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Antes dos fatos se organizarem sob o formato jornalístico de notícias ou reportagens e antes de se efetuar a disposição gráfica desse material na página do jornal, existe a fase da seleção dos acontecimentos que serão noticiados. Afinal, ao longo de um dia, muita coisa acontece no mundo inteiro, no nosso país, na nossa região, na nossa cidade, na nossa rua, na nossa comunidade, e apenas alguns desses acontecimentos chegam até o nosso conhecimento. Como se dá esse processo seletivo, no jornalismo impresso, é do que se vai tratar agora.

Ao se procurar explicar os possíveis fatores que motivam a transformação dos fatos em notícias, é conveniente conceber que as notícias são construções da realidade realizadas por profissionais especializados – os jornalistas – e veiculadas por meios técnicos específicos, dentro de uma engrenagem mercadológica de massa. As notícias são, portanto, uma especificidade do jornalismo. Elas possuem características próprias, suprem necessidades individuais e sociais e não se constroem aleatoriamente, mas a partir de uma determinada lógica.

De acordo com o professor Valdir de Castro Oliveira, “a notícia não é uma cópia ou um espelho da realidade e sim o resultado de uma atividade altamente complexa que envolve e aciona diversos grupos humanos, recursos materiais, tecnológicos e técnicos.” (OLIVEIRA, 1996, p.19)

Nilson Lage considera que a notícia se constitui de dois componentes: uma “organização relativamente estável”, que ele denomina de “componente lógico”, e de “elementos escolhidos segundo critérios de valor essencialmente cambiáveis”, os quais ele nomeia de “componente ideológico”. (LAGE, 1979, p.37) Assim é que Lage atenta para a objetividade e a subjetividade do relato noticioso. A objetividade está relacionada ao fato em si – que jamais é apreendido em sua totalidade - e a subjetividade se vincula à abordagem do fato pelo jornalista, ou à condição do fato se realizar como notícia.

Adelmo Genro Filho lembra ainda que “os fatos jornalísticos são um recorte no fluxo contínuo” da realidade, o que os torna inevitavelmente uma escolha subjetiva e relativa do jornalista, mas, ao mesmo tempo, uma escolha delimitada por uma “substância histórica e socialmente constituída”. (GENRO FILHO, 1987, p.188) Ou seja: embora a notícia comporte enfoques subjetivos e ideológicos, ela sempre está baseada na concretude do fato.

Na tentativa de entender e explicar a transformação do fato em notícia, Gaye Tuchman invoca o que ela denomina de “news judgement” - que é uma espécie de experiência combinada com senso comum – dos jornalistas. Estar em sintonia com o senso comum é, como explica Tuchman, fundamental para que o jornalista possa avaliar e determinar “se uma informação pode ser aceita como fato” pois, como ela mesma conclui, “os jornalistas não publicarão como fato afirmações que contradigam o senso comum”. (TUCHMAN, 1993, p.87)

A relação imprensa – notícia - sociedade deve ser vista então como uma relação de troca, familiaridade e sintonia. Os desajustes por vezes observados nesse relacionamento são rapidamente corrigidos, sob pena de prejuízos especialmente para o mercado midiático. Em outras palavras, ou a imprensa está sempre sintonizada com a sociedade na qual ela se encontra inserida ou ela simplesmente não funciona.

Tal percepção é importante para não se cair na simplicidade e na ingenuidade de que as notícias são notícias porque alguns personagens sociais de influência política ou econômica assim o desejam. Embora as interferências pessoais existam e não possam ser completamente descartadas no cotidiano do processo midiático, elas são insuficientes para explicar e respaldar as estratégias noticiosas em seus aspectos amplos e maciços. A despeito, portanto, de quaisquer interesses localizados e personificados, as notícias existem como resultado de um processo industrial e mercadológico talhado em harmonia com a sociedade à qual elas se remetem.

Mas, além da capacidade subjetiva que os jornalistas desenvolvem de estar permanentemente familiarizados com o senso comum social e, com isso, terem condição de classificar determinados fatos como noticiáveis ou não, há explicações menos abstratas para esse procedimento efetuado rotineira e quase automaticamente pelos profissionais das notícias.

A noticiabilidade se constitui da propriedade-habilidade-capacidade que o jornalismo detém de transformar algumas ocorrências em notícias a partir de requisitos específicos exigidos dos acontecimentos ordinários. A noticiabilidade é então a condição de notícia de um evento sob a ótica do jornalismo.

Na produção informativa de massa, combinam-se, de um lado, a “cultura profissional” do jornalista e, de outro, as “restrições ligadas à organização do trabalho, sobre as quais se constroem convenções profissionais”. É essa combinação de táticas, rituais, convenções, retóricas e estereótipos dos jornalistas com as rotinas de produção da informação massiva – a coleta dos materiais informativos, a relação com as fontes e as agências de notícia - que determinam um conjunto de critérios de relevância os quais “definem a noticiabilidade de cada evento”, ou seja, “a sua ‘aptidão’ para ser transformado em notícia”. (WOLF, 2005, p.195)

Na noticiabilidade, interferem variados fatores relacionados à produção noticiosa que vão desde a qualidade do acontecimento (os valores-notícia), passando pela percepção individual e de classe do jornalista, bem como pelo conjunto de características do veículo informativo ao qual pertence o profissional, até às condições técnicas de apuração e de confecção da notícia, nas redações. Um processo extremamente complexo e situado em um horizonte histórico, político, econômico e social.

Assim é que a noticiabilidade é constituída pelo “complexo de requisitos” que se exigem dos eventos – “do ponto de vista da estrutura de trabalho nos aparatos informativos e do profissionalismo dos jornalistas” – para que eles possam adquirir a “existência pública da notícia”, afirma Mauro Wolf. A noticiabilidade corresponde ainda

ao conjunto de critérios, operações e instrumentos com os quais os aparatos de informações enfrentam a tarefa de escolher cotidianamente, de um número imprevisível e indefinido de acontecimentos, uma quantidade finita e tendencialmente estável de notícias. (WOLF, 2005, p.195-196)

Os critérios utilizados pelo jornalismo para conferir noticiabilidade a determinados acontecimentos são denominados de critérios de noticiabilidade. Esses critérios atravessam todo o processo de produção da notícia - da seleção ao consumo – e são mais ou menos prevalentes de acordo com a fase por que passa a

notícia no seu encadeamento produtivo. Selecionar o fato como noticiável requer determinados critérios. Apurar e produzir a notícia envolve critérios específicos. Tornar pública a informação jornalística já arrigimenta outros critérios.

Mas, embora essas especificações dos critérios de noticiabilidade aconteçam ao longo do processo noticioso, elas, na prática e na rotina produtiva da imprensa, são completamente encadeadas e sintonizadas entre si, de forma a parecerem um conjunto homogêneo. E, de fato, não poderia ser de outra forma. Ao selecionar um acontecimento, o jornalista já o faz levando em conta todo o complexo de fatores que influenciam a sua noticiabilidade.

Ou seja, de uma certa forma, para o jornalismo, as notícias e as reportagens, surgem é lá no confronto do repórter com o acontecimento. É nesse momento que todos os critérios de noticiabilidade pertinentes ao processo inteiro da notícia afloram e se fazem significativos. Certamente que desse momento até a publicação noticiosa, há um percurso operacional próprio a ser percorrido pelo acontecimento do qual não se pode eximir os imprevistos. Mas, é precisamente nesse intervalo estabelecido, cotidianamente, entre fatos e notícias que os critérios de noticiabilidade operam de forma mais decisiva.

E, uma vez que isso acontece, é possível deduzir que uma reportagem não é, normalmente, uma evolução da notícia, mas que ela é gestada e concebida como tal, pois, na sua seleção baseada em critérios de noticiabilidade, ela já porta consigo, atributos próprios capazes de sustentá-la nessa condição.

A noticiabilidade de um evento se apóia, por um lado, nas expectativas sociais a ele relacionadas e, por outro, nas especificidades da produção informativa. Se o interesse social se sobressai na fase da seleção do acontecimento, o processo de transformação do fato em notícia que sucede ao momento de seleção do evento como noticiável é um processo administrado pelos jornalistas. A construção noticiosa é uma tarefa específica dos jornalistas. A sociedade, nesse momento, fica à margem.

2.4 NOTÍCIA: UMA PRODUÇÃO JORNALÍSTICA CONSENSUAL E

Benzer Belgeler