade é o oxigênio do jornalismo. E da mesma forma que a respiração é uma atitude natural e involuntária dos seres vivos, a atualidade do jornalismo não é uma técnica de redação, nem um artifício da produção noticiosa. A atualidade é a essência constitutiva do jornalismo que se incorpora naturalmente ao modo do jornalismo se realizar socialmente.
Como ocorre essa incorporação? Ela acontece no movimento de interação do jornalismo com a sociedade. Uma interação que é ao mesmo tempo de escuta do social e de fala para esse social. Em outras palavras, o jornalismo, se por um lado, está atento à realidade com a qual ele opera, na qualidade de um observador distanciado do objeto por ele observado, por outro, ele, na condição de detentor de um lugar específico concedido pela sociedade e, portanto, autorizado e capacitado para informar essa sociedade, age sobre a realidade que ele também observa, alterando-a e atualizando-a.
Esse movimento de ir e vir socialmente, de se aproximar e de se distanciar da realidade cotidiana, de escutar e de falar para a sociedade com a qual ele interage, é o que torna o jornalismo sempre atual, ou melhor, é o que faz com que o jornalismo não consiga escapar à sua sina de ser permanentemente atual.
O jornalismo formula essa sua condição de atualidade de várias e diferentes maneiras: remexendo e inovando o passado; anunciando e antecipando o futuro; reciclando o comum; estabelecendo rotinas; desvendando o mistério; banalizando o incomum; revelando o inusitado ... Tudo isso é feito sem perder de vista o tempo presente, do “aqui” e do “agora”. Afinal, “a realidade da vida cotidiana está organizada em torno do ‘aqui’ de meu corpo e do ‘agora’ do meu presente” e, “aquilo que é ‘aqui e agora’ apresentado a mim na vida cotidiana é o realissimum de minha consciência” (BERGER E LUCKMANN,1999, p. 39)
O “aqui e o agora” do jornalismo é ditado pela sua forma de trabalhar sempre sob a ótica da imediaticidade da vida cotidiana. Porque “é no mundo mundano que a mídia opera de maneira mais significativa” e é “no que passa por senso comum que devemos fundamentar o estudo da mídia”, sustenta Roger Silverstone. (1999, p. 20) O senso comum é um tipo de conhecimento que “eu partilho com os outros nas rotinas normais, evidentes da vida cotidiana” e a vida cotidiana “é admitida como sendo a realidade”(BERGER E LUCKMANN, 1999, p.40)
Baseando-se no senso comum da vida cotidiana, o jornalismo endossa, sistematicamente, a rotina diária como a realidade a ser levada em conta. Uma realidade que se constrói, portanto, rotineiramente, também a partir do que lhe é informado pelos veículos de comunicação. Nesse moto contínuo, o atual se encontra em permanente elaboração, sendo apropriado, no dia a dia, pelo jornalismo e devolvido, diariamente, à sociedade que o reconhece, então, como algo da atualidade.
2.6.4 A reportagem como uma variação da notícia
A notícia cumpre com o papel de “informar e orientar de maneira rápida, clara, precisa, exata, objetiva”. (PEREIRA LIMA, 2004, p.17) A notícia, por isso, possui suas limitações, principalmente no que diz respeito à capacidade interpretativa dos acontecimentos. É para suprir um pouco essa falta instalada pela notícia que existe o gênero jornalístico denominado de reportagem.6 A reportagem visa à interpretação dos fatos. No jornalismo interpretativo, como diz Evaldo Pereira Lima, citando a jornalista Cremilda Medina,
as linhas de tempo e espaço se enriquecem: enquanto a notícia fixa o aqui, o já, o acontecer, a reportagem interpretativa determina um sentido desse aqui num circuito mais amplo, reconstitui o já no antes e no depois, deixa os limites do acontecer para um estar acontecendo atemporal, ou menos presente. (PEREIRA LIMA, 2004, p. 20)
A reportagem, objetivando cumprir com a finalidade de elucidar para o leitor o que carece de entendimento mais amplo e profundo, costuma utilizar-se de alguns expedientes, os quais, de acordo com Pereira Lima, são: a contextualização do fato nuclear ou da situação nuclear, visando desvendar a rede de forças que interferem no fenômeno focado; a informação dos antecedentes ao fato ali tratado; os dados fornecidos pelo suporte especializado, conferindo consistência à análise; a projeção ou os possíveis desdobramentos futuros advindos do fenômeno ali em
6 Segundo Edvaldo Pereira Lima, a reportagem aparece no final da década de 1910, às vésperas da eclosão da Primeira
Guerra Mundial, nos Estados Unidos. A revista Time é o primeiro veículo de comunicação a optar por esse gênero de jornalismo interpretativo. (PEREIRA LIMA, 2004, p. 18 – 19)